revista bula
POR EM 01/04/2010 ÀS 10:38 AM

A palidez da esperança

publicado em

Todos vocês devem saber quanto é difícil, em determinadas situações, manter a esperança. Eu, de minha parte, tenho alimentado algumas esperanças fazendo um esforço que me protra e me deixa extenuado. Não sei até quando vou poder suportar o peso dessa “ferida verde” como a caracterizou minha amiga, a poeta Ruth do Carmo.

Há muito tempo as pesquisas vinham apontando o brasileiro como um leitor de 1,8 livros ao ano. É pouco, muito pouco. Principalmente se tivermos em conta que o argentino lê alguma coisa aí por volta dos 8 livros no mesmo tempo. Atualmente se fala em 4,9 e a gente precisa fingir que não sabe ter havido mudança nas técnicas de pesquisa, comparando-se, agora, laranja com abacaxi, ou melhor, somando-se dez laranjas com cinco abacaxis, quantas laranjas são? Apesar disso, quando me perguntam o que penso da leitura no Brasil, procuro mostrar-me otimista, dizendo que é preciso olhar a curva de tendência, que já foi pior do que está, que tem muita gente trabalhando para reverter essa realidade, e essas coisas todas de alimentar esperança. E para não ficar só na palavra, faço-me soldado da cruzada do incentivo à leitura. Tenho feito isso na sala de aula e fora dela. Tenho perdido algum tempo com o assunto.

Mas esperança é um desgaste muito grande de energia. Manter a panela fervendo, exige muito combustível. E eu, que já me alimentei de muito mito, acabei ficando um ser desconfiado de minhas próprias crenças. Quando começo a acreditar muito em alguma coisa, um sentido que ainda não descobri se é o sexto ou o décimo, acende uma lâmpada vermelha que pisca me dizendo: crença irredutível pode ser fanatismo, e fanatismo é irracional. Ah, sim, não sou o Descartes, mas fui contaminado pelo racionalismo.

Depois do que vi ontem, enquanto fazia minha caminhada diária, perdi meu bom humor e minha esperança empalideceu. Não chegou a morrer porque era um caso, um acontecimento, e generalização é um troço muito perigoso, não é verdade? Mas o lado empírico, que existe em todos nós, com maior ou menor participação no conhecimento, viu-se na obrigação de me assustar. 

De longe, podia-se ver que houvera uma fogueira na frente da casa. Pequena fogueira ao lado de uma caixa de papelão. A grama e algumas folhas de papel estavam transformadas em carvão. A uns dez passos de distância, deu para perceber que o fogo não tinha conseguido devorar tudo. Pelo menos completamente. Era um fogo meio desenxabido, envergonhado pelo papel indecente que representava. E, à medida que me aproximava, reparei que alguma coisa estava errada. No meio dos papéis, salvara-se um dicionário. Quase inteiro, com pequenas áreas chamuscadas.

Vocês entenderam minha perplexidade e a razão de ter minha esperança abalada?  Alguém jogou um dicionário na fogueira. Alguém que sepultou a língua. Pra que língua se somos todos únicos, e nos bastamos a nós mesmos?  

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