revista bula
POR EM 29/04/2010 ÀS 10:19 AM

A vida ensina

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A avenida Anhaia Melo, em São Paulo, praticamente nasce na favela da Vila Prudente. Houve uma época de minha vida em que era aquele meu caminho da roça. O trânsito, naquele local, é muito intenso, pra não dizer vertiginoso. Os carros que descem o viaduto vêm despencando sem dó, pois vão cair em uma reta bem longa. Só que, cinqüenta metros além, está um semáforo. Pois é nesse farol que uma multidão de bacuris ganha a vida. Alguns deles, dizem, representam a única renda familiar. Não sendo repórter, nunca tive a curiosidade suficiente para investigar a veracidade disso. Mas, sendo ou não verdade, é pelo menos verossímil. Na breve parada dos carros, lá vêm eles limpando pára-brisas, vendendo balas e tudo que é bugiganga. Os olhos arregalados, o discurso decorado, a coreografia do improviso.

Muitas vezes vi aquelas canelas finas trocando passo às pressas, com a planta do pé aparecendo e sumindo como se fossem verdadeiras máquinas. Frágeis máquinas de viver. Eles correm entre os carros, se for preciso pulam por cima do capô. Mesmo com o semáforo a favor do fluxo da avenida, os garotos a atravessam com uma ginga de fazer inveja a qualquer Ronaldo da vida. É um drible veloz, um jogo de corpo de toureiro. Passa um carro e o menino corre, pára entre duas faixas, olha para o lado, corre mais um pedaço, finalmente pula exultante na calçada do lado de lá. Mais uma vitória contra a morte que ronda o tempo todo, lambe-se gulosa e volta pra casa insatisfeita. 

Os miúdos têm uma vida frenética naquele ponto, mas sobrevivem. No fim do dia, entregam os trocados conseguidos para a mãe. Sabe-se lá se não serão as refeições do dia seguinte.

Já me perguntei, passando por lá, se um filho da classe média conseguiria sobreviver assim por mais do que dez minutos. Tenho minhas dúvidas. Não quero fazer a apologia da vida difícil (a glamorização da pobreza virou moda, não é verdade?),  mas propor como reflexão os excessivos cuidados de algumas famílias que, sem saber, estão criando seres amolentados pela proteção familiar. Mais tarde, quando o exercício da vida já se tornar muito difícil, vão sentir uma terrível falta do treinamento que não tiveram.

   

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