revista bula
POR EM 09/03/2008 ÀS 07:42 PM

Já pegou seu brinde?

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Você folheia apressadamente o jornal. Ia direto aos classificados procurar o anúncio de um melhor emprego. Queria alcançar rapidamente a seção de Esportes para saber a classificação de seu time no campeonato. Desejava ler as notinhas da coluna política. No virar das páginas, no entanto, o título te chama: já pegou seu brinde?

Você pára. Você percebe a foto da cronista. Uma expressão simpática. Dir-se-ia inofensiva e até generosa. Ela pergunta se você já pegou. O que pressupõe que você deveria ter pegado, que outros já pegaram, que está perdendo algo, que está ficando pra trás. Pegue logo. Nunca se deve recusar um brinde. De graça até injeção na testa, até entrar na fila pra tomar cascudo. Num mundo em que se vende tudo, qualquer cadinho de qualquer treco é lucro. E se você vacila e se você não pega, vem aquela sensação recorrente de que a gente está sempre perdendo uma festa para a qual o resto do mundo foi convidado.

Então, apanhe essas palavras que te dão. Antes o verbo do que nada. Você está dentro. Você continua lendo. Assim será aceito, incluído, pertencerá a um grupo, dos leitores instruídos, bem informados.
 
Engoliu a isca. Se fosse uma vendedora de assinatura de revistas, dessas que abordam pessoas distraídas nos aeroportos, a estas horas, você estaria no papo. Antes de receber o brinde, responderia a um questionário, seus gostos, preferências, cartões de crédito, endereço. De repente, meio tonto, sairia com uma revista debaixo do braço e com um contrato para receber em casa, pelo período de um ano, a revista Criação de Canários – logo você que tem horror à manutenção de pássaros em cativeiro, foi capturado.

Não sou vendedora de assinaturas de jornais ou revistas, nem pretendo te vender meu último livro, que sequer foi publicado, mas convém advertir que mesmo na leitura desenvolve-se uma espécie de comércio, velado ou desavergonhado. O escriba, egocêntrico assumido, oferece ao leitor título convidativo, bela embalagem, o mais atraente possível, combinação de palavras que pareçam imprescindíveis – você não poderia continuar seu dia sem isso – e em troca o leitor lhe dá algo de seu tempo, atenção e admiração.

O problema é que muitas vezes acaba-se comprando não só gato por lebre – o texto não é o que o título promete – e se adquirem idéias nem desejadas. Eis o que se dá quando topa com um jornalista ou escritor que, mostrando toda a sua erudição, não usa o texto senão para elogiar-se e mostrar-se em vitrine. É ele o próprio conteúdo. Admire-me e me ame é a única mensagem.

Quão freqüentemente, ao final de alguns textos e livros religiosos ou pseudo-filosóficos, que na aparência te oferecem dádivas de reflexão, há o convite para se comparecer a determinada igreja ou associação. Livros de auto-ajuda que não ajudam senão seus autores a engordar contas e egos, a vender palestras pelo país inteiro. Reportagens com dicas valiosas sobre os cuidados com a pele e logo ali abaixo o endereço de renomado dermatologista.

Eis por que se deve ter cuidado com leituras de qualquer espécie, por mais inofensivas que pareçam. Há sempre transação subjetiva desenvolvendo-se nos textos como na vida, história de intenção por trás da história que nos dão. Um brinde não. Blinde-se. 

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