revista bula
POR EM 22/03/2008 ÀS 10:56 AM

A miragem

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Acabara de chover. Um menino caminhava dentro da enxurrada, água pelas canelas, chinelos nas mãos, e muita alegria no rosto. Sorrisos infantis jamais mentem: ele se divertia. Dentro do carro, preso num costumeiro congestionamento, dei trégua à angústia e ao cansaço e cheguei mesmo a pensar que a vida tinha jeito. Fechei os olhos: “...são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração...”. Olha lá o menino, como ele brinca alheio aos dilemas. Pensei que bom seria voltar a ser criança, jamais ter crescido e descoberto que o mundo, no fundo, no fundo, é mau que nem as bruxas dos contos de fadas.
 
O moleque prosseguiu sua jornada rua abaixo, chutando água, brincando consigo mesmo (ou seria com seres imaginários?!) e com a minha inveja de não ser mais menino. Ele não sabia dos segredos dos bueiros, da força medonha dos redemoinhos, das ameaças hidráulicas dos temporais. Então, tropeçou, caiu, desapareceu da paisagem urbana. Sugado pela garganta da galeria pluvial?! Incrédulo, eu xinguei.
 
A gente reclama se o dia está quente. Reclama se o dia está frio. Reclama por causa da estiagem, da garganta seca e da baixa umidade relativa do ar. Reclama quando chove, mesmo se for chuva fraquinha, daquelas de molhar bobo. Reclama e quer tirar satisfação com Deus quando cai um temporal, revirando tudo, atrapalhando o trânsito, molhando bobina e apagando o motor do carro. Enfim, o ser humano é criatura insaciável. Insatisfeito por natureza, mesmo que ostente saúde plena, ou todo o conforto e mordomia que o dinheiro possa comprar.
 
Quando chove mais forte sobre as grandes cidades brasileiras, os transtornos são inevitáveis e algumas catástrofes se repetem. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Cai, sim. Então, a água encharca as encostas dos morros onde brotam barracos invasores, solapa e derruba um bocado deles. O povo afoga na lama. A televisão mostra tudo aos resignados expectadores debruçados no conforto das salas quentinhas e seguras. Tragédias anunciadas. São as mesmas notícias do ano passado, só que vítimas diferentes. O povo se comove e chora. Pessoas de alma boa organizam a coleta de donativos para aplacar a fome, o sofrimento e a penúria dos desabrigados. As igrejas fazem campanhas, novenas, bingos, ações entre amigos, jejum e outros sacrifícios da carne. Mas chega o estio e ninguém se move. Ninguém arreda pé. Eita, povo teimoso!
 
Os córregos sopitam de tanta água e lixo, arrastando uns casebres, inundando outros tantos, apavorando aquela gente pobre que mora nos piores lugares do mundo. Barranco de rio só é bom para se pescar. Para morar, não presta. Todo mundo sabe disso, mas ninguém se importa. Chega a enchente, que nem o ano passado. Aí a culpa é da prefeitura ou de Deus. A chuvarada termina, mas o povo continua despejando lixo dentro dos ribeirões, como se eles fossem tapetes onde se esconder porcarias. Sacos, carniças, garrafas, pneus, trastes em geral que já não servem para mais nada, senão para entupir os canais. A natureza, sempre que maltratada, dá o troco. Eita, povo deseducado!
 
Há poucos dias, sob esplêndida publicidade, a prefeitura local retirou dezenas de famílias que moravam em barracas de lona preta, margeando a ferrovia que corta a cidade, local com altíssimo risco de acidentes e tragédias. Os sem-teto foram assentados em casinhas simples e decentes, erguidas pelo poder público em local seguro. Poucos dias depois, já havia miseráveis novatos se aglomerando no local, cavoucando, erguendo acampamento. Eita, povo insistente!
 
Saltei do carro, incrédulo com a cena que acabara de presenciar. Corri sob a chuva fina, serpenteando no trânsito parado. E eu, que imaginava nem mais ter coração, sentia o danado quase vazando pela goela. Vasculhei a esquina. Nem sinal do menino. Sumira na correnteza forte. Desapareceu, instantaneamente, que nem a tênue fé que ainda há pouco faiscava no meu peito.
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