revista bula
POR EM 20/08/2008 ÀS 09:54 AM

O pó da Pós-Modernidade

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Para Flávio Paranhos, a propósito da interessante discussão sobre arte aqui na Bula

Por que o artista quase sempre se revela um incompreendido na expressão que adota ou manifesta? Esta é uma das interrogações que ouvimos e que, muitas vezes, nos fazemos. A arte, como manifestação do espírito, tem um fim que é atingir os sentidos na pretensão de suscitar sentimentos, despertar para a contemplação do belo. Sendo assim, de onde advém o gosto? da subjetividade imediata ou puramente do contato exterior com objeto que, por sua vez, torna-se sensível?
         
O que é ter gosto? Por que gostamos? Qual é a natureza do artístico? O que é arte? Para que ela serve? A arte deve possuir um caráter de universalidade e objetividade, já que o sentimento é subjetivo? E não sendo o gosto advindo do sentimento, mas forjado, incutido, criado por elementos artificiais e massificantes, teria ele valor no julgamento de uma obra para qualificá-la como artística, como obra de arte?
         
Como é próprio ao ser humano voltar-se para as coisas e tirar, pelas suas impressões, o que é bom ou o que é ruim, também ao ser humano é dado, irrefletidamente, buscar referências várias de “especialistas” sobre o valor que deve ser dado a determinadas obras, o que as caracterizariam como arte ou não, como tem acontecido em salões de arte, espalhados pelo mundo, quando privilegiam instalações absurdas, experiências bizarras, em nome de uma “arte pós-moderna”, que de tão pós, reflete a acéfala conceituação dos seus curadores.
         
Não que os salões não tenham valor, claro que têm, é uma oportunidade para que novos artistas sejam revelados, para que a sociedade tenha contato com a produção do seu tempo, inteirando-se das mais variadas técnicas e expressões, educando o olhar para as
diferenças:o belo, o feio, o cômico e o trágico.
         
Os salões precisam buscar uma identidade, refletir o seu tempo, sair da mesmice, voltar à atenção para outros valores, mas que não venham com a malfadada desculpa da desconstrução. Desconstruir o quê? Por quê? Se Duchamp[1] o fizera, assim como Picasso, é porque detinha o domínio da técnica do desenho e da pintura, para só depois chegar aos objetos, como o Grande Vidro, e a instalação La Mariée mise a nu par ses celibateires, même. Elementos metatextuais, caracterizadores de um olhar crítico para com as artes daquele tempo, já que havia a intenção de provocar, de causar apreensão e indignação. Coisas que os “artistas” de agora não fazem, já que as ditas instalações de hoje mais parecem gambiarras: não dizem nada, nada provocam, apenas nos roubam energia e tempo.
         
Talvez a incompreensão perene não seja do artista, como foi falado no início deste texto, mas do espectador que, apesar do desconhecimento de técnicas e expressões, é dotado de senso crítico para julgar o que agrada ou não, mas vê-se encurralado ao se deparar com opiniões tão formadas por parte dos mermitões que nada dizem, nada lêem, nada criticam, apenas seguem e servem. Seguem o crítico, tão técnico quanto o técnico de geladeiras. Servem à mídia, que de tão rasa não se toma pé. Assim, o espectador, sem voz, perde a identidade e o rumo, e passa a andar em círculos entre os vidrinhos de penicilina e ampolas de vidro, para dormir o sono nas redes entrelaçadas de um sono personalizado, fotografado em sonhos pelas máquinas digitais, e revelado no envelope de madeira que, por sua vez será guardado no cofrinho inflável da posteridade.


[1] Marcel Duchamp (1887-1968). Para saber mais sobre o artista, recomenda-se O Pequeno Prefácio a Duchamp: ainda sobre o grande vidro, por Jorge Lúcio de Campos.

 

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