revista bula
POR EM 06/04/2008 ÀS 03:58 PM

Tudo o que você precisa é amor

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Dentre inúmeras frivolidades, uma delas eu cultivo sem nenhum constrangimento: sou beatlemaníaco. Carrego comigo a paixão pela banda inglesa desde a infância (provavelmente, ainda na confortável estadia do berço placentário). Ignorância musical? Gosto ultrapassado? Ora, amigo, a boa música é resistente ao tempo, aos modismos e à globalização da idiotice. Aliás, de tanto ouvir porcarias nas rádios brasileiras, ando cada vez mais saudosista e neurastênico. Fico preocupado com a geração atual. Do ponto de vista musical, ela está órfã. Não sei a que tipo de referência vão se agarrar no futuro. O receio é que naufraguem no vácuo.

Nasci em setembro de 1965. Nessa época, os quatro garotos de Liverpool já contabilizavam seis ou sete anos de carreira. Estavam no auge da fama e reviravam o mundo de cabeça para baixo com seu comportamento irreverente, carisma e talento musical. Muitas vezes, tenho a sensação de ter nascido na época errada. Adoraria ter vivido a minha adolescência nos anos sessenta. Sempre impiedosos, os amigos garantem que estou mesmo é envelhecendo e ficando careta.

Há poucos dias, a imprensa internacional noticiou o acordo selado entre o sexagenário ex-beatle Paul Mcartney e sua ex-esposa perneta Heather Mills, que teve uma das pernas estraçalhada num acidente de trânsito. Movida pela tragédia pessoal, a moça fez campanhas para arrecadar donativos e os doar às pessoas vítimas de mutilações provocadas por minas explosivas subterrâneas, especialmente, crianças. O casamento melou, o diálogo melou e o casal foi digladiar nos tribunais. De acordo com os noticiários, a despeitada loira (cegos de paixão, os fãs nunca perdoam os algozes de seus ídolos...) vai embolsar a bagatela de vinte e poucos milhões de libras (consta que o seu pedido inicial era duas vezes maior). Apesar do Paul (olha só a minha intimidade com o ídolo...) ser milionário e famoso, tive pena dele e explico por quê. Nada a ver com a grana. O sujeito é detentor de uma das maiores fortunas do planeta.

A fama cobra um alto preço, e pode transformar a vida de um ser humano numa clausura infernal. O ídolo pop é prisioneiro da própria imagem e do mundo virtual em que está inserido. Além de ter a liberdade limitada, praticamente tolhida, o famoso está constantemente exposto ao assédio de pessoas com os mais variados interesses, quase sempre unilaterais, egoístas e perniciosos. Imagine-se, caro leitor, na pele de uma celebridade. Você é um pop-star. Como distinguir quem o ama verdadeiramente, daqueles que amam mesmo é o seu dinheiro e a sua fama? Como se assegurar da amizade sincera, desinteressada, e do amor puro que não vislumbra contrapartidas materiais? Deve ser duro dormir e acordar com dúvidas deste quilate. Não é por acaso a solidão e o vício fazem parte da biografia de inúmeras celebridades do presente e do passado. Aliás, a desgraça dos famosos é prato cheio para os paparazzi, magazines de fofocas, e diverte o público que se regozija com os escândalos e o sofrimento alheio. Nada como ver um famoso se lascando... Em se tratando de show-business, aquela estória que dinheiro não traz felicidade nunca me pareceu tão verdadeira.

Então, o que é felicidade? Vencer um biguibróder? Pagar um divórcio só de vinte e quatro milhões de libras, ao invés de quarenta e oito? Rever um amigo muito amado que andava sumido? Matar a própria fome? Voltar a caminhar depois de um acidente gravíssimo? Quitar o apartamento? Ficar sozinho de frente ao mar? Ter orgasmos? Ter uma morte rápida, inesperada e sem sofrimento? É... Realmente, a vida é complexa demais para se entender. Bem que Lennon e Mcartney avisaram (e eu fiz questão de usar o nome de uma canção que eles assinam como título desta crônica): “All you need is love”. Todo o resto é irrelevante.
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