revista bula
POR EM 12/07/2010 ÀS 09:52 PM

O homo sapiens, a erva daninha e o fim da espécie

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Por mais industrioso e criativo que seja o Homo sapiens, esse animau çinixtro que se irrompeu agora por último do ramo evolutivo da vida, ele não consegue criar coisa alguma sem que desmanche outra. E o que é mais grave: quase sempre lançando mão de um desperdício extraordinário. Qualquer criação humana implica sempre num desmanche de riquezas naturais. Do tipo assim: para se obter uma posta que seja de picanha é preciso derrubar um sem número de metros cúbicos de árvores, consumir não sei quantos carros-pipas de água potável, assorear quilômetros de rio, espalhar pelo céu toneladas nuvens de gás de efeito estufa e assim por diante.

E é neste contexto que caminhamos inexoravelmente rumo ao limiar da singularidade; aquele ponto fatídico a partir do qual as leis naturais demudam de forma radical, não podendo mais haver uma ação eficiente para evitar uma situação de desastre. Ocorre que a população humana, além de se achar desastrosamente grande, vem adotando hábitos de produção e consumo potencialmente letais para que nós próprios continuemos tocando a vida, tal qual a conhecemos. Especialmente neste intervalo geológico que a natureza nos concede um clima propício no planetinha azul, neste recanto ínfimo de universo enorme e ainda em expansão.
 
É um oximoro: quanto maior a multidão de indivíduos humanos, menor a nossa racionalidade. Quanto mais razões somadas, maior a nossa ação por instintos.  É o efeito manada, tão ao gosto dos manipuladores de massas. O antropólogo, estatístico e matemático inglês Francis Galton  (1822-1911), primo de Charles Darwin (1809-1882), afirmou ser isto “a lei da suprema desrazão”. Ele constatou que a racionalidade de um grupo tende a buscar a média. Não contemplando nem o mais ladino, nem o mais estulto, mas ficando a meio caminho, como um pêndulo no ponto em que cessa os movimentos. Mas hoje em dia, com a população atingindo as raias do apinhamento, podemos afirmar, com alta dose de convicção, que a racionalidade de todo o grupamento humano, em última instância, tende, não ao meio como queria o primo de Darwin, mas ao ponto morto. O ponto zero da racionalidade é que é a situação mais apropriada para receber o título dado por Galton, mais totalizante que medianeiro, de a “suprema desrazão”.  

Ademais, a estupidez humana, por mais paradoxal que pareça, é portadora de alto grau de racionalidade demolidora, com vocação para tiros no pé. E a sociedade demanda por essa inteligência da autodestruição. Tendemos a levar na conta de heróis aqueles que detêm a lógica da guerra e sejam capazes de implementá-la com estratégias astuciosas, ou mesmo aqueles que são capazes de remover com destreza rios e montanhas.  Ainda que a guerra e a remoção monumental busquem tão somente converter vidas humanas em energia monetária, transferindo bens comuns para as mãos de uns poucos. Para as mãos daqueles que num clube de milionários trocam incensamentos entre si por meio de comendas, de diplomas de feitores beneméritos e títulos de homens e mulheres, do ano, da década, do século, quiçá do milênio. E a gente do vulgo bate palmas gritando vivas e até coloca seus pôsteres na parede.

Os atuais mecanismos telemáticos converteram os povos da terra em uma só aldeia, como já profetizava o filósofo canadense Marshal McLuhan (1911-1980), muito antes da disseminação do computador pessoal, da internet, do celular e de toda a traquitana de informação colocada a nosso dispor. Esses equipamentos são utilíssimos na troca de informações. Inclusive você, caro leitor, só está lendo este artigo agora e sobre ele podendo opinar instantaneamente, porque essas ferramentas proporcionam a sua imediata disseminação e a pronta interatividade. Caso contrário, possivelmente ele nem seria escrito e se fosse, levaria alguns anos até reunir um monte deles e ser acondicionado em livro para se fazer chegar, numa distribuição lenta e temerária, a suas mãos.

O problema é o efeito colateral desse processo de comunicação globalizante que transforma as pequenas comunidades ao redor do mundo em uma grande manada, agindo instintivamente, ao sabor das tendências dirigidas e das campanhas publicitárias de foco afiado. Grandes massas reféns de marcas e produtos e seus industriais inescrupulosos, reagindo aos impulsos de seus comandos, feito uma ameba gigante aos estímulos da luz.    

Foi Adam Smith que constatou que o bem-estar coletivo é construído pelo egoísmo e a avareza individuais. O empreendedor bem sucedido, que dá empregos e proporciona uma situação de mercado às sociedades, não é aquele do coração mole que distribui benesses e donativos, preocupado com as dores de barriga do próximo, mas aquele que deliberadamente explora o próximo e dele retira o sangue possível e até o impossível (porque ele próprio não sabia que tinha tanto sangue pra dar).

Essa poderosa máquina do mundo, assentada sobre a avareza, tem o mesmo senso crítico de uma moita de ervas daninhas sobre um torrão. Afinal o que querem as ervas daninhas? Elas querem ocupar o torrão inteiro, e dele retirar todo o insumo, no menor prazo possível, mesmo que fiquem depois sem o suporte da vida. Assim são os Homo sapiens de negócios: sua visão de mundo não vai uma nesga além do balancete anual. Se o negócio der lucro, não tem importância a gente dormir sobre cama de fezes, como os frangos nas granjas, nem respirar hidróxido de amônia. Seus discursos de sustentabilidade e preservação do meio ambiente são meros esforços de marketing societal e nada fazem de efetivo. São apenas disfarces, formas ardilosas de caminharem de costas para o alvo de seus resultados financeiros, não importando o oco que cavem no mundo.  

É nesta passada que o Homo sapiens perde o compasso. Em nossa ideologia de consumo inculcada pelo capitalismo turbinado, com raciocínio de erva daninha, nós queremos atingir, e se possível ultrapassar, o nível de consumo dos americanos do norte. Alguém em particular, num laivo de razão, alerta que para que todo mundo possa consumir num nível tão perdulário e pornográfico como os tais americanos, precisaríamos aí de uns 3 ou 4 planetas semelhantes ao nosso, novinhos em folha. É que a retirada de insumo, no volume e na velocidade que vem ocorrendo, não dá tempo da natureza assimilar tamanha subtração. Nem para digerir os detritos que lhe despejamos irresponsavelmente.

Nesse descompasso, o planeta Terra já vai estropiado, caduco, a tal ponto que nem dá conta de reproduzir suas estações e outros fenômenos meteorológicos com a mínima regularidade propícia para a vida do Homo sapiens prosperar. E o drama desta história é que não há planetas salubres à vista. Nem para as vistas afiadas do poderoso Hubble.

Enquanto isso, nossos gênios do mercado deixam a população cada vez mais engrenada no consumismo. Já estamos mais entubados que um paciente terminal numa engenhoca de UTI. E nos prometem atender a tempo e a hora a todas as necessidades que supomos ter.

O Meio ambiente não aguenta mais tanto desaforo. No entanto, não há no horizonte nenhum modelo alternativo, com escrúpulos ambientais,  de que racionalmente possamos lançar mão. Simplesmente pelo fato de que, coletivamente, não somos racionais e queremos, como uma moita de ervas daninhas, exaurir até a última gota de proteína do torrão. Ou seja, da terra que, até agora, deu abrigo e sustento a este animau çinixtro, que é dotado de uma razão, mas postula o irracional. 

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