revista bula
POR EM 30/08/2010 ÀS 08:41 PM

Ambição excessiva

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Nossos valores, geralmente formados e sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Meu velho, enquanto viveu e eu meninei, gostava de contar-nos histórias, e, entre aquelas de que mais gostava estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia. Histórias exemplares, quase sempre, porque se sabe que é mais fácil reter na memória uma narrativa do que um conceito abstrato. Tenho certeza de que todos os discursos a respeito da ambição excessiva que você ouviu e eu também ouvi, já foram esquecidos. Mas uma história, ah, isso até hoje eu ainda posso repetir.  

Aborrecido com o que Pedro Malasartes fizera com sua filha, a princesa, o rei condenou-o à morte por afogamento. Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho. Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes, era de alta estirpe. Pedro então começou a gritar:

— Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei. Não sei ler, não sei escrever, e querem me fazer rei.

O jovem ordenou que a carruagem parasse e foi informar-se do que acontecia. Depois de poucas palavras, o rico jovem estava encolhido no interior da barrica, e Pedro aboletava-se rapidamente na carruagem.

O final da história, isso aprendi com meu pai, não era contado. Nós, seus ouvintes, éramos estimulados a inventá-lo, e o fazíamos de acordo com as inclinações individuais. 

Toda vez que alguém cai no conto do vigário, me lembro dessa história. A ideia de que é possível um ganho fácil e fabuloso, faz crescerem os olhos da futura vítima. É a ambição desmedida. 

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