revista bula
POR EM 16/08/2010 ÀS 08:26 AM

Alguns quilômetros a mais

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Depois de um período conturbado em que me envolvi com algumas viagens, umas tantas palestras e a tirania de uma dor enjoada na altura da articulação do fêmur com a bacia ilíaca, voltei às minhas caminhadas. E logo no início do retorno, me lembrei das aulas de anatomia, no Ginásio, quando ficava questionando por que tinha de aprender essas coisas, se não queria ser médico? A vida ajuda a superar tais questionamentos, pois não foram poucas as vezes que tive de mexer em eletricidade, anatomia, ácidos e bases e por que não?, até com trigonometria. Como a gente se engana com aquela idade.

Em algum lugar já disse (não me lembro se foi aqui) que não sou fã de exercícios físicos, nunca fui. Não me envergonho de dizer que no colégio nunca fui escolhido para a seleção de qualquer modalidade esportiva da escola, e que este fato não chegou a me criar traumas na adolescência. E nem era por isso bullinado, se é que cabe o neologismo.

Agora é diferente. Meu cardiologista, experto em coisas do coração, pelo menos em seu aspecto material, exigiu-me algum tipo de atividade física como modo de manutenção da carcaça. Que eu escolhesse: caminhada ou remédio. Como os remédios andam o olho de nossa cara em noite de tempestade, concordei em fazer minhas caminhadas de uma hora entre quatro e cinco vezes por semana. O susto que ele me deu foi tamanho que, passados os principais momentos da emoção, não acreditei que tivera a ousadia de uma promessa daquelas, sabendo os sacrifícios que me acarretaria seu cumprimento.

Não sei se estou certo, mas por culpa da atrapalhação com as viagens e a dor ali na altura daquela aba do ilíaco, passei uma temporada sem botar o corpo a trabalhar. Resultado: minha pressão aumentou a um nível que me deixou com medo; e não há analgésico que me acabe com a dor de cabeça.

Sem escolha, voltei às ruas. Uma hora me parece muito tempo para dedicar ao corpo, mas me lembrei de uma frase que meu falecido pai atribuía a Juvenal, poeta satírico romano, atribuição que aceito como verdadeira por não ter meio de negar: Mens sana in corpore sano. Não que vá aderir à “geração saúde”, que só pensa no corpore sano, isso não. Mas reconheço que preciso dele, do corpore, então é melhor mantê-lo sano.

Estou seriamente interessado nos preços de academias, porque ruas, com seus obstáculos de todo tipo e tamanho, já estou bem perto de não aguentar mais.

Tenho esperança de que ainda se invente uma pílula-da-caminhada, que se possa tomar enquanto se lê um bom livro, escreve-se uma crônica ou qualquer coisa mais importante.

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