revista bula
POR EM 19/03/2008 ÀS 07:57 PM

Amor ao perigo e morte

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Escrito no século 2 antes de Cristo, o Livro Eclesiástico, que compõe o Velho Testamento, é um conjunto de advertências aos judeus sobre os perigos da adesão aos novos costumes mundanos, por influência da cultura grega. Uma das mensagens mais conhecidas desse livro é: quem ama o perigo, nele perecerá (Eclo 3,27).
 
Se trouxermos esta frase para o contexto atual, poderíamos imediatamente identificar semelhanças da situação do mundo de hoje com a de Jerusalém daquela época. Hoje o mundo, pelo menos em grande parte, vive sob forte influência cultural norte-americana. Sendo a sociedade de consumo a ponta de lança dessa cultura.
 
Tento aqui uma pequena diferenciação: sociedade de consumo e sociedade que consome. Sociedade que consome é aquela que usa parcimoniosamente os bens materiais para manter o seu metabolismo em equilíbrio, que consome para viver. Já sociedade de consumo é aquela que vive para consumir, até explodir-se pelo acúmulo da própria “gordura”. Na sociedade de consumo, consumir é um fim em si mesmo. Na sociedade que consome, o consumo é um meio de manutenção, equilíbrio e busca de um fim. Sob influência americana, o consumo está se tornando a razão de tudo. E, sendo a razão de tudo, o consumo acaba por esvaziar o sentido verdadeiro da vida. O ser humano se torna objeto, mercadoria descartável, coisa de vitrine. Metabolismo do capital.
 
Dentro desta sociedade de consumo em que vivemos, qual objeto mais amamos? Sem dúvida o automóvel é o ícone desse sistema. Amamos o automóvel acima de todas as coisas. O automóvel nos dá status, nos serve de vitrine, complementa a nossa parte mais sensível que é o ego (o bolso só é sensível porque é propriedade do ego). E eventualmente nos conduz de um lugar para outro.
 
Nosso amor ao carro chegou a tal ponto que para nós é mais importante andar num carro vistoso do que morar numa casa confortável. É preferível ter um carro do ano a uma família equilibrada. É mais legal ter um carrão luzidio que um coração saudável. Tal é o amor que devotamos ao automóvel.
 
Mas o automóvel é um perigo (como de resto a sociedade de consumo). E como diz a sentença do antigo sábio, que parece mais atual do que nunca, quem ama o perigo, nele perecerá. No tempo daquele sábio, o perigo era para Jerusalém. Hoje quem está em risco é o planeta.
 
Há exatos 100 anos que o automóvel entrou no cenário de nossas ilusões, com o Ford T. Segundo recentes pesquisas, a emissão de CO2 no século do automóvel foi superior ao que foi lançado na atmosfera em milhões de anos. O CO2 é exatamente o gás que acelera o processo de esquentamento do planeta. Se o fato fosse só esquentar uns grauzinhos a mais a gente até tolerava numa boa. Mas as conseqüências desse aumento de calor é um desastre sem tamanho. Mudam-se os regimes das chuvas, o ciclo de vida dos vegetais, espécies essenciais na cadeia da vida desaparecem, sobem as águas dos oceanos. Aparecem tufões indômitos, chuvas ácidas, zonas desérticas, provocando grandes levas de desabrigados. Microorganismos antes benignos ou inertes se tornam letais. Um horror.
 
Mas tudo bem. O prazer de continuar consumindo carros compensa o sacrifício. Principalmente agora que há uma tendência de substituir gradativamente o petróleo combustível pelo etanol, que é menos poluente. Podemos continuar desfilando em nossos carrões e aliviando o efeito estufa.
 
Tudo bem uma pinóia! Os primeiros sinais perversos do uso do etanol já estão dando as caras. Começa com o avanço da agricultura sobre o restante das áreas verdes, como a Amazônia, por exemplo. Com o desvio de alimentos para a produção de combustível, o preço da comida ao redor do mundo está subindo numa escalada sem precedentes desde a Segunda Guerra. Em breve, contingentes enormes que hoje estão se alimentando com regularidade vão começar a passar fome, porque as terras que antes produziam alimento humano estarão voltadas exclusivamente para a produção de alimento veicular.
 
Enquanto isso, milhões de novos carros entulham as ruas do mundo diariamente. Nas grandes cidades o carro já está perdendo viabilidade como meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, já têm ocorrido congestionamentos-monstro de quase 200 quilômetros. Mas um carro no engarrafamento queima mais combustível do que desenvolvendo velocidade. A produção de etanol não será suficiente para atender ao crescimento da demanda. Sobretudo quando as sociedades reclamarem maior oferta de alimentos, a indústria do petróleo terá nova onda de crescimento, para suprir a falta de combustível renovável. Porque a gente ama o carro. E matéria prima não há de faltar. O derretimento dos gelos polares, provocado exatamente pela emissão de CO2 do carro, permitiu a descoberta de jazidas-gigante no pólo Ártico.
 
Quando voltarmos com gosto de gás (sem trocadilho) para o uso do petróleo, a curva do aquecimento global vai subir a olhos vistos. Aí sim, estaremos tomando banho de sol na praia em véspera de tsunâmi.
 
Quem ama o perigo, nele perecerá: a advertência de um certo Jesus ben Eleazar (que não é o Messias), continua reverberando na sociedade de consumo. Mas quem está ligando pra isso, se daqui a pouco vou desfilar minha figura impoluta na passarela das ruas e avenidas num carrão último tipo!
 
E assim vamos nós, tocando a vida em frente, rumo ao grande desastre. O homo sapiens, na verdade, não seria, digamos, o homo estupiens? 
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