revista bula
POR EM 10/04/2008 ÀS 03:16 PM

Vaca, sim, com muita honra

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Esta semana, geneticistas britânicos conseguiram um feito extraordinário. Criaram um embrião híbrido, com inserção de DNA humano num óvulo de vaca. Muita gente levou o maior susto. Bom sinal. Ruim será quando ninguém se assustar com mais nada.  

Esse feito da ciência pode ser o primeiro passo para um fenômeno que já vem ocorrendo largamente no mundo das ferramentas, a chamada convergência tecnológica. São vários aparelhos se reagrupando em um só. Exemplo: sob a capa do celular vão se juntando o relógio despertador, o gps, a máquina fotográfica, o fax, a câmera de vídeo, o rádio, a vitrola, a televisão, o computador, a internet, o dosador de insulina, o guarda-chuva, o controlador de cortinas, o coçador de saco, o incensador de vaidades. Tudo.

Possivelmente estaremos entrando numa era de convergência biológica. Uma espécie, pelo processo de manipulação genética e hibridização, vai embarcando as demais. Não me parece excessivo lembrar que, para a ciência, em um determinado momento, a vida foi abrigada em uma única célula. Que foi replicando, ramificando, reagrupando em diversificados arranjos até que, em 4 bilhões de anos de evolução darwiniana, desaguasse no Homo sapiens.

Uma convergência biológica não seria o retorno de um ser complexo a uma única célula. Seria mais a mistura genética, experiência de novas combinações dos elementos das cadeias de DNA existentes na diversidade dos seres vivos. É o Frankenstein ao nível molecular.

Talvez esteja se abrindo neste momento uma janela de solidariedade forçada. Definitivamente, o homem moderno não está disposto a trocar sua estratégia política lucrativa por uma política solidária de preservação ambiental. Ninguém quer abrir mão de seus hábitos poluentes a troco de sobrevida no planeta.

As conseqüências imediatas dessa fúria exploratória são o esgotamento dos recursos naturais e a alteração irreversível do clima. Não dá para esperar a adaptação natural do corpo dos seres vivos. Tudo está acontecendo rápido demais. Se tudo seguisse o script já traçado, em breve a natureza perderia um número espantoso de espécies, além do aparecimento de hordas vorazes de refugiados do clima. Males piores que as pragas do Egito.

Mas a criação de seres mix abre amplas perspectivas. Em breve poderemos cruzar gente com camelo. Serão seres extremamente fortes e adaptados à vida em regiões desérticas. Quem sabe, daqui umas décadas poderão ser vistas manadas de camelanos ou humanelos folgadamente atravessando os cerrados, já desertos, ao sol do meio dia, a uma temperatura de 60, 70 graus, sem sombra.  

Ou homens-rãs e mulheres esverdeadas banhando charmosamente, onde um dia foi a praia de Copacabana, agora completamente invadida pelas águas do mar e o hit Garota de Ipanema sendo executado num estilo de coaxos.

A educação, a filosofia, o direito, a religião, a psicologia terão de ser radicalmente alterados para atender aos anseios dos novos híbridos. Já imaginou educar um filho com DNA de cabrito? E Deus?  Se Deus quiser que continuemos à sua imagem e semelhança, Ele próprio terá que Se conformar em Se parecer com camelo, sapo, anta, vaca e até com bactérias que vivem no interior da Terra, em condições extremas, respirando ácido sulfúrico e tal. A ciência não está mexendo somente com o homem e seus coadjuvantes animalescos e vegetativos. A ciência está remoldando o DNA e a fisionomia de Deus!

Eu mesmo, se tiver chance de me perpetuar pela clonagem, quero que meu clone seja híbrido de sapo. Não que eu goste de viver coaxando de cócoras no charco. Ocorre que o sapo detém um dos orgasmos mais intensos e longos da natureza: são pra lá de duas horas do mais espumoso prazer. Uauuu! quanta qualidade de vida!

A hibridização trará repercussões em todos os aspectos da vida. Já imaginou quanto o direito terá que se adaptar para dar conta do contrato social que emergirá de uma sociedade de seres híbridos?  Ninguém poderá xingar o semelhante, que agora nem é mais tão semelhante assim, de vaca, raposa, burro, galinha, anta, bode velho ou coisa que o valha.  Sob pena de transgredir a lei de proteção à dignidade, não humana, mas à dignidade híbrida, e cometer crime de injúria biológica. Como hoje, se você chama alguém de preto, pode ser processado por crime de injúria racial.

Tirando a esquisitice de você ser meio gente, meio vaca, a experiência dos britânicos, antes de assustadora, é até divertida. E assim (desen)caminha a humanidade.  

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