revista bula
POR EM 03/08/2010 ÀS 01:35 PM

De bomba atômica e cegueira da ambição

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O Homo sapiens sempre se sentiu ameaçado e ao mesmo tempo atraído por profecias escatológicas. Desde as religiões arcaicas até as cientológicas de hoje em dia, todas, invariavelmente, têm um viés apocalíptico segundo o qual a redenção da espécie há de passar por uma mortandade espetacular e coletiva, seguida de uma prestação de contas da vida terrena e um processo de classificação final: os bacanas serão expostos em regozijo nas vitrines celestiais e os malas lançados nos autofornos do inferno, numa tribulação radical e eterna, sob o olhar vermelho e os adornos cornoicos do capeta. A história que nos contam do dilúvio, seja o de Noé, seja o de Gilgamesh, foi apenas um ensaio, um teste da maquinaria sinistra, uma prévia do que poderá ser um apocalipse em condições pra valer.

O pensamento mágico e exacerbado sempre foi a base dessas profecias catastróficas. Um certo alopramento tem orientado todos os profetas e videntes. São Malaquias, um padre irlandês que viveu no século XI, atrela o fim do mundo com o fim dos papas. Segundo seus intérpretes mais afinados, esse Bento XVI, com seus gestos sestrosos e olhar demoníaco, seria o penúltimo da série papal. Quando este for sucedido, amigos, entraremos na esteira que leva à boca do matadouro. Várias interpretações das centúrias de Nostradamus davam o ano de 2000 como um alvo para a realização de suas previsões macabras. Um dito lapidar de origem incerta e controversa assombrou muito a minha geração de ascendência rural e religiosidade ingênua: o mundo de um mil passará, mas dois não interará. A primeira vez que entendi o que isto queria dizer, foi da boca de minha avó, que já um tanto cansada da vida bradava em tom de alívio e vingança contra todos que supostamente lhe queriam mal. Confesso que perdi o apetite e por algum tempo curti uma depressão lascada.

Exegetas bíblicos, de vários matizes, especialmente aqueles mais focados no dízimo que na salvação eterna, deram também o ano de 2000 como baliza para o desfecho da desgraceira prevista pelo Apocalipse de João. Também os segredos de Fátima, especialmente o terceiro, supostamente (porque é segredo) indicava o final o milênio como referência de um grande atoleiro, onde a humanidade enterraria sua saga.

Essas profecias em geral aventam que a vida na terra seria aniquilada por grandes explosões, por estrelas despencando do céu, guerras, fome, doenças desconhecidas e radicais, e outras proezas dignas do cinema-catástrofe. No final do século passado, com a guerra fria entre russos e americanos podendo esquentar a qualquer momento, com os arsenais atômicos suficientes para moer o planeta diversas vezes, o aparecimento da AIDS, do Ebola e de vários  sintomas de fadiga do clima, essas profecias saíram do mundo da superstição e do assombro popular e  ganharam avais nas rodas científicas e governamentais. Em 1974, o Secretário de Estado Americano Henry Kissinger disse que “a acumulação de armas nucleares tem que ser restringida, se a humanidade não quiser destruir a si própria.” Em 1981 ao se despedir do governo americano, o presidente Jimmy Carter alertou que após um holocausto nuclear “os sobreviventes, se houvesse, viveriam em desespero entre as ruínas envenenadas de uma civilização que teria cometido suicídio”.

Todo o fatalismo apontado para o fim do milênio foi esnobado pelos fatos e a humanidade o atravessou sem maiores solavancos. Nossa civilização respirou aliviada ao furar o sinal dos tempos. Mas não tardou para que outras profecias, como a do calendário Maia que prevê a derrocada para 2012, e mesmo velhas profecias, recalibradas para os novos tempos, viessem ocupar o pensamento mágico de parcela da população, ainda que numa escala bem menor que antes.              

É claro que uma perspectiva escatológica da espécie humana não é de todo disparatada. Basta observar-se a lógica simples das coisas naturais: tudo o que nasce morre, tudo o que começa acaba, tudo o que tem princípio tem fim. (A eternidade, no entanto, é uma grandeza de outra esfera, em que a aritmética humana não pode alcançar, sequer intuir com a mínima nitidez.) As eras geológicas anteriores tiveram começo e fim, mesmo que em escalas extremamente elásticas para nosso senso de medida. Os dinossauros se extinguiram, o império egípcio acabou (apesar das pirâmides) o grego esfacelou (apesar da filosofia), o romano ruiu (apesar dos exércitos), o otomano esfarrapou e o americano já vai indo pras cucuias ou pras panelas dos tapuias. (Tapuias aqui não são aqueles antigos canibais da Terra de Santa Cruz, mas os financistas pitbulls e predadores da geração pós-yuppie).Várias formas de governo surgiram ao longo da história e desapareceram, várias culturas, religiões das mais variadas. Essas que aí estão e parecem empedernidas em suas convicções como o cristianismo, o islamismo o hinduísmo etc. todas elas, sem exceção, desaparecerão um dia, se não desaparecermos antes. Ah! Desaparecerão inclusive os deuses que elas cultuam.

Em A Tabacaria, Fernando Pessoa lamenta: “Ele (o dono da Tabacaria) morrerá e eu morrerei./Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos./A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também./Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,/E a língua em que foram escritos os versos./Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”  O próprio Sol, a maior fonte de energia a abastecer nossos processos de transformação, morrerá um dia. Segundo os astrônomos o Sol é uma estrela de meia idade.  Já queimou seu hélio por mais ou menos 4,5 bilhões de anos e deverá continuar aceso por um período semelhante quando, no estertor, incinerará todos os planetas ao derredor.

Em termos mais práticos e menos remotos, a espécie humana talvez nunca tenha estado tão em risco nos últimos 10, 12 mil anos, depois que o clima da Terra estabilizou em condições propícias para a nossa prosperidade, como agora, neste início de terceiro milênio da era crística. É que as condições de horror atômico aventados por Kissinger e Carter continuam nos espreitando. Não há que se negar que houve distensão entre Estados Unidos e Rússia, no entanto os arsenais nucleares, envelhecendo em seus paióis, continuam quase intactos. (Lembrem-se dos acidentes de Chernobyl e do Césio-137 em Goiânia). Com alguns agravantes: o clube de países detentores da assombrosa tecnologia cada vez aumenta mais; sem contar os malucos individuais ou em facções xiitas que querem a todo custo engastar uma ogiva dessas num homem-bomba e fazer um estrago que supere Bin Laden em seu antológico piquenique de Onze de Setembro nas Torres Gêmeas.

A essa ameaça de que quase ninguém se lembra mais, adiciona-se o risco enorme (e que não para de crescer) provocado por nossa intervenção suicida no meio ambiente. E esse risco é tanto maior quanto mais o chamamos de crescimento econômico, progresso, desenvolvimento social e outros eufemismos. O fato de nos sentirmos confortável com a simples conversão dos recursos fatigados em energia monetária é uma doença social que poderá nos promover a morte coletiva.

Como vimos, o risco que corremos não vem do fatalismo profético nem da ira feroz de um Deus marasmático; mas simplesmente da estupidez e da cegueira da ambição. A não ser que as profecias mais sinistras se valham é justamente desses meios para se fazer cumprir.  

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