revista bula
POR EM 25/03/2008 ÀS 11:15 AM

O primeiro homem

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Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico. 

Apesar disso, eu vivia suplicando a papai que arranjasse outro cãozinho. Ele se afobava, dizia um não áspero, dava desgosto ver um animal de estimação, criado quase como filho, ser atropelado por esses malucos. Eu cuido bem dele, tranco o portão, não o deixo sair para o meio da rua, eu insistia.
 
No meu aniversário seguinte, minha grande alegria: um cachorrinho de presente, com fitinha e tudo, comprado por não sei quanto. Taí o moleque, disse papai, cheio de sorrisos e abraços. Vinha com bafo de bebida, olhos brilhantes, mãos pesadas, outro, a boca entupida de sins.
 
Em verdade, o velho era louco por cães e já não resistia ver a casa vazia, sem um latido. Durante toda a festa me abraçou e beijou mais duas ou três vezes e o novo hóspede só faltou não largar mais. Como se fosse pai pela primeira vez.
 
É esse o nome dele? perguntei, irritada, a certa altura dos carinhos. Moloque é mais bonito, apressou-se mamãe a propor, ignorante do que dizia, eu soube depois. Batizei-o ali mesmo, com guaraná. E não o larguei mais, toda dedicada a banhá-lo, mimá-lo, beijá-lo, como o fazia com as bonecas já esquecidas a um canto. Ele me olhava bem no fundo dos olhos e parecia querer dizer alguma carícia, botava a linguazinha para fora, cheirava-me toda, mordia-me, carinhoso.
 
Passava da hora habitual de dormir, quando fui para meu quarto, sonolenta e cansada, e lá foi ele a me seguir. Mamãe, porém, não permitiu que dormisse sequer ao lado da cama, quanto mais junto a mim. Onde já se viu isso, menina? Ou você não estudou higiene? E fez um sermão daqueles, como se não estivesse sido dele a iniciativa.
 
Perdi o sono por instantes, zangada com a injustiça de mamãe, e fiquei a ouvir o coitadinho ganir. Parecia um choro de dor. Penalizada, imaginei que o deixariam dormir no sofá da sala, pelo menos. Papai não iria obrigá-lo a passar a noite ao relento. E quando todos estivessem sonhando, ele voltaria para junto de mim e teria minha cama onde pudesse repousar da viagem, do batismo e da festa. Para tanto, deixei a porta do quarto entreaberta.
 
Ainda não dormia, as imagens conscientes misturando-se às do sonho em formação, quando ouvi uma leve pancada na porta. Não me mexi nem abri os olhos. Preferi acreditar que aquilo fizesse parte do que eu engendrava no cérebro: Moleque saltava para a cama, cheirava-me o rosto, puxava os lençóis, metia-se entre meus braços, à cata de calor...
 
Com pouco, senti um corpinho macio roçar-me os pés, cheirá-los, lambê-los. Arrepiei-me toda, sensível com sou ao mais delicado toque. Tentava abrir os olhos, mover-me, mas não conseguia, entorpecida. Não que passasse por minha cabeça tratar-se de uma pessoa humana. Não, eu tinha certeza de que ali estava o Moleque. Sobretudo porque entre eu e ele não havia nada. O danado conseguira meter-se não só debaixo do lençol, mas ia varando, pouco a pouco, a roupinha frouxa que eu vestia. Alcançou-me as pernas, a seguir, e eu mais me arrepiei. E foi escalando meu corpo, à procura de carnes mais macias, de um travesseiro onde pudesse dormir sem se torturar. E chegou às coxas e lá se concentrou por não sei quanto tempo.
 
Garanto que ainda não dormia, mas forças não tinha para reagir, retirá-lo dali, colocá-lo ao meu lado ou até deitá-lo fora da cama. Mesmo quando seus dentinhos me desceram as calcinhas.
 
Foi uma operação tão perfeita, carinhosa, doce que não pensei em outra coisa senão em sua inocência. Ora, ele, de certo, achava que eu me sentiria melhor nua. Ou o tecido lhe era áspero, desagradável, quem sabe?
 
Eu ainda não tinha pêlos na vulva e aquela língua morna lambendo-me a pele fez-me estremecer.
 
Em verdade, eu gostava de passar a mão sobre essa parte do corpo quando me deitava para dormir. Uma sensação tão boa que eu logo pegava no sono. Também durante o asseio eu costumava fazer isso, mas pensava em pecado, ficava triste e terminava arrependida.
 
Mas o pior aconteceu na casa do vizinho. Eu ia sempre lá brincar com uma coleguinha que tinha um irmão. Brincávamos os três, de tudo, boneca, esconde-esconde, manja, carrinho. E ele andava sempre me chamando para os quartos escuros, tirava minha calcinha, alisava minha pequena boceta, encostava a piroca e dizia que era meu marido. Mas nunca enfiou nada, só fazia pegar, cheirar, coisa sem importância.
 
Voltando àquela noite, depois das primeiras lambidas, abri, instintivamente, as pernas, doida para que aquela língua penetrasse em mim. Digo doida, mas não agia conscientemente. Para mim estava sonhando. Seria uma espécie de limpeza, já que durante toda a festa eu havia bebido muito guaraná, urinado várias vezes e não me lavara, apesar das constantes advertências de mamãe.
 
Mas, estranhamente, ele parou de me lamber e deitou-se sobre minha barriga. Encostou a cabecinha perto de meus peitos, estirou as mãos, como se me abraçasse, e a piroca, dura, forçava a entrada de minha já inflamada bocetinha. Vai e vem, senti dor e prazer misturados, não sei se gritei, se gemi, se chorei. A coisa entrava com força, dilacerando, rasgando, queimando minhas entranhas. E eu morria de gozo, de um prazer nunca sentido.
 
De manhã, sangue nas pernas, na cama, nos lençóis, uma dor enorme no pé da barriga e nada de Moleque.
 
Se você não quiser acreditar em minha história, pior para mim, mas juro que você é o primeiro homem.

 

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POR EM 25/03/2008 ÀS 11:10 AM

Entre o egoísmo e o altruísmo

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O planeta gira, os dias passam e a realidade vai tomando um formato mais agressivo e inóspito para as pessoas. 
 
Basta olhar para os lados para perceber que os indivíduos tornam-se, a cada dia, mais e mais egoístas, mais e muito mais orientados para a busca e o atendimento de seus interesses imediatos, exclusivos, indiferentes ao próximo, utilizando o outro como mero instrumento, escada ou alavanca.
 
O termo ‘egoísmo’ provém do latim. O radical ‘ego’, eu, primeira pessoa do singular do pronome pessoal latino, e significa algo como amor de si mesmo. Freud adotou o termo ‘ego’ para caracterizar a entidade de que se tem experiência interior, uma integração de percepções sentimentos e pensamentos.
 
De ‘egoísmo’ derivam, por exemplo, os vocábulos ‘egocentrismo’, que designa aqueles que fazem do próprio ego o centro de seu universo; e ‘egotismo’, utilizado por Stendhal para denominar um tipo especial de estudo, o autobiográfico, aquele em que o escritor se debruça para analisar a própria individualidade física e mental. Mas ‘egotismo’ significa também um egoísmo mais refinado, de certa forma o culto narcisista de si. 
 
Até mesmo o veneno da cobra, quando dosado e aplicado na medida certa, pode salvar e curar enfermidades ao invés de matar. Assim é o egoísmo. Na medida certa é proveitoso, benéfico, salutar, por representar em cada um de nós uma tendência inata de nos preservar e, sobretudo de crescer, evoluir, progredir, nos desenvolver. 
 
Mas o sentido moral da palavra aponta para uma direção bem diferente. Um sentido em que só o que vale e importa é o amor exclusivo ou excessivo a si mesmo, pouco ou nada importando os interesses do próximo. E este é o sentido que parece ter fincado âncoras nas sociedades modernas.
 
Com o egoísmo sendo cultuado e elevado ao ápice do exagero, tudo passa a ser permitido e estimulado. O que importa é chegar ao outro lado do rio, ainda que pisando, asfixiando e afogando todos ao redor. Nada, rigorosamente nada deve ser obstáculo para que os objetivos sejam conquistados na tão conhecida cantilena de que os fins justificam os meios. Não há limites nem escrúpulos, tudo passa a valer: a mentira, a traição, a conspiração,... Os valores que imperam são a ambição e a inveja. Neste contexto, o outro é sempre um obstáculo, um eterno adversário, um ameaçador concorrente, um perigoso competidor, jamais um colaborador, um leal aliado, um companheiro. Nada de divisão, de solidariedade, de compartilhamento, pois implicaria em acumular menos, em defenestrar o benefício próprio.
 
Se nesta extremidade o mar é turvo e revolto, na ponta oposta, mares serenos de águas claras e cristalinas dão guarida ao vocábulo ‘altruísmo’, um contraponto capaz de resgatar a virtude e as possibilidades de viver em comunhão, uma palavra aveludada e sonora a confrontar com a sequidão e acidez do termo ‘egoísmo’.
 
Altruísmo também provém do latim, da raiz ‘alter’ que significa precisamente ‘outro’. Designa o que preocupa e se interessa pelos outros, jamais negando auxílio e ajuda, sendo capaz de abrir mão de seus próprios interesses. Numa extremidade está o egoísta, e na outra, oposta, o altruísta. Se a característica do egoísta é mentir, trapacear, embair e enganar para levar vantagens pessoais; a do altruísta é a generosidade, a nobreza, o amor ao próximo, o caráter reto. É um valor que não cai do céu, não brota em árvores, e não se encontra no mar. Mas que se forja no dia a dia, desde a tenra idade, desde a primeira infância, à medida que crescemos e amadurecemos para a vida.
 
Os pais devem atinar para a importância de incorporar este valor à personalidade dos filhos. É impossível alcançar a felicidade individual e familiar mantendo-se distante, indiferente ou refugando este valor de todo fundamental para a saúde espiritual e social.
 
De igual modo, as escolas devem assumir um compromisso explícito de trabalhar mais amiúde esta questão, não só através do ensino formal, mas, sobretudo inserindo esta reflexão nos jogos educativos, e nas atividades lúdicas e artísticas. Porque uma sociedade progressista, fraterna e solidária, onde as oportunidades estejam ao alcance de todos, só se desenvolve de forma sustentável quando conduzida e composta por indivíduos altruístas.

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POR EM 25/03/2008 ÀS 11:07 AM

A escada que leva ao céu

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Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a sorte de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres - “Televisão é máquina de fazer doido” - comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

Conheço muita gente que nos continua merecendo o maior respeito e que confessa honestamente não ter lido A divina comédia. Pode ser uma deficiência cultural,jamais um defeito humano. Mas nossas apresentadoras, as tais heroínas, não sabem disso.
 
A palavra “comédia”, nos séculos XIII e XIV, quando Dante viveu, não significava o mesmo que hoje. Transcrevo de um prefácio de Hernâni Donato para uma edição brasileira da Divina Comédia, o seguinte: “’cômico’ designava o estilo preferentemente adotado para tratar assuntos em que ao sublime se combinasse o trivial; o religioso ao profano; o alento ao desalento, enfim a contradição que é o homem governado por sentimentos e paixões”. Em outros autores encontra-se a palavra “comédia” com o sentido de narrativa com final feliz em oposição à tragédia, invariavelmente com final catastrófico.

Ora, minha cara apresentadora, ninguém ri das terríveis descrições do inferno, sobretudo nesta, que é a primeira concepção concreta, visual, do lugar que, segundo alguns, está cheio de boas intenções. E que dizer do purgatório, ou limbo, para onde, entre outros, foram enviados todos aqueles que viveram antes do cristianismo? Você riria do paraíso ao ver o êxtase em que mergulha o poeta ao subir até o último círculo, onde se depara com a luz perfeita, com a bondade sem mácula?

Não, por aqui, na Botocúndia temos o hábito de rir de tudo. Rimos até do céu e do inferno, principalmente quando queremos fingir que lemos um livro.

Só pra terminar, e lembrando uma entrevista recente de Umberto Eco: o inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos. E quem não os tem? A coisa amarela no limbo e se santifica no céu. A Beatriz, como imaginá-la a mulher amada, aureolada de luz da santidade? Com o rosto geralmente voltado para o alto e os olhos cravados no Ser Perfeito? E os círculos de anjos luminosos que ora dançam, ora cantam, tudo sem defeito algum?   

Não tenho notícia a respeito das convicções do Umberto Eco (assim mesmo, sem o “h”, como se escreve em italiano) a respeito de religião. Talvez seja ateu e, por isso, não deseje o céu nem tema o inferno. Lembro-me de que declarou sua preferência com um sorriso bastante malicioso. O que me parece indiscutível, entretanto, (pelo menos foi a impressão que me causou) é que o julgamento do mestre prende-se apenas a uma avaliação poética.

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POR EM 25/03/2008 ÀS 10:53 AM

Um projeto, duas análises e uma lei

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Faltam ainda dois anos para terminar o governo Lula. Com efeito, este artigo está seriamente comprometido, embora seja testemunhal. Paciência! Se é certo que não me favorece a distância – tampouco a isenção – para emitir um juízo histórico, nem por isso deixamos de ter uma opinião.

Opinião, para ir ao ponto, de como Lula poderá ser avaliado quando o seu período for visto em perspectiva, como um lava vulcânica resfriada. Pode soar exagerado, mas já foi mais ou menos assim: a coisa era quente, o PT era um caso de paixão, o único partido no Brasil que tinha uma torcida organizada. Quem não se lembra? Quem, do contra, não teve medo da onda “comunista” de 89? Quem, na trincheira oposta, não imaginou um cenário de caos e baderna, se o Caçador de Marajás perdesse? Já do lado da estrela solitária, era mais ou menos assim: haveria um antes e um depois de Lula, na história do Brasil. Sua vitória eleitoral sufragaria um marco, um corte profundo, algo proporcional ao que fez Getúlio Vargas – só que ao lado (não apenas em benefício) dos trabalhadores. Um passo além.

Penso que Lula realmente acabará sendo lembrando como Vargas, não pela proporção de sua eventual “revolução”, mas pelo lado que se pôs e pelos benefícios concedidos aos mais pobres. Como o “pai dos pobres”, se aliou à elite nacional – não importa se porque “conquistou o poder mas não a sociedade”, se em função do processo político brasileiro e, portanto, em função das necessidades de coalizão e governabilidade. Aliás, nesse aspecto, Lula repetiu FHC e amargou o escândalo do mensalão. O líder e seu partido não têm mais nenhuma semelhança com Lula e o PT de 89: se ganhassem naquela conjuntura, realmente seria uma experiência diferente, ainda não comunista – muito, muito longe disso – porém talvez mais radical do que hoje e quem sabe fracassada. E quem disse afinal que não se fracassou após a vitória de 2002? A ruptura operada por intelectuais históricos (Chico de Oliveira, Octavio Ianni, Frei Betto etc.) e o expurgo de ex-militantes e parlamentares diz que sim, ao passo que os “heróis da resistância” garantem que não. Daí certa esquizofrenia, o impasse, a névoa.

O momento de fato não favorece uma avaliação consciente, uma resposta satisfatória. Porém, julgamos que no futuro impor-se-ão duas maneiras de se avaliar a trajetória pessoal de Lula e, de resto, de seu partido (que, quer se admita ou não, se confunde pouco republicanamente com seu líder maior). Em perspectiva histórica, será talvez o melhor governo que teve a classe trabalhadora, apesar de tudo. Excluindo Vargas, não recordamos outro presidente que tenha colocado tanto o Estado a serviço dos mais necessitados. É uma realidade. E com uma vantagem: faz isso dentro da normalidade democrática. Juscelino é uma legenda, mas foi homem de elite, praticamente ignorando, por exemplo, os trabalhadores rurais, a quem não levou os benefícios da CLT. É um mito (se a definição ainda faz sentido) burguês. Quanto a Jango, bem que tentou, mas não teve tempo nem habilidade para incluir a maioria dos brasileiros. Quanto aos demais presidentes do país, sabemos que se dividiram entre oligarcas e direitistas, sem a mínima identificação popular e com tendências fortemente autoritárias.

A segunda maneira de se avaliar Lula e o PT, no futuro, não é tão otimista quanto essa, e talvez sirva mais ao consumo da militância partidária, embora tenha igual importância histórica. É a avaliação que põe em evidência o discurso e a retórica programática, em face do governo. Nesse caso, é inevitável o choque entre o que foi dito antes e o que efetivamente se faz, depois; entre a promessa socialista e a adesão ao projeto, não acreditamos que neo-, mas ainda assim liberal e capitalista: está aí o vultoso lucro dos bancos para confirmar – lei do mercado. Enorme contradição, de que aliás é vítima toda utopia, em qualquer parte do mundo. É a velha história: quem chega ao poder tende inevitavelmente a conservar. Não há locomotiva revolucionária que resista aos freios do poder.

Não sabemos aliás o que foi feito da história nos dias de hoje – dizem que acabou – mas surpreendemos ainda, aqui, uma lição dos antigos: a de que a história possui leis (estranhíssimo dizer isso em 2008!). Razão, três estados, espírito, luta de classes... – essas e outras abstrações foram chamadas de leis, no passado. Aderir ao conservadorismo assim que se chega ao poder é talvez uma lei, porém uma lei mais concreta, mais palpável - e nada filósófica, posto que pragmática. É a lei que posterga os sonhos em nome da “viabilidade". Viabilidade do quê?
 


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POR EM 25/03/2008 ÀS 10:46 AM

Mais peripécias

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Depois dos 45 na cacunda, lá em Saracutópolis, João Vianei, pai de três filhos, deu de matutar as diferenças entre as brincadeiras dos meninos de ontem e de hoje, nesse caso defendendo seu lado, as diversões de antigamente, para ele muito mais saudáveis, menos violentas e mais ingênuas. Primeiro que pipa não tinha cerol, brincava-se para deliciar o vôo, uma rabiola bonita. Era um festival, na verdade. Hoje o povo tem de se cuidar para não ser degolado por uma linha.
 
Os meninos de hoje precisam ser levados para todos os lugares, pela insegurança de andar de um lado pro outro. Antigamente, nas férias, menino saía de manhã e voltava de noite, vadiando o tempo todo, só ia em casa pra comer e cagar. Onde se vê hoje menino se juntar pra fazer campeonato de punheta?, ver quem tem mais gala?, ver quem goza primeiro?, contar o pecado contra a castidade para o padre depois?
 
Vianei se lembrou da vez em que seu pai curtiou daqui e de lá, na moita, e o pegou em lutrimento com uma bezerra, na manga de Onofre. Queita, siô! Ô suplício. E o sermão: “Meu filho, por que a vaca,  por que a vaca, meu filho?” Foi uma chacota só no meio dos colegas.  Os meninos de hoje se reúnem à frente de um computador, conectando-se com o MSN, batendo papo, falando das novidades de um jogo assim e assado, dos novos vídeos do Youtube, da azaração de uma gatinha virtual.
 
João Vianei e sua turma pulavam muros de madrugada, roubavam uma ou outra galinha no quintal alheio para fazer farofa mais tarde, no simplório deleite da pior malandragem da época e que rendia causos e mais causos no futuro. Como da vez em que derrubaram o muro da cada das Patury e tiveram de se ver na delegacia, levando aos pais o constrangimento de ter de pagar tijolo por tijolo, a mão-de-obra e a galinha.
 
Coca cola não existia. Os mais abastados tomavam KiSuco e um Guaraná de vez em quando, quando tinha uma baita comemoração na família. Também nem televisão havia e o mais próximo da tecnologia que pintava era um bang bang em tecnicolor no cinema. IPode, wireless, Wi Fi, on line, softwere, computador, celular e o escambau nem em sonho.
 
O menino de antanho se cacifava aos 15,16 anos com uma suculenta gonorréia, adquirida no cabaré, geralmente com uma puta senhora ou senhora puta das mais experientes, de 50 anos de idade pra cima. Era de lascar, mas não de matar como hoje com a aids e as correlatas. Gonorréia era moeda de quilate nas discussões dos machos.  João Vianei contabilizava duas dessas, uma mula e um cancro mole. Via disso já protagonizou três insidiosas dedadas médicas na cavidade anal, com direito a vaselina e a massagem na próstata. Admite, no entanto, que nesse assunto hoje é muito melhor para os meninos, com esse negócio de ficar com uma aqui, outra ali, namoriscando e beliscando o prazer. Para ele, há ainda muito mais o que contar e comparar. 

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POR EM 24/03/2008 ÀS 02:27 PM

Espelhado de céu muito sereno

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Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.
 
Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido.
 
Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale.
 
Enquanto o primeiro livro não chega (ainda é para este ano) Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 anos da UNICAMP, quando teve o seu conto “O Funil” incluído no livro “CONTOS – UNICAMP ano 40” (Editora da Unicamp,2007).
 
Ambientado num vilarejo qualquer, às margens de um rio qualquer, da memória do autor, o conto nos fala de companheirismo e perdas. Conta a história de Suzana, viúva de Orlando, e a do seu cunhado, José, na incansável busca para encontrar o irmão que fora tragado pelo rio quando nadava de volta para canoa, após recuperar a sua vara de pesca que caíra na água.
 
Narrada em terceira pessoa, intercalada por idas e vindas, irrompendo, às vezes, o discurso direto e o discurso indireto livre. O tempo narrado compreende quatro dias na vida dos personagens, desde a Sexta à tarde, quando Orlando caiu no rio, o Sábado e Domingo de buscas, até Segunda feira, quando o corpo foi encontrado.
 
Já de início, pode-se ver a força narrativa de Jádson, as belas imagens com que trabalha, consubstanciadas pela força lírica do seu texto. Como se pode conferir neste trecho:
 
“José havia remado a tarde inteira, por mais de dez quilômetros, rio abaixo, e também havia procurado ao longo do delta, nos baixios e nos remansos e agora estava exausto. Subia a ladeira que dava no vilarejo, onde uma lua gorda, amarela, nascia atrás da colina da igreja. Quando passava, as pessoas olhavam-no em silêncio, e José as cumprimentava e baixava a cabeça e as pessoas também baixavam a cabeça. Era um coro só, o coro do silêncio. José vinha adoecido daquele crepúsculo rápido e sangrento, daquele fim de inverno chuvoso, que ainda repercutia no horizonte em forma de relâmpagos esparsos.(...)”.
 
Com assomada capacidade perceptiva Jádson Barros Neves consegue, pela plasticidade de suas imagens, compor a atmosfera propícia para o fato narrado, como quando descreve a velha casa onde moram José e Suzana e, outrora, Orlando:
 
“A casa onde ela morava era velha, pintada de um amarelo corrompido pela ação das intempéries e descascada pelo sol. Esquecida, quase abandonada há anos, suas duas portas, suas três janelas fechadas, com fendas na madeira, guardando o silêncio e a poeira de muito tempo de esquecimento”.
 
Assim como a descrição encimada, muitos outros belos trechos são marcadamente inesquecíveis, como o que segue: 
 
“Ela concordou mais uma vez com a cabeça e José foi fechando os olhos lentamente, contemplando a imensa lua amarela que sangrava perto da janela e lembrando do quanto era bonita a chuva no delta. Vira-a à tarde, uma cortina escura, que cavalgou escurecendo o horizonte”.
 
Percebe-se aqui, pelas passagens lidas e superficialmente analisadas, o pleno domínio da narrativa curta por Jádson Barros, a primazia com que tece as tensões nas suas histórias, sempre carregadas de muita reflexão e humanidade. Um voltar-se sobre si mesmo, revelando e encobrindo, causando no leitor a vontade de seguir adiante, como bem nos ensina Wendel Santos:
 
“O conto forma-se sob o anseio de duas tensões: o de revelar e o de encobrir. Tais tensões podem compor-se de modo o mais diverso. Há o conto que alterna revelação e encobrimento; há o conto que, de início, revela um mínimo suficiente para despertar a curiosidade leitora e, em seguida, numa ordem de crescimento constante, encobre seu objeto até o ponto em que é necessário outra vez revelá-lo(...)”
 
Jádson sabe muito bem do que fala Wendel Santos. Ele tem pleno domínio da técnica e da arte da escrita, sem falar no seu apurado senso estético. Adentrar a sua obra é permitir-se participar desse jogo, dessas tensões, para uma jornada de acontecimentos. O leitor está convidado a conhecer mais de perto o poder criativo deste autor tocantinense, que, sem medo de errar, faz parte do que de melhor há na Literatura Brasileira. Boa leitura!.
 
 

*Título tomado de empréstimo

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POR EM 24/03/2008 ÀS 02:26 PM

Grau

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O solitário homem do parque estava feliz. Finalmente atenderam seu pedido e lhe trouxeram um animal para cuidar. Um ganso.
- Sabia que você fede um bocado? Deve ser algum tipo de glândula, sei lá.
- Grau - respondeu apenas o ganso.
- Como grau? O que é que você quer dizer com isso?
 - Grau - repetiu o ganso.
- Sei. Quer dizer que sou obrigado a entendê-lo, por circunstâncias?
- Grau, grau.
- E o que quer dizer isso duas vezes? Sim? Ou não? Quer dizer que sim, que você concorda que eu devo entendê-lo, dadas as circunstâncias, ou não, que não passa de uma bobagem? Diga alguma coisa.
- Grau.
- Sei. E isso quer dizer “sim”.
- Grau, grau.
- Eu não perguntei se queria dizer “sim”. Eu afirmei.
- Grau.
- E você está se lixando?
- Grau, grau.
- Agora eu perguntei.
Nesse momento, o ganso voltou sua atenção para uma criança que passeava pelas proximidades do lago, segurando distraidamente um saco de pipocas doces. Seguiu-a por uns momentos, mas logo desistiu, voltando para onde estava o homem do parque.
- O que é, não gosta de pipocas doces? - perguntou o homem, sentindo a decepção do animal.
O ganso abaixou a cabeça. Mas não estava triste; vira um pedaço de pipoca - desta vez salgada - no gramado onde estava, e o apanhou com o bico.
- Gosta mesmo disso, hein?
- Grau, grau.
“Mas que coisa”, pensou o homem, e, irritado, perguntou:
- Que diabo é isso de grau?
- Grau.
- Já sei. Grau e grau, grau. Você é um ganso, não uma gralha. Por que grau?
O ganso não deu atenção ao homem. Achara outro pedaço de pipoca salgada na grama.
- Estou falando com você.
- Grau - disse o ganso, distraidamente, talvez para tranqüilizar o homem.
- Grau, ou grau, grau?
- Grau - respondeu o ganso.
- Ah. E isso quer dizer o quê, exatamente? - perguntou o homem, confuso.
O ganso, aparentemente, não considerou a confusão do homem relevante, pois nada disse.
Levantando-se para sacudir um pouco as folhinhas de grama que haviam grudado em seu joelho, o homem do parque olhou em volta, se espreguiçou e voltou a se abaixar, desta vez sentando-se de frente para o ganso, que continuava a bicar pontos na grama à procura de pipocas salgadas. Depois de uns minutos, parou, olhou para o homem e disse:
- Grau.
- Escute aqui, como é que quer que eu responda, se não me ajuda? Poderia ao menos indicar para que lado é esse grau. E o grau, grau.
- Grau, grau - repetiu o ganso.
- Está parecendo um papagaio agora.
- Grau.
Em busca de mais pipoca e - seria o caso? - enfadado com a conversa, o ganso dirigiu-se até um casal de namorados. Constatando que nada comiam, seguiu até mais próximo do lago e caminhou ao longo de sua margem.
O homem do parque observou o animal se afastar com certa tristeza. Não conseguia entendê-lo. Por mais insólita que fosse a circunstância, sentia uma grande necessidade de se comunicar com o ganso, que era um animal do parque. Ele era o homem do parque. Zelador, talvez fosse o termo mais adequado, mas preferia como as crianças o chamavam: o homem do parque, com um misto de respeito e medo. Era ele que não as permitia brincar em determinados locais, ou pisar na grama de que ele cuidava com tanto zelo. Era zelador.
- Grau - gritou o ganso, já na margem oposta do lago, percebendo que o homem devaneava, chamando-lhe a atenção.
- Sei, sei - concordou o homem, sem saber ao certo com o quê, abanando a mão para o ganso.
- Grau, grau - gritou de lá o ganso, animadamente.
No dia seguinte, topou com seu amigo logo cedo.
- Grau – cumprimentou-o o ganso.
- Grau - respondeu o homem, dando-se conta em seguida do que fizera, e desatando a rir.
- Grau, grau - O ganso até pareceu se divertir também, mas continuou seu caminhar desajeitado, passando direto pelo homem, sem parar.
- Ei, aonde você vai, com tanta pressa?
Chegando ao seu destino, um grupo de crianças, o animal se deteve por alguns minutos, o bastante para se certificar de que nenhuma se alimentava no momento e voltou para onde estava o homem.
- Viagem perdida, hein?
- Grau...
- Deixe estar. Daqui a pouco sirvo sua ração.
- Grau, grau – protestou o ganso.
- Agora parece que você disse “não”. Grau, grau significa “não”?
- Grau.
- Se é assim, grau significa...
- Grau, grau, grau. - O ganso interrompeu o homem do parque, correndo desajeitadamente ao encontro do homem do carrinho de pipoca.
- E mais essa agora? O que significa grau, grau, grau?
- Grau – o ganso respondeu, voltando decepcionado. Só tinha pipoca doce.
Mais tarde, após terminar suas tarefas, o homem foi procurar seu amigo. Trazia pipocas salgadas. Em pouco tempo o ganso apareceu, todo serelepe:
- Grau, grau, grau.
- É exatamente sobre isso que quero conversar.
- Grau.
- Acho que já sei o que significa grau e grau, grau. Mas e grau, grau, grau?
- Grau.
- Bem, grau deve ser “sim” e grau, grau é “não”, certo?
- Grau - O ganso distraía-se com as próprias penas.
- Vejamos. Três graus só podem significar algo de que você goste muito... - Parou de falar por uns instantes, meditando. - Já sei! – exclamou, concluindo triunfante: - Três graus significam “pipoca salgada”!
- Grau - disse o ganso, e o homem, interpretando isso como um “sim”, já ia comemorar, quando o animal continuou: - Grau, grau. - Depois: Grau, grau, grau. – Por fim: - Grau, grau, grau, grau. – E pulou no lago, deixando o homem do parque desconsolado.

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POR EM 22/03/2008 ÀS 11:10 AM

Diferenças entre objetos esteticamente bons

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(fragmento de Teoria Estética)


No limite, não há nada que não seja esteticamente bom, já “provaram” os surrealistas e Duchamp. Na medida em que um fenômeno é - seja um banco de madeira, uma roda de bicicleta, um urinol, ou um acontecimento, o qual poderia ser o “evento surrealista” (Boher 2001: 20) -, como um todo unificado, ele “deve ter alguma qualidade permeando sua totalidade” (Potter 1967: 46). Ele possui, nessa avaliação, “excelência estética”, o que foi chamado de “excelência ontológica” pelos escolásticos (Parker 1998: 50). A qualidade pode ser tal que nos nauseie, assuste, ou de qualquer outra maneira nos perturbe a ponto de nos afastar do humor próprio ao prazer estético, da disposição de simplesmente contemplar a materialização dessa qualidade em um objeto. Tal objeto “permanece igualmente esteticamente bom, embora as pessoas em nossas condições sejam incapazes de uma calma contemplação estética dele” (Peirce 1998: 201). O que significa simplesmente dizer que há uma certa autonomia do objeto, em relação à sua recepção, e que as qualidades que ele apresenta não são em si mesmas nem boas nem ruins. Pois, como frisa Peirce (2003): “toda abominação estética é meramente nossa insensibilidade resultando de obscurecimentos devidos às nossas próprias aberrações morais e intelectuais Esse caráter livre, autônomo, de um objeto estético, é um aspecto inerente à sua conformação, que faz ele ser como ele é. Schiller definiu beleza como “nada mais do que liberdade no fenômeno”(Schiller 1995: 120).
           
Entretanto, dizer que todo fenômeno possuindo unidade interna é ontologicamente ou esteticamente bom, não significa dizer que não existam diferenças entre os fenômenos (Parker 1998: 50), o que não deixaria nenhum espaço para crítica. Especialmente, não deixaria espaço para a crítica de arte - pois não teria muito sentido, ao nosso ver, criticar “os Alpes”, ou qualquer outra forma da natureza, a não ser que adotássemos algum ponto de vista de um esteticismo radical, à maneira de um Oscar Wilde, que via no sol poente, “um Turner muito secundário, um Turner do mau período” (Wilde 1992: 53).
           
Pelo contrário, cada fenômeno tem sua qualidade sui generis - ainda que “possivelmente alguns podem ser melhores do que outros” (Peirce 2003: 229). A questão da excelência de algo só pode ser resolvida caso se faça referência a algum propósito que esse algo preencha. Numa obra de arte, seu propósito específico é provocar uma experiência estética. Para apreender a diferença entre fenômenos, no caso de uma obra de arte, de maneira evidente, bastaria comparar quaisquer duas pinturas, como no exemplo que iremos utilizar: Saturno, de Goya, e o de Rubens.
           
Saturno é o deus romano identificado a Cronos, um dos Titãs, na mitologia grega. De acordo com uma lenda, Cronos teria sido advertido de que um dos seus filhos o destronaria e passou então a engoli-los por ocasião de seu nascimento (Harvey 1987: 145). Saturno é também a encarnação do Tempo, para os romanos, e o Tempo devora todas as coisas, Tempus edax rerum. Na representação que fez Goya perceba-se como o fundo negro colabora para o sentimento de terror da figura, juntamente com a desproporcionalidade dos corpos representados, e como essa impressão é de certo modo deslocada de seu horror habitual, quando observada em detalhe a cabeça com a boca escancarada do gigante grisalho, o qual possui um certo ar típico, ao mesmo tempo trágico e cômico, das caricaturas -“penetradas de humanidade” (Baudelaire 1995: 10)- de Goya. Comentando sobre Goya, Sylvester escreve que a boca desempenha um papel na sua arte mais proeminente do que em qualquer outro grande artista.
           
Nesse mesmo quadro percebam-se ainda as diferentes qualidades (que são “idéias gerais”) ao percorrermos o corpo do Titã: a qualidade de repugnância das cicatrizes e manchas; o erotismo velado do corpo despedaçado da(o) filha(o) e da nudez do gigante escondida pela escuridão; a qualidade de rigidez dos músculos e veias intumescidas do braço; a força que ele imprime aos punhos e as contorções do ossos sob a carne nas costas; o vermelho vivo do sangue que dele escorre; a qualidade expressiva da boca (onde concentram-se, junto com a expressão dos olhos, as paixões das quais parece tomado o “monstro”),
cuja sombra parece engolir tudo, algo que é reforçado pelo fundo negro da pintura. 
 
                   
                                                                                         
Francisco Goya Saturno,1821-1823 ePeter Paul Rubens Saturno devorando seu filho, 1639
 
 
Francisco Goya Saturno (detalhe da boca) 
           
Parece
ser assim, mas poderia parecer ser de outro modo? Sim, mas apenas em certa medida. Imagine o mesmo quadro com um fundo branco, ou azul, ou vermelho, ou... rosa. Imagine -ou nem precisa imaginar, observe a versão de Rubens para o mesmo mito: na versão de Rubens (que Goya poderia ter visto em Madrid), “Saturno curva sua cabeça sobre o corpo, afunda seus dentes na carne e suga o sangue que jorra de seu filho que esperneia” (Sylverter s/d). Veja-se que nesse último caso o sangue jorra, e não escorre, Saturno afunda seus dentes e não escancara a boca -ainda por cima de velho, da qual mal se vêem os dentes, o lado cômico da figura- parecendo querer nos engolir junto com a pintura. (Outra obra de Goya, de um episódio do romance do século XVII, El Lazarillo de Tormes, feita cerca de dez anos antes (1808-1812), é a contraparte cômica desse Saturno. Ela mostra um velho cego forçando o nariz dentro da boca do jovem Lazarillo para “cheirar” se ele tinha comido sua sopa).
           
O fato de que parece ser assim é indicativo de que estamos falando do modo como experienciamos qualidades que são possíveis de serem experienciadas desses fenômenos, representados na pintura, cujas qualidades podemos abstrair -prescindir- da existência material do quadro, que constitui o fenômeno que estamos observando. Não precisamos tocar na pintura, para, por assim dizer, sentirmos sob a pele os ossos. Fazemos isso porque uma qualidade disso ser assim foi corporificada na pintura. Não se pode, portanto, confundir que estamos dizendo que são qualidades subjetivas, pois todas essas qualidades estão realmente lá como propriedades intrínsecas desses fenômenos, independentemente de alguém experienciá-las ou não. E a capacidade que tem uma obra, concluída em 1823, de continuar despertando em nós sentimentos e cognições, é a prova maior de que se trata de uma “realidade” “viva”, e “não é vestígio mudo, ruína, museu...” (Gadamer 1996: 27). Quando falamos do “ar tragicômico”, ou da expressividade do rosto, etc., estamos supondo que são qualidades que já existem na pintura. Elas existem, como possibilidade positiva definida, até mesmo antes de terem sido corporificadas pela mão do pintor.
  
 
 

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POR EM 22/03/2008 ÀS 11:04 AM

Cai fora, mal educado!

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Herdeiro de Rodrigo S.M., o letrado brasileiro acha que as escolas do país são fábricas de Macabéas. Quando aparecem notícias de crianças aprovadas no vestibular, vem a manifestação de horror. Está tudo acabado, sentenciam. Tudo pode estar indo para o abismo, mas eu (letrado) estou a salvo como reserva moral e intelectual da nação. Essa figura é a parte da população que tem curso superior e está no topo da pirâmide de renda. Lá do alto, as coisas parecem bárbaras, feias e perigosas, e só resta dar o fora o mais rápido possível do Brasil ignorante e analfabeto. 

A vontade de se livrar do país vem de longa data. No final do século XIX, os escravos foram libertados e jogados ao deus-dará. O bisavô de Macabéa foi substituído por um imigrante estrangeiro – um gesto humanitário, bem ao estilo da responsabilidade social das empresas de hoje. Cem anos depois, o letrado do Brasil optou pelo “salve-se quem puder” da globalização e suas muitas viagens ao exterior e carros importados. As duas épocas evidenciam a cegueira dos civilizados brasileiros em entender o movimento do mundo. Adoram o capitalismo, mas não sabem por quê.
 
Nos próximos anos, haverá uma possibilidade de fuga da barbárie local. Rodrigo S.M. pode enfim se livrar de Macabéa sem a necessidade de amassar uma Mercedez Benz. Os letrados poderão jogar no lixo as escolas e matricular os “babies” e “teens” em Harvard ou “high school” californiana. Tudo sem sair de casa. Ao ridículo Custo Brasil de comer, morar e ter empregados em casa, nossos filhos serão finalmente alfabetizados em inglês, de acordo com os padrões competitivos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
 
O pulo-do-gato é o Acordo Geral para o Comércio em Serviços (Gats), em andamento na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os países de língua inglesa conseguiram encaixar a Educação no rol dos serviços, junto aos produtos bancários. No futuro, a criança ou adolescente brasileiro estudará pela internet em escolas dos Estados Unidos, Austrália ou Nova Zelândia. Os três países investem pesadamente em escolas de educação à distância para atingir o mercado global. E governos do mundo a fora como o do Brasil serão obrigados a reconhecer os diplomas.
 
O modelo em questão segue a lógica do “outsourcing” usado hoje pelos norte-americanos em “call centers” e descrito por Thomas Friedman no livro “O mundo é plano”. Quando alguém nos Estados Unidos tem problemas com cartão de crédito, é atendido por um indiano em Bangalore. Obviamente, o salário na Índia é miserável. No caso da escola à distância, haverá o movimento inverso: os “serviços” serão fornecidos a partir países anglo-saxônicos. Está montado o cenário ideal para os letrados brasileiros se livrarem do país, por meio de um “outsourcing”.
 
O acordo de serviços na OMC é um dos mais importantes temas em discussão no mundo e recebe quase nenhuma atenção da mídia (sempre olhando as coisas do alto). Perto disso, aprovar criança no vestibular parece brincadeira de criança. Será criada uma elite ainda mais alheia à realidade local e com a pretensão de estar conectada ao mundo globalizado. No lugar de Piaget, a pedagogia terá seu grande guru em Peter Drucker. Em nome de conceitos inteligentérrimos como competitividade e globalização, vamos embarcar em mais uma jangada furada e disfarçada de iate.
 
Sergio Paulo Rouanet analisou em 1985 a catástrofe que havia sido a primazia dada às ciências (física, química, matemáticas) nas reformas educacionais dos anos 1970. Dizia-se que o Brasil precisava de mais engenheiros para acompanhar o progresso econômico. É o mesmo discurso do Banco Mundial de hoje: há muita ciência humana no ensino brasileiro. O grande capital (bancos, empresas globais) anda chateado com o governo Lula, que barrou a compra de faculdades por investidores estrangeiros, que continuam a fazer a cabeça dos descendentes de Rodrigo S.M..  

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POR EM 22/03/2008 ÀS 10:56 AM

A miragem

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Acabara de chover. Um menino caminhava dentro da enxurrada, água pelas canelas, chinelos nas mãos, e muita alegria no rosto. Sorrisos infantis jamais mentem: ele se divertia. Dentro do carro, preso num costumeiro congestionamento, dei trégua à angústia e ao cansaço e cheguei mesmo a pensar que a vida tinha jeito. Fechei os olhos: “...são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração...”. Olha lá o menino, como ele brinca alheio aos dilemas. Pensei que bom seria voltar a ser criança, jamais ter crescido e descoberto que o mundo, no fundo, no fundo, é mau que nem as bruxas dos contos de fadas.
 
O moleque prosseguiu sua jornada rua abaixo, chutando água, brincando consigo mesmo (ou seria com seres imaginários?!) e com a minha inveja de não ser mais menino. Ele não sabia dos segredos dos bueiros, da força medonha dos redemoinhos, das ameaças hidráulicas dos temporais. Então, tropeçou, caiu, desapareceu da paisagem urbana. Sugado pela garganta da galeria pluvial?! Incrédulo, eu xinguei.
 
A gente reclama se o dia está quente. Reclama se o dia está frio. Reclama por causa da estiagem, da garganta seca e da baixa umidade relativa do ar. Reclama quando chove, mesmo se for chuva fraquinha, daquelas de molhar bobo. Reclama e quer tirar satisfação com Deus quando cai um temporal, revirando tudo, atrapalhando o trânsito, molhando bobina e apagando o motor do carro. Enfim, o ser humano é criatura insaciável. Insatisfeito por natureza, mesmo que ostente saúde plena, ou todo o conforto e mordomia que o dinheiro possa comprar.
 
Quando chove mais forte sobre as grandes cidades brasileiras, os transtornos são inevitáveis e algumas catástrofes se repetem. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Cai, sim. Então, a água encharca as encostas dos morros onde brotam barracos invasores, solapa e derruba um bocado deles. O povo afoga na lama. A televisão mostra tudo aos resignados expectadores debruçados no conforto das salas quentinhas e seguras. Tragédias anunciadas. São as mesmas notícias do ano passado, só que vítimas diferentes. O povo se comove e chora. Pessoas de alma boa organizam a coleta de donativos para aplacar a fome, o sofrimento e a penúria dos desabrigados. As igrejas fazem campanhas, novenas, bingos, ações entre amigos, jejum e outros sacrifícios da carne. Mas chega o estio e ninguém se move. Ninguém arreda pé. Eita, povo teimoso!
 
Os córregos sopitam de tanta água e lixo, arrastando uns casebres, inundando outros tantos, apavorando aquela gente pobre que mora nos piores lugares do mundo. Barranco de rio só é bom para se pescar. Para morar, não presta. Todo mundo sabe disso, mas ninguém se importa. Chega a enchente, que nem o ano passado. Aí a culpa é da prefeitura ou de Deus. A chuvarada termina, mas o povo continua despejando lixo dentro dos ribeirões, como se eles fossem tapetes onde se esconder porcarias. Sacos, carniças, garrafas, pneus, trastes em geral que já não servem para mais nada, senão para entupir os canais. A natureza, sempre que maltratada, dá o troco. Eita, povo deseducado!
 
Há poucos dias, sob esplêndida publicidade, a prefeitura local retirou dezenas de famílias que moravam em barracas de lona preta, margeando a ferrovia que corta a cidade, local com altíssimo risco de acidentes e tragédias. Os sem-teto foram assentados em casinhas simples e decentes, erguidas pelo poder público em local seguro. Poucos dias depois, já havia miseráveis novatos se aglomerando no local, cavoucando, erguendo acampamento. Eita, povo insistente!
 
Saltei do carro, incrédulo com a cena que acabara de presenciar. Corri sob a chuva fina, serpenteando no trânsito parado. E eu, que imaginava nem mais ter coração, sentia o danado quase vazando pela goela. Vasculhei a esquina. Nem sinal do menino. Sumira na correnteza forte. Desapareceu, instantaneamente, que nem a tênue fé que ainda há pouco faiscava no meu peito.

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