revista bula
POR EM 11/04/2008 ÀS 04:50 PM

Nós, os perversos

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Nos últimos dias, o Brasil acompanha estarrecido o desenrolar de mais um episódio de violência urbana, o assassinato da pequena Isabella, uma menina de cinco anos que foi morta, supostamente, por espancamento e asfixia, e atirada pela janela do apartamento onde morava, na cidade de São Paulo. O caso chocou a todos, e indigna, até mesmo, os mais brutalizados, como os presidiários, que costumam recepcionar criminosos deste naipe também com muita violência, às vezes, ceifando suas miseráveis vidas.

A trágica história de Isabella bem serviria de roteiro para um filme do já falecido Alfred Hitchcock, criador de Psycho (Psicose), dentre outros clássicos do suspense. Eu era criança quando assisti ao filme pela primeira vez. Não me esqueço de algumas cenas arrepiantes, como aquela em que a mocinha é esfaqueada embaixo do chuveiro, ou quando um detetive é ferido mortalmente com uma faca cravada no meio da testa, no alto de uma escadaria. Medonho. Sensacional. Tive algumas noites de sono agitado, absolutamente impressionado com o thriller. Do ponto de vista pedagógico, mesmo para um mancebo como eu, o filme deixou claro que o ser humano é capaz de atrocidades surpreendentes, ofício plausível tão somente ao homo sapiens, únicacriatura na face deste deteriorado planeta que pode usar o tempo, o raciocínio e os músculos para arquitetar o mal. Muitos afirmam que filmes violentos podem tornar as pessoas agressivas e violentas, em especial, crianças e adolescentes. Não creio. Ao contrário, penso que sirvam de alerta, deixando claro que o crime e a maldade são abjetos e não compensam. Para mim, bondade e maldade têm a ver com berço, família. Sem afeto, não tem jeito, as mentes ficam afetadas.

Contudo, o estudo e a compreensão da mente humana são tarefas para psicólogos e psiquiatras. Que eles se arvorem na indócil prática profissional que busca compreender os meandros, os subterrâneos do pensar e do sentir. Conquanto já tenha perdido toda a esperança na raça humana, apesar de ações heróicas de uns poucos homens e mulheres de bem que povoam a Terra, tenho lá as minhas teses. Deixando de lado, bem de lado, os psicopatas (porque para estes não existe mesmo nenhum remédio senão o isolamento social), tenho a convicção que grande parte da violência deva-se à influência do álcool e das drogas. Casos como estes da pequena Isabella não fazem o menor sentido. Por que matar uma criança com tanta perversidade, senão por causa de um desequilíbrio mental grave ou prazer doentio pela maldade? Quem ofende crianças, de forma maligna e fatal, ou é psicopata, ou está fora do juízo em decorrência da ação alucinatória de substâncias químicas na substância cerebral. Convenhamos, uma pessoa há que se munir de muita coragem e ódio para enfiar a lâmina de uma faca na barriga de outrem, ou esmagar sua cabeça com uma pedra, ou comprimir satanicamente o seu laringe até que a falta de oxigênio resulte em morte. Enfim, é provável que a chamada legítima defesa da vida possa até fazer qualquer um de nós, assassinos. Trata-se de instinto de auto-preservação. Aliás, os bichos fazem-no muito bem, usando uma razão que, teoricamente, nem possuem, fugindo de seus algozes ou os liquidando, se necessário for. Agora, no caso de Isabella, como em outros inúmeros que já nos fizeram chorar, sobrou crueldade. Incompreensível.

Ainda bem que a pena capital não vigora em plagas brasileiras. A morte seria um prêmio para o celerado que destruiu Isabella. Em breve, a inteligência policial vai desvendar toda a trama, descrever a barbárie em detalhes, e apresentar o criminoso à sociedade. Que ele permaneça durante muitos anos, quiçá, o restante de sua desprezível vivência, acordando todos os dias e convivendo com a infernal lembrança do seu ato animalesco, se ainda lhe restar algum arrependimento e remorso. Neste caso, não haverá castigo mais justo neste mundo.
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