revista bula
POR EM 20/08/2010 ÀS 11:36 AM

Deus inútil e ciência ineficaz

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É no mínimo temerário continuar subjugando a Natureza a nossos desejos e caprichos e acreditar que possamos, ao final de tudo, sair imunes de tal empreendimento. Cedo ou tarde a Natureza vai nos cobrar a fatura. E o preço dessa conta poderá ser muito acima da capacidade de solvência do Homo sapiens. Daí, como soe acontecer com os inadimplentes do tráfico de drogas bem como aos da Natureza, teremos que dar quitação com a própria vida. Não a vida individual, porque esta vem sendo cobrada ordinariamente pelo processo de gestão biológica, mas sim a morte coletiva, geral, irrestrita da espécie como um cataclismo irremediável.

Apesar de que não estaremos aqui para curtir a morbidez desse luto, supor que um dia nenhum descendente nosso habitará este planeta, que suportou por certo tempo o desenrolar de nossa saga maluca, é sem sombra de dúvidas um dos sentimentos mais nostálgicos e desolador que o ser humano possa ter. Mais que desolador, é revoltante mesmo, por saber que estamos na corda bamba da existência, mais por estupidez de hábitos que adotamos do que mesmo por determinismos transcendentais. É que a inteligência, que de forma unânime se constitui no distintivo da condição humana, traz em sua gênese o dom de se iludir, de se equivocar. A humanidade, ao contrário do que muitos acreditam, é semelhante às pessoas: quanto mais velha fica, mais equivocada se torna. O avanço de alguns aspectos tem o vínculo de causa e efeito com o atraso de outros. Exemplo: o desenvolvimento tecnológico de intervenção ao meio ambiente se desenvolve numa velocidade maior do que tem o meio ambiente de se recompor, arrastando a humanidade, mais as espécies adjacentes e aderentes a perigos de extinção cada vez mais aterradores.  O progresso humano é como a corrida de um cavalo que, ao impulsionar-se para frente, no galope, acaba por arremeter argila para trás.

Os estudos mais isentos e gabaritados acerca das mudanças climáticas testam que a emissão de gás carbônico e outros de efeito estufa da era industrial têm uma vinculação de perfeito encaixe, de causa e feito, com a degradação ambiental que estamos vivenciando.

O mercado arrasa-quarteirão, mentalidade fast-food, ávido por lucros incessantes e cada vez mais espetaculares, além de cego aos problemas do porvir (que já estão se tornando do presente) alega que o que ocorreu entre os cem anos do automóvel e o acelerado aquecimento global desse período não passa de mera coincidência. Dizem que em outras eras e ciclos geológicos houve flutuação de clima no planeta, oscilando entre o aquecimento e a glaciação, com instantes de amenidade. Só que os estudos mencionados dão conta de que a alteração do clima de fato não é um fenômeno estranho à Natureza da Terra e até do universo. O que de fato é estranho é a velocidade com essas mudanças vêm ocorrendo nesta fase em que o Homo sapiens se acha arrogantemente o senhor da Terra.

Vestígios geológicos esclarecem que o aquecimento semelhante ao ocorrido neste centenário do automóvel demorou cerca de sete mil anos para acontecer em outros ciclos. Como o aquecimento nessa velocidade é uma “experiência” nova, fica a dúvida se essas mudanças assim tão aceleradas não levariam à breca os “freios” naturais das flutuações climáticas e acabariam por lançar o velho planeta azul numa ribanceira de singularidade, em que as leis gravitacionais perdessem o vigor e a mecânica cósmica deixasse de funcionar neste ponto do Universo.

Neste contexto, o Homo sapiens se encontra no torvelinho daquele popular dilema: Se ficar o bicho come; se correr o bicho pega... e come!

Mas, por que sendo o homem tão inteligente, capaz de implementar tanto avanço em suas ferramentas, não seria capaz de inventar alguma alavanca e algum apoio e mover o mundo, como queria Arquimedes, na direção a campos verdejantes e águas tranquilas, de que nos falam os Salmos Santos?

Ao que parece, não é de hoje que a inteligência da espécie está irremediavelmente eivada de equívocos e prisioneira de enganos vários, que tendem a se aprofundar à medida que a civilização avança. Na verdade, o homem precisa reconhecer a sua pequenez no mundo, apear de sua arrogância, e viver a sua saga com a alegria e o encantamento possível.

“A Hipótese Gaia”, de James Lovelock, a teoria segundo a qual a Terra é um sistema auto-regulado cujo comportamento se assemelha ao de um organismo, está escorada nos mais rigorosos princípios das ciências naturais. No entanto, essa noção é contestada tanto pelo humanismo positivista vigente, quanto pelas religiões monoteístas em voga.

Os motivos são semelhantes, pelo menos em sua origem, uma vez que o humanismo parece ser uma variante das religiões monoteístas. Ora, a Hipótese Gaia  concilia o homem com a Natureza, como as primitivas religiões animistas, na medida em que o percebe como resultado da evolução natural e das flutuações climáticas. Para a Natureza, a vida de uma comunidade humana tem a mesma relevância de uma colônia de fungos. Assim sendo, o Homo sapiens devia respeitar a Natureza como o suporte de sua própria existência. Por essa lógica, de que vale converter os insumos da Natureza em energia monetária (riqueza material) até o ponto em que a Natureza não pode mais sustentar a si mesma nem a seus agregados biológicos (como o ser humano)?

Ocorre que para as religiões monoteístas, Deus é um ente provedor que virá em nosso socorro quando o pau pegar. Só que os fiéis se esquecem de que não há, fora de um contexto mitológico, qualquer evidência de que este seja um modus operandi do “grande criador”. Flagelos e cataclismos têm sido recorrentes ao longo da história, indistintamente contra comunidades tementes e comunidades hereges. Deus está se lixando para nossa teologia. Nós, adeptos do monoteísmo, nos conduzimos pela mística do engano, pela esperança equivocada.

Já os adeptos do humanismo, uma espécie de monoteísmo devotado à ciência, querem subtrair o homem da condição natural. Acreditam que com suas máquinas envenenadas poderá o Homo sapiens exercer total controle sobre a Natureza. Acreditam até que se faltar o oxigênio para a respiração poderemos nos virar com algum sucedâneo genérico ou similar. Ou se faltarem os componentes para a produção das manhãs, a ciência as reproduzirá com uma fumigação de Furadan, gelo seco de ácido sulfúrico e reflexo de neon gerado por energia de capim elefante.

Quando seria tudo mais singelo e conveniente prolongar a saga humana sobre a Terra em simplesmente respeitando a Natureza. Respeitando a nós mesmo como parte dela.  Pelo menos a isso nossas teologias arraigadas, técnicas científicas e humanismos positivos deveriam prestar.
     

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