revista bula
POR EM 25/10/2010 ÀS 01:54 PM

Deus, abençoe os nossos crimes!

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O Homo sapiens é um animau tão çinixtro que chega a pedir perdão pelos crimes que não cometeu. No entanto, em rituais festivos, roga fervorosamente a Deus que o abençoe, pelos crimes que de fato comete. Tentarei inicialmente justificar essas afirmativas, não com argumentos lógicos, como tem sido a praxe desta série de artigos. Mas sobretudo com uma cena que presenciei tempos atrás.

Um amigo me convidou para um churrasco na fazenda de um parente dele, que acabava de concluir uma fase importante num empreendimento agropecuário. Fomos, numa manhã de domingo. O local situava-se numa região onde eu conhecia bem e tinha para mim um alto valor afetivo, pois passara por ali a minha infância. Eu me lembrava que era uma paisagem idílica e exuberante. Um grande vale descansado, com campos limpos e arenosos a sumir de vista, entrecortados por riachos, por matas de galeria, matas de cerradão e vargedos de buritizais, povoado pelas araras, com seu festival de cores e gritos que ecoavam nas colinas levantadas aqui e ali, como espiões de torrão. No meio do cenário passava o rio, como que recolhendo em tributo as águas sempre claras dos ribeiros.

De longe já pude perceber os destroços da terra arrasada. O novo proprietário mandara passar tratores de esteira atrelados com correntes brutais sobre a vasta região. Tudo caiu por terra na mesma levada: Cerrados, matas, árvores frutíferas, buritis. Não houve respeito às nascentes, às matas ciliares, aos declives das colinas, à terras úmidas, nem mesmo reserva legal havia, onde a vista pudesse alcançar. Meu amigo me contara antes que seu parente comprara numa região inóspita uma terra de pirambeira e dera aos órgãos de fiscalização do meio ambiente como reserva legal, compensado a que ele não deixara na propriedade.

Era o jovem proprietário daquelas terras um exemplo de vida para todos. Além de um empreendedor entusiasmado, era prestativo à comunidade e temente a Deus. Fazia-se presente aos festejos o pastor do rebanho ao qual o anfitrião pertencia. Na hora que tinha de ser, um pouco depois do meio dia, fomos todos convocados para nos reunir sob uma grande tenda, próxima à casa principal. Havia muita gente, todas muito felizes, expressando votos de sucesso ao proprietário, bem como congratulações ao cheiro bom de carne assada que se espalhava a partir da enorme churrasqueira em forma de vala no chão a céu aberto, no meio do quintal, onde a sombras das mangueiras haveria de alcançar dali a pouco. 

Todos reunidos, o pastor subiu com o anfitrião num praticável estrategicamente montado e concitou a todos a se ligarem nos poderes divinos. Pediu que fechássemos os olhos e começou a ladainha pedindo a Deus que perdoasse a todos nós pelos pecados originais, aqueles cometidos por Adão e Eva, no momento de fraqueza e desobediência em que decaíram no Paraíso. Foi uma oração longa e sentida. Depois passou à segunda parte de sua preleção. Igualmente comovido, exaltou as qualidades do jovem empreendedor, relatou seus feitos, que não eram poucos e concitou a Deus que abençoasse mais aquele empreendimento, cuja apresentação era-nos feita de modo espetacular.

Porque naquele momento, alguém adrede orientado, soltou uma saraivada de fogos, que resvalou pelo vale em devastação. Imediatamente, os funcionários que no eito aguardavam a senha, atearam fogo nos leirões de coivaras juntadas a trator. E o fogo desenhou na paisagem um enorme cocar, ou uma grande coroa redentora, sacramentando alegoricamente aquele feitor de coisas extraordinárias. O pastor febricitado pelo fogo, invocava a Deus num frenesi cada vez maior, para que Altíssimo abençoasse o empreendimento com uma produção vigorosa e farta. As pessoas se emocionavam e grunhiam vivas e urras e já nem sabiam, àquelas alturas, se choravam pela possível remissão dos pecados originais de quando Adão e Eva decaíram no Paraíso, ou se pelos votos de sucesso ao desmatador inveterado. 

Ora (direis) ouvir Estrelas! Certo perdeste o senso e eu vos direi, no entanto (Bilac): Por que haveríamos de pedir perdão pelos supostos crimes cometidos pelos supostos ancestrais? Aliás, é em cima dessa culpa que se funda basicamente o pensamento judaico-cristão. Temos que pedir desculpas e viver bolados por deslizes que não cometemos, ou mesmo cometido por avós distantes que não há nenhuma evidência de que tenham de fato existidos. Essa noção de culpa, esse pecado original, não passa de uma ardilosa estratégia  para os poderosos de todos os tempos manterem o controle sobre seus rebanhos, sobre nós, as massas ignaras. 

Já os votos de augúrios sobre a lavoura do empreendedor inveterado não passa de uma louvação equivocada, que acaba por legitimar um crime de lesa humanidade, desses crimes que não há pena que possa reparar. Até porque, se um dia, as leis dos homens pudessem determinar que aquele desmatador ferrenho recompusesse o ambiente degradado, ele não poderia fazê-lo. Porque segundo os especialistas, o cerrado é um bioma único, constituído numa época de clima singular, num período geológico chamado Pleistoceno. Naquele momento se levantaram do fundo do mar as primeiras terras da América. Aquele clima momentâneo desapareceu e o clima sucessor, que é o nosso, é capaz apenas de manter o cerrado nas condições em que se encontra, sem intervenção. Uma vez desmanchado, não há como refazê-lo, porque não há mais clima sobre a terra que permita tal façanha. 

Portanto, o pastor de almas, e todos nós estávamos ali fervorosamente rogando a Deus que abençoasse o crime bio-hediondo que o anfitrião cometia à vista de todos e com os devidos licenciamentos dos órgãos de preservação ambiental. Esse comportamento obedece cegamente à lógica do mercado financeiro, ao desejo do mercado de consumo, que não se importa em destroçar tudo, de inviabilizar até a vida do homem sobre a Terra, em troca de alguns dólares furados no balanço do fim do ano. 

Em um poema do livro “Enganos do Carbono”, ainda inédito, canto essa situação nos seguintes termos 

Ó não, não me venha dizer agora
que somos fera
que somos o cróis,
o bicho feroz
de outra esfera
que se a firma tiver lucro
respira até atmosfera
de ácido sulfúrico. 

Claude Lévi-Strauss, em seu livro muito citado e pouco lido “Tristes Trópicos”, depois de constatar a ação equivocada do Homo sapiens em seu processo civilizatório, adverte:  O mundo começou sem o homem, e terminará sem ele. 

Nosso propalado intelecto, aquilo que nos faz julgar os preferidos de Deus e diferente da fauna geral, poderia nos prestar pelo menos pra isso: Repensar o nosso desenvolvimentismo e traçar caminhos menos autodestrutivos, antes que seja tarde demais.         

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