revista bula
POR EM 18/05/2011 ÀS 10:49 PM

Amor 2.0

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Anos atrás, passei um mês em um spa, para emagrecer. Digo, por conhecimento de causa, que o menor problema dos gordos e gordas dali, era a forma física. Me atreveria até, a dizer que uma clínica psiquiátrica seria mais eficiente e apropriada, que aquele retiro aristocrático famélico. Histórias de contrabando de leite condensado em frasco de condicionador, sanduíches do McDonald vendidos por 100 reais, piranhagem generalizada, e a menina que comeu a cera da vela que havia no quarto, pro caso de acabar a eletricidade.

Este é o tipo de pauta que mais que polêmica, vai me causar problemas por tocar no terreno da afetividade. E muita gente vai vestir a carapuça, e se sentir manipulado.

Qualquer linha de raciocínio que eu siga, ou qualquer opinião que eu manifeste, vai me comprometer.

Já adianto dizendo, que muito mais do que um manual sobre como conquistar amor on-line, vou tentar expor minha opinião achista a respeito da coisa. Sem grandes ambições psicológicas e antropológicas porque não é o meu jeito. Mas vou falar por experiência de pessoa conectada 24-7.

Amor online. E por “amor” eu estou incluindo a amizade. Tenho uma teoria de que se você é um idiota on-line, você é um idiota na vida off-line. Simplesmente porque on-line a gente existe em uma versão editada, escrita, fotografada, filmada e com um delay. Ah, o delay do upload, esse lindo. Normal que seu avatar seja uma foto em que você considere estar bem, bonito, engraçado, descolado, inteligente, todo trabalhado na mensagem. Existe aí o limite do estelionato, gente que usa uma foto tão boa, e tão distante da realidade que chega mais perto da La Bundchen que de si próprio.

Enfim, meu ponto é, on-line somos uma versão melhorada de nós mesmos. Até aí tudo muito normal e natural. É como se on-line estivéssemos eternamente nos meses iniciais de romance, em que conseguimos atenuar nossos defeitos e ressaltar nossas qualidades, nos tornando seres altamente apaixonantes. Sujeito que consegue ser um idiota na versão on-line que deveria ser melhor, pessoalmente deve ser um pulha.

“Apaixonantes? Defina ‘apaixonante’.”

Eu, meio auto exilada do povo descolado e das modas passageiras, ainda acho impressionante quando alguém me enxerga. Sério mesmo. Me espanta, quando alguém me manda e-mail comentando um texto, ou deixa comentários nos blogs. Invariavelmente me apaixonei por pessoas com quem conseguia conversar naturalmente. Prefiro “naturalmente” a “flertivamente”. Conversas que duram horas sem perceber, me dão tesão. Só uma das coisas.

Dá para se apaixonar por alguém que nunca encontramos pessoalmente? Talvez. Já me aconteceu uma vez e acabou bem mal. Mas aconteceu. Acho que se apaixonar é sintoma de certo desequilíbrio momentâneo. Claro que pode ser coisa de gata escaldada com medo d´água. Mas acho mesmo que essa coisa de logo se ver apaixonada é um troço que não funciona bem off-line, e não funciona bem on-line.

Não me impede de maneira nenhuma de me pegar suspirando pelos cantos, por um ou outro moço. Aliás, não aprendo, mesmo. Sempre acho que o melhor está por vir. Como quando, durante o sexo, a gente no calor do momento sente o orgasmo vindo. Às vezes vem, às vezes não. Não muda o quão divertida foi a coisa.

Cautela, mes amis. Tempos tumultuados e intensos estes nossos. Muita informação, muita possibilidade, muita correria.

Acredito sim que possa surgir um encantamento e uma ligação. Acredito também que a plataforma prioritariamente escrita da internet colabore bastante para isso. Conversamos muito mais com nossos contatos on-line, que com a maioria dos nossos amigos off-line. Relacionamentos on-line não são limitados por distância, trânsito, horas extras no trabalho...

Com os lindos dos smartphones, qualquer hora é hora de flertar com aquele avatar encantador.

Pois bem. Nestes meus anos on-line, blogando e interagindo, aprendi a detectar comportamentos que agradam e aumentam as chances de embarcar em uma dessas aventuras. Aprendi a ter cautela com os flertes, e arrastar logo pro mundo off-line os potenciais amigos.

Chegamos então a parte prática deste texto: como conquistar amigos e seduzir pessoas usando a internet?

Em primeiro lugar, se conhecendo. E sabendo exatamente que tipo de gente você quer atrair (cuidado com o estelionato emocional virtual, este eu desprezo), tem muita afetividade on-line que pode fazer bem. Mas você tem que se conhecer e conhecer as pessoas que te agradam, na vida lá fora. Quais os assuntos? Quais os hábitos, quais os interesses? Quais os horários?

Senão você é a solteirona de 40 anos, fantasiada de jovem gostosa na balada descolada de gente com a metade da sua idade, desesperada para casar. Não vai acabar em amor, vai acabar em terapia.

Não entendo muito bem qual o espanto que as pessoas que não aceitam as possibilidades afetivas e sexuais que a internet traz, mas não acham nada demais em ir para casa do moço bêbado que conhecem numa festa. Ou se pegam ligando dementemente pro sujeito depois de uma noite. Porque vocês estão fazendo bobagem pessoalmente, é menos pior?

Sou do tipo de pessoa que não acredita em casamento. Não acho que a coisa de chamar as famílias, fazer promessas de cumplicidade e fidelidade, que ninguém sabe de fato se pode cumprir, seja boa ideia. Nem percam tempo comentando essa parte, só escrevi para esclarecer que não é um texto de “encontre seu amor, seja onde for”, é um texto de “vai viver mais, e julgar menos”.

Tá perdendo tempo aí sozinho no cantinho, “Manolo”. Vem ver a vida aqui fora. Entenda que “aqui fora”, não é necessariamente fora do computador, é aqui fora na chuva, onde possibilidades não são rejeitadas e tudo pode acontecer.

A realidade é que nem a pergunta: “quantas horas você passa por dia na internet?”, faz sentido hoje em dia. As pessoas estão conectadas ou não.

E cá entre nós, os relacionamentos amorosos sofrem muito mais pela demência das pessoas do que por estarem on ou off-line. Como os gordos do spa, que eu citei lá no começo, talvez o menor dos seus problemas seja não estar conseguindo encontrar sua cara-metade.

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