revista bula
POR EM 19/10/2010 ÀS 12:17 PM

Amor adulterino

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Numa época em que a maioria dos casamentos eram muito mais arranjos familiares do que impulso e atração pessoais dos nubentes, estamos no século XIX, os escritores românticos pintaram o amor com as cores da pureza e os pincéis da fidelidade. Aliás, em algumas correntes o amor sofre algum tropeço para não chegar a seu corolário sexual.

Em “Eurico, o presbítero”, de Alexandre Herculano, Eurico busca a morte voluntariamente ao enfrentar os mouros, sem couraça ou elmo; e sua amada, Hermengarda, enlouquece ao ver-se entre o dever e o amor. Pouco depois, Camilo Castelo Branco, daria a morte a Simão e Teresa, antes que os amantes se tocassem a não ser com olhares distantes. 

Com ou sem intenção, o fato é que se tentava amenizar o peso do matrimônio por interesse com as tintas fortes de sua sacralidade. Romances de amores-paixão, como o “Amor de Perdição”, de Camilo, funcionariam como elemento catártico, como ocorre até hoje, sobretudo com as novelas de televisão. Tudo aquilo que não posso viver na realidade, vivo na imaginação. E com isso, mantinham-se em razoável estado de saúde os sagrados laços matrimoniais. São raros os casos, nesse período, de histórias em que aparece alguém cometendo adultério. E quando isso acontece, é com intenção moralizadora, é para denunciar as fraquezas humanas. 

Mas eis que chega o Realismo, inaugurado na França com o romance “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, publicado em 1857. A Emma é uma das primeiras heroínas adúlteras.   Então vieram Anna Karênina, Luísa, do Primo Basílio, a Virgília, amante do Brás Cubas e outras, muitas outras. Emma, Luísa e Anna tiveram destinos semelhantes. As três foram vítimas de suas próprias ações e morreram. Castigo? Talvez. O assunto, mesmo no Realismo, era ainda tratado com rigor moralista, herdado do Romantismo. Melhor sorte teve a Virgília, que não sofreu sansão alguma. Mas Machado de Assis é um precursor, moderno antes do Modernismo. Sua visão amoralista, pelo menos nesta área, ainda não foi bem assimilada mesmo nos dias atuais, tempo de muita moralidade, principalmente de moralidade hipócrita.   

O amor foi dessacralizado, e o sexo acabou sendo admitido como um dos ingredientes das relações amorosas. O mundo se modificava, e com ele a literatura. E quem não tiver pecado algum, que atire a primeira pedra.

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