revista bula
POR EM 27/04/2008 ÀS 10:59 AM

Paraíso S. A.

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Não me agrada muito a prática do que, sobretudo no jargão político, se convencionou chamar de denuncismo. Apesar de minha postura geralmente cética em relação ao homem e à sociedade (ou à cause delle même), prefiro falar das amenidades da vida. Prefiro, mas tem hora que não se pode calar, tamanho o descalabro.

As ONGs estão constantemente na mídia e é preciso dizer alguma coisa. ONG é a sigla que se usa para designar um tipo de instituição civil e privada, a Organização Não Governamental, que o Terceiro Setor engendrou para dar organicidade a uma série de atividades a que se dedica. Por definição, as ONGs não têm relação com o setor público, ou, pelo menos, relação de dependência. E isso é muito claro, pois se elas existem justamente para suprir, corrigir ou complementar ações públicas em que o governo é ausente, devem manter sua independência. Isso em geral e teoricamente.

Que o Brasil é o país do jeitinho, todos nós estamos cansados de saber. A lei, segundo alguns, nasce para ser burlada. Jocosamente alguém já disse que a norma é uma donzela que nasceu para ser estuprada. É nosso ethos. Todos nós nos sentimos espertos, muito vivos, por tirarmos vantagem de alguma coisa. Entre nós, não avançar em farol vermelho é sinônimo de panaquice. A lei suprema, a única que conta quase que com unanimidade nacional, é a lei de Gerson.

Comentando, um dia, com um concidadão o fato de determinado ex-prefeito estar terminando sua vida na pobreza, fui surpreendido pela opinião do fulano, para quem o indigitado político não passava de um incompetente, pois não tinha dado o jeitinho de arrumar sua família.

O caso acima é exceção, aquilo que se pode chamar de estatisticamente desprezível.

Entre as ONGs devem também existir exceções, claro. Mas o que vem dando matéria para a mídia, são algumas (a maioria) que resolvem não ser entidades independentes e penduram-se nas tetas governamentais, que são fartas e generosas. E o nome transforma-se num paradoxo, porque “não governamentais” é que elas não são. No ano de 2007, foram muitos milhões de reais que as ONGs receberam. Porque dinheiro, pelo que se vê, é o que não falta.

Se os recursos entregues a tais entidades são bem ou mal empregados, isso já é outro capítulo. Ainda ontem ouvi a notícia de que uma delas (e por certo não é a única) foi agraciada com uma soma que me faria independente financeiramente pelo resto da vida. Detalhe: seu projeto nem chegou a ser avaliado. Outro detalhe: o prazo para prestação de contas ao governo é de trinta dias; pois bem, passados três anos, perceberam?, passados três anos alguém da área de fiscalização do governo teve a idéia de procurar a tal ONG para completar seus formulários, pois a burocracia não pode deixar de preencher seus papéis.

Para surpresa do funcionário com o papel na mão, no endereço indicado não havia nada que se parecesse com uma Organização Não Governamental. Mas alguém, sem dúvida nenhuma, estava deitado em alguma rede, entre coqueiros de nossas formosas praias, achando que o Brasil é mesmo um paraíso.   
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