revista bula
POR EM 27/03/2008 ÀS 06:01 PM

Dinheiro demais, educação de menos

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Muito já foi dito, até com agressividade, a respeito de uma suposta limitação cultural e educacional do mandatário maior do país. Aliás, o assunto foi muito explorado por jornalistas e articulistas no Brasil inteiro, inclusive de outros países, principalmente na vigência do seu primeiro mandato. Cartunistas, humoristas e piadistas amadores encontraram nesta personagem da vida real um prato cheio para o ofício de criticar, esculhambar e fazer rir. É costumeiro que riamos das próprias desgraças. Brasileiro tem dessas sandices. É lascado, mas se diverte. Não me parece um comportamento a ser enaltecido.

Depreende-se que as pessoas com educação deficitária sejam mais propensas ao comportamento anti-social e negligente. Afinal, os parâmetros éticos são alicerçados desde a infância, através da argamassa caseira provida pelos pais, e do fermento escolar injetado pelos professores, profissionais historicamente aviltados e desvalorizados no Brasil. É fato: nunca encontrei um professor rico. São vieses de um país otário que valoriza e endeusa atitudes vazias de pessoas desclassificadas. É aquela estória do “quanto pior, melhor”. Muitos fazem das porcarias o seu sustento. Por exemplo, este tumor metastático chamado “créu”, tocado à exaustão em centenas de rádios brasileiras, e que muitos ousam dizer se trata de música... Será que vendemos os ouvidos e as almas ao diabo?!

Nem sempre a matemática é ciência exata. O dinheiro deveria garantir acesso à educação de qualidade. Gente rica é culta e educada? Tinha obrigação de ser. Aí reside a indignação maior. De onde se espera mais discernimento e respeito à cidadania, partem atitudes abusivas e maquiavélicas, totalmente reprováveis.

Moro num desses condomínios horizontais fechados. São conglomerados urbanos nos quais residem pessoas com bom poder aquisitivo, embora, nem todos sejam podres-de-rico, como preconceituosamente apregoam alguns, misto de raiva, despeito e ignorância. Portanto, espera-se que a ordem e o respeito mútuo reinem dentro dos chamados condomínios de luxo. Não é bem assim. Há alguns dias, deparei com uma criança de onze anos dirigindo um carro dentro do condomínio. Não era brinquedo de autorama, não. Carro, de verdade. A surpresa e indignação fizeram com que eu perseguisse o motorista mirim até a sua residência. O moleque saltou do carro em polvorosa e fugiu para dentro de casa, largando o veículo estacionado na contramão. Não demorou apareceu a mãe do pequeno delinqüente, com um sorriso brando e ébrio no rosto. A mulher se desculpou, alegando que o pirralho aproveitara-se da distração dela e do marido, catou a chave do carro e saiu dirigindo, como se a vida fosse um vídeo-game. Fiquei matutando: será que filho de gente rica é tão evoluído que já nasce sabendo dirigir?! Percebi que não valeria a pena gastar tempo e saliva com a criatura beberrona. Reclamei com o coitado do síndico e pronto. Vejamos no que vai dar. Se um amigo do amigo não interceder na coisa, quem sabe, uma pesada multa possa ser aplicada aos incautos. Afinal, polícia e fiscais do trânsito não entram em condomínio fechado. Esquisito, né?!

Outro exemplo corriqueiro da deseducação é o uso do telefone celular em local público, principalmente, bares e restaurantes, como se fosse um rádio, um walkie-talkie. Entre apitos irritantes e conversas pelo alto-falante, todos ao redor do famigerado interlocutor se incomodam com o colóquio nada sigiloso. O uso do disparatado aparelho está virando uma praga na cidade. A culpa não é da alta tecnologia, mas da baixaria de quem a usa indevidamente. Outro dia mesmo, durante um velório, um sujeito perguntou ao outro, em alto e mau som, a que horas enterrariam o “desgraçado do morto”. É claro que o sujeito foi hostilizado e enxotado do ambiente. Só o morto _ Deus o tenha longe de “créus” _ não se queixou.
 
Não tenho dúvidas que o mundo seria muito melhor se não fosse regido pela batuta autoritária do dinheiro, ferramenta de soberba e egoísmo. Mas o comentário é apenas desabafo utópico, pueril. Não há como remar na rasura. As divagações e os sonhos limitam-se às mentes e bocas dos loucos, dos pacifistas e dos artistas. A humanidade caminha em marcha hipócrita, pisando os fracos e alicerçando, cada vez mais, quem detém dinheiro e poder, ainda que muitos deles fomentem desprezo, chacotas e crônicas como esta.
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