revista bula
POR EM 07/03/2008 ÀS 05:02 PM

Panis et circenses

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Parece piada, mas não é. Chega a ser risível, embora digno de repúdio. A pobreza de espírito e a desastrosa criatividade de alguns políticos não têm limite e não respeitam a fronteira virtual entre a ética e a descompostura. Numa pequena cidade do interior do Brasil, um prefeito cismou de investir numa peculiar e descabida estratégia de marketing. Visando a apimentar o carnaval do lugarejo, o nobre gestor mandou distribuir milhares de cupons de “Vale-Cerveja” para a população. Não riam, leitores, pois há indícios (êita, palavra comezinha...) que a grana tenha sangrado dos cofres públicos. Num país de tantos escândalos e descalabros protagonizados pelos políticos, animais egoístas, eu ainda não tinha ouvido nada parecido. Habilidoso com as palavras, o prefeito justifica a bizarra iniciativa alegando que a intenção era criar atrativos para manter os moradores na cidade durante o feriadão e garantir um carnaval para lá de animado, lotado de gente, incrementando o turismo na região e beneficiando, conseqüentemente, o comércio local. Altruísta imaginava, inclusive, “prevenir acidentes e mortes nas estradas estaduais”, poupando as vidas dos seus conterrâneos, fossem eles seus eleitores ou não. Agora, distribuir cerveja de graça para a população, além de aviltar os princípios éticos e a saúde coletiva, não me parece, de jeito nenhum, uma ação social a ser copiada por ninguém, ainda mais, gestores públicos.

Senão, vejamos: remédio, produto primordial ao bem estar coletivo, vive faltando nas farmácias dos hospitais públicos e postos de saúde. Merenda escolar, combustível vital à gurizada, escasseia nas despensas das creches públicas. Se um cidadão procurar um posto de saúde para retirar preservativos masculinos (camisinhas), dificilmente, as encontrará, pois faltam freqüentemente. Entretanto, vira e mexe, o governo distribui camisinhas aos borbotões, durante os feriados prolongados, especialmente, o carnaval. Estão fazendo a mesma coisa com a tal “pílula do dia seguinte”. A propaganda no rádio e na TV é tão empolgante que soa como um salvo-conduto ao cidadão para a prática do sexo livre. Aí é sacanagem... Com cerveja de graça, camisinha de graça, cesta básica de graça (que muitos recebem, indevidamente, através de manobras  fraudulentas), fica faltando pouco para o paraíso (ou inferninho). Quem sabe, se o poder público lançasse também um “Vale-Viagra”, não fosse um sucesso. Alternativamente, o governo poderia utilizar matéria prima mais barata, como o “Vale-Amendoim Torrado”, ou o “Vale-Ovo-de-Codorna”, todos de eficácia atestada pelo povão. Poder-se-ia _ por que não? _ instituir o “Vale-Motel”, projeto libidinoso no qual seriam proporcionados minutos inesquecíveis de hospedagem e safadagem nos motéis Brasil afora (e adentro, também).

Desta forma, o assistencialismo seria completo, quase perfeito. É claro, se desse para incluir no pacote um “Vale-Cafezinho”... Humm!! Daí seria coisa de primeiro mundo. Cerveja, amendoim, camisinha, viagra, motel, cafezinho... Tudo de bom. Seria a consagração do hedonismo no país. O Brasil transformar-se-ia no melhor lugar do planeta para se viver, apesar das verminoses, das balas perdidas, do alto índice de mortalidade infantil, do incremento dos abortos clandestinos, do desmatamento insano e criminoso da floresta amazônica e do bigue-bróder (uma porcaria que nem invenção nossa foi).

Cuidado, senhores políticos. Não exagerem na dose. Não subestimem a ira popular. Um dia, o povo poderá insurgir e então... só bebendo muita cerveja pra esquecer o tamanho do estrago. 

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