revista bula
POR EM 09/04/2010 ÀS 09:38 AM

A verdade dos ditados

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A escola, como a conhecemos hoje, está na sua juventude. A verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. A sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, para incutir persistência (supostamente uma virtude). Supostamente, é claro, pois o filho do meu vizinho, que persiste em desobedecer aos pais, brindando-os com os mais cabeludos palavrões, não acredito que mereça ser chamado de virtuoso. Quem espera sempre alcança, é o que se costuma dizer para aqueles cuja esperança já está acabando. E o mundo está cheio de casos de uma vida inteira à espera sem ter alcançado coisa alguma.

Pois bem, até hoje crescemos ouvindo essas jóias da tradição oral e, à força da repetição, os ditados tornam-se verdades indiscutíveis. Para uma grande parte da população é assim. Não foram mordidos por aquela curiosidade de abrir para ver o que tem dentro. Era isso o que estávamos discutindo ontem à tarde no bar do Ranulfo, lugar em que costumamos libar enquanto desvendamos os mistérios da raça humana. 

Mais crítico do que os demais, o Adamastor, que não é muito chegado a madrugadas, enrugou a testa quando alguém disse que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Ele olhava para os lados como alguém que não entendeu o sentido do ditado. Mas não era nada disso, não. Seu espírito crítico é que lhe desenhava aquele ponto de interrogação no semblante.

Então começou a falar dos trabalhadores que, antes, bem antes de o sol nascer, já passam em ônibus lotados para a lavoura. O neto, o pai e o avô vão juntos, presos ao mesmo destino de dureza e muitas carências.

Ante a perplexidade dos companheiros de mesa, ele arrematou: — Deus ajuda a quem cedo madruga, mas ajuda muito mais a quem não precisa viver do suor do próprio rosto.

De onde se inseria que levantar mais tarde atrai os benefícios divinos.  Não, mas essa também não era uma verdade. Concluímos que os ditados populares não resistem ao mais simples exame, pagamos a conta e fomos embora (que no português arcaico era em boa hora). 

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