revista bula
POR EM 21/09/2012 ÀS 09:38 PM

Tomai e fumai todos vós

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Botina. Dentadura. Óculos. Tratamento ortodôntico. Vale-transporte. Cesta básica. Emprego para um enteado. Gasolina no tanque. Um tanquinho de lavar roupas. Silicone para as mamas. Duas mãos de tinta. Ligadura das trompas. Uma cirurgia de hernia. Câmara de ar para o pneu da bicicleta. Créditos para o celular. Uma banda de leitoa. Aparelho para surdez. Um rolo de fumo. Perineoplastia. Dez sacos de cimento. Um puxadinho. Vestido de casamento. Custas de “adevogado”. Pedras de crack. Pedras de crack?! Sim, pedras de crack...

A estratégia de trocar votos por drogas é inédita, sensacional, uma verdadeira pérola do estratagema político criminal. Senão, vejamos (acompanhem só as engrenagens rangendo na mente de um meliante): imbuído de má fé, maquinando com capetas, comparsas e correligionários da ilicitude, o traficante seleciona um qualquer simpatizante da causa que possua ainda a “ficha limpa”, e ambos coadunam para que este último seja o candidato da região, a fim de — se eleito for — defender no parlamento os interesses do bando. Enquanto um bando de andorinhas voa de uma árvore (Por que será que essas aves atrevidas elegem a caótica atmosfera desta metrópole para desfilar os seus voos? Efeitos inevitáveis da expansão urbana ou pura provocação a este pobre diabo?), eu rumino a notícia da varanda de casa, mais uma vez surpreendido com a capacidade humana de fazer conchavos para o mal.


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POR EM 21/09/2012 ÀS 08:31 PM

Colunistas da Revista Bula entre os finalistas do Prêmio Jabuti 2012

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Os escritores Edival Lourenço e Menalton Braff, colaboradores da Revista Bula, estão entre os 10 finalistas da categoria principal — Romance — do Prêmio Jabuti 2012.

Edival Lourenço, com “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, editora Hedra; e Menalton Braff com “Tapete de Silêncio”, editora Global.

Concorrem livros publicados no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2011. A lista dos finalistas traz nomes consagrados como Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca e Ana Maria Machado.


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POR EM 20/09/2012 ÀS 08:27 PM

Qual a relação entre William Faulkner e John Ford?

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Descubro que William Faulkner, Nobel de Literatura de 1949, está citado no elenco de roteiristas de mais um John Ford, “Ao Rufar dos Tambores”, ou “Drums Along the Mohawk”, de 1939, com Henry Fonda e Claudette Colbert. O site IMDb, que costuma ser completo nas suas fichas, coloca o grande escritor como “não creditado”. Fui atrás, armado de Wikipédia e Google Books (que reproduz páginas remotas específicas sobre o assunto que nos interessa). Leio que Faul­kner esteve presente no início do processo de adaptação da novela de Walter D. Edmonds (maior best-seller da época depois de “E O Vento Levou”, de Margaret Mitchell), sobre o casal de pioneiros na Guerra da In­de­pendência americana. Mas foi considerado muito denso, inapropriado para o que os produtores queriam.

Há um folclore que os pesquisadores demoliram nos últimos anos de que Faulkner sofria em Holywood, o que não é verdade, só em parte, em alguns momentos. Ele ganhava bem, 500 dólares semanais no início, chegando a mil depois de alguns anos. Quatro mil dólares por mês no final dos anos 1930 não eram pouca coisa. Testemunhos confirmam que Faul­kner levava a sério os encargos dos scripts, apesar de ter tido dificuldades, pois não se sentia à altura do que esperavam dele. Chegou a sumir por uma semana logo depois de ter sido introduzido numa sessão exclusiva em que se decidiam os rumos de um filme.


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POR EM 19/09/2012 ÀS 08:10 PM

A ética de Don Corleone

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É plausível considerar que as duas narrativas iniciais de Francis Ford Cop­pola sobre a família Corle­one estão entre as melhores criações cinematográficas do mundo. O plano detalhe so­bre a mão do “Poderoso Pa­drinho” que afana um gato enquanto ele ouve atentamente as queixas da comunidade ítalo-americana, denotam, na mesma mesa, dois planos do enredo sofisticado do livro de Mario Puzo: o senso de justiça na terra nova e a ética brutal da máfia.

As tomadas frontais que se sucedem no mal iluminado escritório de Vito Corleone são a materialização visual dos conceitos filosóficos da teoria base de Emmanuel Kant sobre a razão prática e a liberdade. Usando a condição representativa de patriarca e núcleo da célula familiar que ele considera vital à continuidade moral e material de sua “profissão”, Vito transita – ora por um ou pelo outro – nas três interpretações do imperativo categórico.

Quando dá lições aos filhos que se desprendem dos caminhos de sua fundação normativa, Vito crê que, mantendo todos sobre seu raio de influência, eles trilharão a lei universal do poder. É assim com Santino Sonny (James Caan), uma das esperanças de Vito para restabelecer a paz entre as famílias sicilianas, e Michael Corleone (Al Pacino), o instruído oficial da Marinha que havia servido a América na guerra contra Hitler e Mussolini.


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POR EM 18/09/2012 ÀS 04:58 PM

Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, de Paulo Guilherme

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É consensual que o maior goleiro da história do futebol brasileiro é Gil­mar dos Santos Ne­ves. Com Pelé fazendo os gols e Gilmar impedindo os gols dos adversários, o Santos ganhou títulos nacionais e internacionais, tornando-se um dos primeiros times galácticos. Na seleção era a mesma coisa: o Brasil tornou-se bicampeão com Gilmar e Pelé. Ele foi “eleito pela revista francesa ‘Paris Match’ o melhor goleiro da história do futebol mundial”, diz o jornalista Paulo Guilherme, autor do excelente livro “Goleiros — Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1” (Alameda, 285 páginas). Sim, superou o soviético Liev Yashin, o Aranha Negra. Como era um gênio das traves, autor de pontes admiradas em todo o mundo, Gilmar era apontado como quase insubstituível. Porém, como estava “velho” e quase sempre machucado, a seleção de 1970 precisava de um “grande” goleiro. Havia Félix, que se consagrara no Fluminense, mas tinha 32 anos e “apenas” 1,76m. “Velho” e, para os padrões mesmo nacionais, “baixo”. Félix morreu há duas semanas, aos 74 anos.

Ao assumir como técnico da seleção, João Saldanha bancou Félix. Nas eliminatórias, em seis jogos, o goleiro sofreu apenas dois gols. Mas o mesmo Saldanha o afastou quando a seleção perdeu para o Atlético Mineiro por 2 a 1, alegando que não era robusto o suficiente para enfrentar os fortes atacantes europeus. Ado, alto e com pinta de galã, “ga­nhou” a vaga. Entretanto, com Zagallo no comando técnico, como substituto de Saldanha, Félix foi reintegrado à equipe e se tornou titular. Zagallo ficou com sua experiência. Ado tinha 24 anos e Leão, quase 21.


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POR EM 17/09/2012 ÀS 09:23 PM

Sho­sha, de Isaac Bashevis Singer

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Todo romance é sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra “Sho­sha”, de Isaac Bashevis Singer, lançado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Prêmio Nobel. A linhagem é conhecida. “O Qui­xote” que se debruça sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes é o exemplo canônico da ficção com autoconsciência. O jogo não tem fim e chegou ao auge com as experiências do século 20, de James Joyce a Guimarães Rosa.

Mas, longe de ameaçar a sobrevivência da arte, monumentos da conflagração literária como “Ulisses” e “Grande Sertão” be­beram na fonte dos clássicos, sinal de que a criação literária, há tempos, alimenta-se da reflexão sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas “Mil e Uma Noi­tes”, o núcleo do drama não são as histórias contadas por Sherazade, mas sim o fato de contá-las, o que representava a anulação da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro é o confronto entre o contador e o ouvinte fictício. O objetivo é nobre. A arquitetura da narração, por mirar-se no espelho, torna-se real, só para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois não existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagunço. Esse é o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a essência da produção de um escritor de verdade.


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POR EM 16/09/2012 ÀS 07:21 PM

40 frases mal-humoradas e venenosas

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Publico nesta edição uma seleção de 40 frases célebres de personalidades de díspares perfis, nacionalidades e épocas — venenosas, mal humoradas, engraçadas ou cruéis —, as frases revelam o olhar preciso e ferino de seus autores sobre os temas abordados. A autenticidade de cada frase foi checada para não incorrer nos risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria. A seleção traz nomes como H. L. Mencken, Ambrose Pierce, Ernest He­mingway, Nelson Ro­drigues, Voltaire, Paulo Francis, Otto Von Bismarck, Woody Allen, Robert Benchley, J. Pierpont Mor­gan, Simone de Beauvoir, além provérbios e frases autorais, que foram emprestadas às personagens e obras por intermédio de seus criadores.


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POR EM 16/09/2012 ÀS 07:05 PM

Brasil precisa editar obra-prima de Vasily Grossman

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Está passando da hora de editar no Brasil o livro “Vida e Destino”, do escritor ucraniano Vasily Grossman. Traduzo um trecho: “Entre milhões de casas russas não há nem haverá nunca duas exatamente iguais. Tudo o que vive é irrepetível. É inconcebível que dois seres humanos e duas roseiras sejam idênticos... A vida se extingue onde existe empenho para apagar as diferenças e as particularidades por intermédio da violência.” Grossman teria sido o primeiro a reportar a existência dos campos de extermínio nazistas. Stálin, adepto das teorias conspiratórias, proibiu o livro e confiscou os originais. Não satisfeito, recolheu até as fitas da máquina de escrever do escritor-jornalista.

Stálin, político astuto e atento, percebeu logo o potencial subversivo da obra. Ao falar dos campos de concentração dos alemães, Grossman estava, indiretamente, questionando o Gulag soviético. A conexão, feita por Stálin e seus pares comunistas, não estava de todo errada. O livro não faz apologia do anticomunismo, mas critica a ideia de que é possível construir uma sociedade de iguais, e à força — um dos postulados do stalinismo. O livro do autor russo-ucraniano é um libelo a favor do homem, da liberdade. Direta ou indiretamente, portanto, contra o comunismo. Grossman morreu em 1964, no ostracismo, e não pôde ver seu livro publicado, como Mikhail Bulkágov e seu romance “O Mestre e Margarida”. 


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POR EM 14/09/2012 ÀS 07:58 PM

A epopeia de nossas depravações numa ilha deserta

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Philip Roth

A Publifolha lançou em 2003 um pequeno livro, “Ilha Deserta: Livros”, no qual sete escritores — Bernardo Ajzenberg, Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Manuel da Costa Pinto, Maria Rita Kehl, Moacyr Scliar, Nina Horta e Nuno Ramos — escolhem e comentam os dez livros que levariam para uma ilha deserta. E houve também um livro sobre discos (“Ilha Deserta: Discos”) e outro sobre filmes (“Ilha Deserta: Filmes”, é claro). O livrinho, de leitura rápida e saborosa, me fez imaginar quais livros eu levaria a uma ilha — e também me torturou: como levar apenas dez?

Pensar em livros que sejam indispensáveis numa ilha deserta é pensar em listas, e há sempre quem reclame da ideia de fazer listas de “melhores”. São uns chatos: a leitura de qualquer lista é uma das grandes diversões de um adulto, figurando entre assistir a desenhos animados e jogar “War” numa lista — mais uma — de melhores atividades. E ninguém, quando convidado a fazer a sua listinha, se furta à tarefa. Dou um exemplo: o livro “The Top Ten: Writers Pick Their Favorite Books” é uma grande coletânea de listas de melhores livros feitas por dezenas de escritores. Estão no livro alguns craques: Paul Auster, John Banville, Julian Barnes, Michael Connelly, Paula Fox, Jonathan Franzen, Norman Mailer, Joyce Carol Oates, Francine Prose, James Salter, Tom Wolfe. (Uma curiosidade: A.L. Kennedy colocou “Sargento Getúlio” em nono lugar e Michael Griffith listou “Dom Casmurro” em sétimo.)


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POR EM 14/09/2012 ÀS 12:13 PM

Eu gosto de ler Paulo Coelho, de tomar injeção e de comer jiló

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"Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva, nem gosto de sol" (Tom Jobim)

Eu gosto também de me resfriar com as chuvas de verão. Gosto da coriza, dos 40 graus de febre, de curtir ressaca brava e de preparar fumegantes chás de boldo. De amarga, já basta a vida? Ao contrário das seriemas e do resto da humanidade, eu gosto das cobras (porque, como eu, elas engolem sapos).

Eu gosto de votar em políticos que adesivam o meu carro com fotos, números e slogans, que encham semanalmente o tanque de gasolina, e que coloquem créditos no meu aparelho celular. Eu gosto de acordar bem cedo no domingo e votar no primeiro candidato cretino que me venha à mente. Bom mesmo é vender o voto. Eu gosto de desfazer planos para o futuro, entende?

Eu gosto de provocar indignação, de gerar dúvidas. Eu gosto de contrair matrimônio e dívidas. Eu gosto de adoecer só para ler as bulas de remédios. Eu gosto de atestados médicos. Eu gosto de remediar. Eu gosto de furar qualquer tipo de fila, desde que não sejam filas da puta, nem filas para as câmaras nazistas para extermínio. Eu gosto do atual salário mínimo. Eu gosto de levar susto. Eu gosto do atendimento do SUS. Eu gosto de hospitais, do cheiro do éter, de viajar na maionese, ser acometido por colônias de salmonelas e pensamentos inovadores. Eu gosto das dores do parto. 


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