revista bula
POR EM 02/03/2008 ÀS 05:43 PM

Cara de sucupira

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Entrei num desses sites que têm link com os principais jornais de todo o País. Meu propósito era ver as chamadas de capa de pelo menos dois jornais de cada capital e de um jornal das maiores cidades. Queria ver que assunto estaria presente em todos ou pelo menos na maioria de nossos diários. Obviamente que não entraram nessa categoria fatos de repercussão nacional ou internacional, como a visita do presidente Lula à Argentina, a ascensão de Barack Obama ou a renúncia de Fidel. A intenção era ver o assunto coincidente, mas por ocorrência local.

        
Eu me daria por satisfeito se encontrasse um assunto sendo abordado em pelo menos 50% dos jornais. Digamos: acidente de trânsito, transbordamento de rios, tráfego de mulheres, assassinato por encomenda, pedofilia etc.

        
Para minha surpresa, fui muito bem sucedido em minha empreitada. Longe de ficar num percentual de 50% de jornais, encontrei em 100% de todos que pesquisei um tema que se repetia. E o assunto não era outro senão a corrupção. A velha e nova e sempre renovada corrupção, que assola o País de cabo a rabo.

        
São vendas de guias fajutas a madeireiros por órgãos que têm a obrigação de inibir a atividade, fraude a licitações em prefeituras, formação de milícias para extorquir moradores de favelas, uso de cartão corporativo com gastos pessoais, cobrança por fora de taxas a feirantes, fiscais que achacam empresários, jogo de bingo com beneplácito das autoridades policiais, venda de sentença, merendeira de escola que cria  porcos com os víveres que conseguia subtrair. E por aí vai. O cardápio é variadíssimo.

        
A deduzir pelas chamadas, o Brasil continua sendo uma terra de forasteiros, onde cada qual pensa em retirar o seu e se mandar. É como se o País fosse um entregador de carne. Mas no meio do caminho é atacado por uma alcatéia de hienas e todo o carregamento se perde, com o risco até de perder a própria vida.

        
Outra imagem que me vem é aquela de O velho e o mar de Ernest Hemingway. Depois de uma temporada ruim, o velho pescador fisga um peixe maior do que todos que vira até então. Com muita luta e sofrimento, consegue cansá-lo.  Com ele sob domínio e amarrado à popa de seu barquinho, empreende o caminho de volta para a aldeia. Mas antes que começasse a curtir a vitória daquela pescaria, dão início os ataques dos predadores. Por mais que se esforçasse não conseguiu evitar que os tubarões dilacerassem sua presa fabulosa. Quase sem vida, o velho consegue ancorar na aldeia mas, do grande peixe, já aliviado em suas carnes, levava apenas o espinhaço. É o país que poderíamos ser, mas a corrupção deixa sem as carnes.

        
Das chamadas, uma das mais inusitadas que vi foi, por coincidência, de Goiás: Ibama registra despesas de R$ 23 mil em clínica de estética. Como eu não estava lendo as matérias, fiquei fazendo suposições. Como poderia o Ibama utilizar serviços de uma clínica de estética?

        
Será que o órgão, depois de cochilar estes anos todos e deixar que praticamente demolissem um dos ecossistemas mais importantes do mundo, que é o cerrado, revolveu tirar o atraso. Agora, pra compensar, estaria concedendo às espécies salvadas um tratamento VIP? Como por exemplo, submetendo as árvores de sucupira a banhos de óleo de peroba em sua casca ressecada? Levando as antas para fazer lifting, massagem nos caititus, hidratação de pêlo nas capivaras?

        
Ou será que o óleo de peroba é apenas para passar na cara de sucupira de uma sociedade que nem se revolta mais diante de tanta desfaçatez?             

 

 

 

 

 

 

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