revista bula
POR EM 02/04/2008 ÀS 08:03 PM

Língua presa e dentadura fofa

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No último dia 27, tivemos a oportunidade de assistir a uma cena de ópera bufa da vida latino-americana. Um encontro dos dois personagens bufões Lula e Chávez. Olhe que não eram os personagens de Lula Lelé da história em quadrinho com o Chávez da série de humor da TV mexicana, não. Eram na verdade os presidentes de dois dos mais importantes países da América do Sul: Brasil e Venezuela.


O evento se deu no Recife (PE). Não sei direito o que Chávez, com aquela caricatura de si mesmo, estava cheirando por lá. Já o Lula está beirando muito o seu estado natal porque quer descolar uma vaguinha, umazinha só, para ser senador da República pela bancada pernambucana. Ele não vai cair na besteira, como o FHC, de ficar sem imunidades parlamentares depois do exercício da presidência da República e passar não sei quantos anos na corda bamba, ao sabor dos dossiês e cepeís.

 
Apesar de seu jeitão de boneco de pano de teatro de bonecos, Lula em matéria de esperteza dá de dez a zero em FHC. FHC que entre tantas coisas é sociólogo, professor da USP e Sorbone, considerado pela Unesco um dos dez intelectuais mais influentes do mundo, tempos atrás. Já o Lula, pau-de-arara, (ou migrante-em-condições-adversas no politicamente corretequês), torneiro mecânico sem tornear, líder sindical, dono de um discurso avassalador. Avassala as massas e a gramática. Orgulhoso de seu primeiro diploma. O primeiro diploma a gente nunca esquece. Principalmente quando esse diploma é o de Presidente da República.


Com base nessa conclusão bocoió, no dia de sua posse,  Lula chorou feito criança perdida na feira do bordado e fez rasgadas apologias ao analfabetismo. Sempre achei que analfabetismo tem alguma coisa a ver com quem fala pelo buraco incorreto. Não sei por quê.


A moral dessa fábula é o seguinte: Quem não tem que ir pro céu é tapioca olhar pra cima. Ou: quem nasce pra ser besta, o estudo só aperfeiçoa. A contrario sensu: quem nasce esperto, diploma é perfumaria.


Voltemos ao nosso tema que foi o clima bufo do encontro dos dois presidentes no Recife. Pra começar, a pessoa que montou o cerimonial só devia estar de gozação. Até porque um dos melhores cursos de cerimonial do País é ministrado por professores da Universidade Federal de Pernambuco. Mas a tribuna de honra, onde os dois presidentes se abancaram, era um perfeito cenário de teatro de Bonecos. Sem tirar nem pôr.  E foi com expressões de Mamulengo que Lula encobriu Chávez de elogios falsos. E Chávez, com cara de Pierrô, tosco e lascivo, fazia de conta que acreditava.


Para coroar de êxito essa trapalhada diplomática, arranjaram um intérprete do Português do Lula para o Castelhano do Chávez. Essa foi a cena clímax da comédia bufa: O Lula falava na linguagem da Língua Presa e o tradutor repetia com as mesmas palavras, só que na linguagem da Dentadura Fofa. Poucas vezes em minha vida vi coisa tão patética.


Mas a arte é a arte e a vida é a vida. A Ópera Bufa surgiu na Europa, no período barroco, sob forma de quadros satíricos entre uma e outra cena da Ópera Séria, daí ser conhecida também como intermezzos. Isto é a arte.


Na dramaturgia, a Ópera Bufa é só um quadro satírico para manter os espectadores sentados enquanto se roda o maquinismo para a próxima cena. Em nossa vida real a Ópera Bufa é a peça principal e nos intervalos entre uma cena e outra, o que assistimos também são quadros dos mais arrematado besteirol. Taí a nossa vexatória condição de terceiro mundo, ou país emergente no politicamente correto, que não me deixa mentir. Um país que historicamente vai matando a galinha dos ovos de ouro.

 
Quando foi que a gente chutou galinha de macumba?!      
   

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