revista bula
POR EM 31/03/2008 ÀS 04:50 PM

A vida como ela quer

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Em 1996 o mundo ficou saltitante com a notícia de que a Nasa teria descoberto micróbios fósseis em um velho meteorito, despregado possivelmente de Marte. Seria a prova cabal da existência de vida em outras paragens do universo. Ainda que num passado remoto O fato era tão auspicioso que a notícia foi dada a conhecer por ninguém menos que o presidente Bill Clinton, aquele que, não em adultério, mas em relações impróprias, fumava charutos nas vias de regra de Monica Lewinsky.

A questão de onde, como e por que a vida começou é tão nebulosa que quanto mais a ciência especula, mais as conclusões se afastam. Parece que há uma maldição de Tântalo nesse particular: quanto mais se procura, mais o objeto se distancia.

Há teorias de todos os gostos. De que a vida teria sido importada à Terra através de engenhosos mecanismos de transporte. De que a vida teria começado na água e parte migrou para o solo e o ar. De que teria começado nas entranhas sulfúricas da Terra primitiva e, por um efeito colateral, alguma coisa teria sobejado para a superfície. De que Deus teria feito tudo pronto e acabado a partir de sopros e estalos de dedos. A teoria verdadeira são todas e nenhuma. Por enquanto é a que você quiser acreditar.

Aquela história de vida primitiva num meteorito marciano, a ciência não conseguiu provar cabalmente sequer que a pedra seja um meteorito, muito menos que seja de Marte. E a incógnita continua: A vida teria surgido na Terra ou vindo do espaço sideral? E mesmo que soubéssemos isso, o saberíamos sobre a origem da vida?  

Para credenciados cientistas a vida em todas as suas formas seria uma anomalia química bizarra, o efeito colateral de alguma reação catalisada pelo acaso neste canto de mundo. Se assim for, o minúsculo corpo celeste chamado Terra seria o único hospedeiro desse bem tão escasso.

Em seu ateísmo eloqüente, o biólogo francês Jacques Monod assim se expressou: A antiga aliança (mencionada pelas religiões) está em pedaços: o homem sabe por fim que está sozinho na imensidão insensível do universo, do qual surgiu apenas por puro acaso. Nem o seu destino, nem o seu dever foram prescritos.

Para o cientista Francis Crick: A origem da vida parece... quase um milagre, tantas são as condições que teriam de ter sido satisfeitas para fazê-la acontecer.

Para as Sagradas Escrituras, Deus teria deliberadamente feito a natureza e ao homem. Com um rigor amoroso (ou seria egoístico?) fez o homem à sua imagem e semelhança.

Qualquer que seja a concepção que adotemos, a vida é cara e rara. Não existe prova, nem especulações mais consistentes, de que exista vida em toda extensão do universo, muito menos consciente como a nossa. A dos ditos homo sapiens.

Especula-se que da vida monocelular à vida complexa, com o conseqüente surgimento da inteligência, passou o lapso de tempo de nada menos que quatro bilhões de anos, pelo calendário terráqueo.

Se tomarmos o início a civilização como o início do clima ameno atual, a saída do homem das cavernas para a vida em sociedade nas planícies, com suas ferramentas de pedra e domesticação de animais, o nosso estilo social de viver começou há cerca de 18 mil anos. Se tomarmos como início da civilização a construção da primeira cidade murada, que foi Jericó na Palestina, data de oito mil e oitocentos anos. Mas se nossa referência for a escrita, a civilização não passa de seis mil anos. Toda essa sopa de informações é só para chegar a uma conclusão desesperadora: ante a existência do universo, a vida inteligente começou ontem e a civilização está começando agora.

Pior de tudo é que está começando pelo lado de acabar.  O surgimento da revolução industrial com a queima de combustíveis fósseis, com a liberação de gás estufa parcimoniosamente aprisionado pela natureza ao longo das eras geológica, começou há apenas trezentos anos. O automóvel, coitadinho, o ícone desse processo, é apenas um menino centenário.

No entanto, e bota no entanto nisso, já estamos empestando o planeta. O clima, em toda parte, está ficando irremediavelmente insalubre. Providências que são alardeadas como redentoras, não passam de lábia barata, de meros argumentos de venda de produtos. Na verdade nada de positivo trazem para a salvação da bolha terrena, onde a vida milagrosamente prosperou até a gora.

É o caso do etanol, por exemplo. Segundo recente pesquisa, se for mobilizado todo o potencial da Terra para produzi-lo, sem levar o mundo a uma hecatombe pela escassez de alimentos, seria o suficiente para movimentar parcos vinte por cento da frota de carros existentes no planeta.

Considerando a quantidade-monstro de carros que são enfiados nas ruas e estradas a cada ano, esse etanol daria apenas para rodar os carros que vão entram em operação nos próximos três anos. A frota já existente e a que virá a partir de 2011 terão que ser impulsionadas mesmo é com a velho e letal combustível fóssil. E a bolha que sustém a vida está indo irremediavelmente pro beleléu.

Posso estar sendo chato em insistir nesse tema de meio ambiente numa página de cultura e estética. Chato sim. Mas o chato mesmo é pensar que não há estética nem qualquer tipo de cultura que sobreviva ao fim das espécies, com o homo sapiens no meio.  
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