revista bula
POR EM 01/04/2008 ÀS 09:16 AM

Um cuzufu de xibungos

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Deus ia perdoar Seo Zogofredo, ele tinha certeza, sabe por quê? Não estava acostumado com as chumbreguices impertinentes das saliências desse tempo de agora. Olha que o mundo deu voltas, mulher passou a usar calça e a fumar que era um destempero, deixaram as casas e os fogões e ficaram rueiras, tomaram rédeas, queimaram calçolas e porta-peitos, passaram a priquitar a torto e a direito com a anuência da pílula anticoncepcional que evitava neném e outras estrovengas mais. Coisa de cabaço, então, nem se fala!

Seo Zogofredo, de começo, assim no quente do acontecido, estrilava e rosnava, mas ia se acostumando. Um mundo muito demudado. O que a razão enjeitava o coração amolecia, porque filhos e filhas carregavam esses troços pra dentro de casa, desconsertando sua causa. Ponderava com os santos, sumulava e simulava suas pertinências. O mais que via naquele oco de mundo já desvirava seus miolos. Ficou sabendo do menino de Celita, do seu conforto com os machos e desconfortos com as fêmeas. “Virge, Credo”! Mas Saracutópolis era cidade de poucos, onde toda gente sabia qualidade e defeitos  uns dos outros.

Foi só a televisão chegar que provocou remelexo nas idéias e costumes. Junto veio telefone, telenovela, computador, internet e globalização. Começaram a aparecer na televisão mulher dizendo que gozava, explicando coisas de clitóris e Ponto G e também muita gente fresca, com derretimentos invertidos. Primeiro, uns aproveitaram o carnaval e se esbaldaram. Depois, uns deles e delas ultrapassaram a quaresma com jeitos e trejeitos estranhos, espirocados para Seo Zogofredo.

Passada a Semana Santa, não tiveram mais conserto. Andavam em turma, serelepes e riguilidos. Quando ficou sabendo que um namorava outro e uma  xumbregava com outra, Seo Zogofredo supitou-se em sustos e descrença. Em seus mais de 80 anos,  nunca tinha ouvido nem falar nisso. Alguns do seu tempo não se casavam, mas iam para a conta  dos desinteressados nessa junção e em coisas que outras desse naipe. Ninguém botava má fama, que isso não existia, era escolha.

Quando ele ficou sabendo daquilo, já Dorivaldo de Nena e Solomeu de Dudésio, duma parte, Deburina de Salé e Xonevalda, de outra, “se assumiram”, como diziam os meninos. Assumir-se era o mesmo que se casar, usufruir dos vagos de prazer, usar e lambuzar unzanzotros. Do país dos estrangeiros ouviu notícias de que até se casar já podiam, de papel passado e tudo.

Seo Zogofredo viu que eles usavam brincos, calções ínfimos, meias finas e perucas, passavam batom e loções frescas, pintavam olhos e caras e outras regras, como botar um produto novo, o silicone, nos peitos e nas bundas.  Eles com eles e elas com elas tinham suas casas próprias, iniciaram um grupo, que chamaram de ONG, e começaram um movimento de proselitismo e arrebatamento. Meninos que tinham o pé firme começaram a saracotear e aderiram, moços que a gente nem desconfiava assumiam o que para eles eram as delícias da bunda.

Certo é que Seo Zogofredo cunhou aquilo com o termo Cuzufu de Xibungos, explicando que era uma miscelânia de frescura, ainda mais depois que anualmente passaram a fazer passeatas pelas ruas, comemorando o DOB - Dia do Orgulho Baitola. Para ele, que já estava no fim da vida, era o dia da independência do toba. Quase enfartou no dia em que Solomeu de Dudésio apareceu com um enxoval de bebê e dizendo que estava prenhe. 


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POR EM 31/03/2008 ÀS 04:52 PM

Os bundas-moles

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Em 1992 li uma entrevista da cantora Adriana Calcanhoto em que ela dizia que tinha composto a música SENHAS porque achava que o mundo estava muito careta, sem novidades, dominado por gente certinha, de bom senso, os bundas-moles. 

Na época eu concordei plenamente e mais ainda quando ouvi a canção que dizia: “Eu não gosto do bom gosto, eu não gosto do bom senso, não gosto dos bons modos, não gosto. Eu respeito conveniências, eu não ligo pra conchavos, eu suporto aparências, eu não gosto de maus tratos. Mas o que eu não gosto é do bom gosto, eu não gosto do bom senso, não gosto dos bons modos, não gosto. Eu agüento até os modernos e seus segundos cadernos, eu agüento até os caretas com suas verdades perfeitas. Eu agüento até os estetas, eu não julgo competência, eu não ligo pra etiqueta, eu aplaudo rebeldias e compreendo piedades, eu não condeno mentiras, eu não condeno vaidades, mas o que eu não gosto é do bom gosto, não gosto do bom senso, não gosto dos bons modos, não gosto. Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem...”

Piorou muito o mundo nesses 16 anos, aprece que só existem caretas, gentes chatas preocupadas com chatices maiores que elas próprias.

O mais grave: gente chata e careta procria demais! Eles se multiplicam, aumentam numa proporção tão descomunal que a inteligência e a sensibilidade não acompanham. São muito férteis os caretas e olha que assistem muita TV, hein?! Imaginem quando há apagões.

Abrir jornais e revistas de manhã, além dos transtornos das tragédias passou a ser também fonte de tédio e “normalidade” com tudo de ruim que essa palavra arrasta consigo. Nada pode ser mais chato que gente normal, gente de bons modos, de bom senso, que nunca transgride, que não ousa, que não sai da linha. Um dia o trem passa por cima delas, mas até lá temos de suportá-las cagando regras na imprensa, tramando espertezas políticas pra conseguir seus cargos, participando das colunas sociais, escrevendo livrecos tediosos e soníferos, compondo cançõezinhas medíocres e cavando seus espaços na mídia. Tô de saco cheio de gente que almoça domingo sim domingo não na casa da sogra, que viaja pra Europa com mulher e filhos, que tira férias uma vez por ano, recebe 13° salário e se precavem contra o futuro. Gente chata.

O leitor abra um jornal qualquer nas colunas de política ou amenidades e comprove: só tem tolos circulando por ali, desde os políticos de QI-12 e suas declarações toscas até novos ricos deslumbrados e suas toscas declarações. Não há pra onde escapar. Se o leitor gostar de futebol e quiser se informar sobre seus jogos vai ter de ler aquelas barafundas em forma de palavras que os jogadores sabem pronunciar como ninguém – e uns imitam os outros até nas inflexões. 
 
E aquela coisa pastosa e pegajosa nas vozes de governadores, presidente, ministros e seus acólitos de várias espécies fingindo parecer vivos, mas muito mais mortos que alguns autores que a gente lê e que saíram de cena pra outro mundo há anos?! Leia Machado de Assis, por exemplo, e você vai saber do que estou falando, vai sentir que pode haver vida animada e inteligente no reino da espécie humana. 
 
Vai dialogar com um homem que parece sentado a seu lado com a sensibilidade e o espírito crítico à flor da pele, bem diferente desses mortos-vivos que ocupam o nosso universo atualmente.
Machado de Assis era o antibunda-mole.
 
E nós? Vamos ter de conviver com essa malta de gente burra e normal pelo resto de nossas vidas? E eles? Vão continuar procriando e enchendo o mundo com sua mediocridade hereditária e apocalíptica?
 
O final da música da Calcanhoto é mais afirmativa e é com ela que eu me identifico totalmente: “Eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem...”

Esses é que são a única arma contra o estado de letargia em que estamos mergulhados nesses tempos de salve-se quem puder das artes, da política, da vida social, da inteligência em geral.
 
Tô começando a achar que é uma boa idéia reler o livro do Roberto Freire que fez muito sucesso no Brasil numa época em que a vida pulsava mais intensamente e ainda acreditávamos que as coisas poderiam ser melhores. Se o leitor quiser me acompanhar o nome do livro é: SEM TESÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO.

Não custa tentar, né?

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POR EM 31/03/2008 ÀS 04:50 PM

A língua oficial do cinema

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O signo da cidade (2008)
               
Embora a idéia não seja propriamente original (penso aqui em “Talk Radio”, de 1988, dirigido por Oliver Stone, com Eric Bogosian no papel do radialista), é boa. Um programa de rádio em que o(a) apresentador(a) conversa com seus ouvintes e acaba de alguma forma interferindo (e “interferido”) na vida deles, seria, em uma frase, o assunto d’ O signo da cidade, dirigido por Carlos Alberto Ricelli, com roteiro de Bruna Lombardi, atualmente em cartaz. A direção, as atuações, a fotografia, está tudo muito bom, tudo muito bem... mas realmente, mas realmente, eu preferia que Bruna estivesse... menos ansiosa por prender a atenção do espectador. Acontece coisa demais. Tragédia demais. Desnecessariamente. Pesa. Bruna errou um pouco a mão. Bastaria uma ou duas (tragédias). O resto poderia ficar no tédio. Na falta de comunicação. No isolamento. São todos pequenas tragédias que retratariam São Paulo melhor do que os dois suicídios, os assaltos, o homcídio, a auto-flagelação, as traições e trapaças... Ufa! São Paulo não é tão animada assim. Mas o filme é bom. Vá ver.             

O casamento de Muriel (1994)
               
Comprei esse DVD na banca baratinho (no mesmo dia comprei também Miller’s crossing, dos irmãos Coen) e não dava nada por ele. Mas há vários pontos que o fazem merecedor de nossa atenção. A atuação de Toni Collette está acima da média (gordinha, pré-fama). Aliás, essa é uma atriz que vale a pena acompanhar (em “Jantar entre amigos” e “As horas”, por exemplo). O sotaque australiano, engraçado inicialmente, charmoso, à medida que nos acostumamos. A crueldade do personagem do pai, a pasqualice da mãe e a inércia dos irmãos. A música do Abba (sim, eu gosto do Abba. Por quê?! Vai encarar?). Ok, o tema é batidíssimo em filmes de língua inglesa - “bullying” (encheção de saco de jovens “vencedores” pra cima de “perdedores”) - só que o abordaram com uma mordacidade mais eficiente do que a forma mais moralista, quando a origem é norte-americana.               

A língua do cinema
               
Também disponível nas bancas (embora não tão baratinho), uma coleção de óperas excepcional, com gravadoras de primeira linha (Deutsche Grammophon, etc). O penúltimo fascículo foi “O Príncipe Igor”, do Borodin (que era da mesma turma do Rimsky-Korsakov e do Mussorgsky, esse último autor de “Boris Godunov”, baseado num drama histórico do Pushkin, uma das óperas mais belas já realizadas por alguém). Um experimento interessante é assistir a algum Tarkovski (qualquer um, exceto “Nostalgia”, que é falado em italiano, e “Sacrifício”, em sueco) logo depois. Note como o russo é uma bela língua. Depois do sueco, que qualquer primata sabe que é a língua oficial do cinema, o russo é sério candidato a um honroso segundo lugar. Seguido do inglês e do italiano, obviamente. Espanhol, alemão e português vêm a seguir. Daí chinês, coreano, árabe e japonês. Depois romeno, húngaro, tcheco, búlgaro, os 20 dialetos suíços, os 114 dialetos africanos subsaarianos. Os 225 dialetos aborígenes. Etc, etc, etc. Por último, como qualquer neanderthal está cansado de saber, vem o francês. 


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POR EM 31/03/2008 ÀS 04:50 PM

A vida como ela quer

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Em 1996 o mundo ficou saltitante com a notícia de que a Nasa teria descoberto micróbios fósseis em um velho meteorito, despregado possivelmente de Marte. Seria a prova cabal da existência de vida em outras paragens do universo. Ainda que num passado remoto O fato era tão auspicioso que a notícia foi dada a conhecer por ninguém menos que o presidente Bill Clinton, aquele que, não em adultério, mas em relações impróprias, fumava charutos nas vias de regra de Monica Lewinsky.

A questão de onde, como e por que a vida começou é tão nebulosa que quanto mais a ciência especula, mais as conclusões se afastam. Parece que há uma maldição de Tântalo nesse particular: quanto mais se procura, mais o objeto se distancia.

Há teorias de todos os gostos. De que a vida teria sido importada à Terra através de engenhosos mecanismos de transporte. De que a vida teria começado na água e parte migrou para o solo e o ar. De que teria começado nas entranhas sulfúricas da Terra primitiva e, por um efeito colateral, alguma coisa teria sobejado para a superfície. De que Deus teria feito tudo pronto e acabado a partir de sopros e estalos de dedos. A teoria verdadeira são todas e nenhuma. Por enquanto é a que você quiser acreditar.

Aquela história de vida primitiva num meteorito marciano, a ciência não conseguiu provar cabalmente sequer que a pedra seja um meteorito, muito menos que seja de Marte. E a incógnita continua: A vida teria surgido na Terra ou vindo do espaço sideral? E mesmo que soubéssemos isso, o saberíamos sobre a origem da vida?  

Para credenciados cientistas a vida em todas as suas formas seria uma anomalia química bizarra, o efeito colateral de alguma reação catalisada pelo acaso neste canto de mundo. Se assim for, o minúsculo corpo celeste chamado Terra seria o único hospedeiro desse bem tão escasso.

Em seu ateísmo eloqüente, o biólogo francês Jacques Monod assim se expressou: A antiga aliança (mencionada pelas religiões) está em pedaços: o homem sabe por fim que está sozinho na imensidão insensível do universo, do qual surgiu apenas por puro acaso. Nem o seu destino, nem o seu dever foram prescritos.

Para o cientista Francis Crick: A origem da vida parece... quase um milagre, tantas são as condições que teriam de ter sido satisfeitas para fazê-la acontecer.

Para as Sagradas Escrituras, Deus teria deliberadamente feito a natureza e ao homem. Com um rigor amoroso (ou seria egoístico?) fez o homem à sua imagem e semelhança.

Qualquer que seja a concepção que adotemos, a vida é cara e rara. Não existe prova, nem especulações mais consistentes, de que exista vida em toda extensão do universo, muito menos consciente como a nossa. A dos ditos homo sapiens.

Especula-se que da vida monocelular à vida complexa, com o conseqüente surgimento da inteligência, passou o lapso de tempo de nada menos que quatro bilhões de anos, pelo calendário terráqueo.

Se tomarmos o início a civilização como o início do clima ameno atual, a saída do homem das cavernas para a vida em sociedade nas planícies, com suas ferramentas de pedra e domesticação de animais, o nosso estilo social de viver começou há cerca de 18 mil anos. Se tomarmos como início da civilização a construção da primeira cidade murada, que foi Jericó na Palestina, data de oito mil e oitocentos anos. Mas se nossa referência for a escrita, a civilização não passa de seis mil anos. Toda essa sopa de informações é só para chegar a uma conclusão desesperadora: ante a existência do universo, a vida inteligente começou ontem e a civilização está começando agora.

Pior de tudo é que está começando pelo lado de acabar.  O surgimento da revolução industrial com a queima de combustíveis fósseis, com a liberação de gás estufa parcimoniosamente aprisionado pela natureza ao longo das eras geológica, começou há apenas trezentos anos. O automóvel, coitadinho, o ícone desse processo, é apenas um menino centenário.

No entanto, e bota no entanto nisso, já estamos empestando o planeta. O clima, em toda parte, está ficando irremediavelmente insalubre. Providências que são alardeadas como redentoras, não passam de lábia barata, de meros argumentos de venda de produtos. Na verdade nada de positivo trazem para a salvação da bolha terrena, onde a vida milagrosamente prosperou até a gora.

É o caso do etanol, por exemplo. Segundo recente pesquisa, se for mobilizado todo o potencial da Terra para produzi-lo, sem levar o mundo a uma hecatombe pela escassez de alimentos, seria o suficiente para movimentar parcos vinte por cento da frota de carros existentes no planeta.

Considerando a quantidade-monstro de carros que são enfiados nas ruas e estradas a cada ano, esse etanol daria apenas para rodar os carros que vão entram em operação nos próximos três anos. A frota já existente e a que virá a partir de 2011 terão que ser impulsionadas mesmo é com a velho e letal combustível fóssil. E a bolha que sustém a vida está indo irremediavelmente pro beleléu.

Posso estar sendo chato em insistir nesse tema de meio ambiente numa página de cultura e estética. Chato sim. Mas o chato mesmo é pensar que não há estética nem qualquer tipo de cultura que sobreviva ao fim das espécies, com o homo sapiens no meio.  

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POR EM 28/03/2008 ÀS 02:52 PM

O Silêncio dos Inocentes

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A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar 
Que salta aos olhos igual a um gemido calado     
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar          
Moinho de homens que nem girimuns amassados         
Mansos meninos domados, massa de medos iguais          
Amassando a massa a mão que amassa a comida   
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais

(Raimundo Sodré)


 
Uma das coisas mais abjetas praticadas pelo ser humano é a tortura, seja ela física ou psicológica. Ato desumano, covarde, perverso e indigno. Atenta contra o que há de mais caro ao ser humano, sua liberdade.
 
Pelo menos é praxe na história universal que a torturas atendam a fins vários, mas, primordialmente, o que se sobressai é a de retirar do torturado confissões sobre algo que ele sabe ou que supostamente poderia saber sobre pequenos delitos ou sobre crimes mais graves.
 
Os métodos são vários, utilizados desde muito pela humanidade, como o fez a igreja Católica naquilo a que chamou de santa inquisição - na Idade Média - quando utilizou toda forma de aparelhos de tortura, como alicates, tesouras, garras metálicas para destroçar seios e mutilar órgãos genitais, barras de ferro aquecidas e chicotes. Os métodos eram vários, o que importava era a eficácia para obter informações sobre bruxaria, satanismo e outras loucuras inimagináveis. Tudo em nome de um deus que não era o nosso.
 
Há notícias de que o padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus Guidonis, 1261-1331) escreveu o livro Liber Sententiarum Inquisitionis (Livro das Sentenças da Inquisição) no qual descreve vários métodos utilizados para obter confissões dos acusados, tanto físicos como psicológicos, dentre os quais o de obrigar a vítima a ingerir urina e excrementos. 
 
Se na Idade Média as práticas beiravam ao rudimentar, na modernidade ganharam sofisticação, como as câmaras de gás ou os campos de concentração, criados pela bestial figura de Adolf Hitler. Nas ditaduras espalhadas pelo mundo, milhares de pessoas sucumbiram nas mãos carniceiras de hediondas figuras. No nosso País não foi diferente, milhares de estudantes, pais e mães de família foram maltratados, torturados e mortos em nome de um regime de exceção.
 
Dos métodos utilizados pelos torturadores brasileiros, alguns chocaram e ainda chocam a todos, como seguem: Choque elétrico, Pau-de-arara, Cadeira de dragão, Afogamento, Telefone, Palmatória, Espancamento, Esbofeteamento, Empalamento, Queimadura com cigarros, Geladeira, Mordida de cachorro, Coroa de Cristo, Violação sexual, Arrancamento de dentes, Injeções de éter subcutâneas, Arrancamento de unhas, Soro da “verdade” (Pentotal), Fuzilamento simulado, Ameaça de morte (à própria pessoa, filhos, companheiros etc), Assistir à tortura de companheiros, Aplicar torturas em companheiros, Desorganização temporo-espacial.*
 
Como se vê, a bestialidade humana se supera a cada tempo, às vezes nos pega de surpresa, nos deixando estarrecidos, como foi o caso da menina L. de 12 anos, torturada aqui em Goiânia pela “empresária” Sílvia Calabresi, 42, que, sem sombras de dúvidas, conhecia muito bem os métodos medievais de tortura descritos acima. O que choca, além do ato covarde da tortura, é a frágil figura torturada, sozinha, indefesa, obrigada a toda forma de humilhação e dor.
 
O que choca é saber dos gritos silenciosos desta criança, das dores da alma que persistirão por toda vida. O que choca é a indiferença de tantas pessoas à dor desse ser tão fragilizado. Oh, Deus! Pelo menos o que se tem lido sobre tortura é que os torturadores buscam, a qualquer preço, a confissão de suas vítimas, confissão de algum delito, de alguma trama. E dessa pobre criancinha, que confissão ela buscava obter?
 
Fora brutalmente maltratada, alijada do que se tem de mais caro, o direito à infância e à liberdade. Não estudava, passava dias sem comer, trabalhava até 1h40 da madrugada, retomando o trabalho doméstico às 5h. Viveu todo tipo de humilhação, inclusive métodos medievais, como ingerir fezes e urina de cachorro. Era constantemente amarrada, queimada com ferro elétrico, tinha as unhas mutiladas, a língua mutilada, era amordaçada, sendo obrigada a ficar por horas com um pano, dentro da boca, embebido por pimenta, a mesma que lhe era aplicada nos olhos.
 
Como deve ter sofrido esta menininha, meu Deus. Como deve ter clamado por socorro, silenciosamente. Uma coisa me chamou atenção, o paradoxo do ato: ao mesmo tempo em que torturava, que buscava não sei que tipo de confissão, tapava a boca da menina, não permitindo que ela falasse. Arrancava-lhe pedaços da língua. Por pouco não tivemos mais um serial killer, pela forma como vinha agindo, consciente dos seus atos, já havia torturado outras crianças, agora era só intensificar as sessões de tortura, até não se contentar mais com a dor física, buscando a morte.
 
Transtorno? Transtornados ficamos nós, ao assistirmos boquiabertos ao sadismo dessa besta, dessa psicopata, que, ajudada pela empregada doméstica, Vanice Maria Novaes, 23, cometera tamanha brutalidade. O que impressiona é que a empregada doméstica em vez de defender a criança das atrocidades da patroa, age contrariamente, e também passa a torturar a sua igual, o que nos remete a Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no Capítulo LXVIII / O Vergalho[1], quando um ex-escravo, Prudêncio, açoita outro em praça pública e, questionado pelo antigo patrão sobre o porquê daquele ato, recebe com resposta: “É um vadio e um bêbado”, a essa fala, segue a seguinte reflexão de Brás Cubas:
 
(...)Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!(...)
 
Recorremos à ficção na tentativa de uma compreensão do real, mas não há compreensão quando os casos se multiplicam, como os maus tratos do aposentado Ovídio Martinelli, de 93 anos, que sofre do mal de Alzheimer, e foi espancado pelas suas “cuidadoras” Rosângela Pereira Coutinho, de 44 anos, e Patrícia Santos Alves, de 25. Cenas chocantes que nos deixam indignados, estarrecidos, sofridos, principalmente quando são cometidas contra seres tão frágeis e indefesos e, por se saber que os atos não são praticados por estranhos, mas por pessoas tão próximas, que ainda ousamos chamar de próximos e sempre oferecemos a outra face.
 
O título deste texto foi tomado de empréstimo ao filme (Silence of The Lambs, The, 1991), dirigido por Jonathan Demme. 

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POR EM 27/03/2008 ÀS 08:56 PM

Almádena

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Já uma vez, aqui mesmo escrevi: tem gente que se acha, pensa que é, mas não é. Pois é. Mas, enfim, ufa! Eis que senão quando surge alguém que só é: Mariana Ianelli. Ela com o seu livro de poemas Almádena — minarete, farol, torre do farol — pela Iluminuras. Iluminada poeta. A palavra mágica, imagética, poética. Até que enfim! “Atinge uma altitude inconteste. Poesia de uma riqueza, de uma densidade, de uma sutilíssima percepção das coisas que nos cercam.” Also sprach Marcos Lucchesi, na primeira orelha do livro, e mais não digo, nem carece, posto que bastante, suficiente. Dá-me, então, que eu não diga, mas já dizendo, e bota “sutilíssima percepção” nisso! Altíssima e refinada, finíssima consciência. Cintilâncias de alma, intelecto e sentimento, de um dom verdadeiramente poético. Mostra que poesia não se faz com varinha de condão, nem com ninharias discursivas, mas consoante as vogais da pauta da criação, divinamente humana, humanamente divina. Coisa fina.
O rito da palavra, o ritmo, a sonoridade. Um lirismo de lírio mesmo, na pureza de suas verdades. Reflexos fulgurantes no espelho do nosso espanto. “Poesia de alta voltagem metafórica”, diz Antonio Carlos Secchin, na outra orelha da obra. Obra que se desdobra e se incandesce de páginas ou pétalas abertas, assim como os vocábulos de um novo dia, ao esplendor do sol. Versos em que até as sombras resplandecem, como o dia que nelas amanhece. Flor de cristal que aflora, poesia à flor da terra ao romper da aurora.
Luz! Mais luz!, pedia Goethe em seu leito de morte. Se vivo ainda fosse e por aqui estivesse, por certo se extasiaria com uma poesia igual a essa. A poesia de Mariana. Dá-lhes, Ianelli! Dá neles, os poetas menores, de parcos albores e nenhures entardeceres. Longe, todos eles, do entendimento para os versos do estranhamento, feitos como que por encanto, com as sutilezas do encantamento.
“Seu apurado domínio técnico elabora uma dicção ao mesmo tempo culta, comovente e perturbadora”, diz ali o Secchin. E vos digo que Almádena é um raro miosótis no jardim das musas. Azulínea, mimosa linguagem, luminosas imagens. Poesia, visagens, cosmogonia do ser, jogos de sombra e de luz, seu livro reluz na penumbra minimalista da “poesia” brasileira.
 Menina Mariana, em boa hora sua obra nos chega com os seus fulgores. Seus poemas inflamam o prazer de ler, sua poesia se faz chama e extasia o leitor. Ide e levai-o, ó escribas e fariseus hipócritas, aos quatro cantos da Terra, para que todos vejam o livro e bebam desta fonte viva, deste cântaro de água nova, para que ouçam o canto culto, mescla de um molde clássico e de uma forma eclética, no sentido aberto e pós-moderno do termo, não para ressurgir o passado, não para destruir o moderno, mas sim coexistir com todos os tempos e modos, como cumpre ao poeta, como compete à poesia. E tenham todos um bom dia.

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POR EM 27/03/2008 ÀS 06:01 PM

Dinheiro demais, educação de menos

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Muito já foi dito, até com agressividade, a respeito de uma suposta limitação cultural e educacional do mandatário maior do país. Aliás, o assunto foi muito explorado por jornalistas e articulistas no Brasil inteiro, inclusive de outros países, principalmente na vigência do seu primeiro mandato. Cartunistas, humoristas e piadistas amadores encontraram nesta personagem da vida real um prato cheio para o ofício de criticar, esculhambar e fazer rir. É costumeiro que riamos das próprias desgraças. Brasileiro tem dessas sandices. É lascado, mas se diverte. Não me parece um comportamento a ser enaltecido.

Depreende-se que as pessoas com educação deficitária sejam mais propensas ao comportamento anti-social e negligente. Afinal, os parâmetros éticos são alicerçados desde a infância, através da argamassa caseira provida pelos pais, e do fermento escolar injetado pelos professores, profissionais historicamente aviltados e desvalorizados no Brasil. É fato: nunca encontrei um professor rico. São vieses de um país otário que valoriza e endeusa atitudes vazias de pessoas desclassificadas. É aquela estória do “quanto pior, melhor”. Muitos fazem das porcarias o seu sustento. Por exemplo, este tumor metastático chamado “créu”, tocado à exaustão em centenas de rádios brasileiras, e que muitos ousam dizer se trata de música... Será que vendemos os ouvidos e as almas ao diabo?!

Nem sempre a matemática é ciência exata. O dinheiro deveria garantir acesso à educação de qualidade. Gente rica é culta e educada? Tinha obrigação de ser. Aí reside a indignação maior. De onde se espera mais discernimento e respeito à cidadania, partem atitudes abusivas e maquiavélicas, totalmente reprováveis.

Moro num desses condomínios horizontais fechados. São conglomerados urbanos nos quais residem pessoas com bom poder aquisitivo, embora, nem todos sejam podres-de-rico, como preconceituosamente apregoam alguns, misto de raiva, despeito e ignorância. Portanto, espera-se que a ordem e o respeito mútuo reinem dentro dos chamados condomínios de luxo. Não é bem assim. Há alguns dias, deparei com uma criança de onze anos dirigindo um carro dentro do condomínio. Não era brinquedo de autorama, não. Carro, de verdade. A surpresa e indignação fizeram com que eu perseguisse o motorista mirim até a sua residência. O moleque saltou do carro em polvorosa e fugiu para dentro de casa, largando o veículo estacionado na contramão. Não demorou apareceu a mãe do pequeno delinqüente, com um sorriso brando e ébrio no rosto. A mulher se desculpou, alegando que o pirralho aproveitara-se da distração dela e do marido, catou a chave do carro e saiu dirigindo, como se a vida fosse um vídeo-game. Fiquei matutando: será que filho de gente rica é tão evoluído que já nasce sabendo dirigir?! Percebi que não valeria a pena gastar tempo e saliva com a criatura beberrona. Reclamei com o coitado do síndico e pronto. Vejamos no que vai dar. Se um amigo do amigo não interceder na coisa, quem sabe, uma pesada multa possa ser aplicada aos incautos. Afinal, polícia e fiscais do trânsito não entram em condomínio fechado. Esquisito, né?!

Outro exemplo corriqueiro da deseducação é o uso do telefone celular em local público, principalmente, bares e restaurantes, como se fosse um rádio, um walkie-talkie. Entre apitos irritantes e conversas pelo alto-falante, todos ao redor do famigerado interlocutor se incomodam com o colóquio nada sigiloso. O uso do disparatado aparelho está virando uma praga na cidade. A culpa não é da alta tecnologia, mas da baixaria de quem a usa indevidamente. Outro dia mesmo, durante um velório, um sujeito perguntou ao outro, em alto e mau som, a que horas enterrariam o “desgraçado do morto”. É claro que o sujeito foi hostilizado e enxotado do ambiente. Só o morto _ Deus o tenha longe de “créus” _ não se queixou.
 
Não tenho dúvidas que o mundo seria muito melhor se não fosse regido pela batuta autoritária do dinheiro, ferramenta de soberba e egoísmo. Mas o comentário é apenas desabafo utópico, pueril. Não há como remar na rasura. As divagações e os sonhos limitam-se às mentes e bocas dos loucos, dos pacifistas e dos artistas. A humanidade caminha em marcha hipócrita, pisando os fracos e alicerçando, cada vez mais, quem detém dinheiro e poder, ainda que muitos deles fomentem desprezo, chacotas e crônicas como esta.

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POR EM 26/03/2008 ÀS 06:01 PM

Preparando-se para Os Demônios

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Foi em abril de 1849 que Dostoiévski e outras 27 pessoas foram presas acusadas de conspiração contra o czar Nicolau I da Rússia. Sim, ele tinha lá sua culpa, pois um ano antes, o aclamado autor de Gente Pobre (1846), passara a se reunir na casa de Petrachévski para discutir temas censurados na imprensa russa: as recentes transformações liberais da Europa, a eficácia de alguns sistemas socialistas e o fim da servidão dos camponeses, este último, o assunto preferido de Dostoiévski.
 
A eloqüência usada por Dostoiévski, quando se referia às “intoleráveis injustiças contra o povo russo”, fez com que Spechniev, também membro do círculo de Petrachévski, o convidasse para outras reuniões com o objetivo de organizar ações mais práticas na luta contra o autoritarismo. Dostoiévski empolgou-se com a fala, o cavalheirismo e o dinheiro emprestado de Spechniev, a quem chamou uma vez de “meu Mefistóteles”, e passou a integrar um grupo seleto para discutir tais “atitudes”. Foram presos três meses depois.
 
Em 16 de novembro do mesmo ano, Dostoiévski e outros 14 foram condenados à execução por um pelotão de fuzilamento. Porém, apelando à clemência do czar, a pena foi transformada em 8 anos de trabalhos forçados, mas não sem um capricho do magnânimo Nicolau I: que se procedesse à simulação da execução e apenas depois os prisioneiros seriam informados do perdão imperial.
 
Aí a história é mais conhecida: na manhã de 22 de dezembro os prisioneiros foram retirados de suas celas e levados à Praça Semenóvski (São Petersburgo) cercada por tropas militares e uma multidão silenciosa. A alegria do reencontro com os “bons companheiros”, depois de exatos oito meses isolados, foi substituída pela incredulidade, naquele dia frio com neve aos joelhos, ao ouvirem a sentença de fuzilamento. Enquanto tinham que vestir a própria mortalha, um padre pedia-lhes que se arrependessem, mas ninguém lhe deu bola se limitando a beijar o crucifixo que o sacerdote oferecia (incluindo os ateus de carteirinha).
 
Três deles – Petrachévski, Monbelli e Grigóriev - foram então amarrados aos postes, ao mesmo tempo em que o pelotão de fuzilamento preparava-se. Pode parecer inacreditável, mas um dos que esperava na fila - Lvov - parece realmente ter gritado: “Ô Monbelli, segura bem alto suas pernas, senão chegarás gripado ao reino dos céus”. Não se sabe se alguém riu.
 
Depois de um minuto interminável, o pelotão recebeu ordem para baixar armas. Se o oficial da guarda czarista, fosse um similar de Lvov diria algo como: “Brincadeirinha! Vai todo mundo quebrar gelo na Sibéria”. Avisados da comutação da pena, uma espada foi quebrada na cabeça de cada um dos prisioneiros, simbolizando a exclusão da vida civil, e os grilhões foram colocados em seus pés, representando o passaporte pra Sibéria.
 
Grigóriev não suportou esta experiência e sucumbiu à um torpor mental até sua morte anos depois. Dostoiévski imortalizou o dia “mais feliz de sua existência”, palavras dele que se sentia lisonjeado com a dádiva da vida, quando descreveu os sentimentos de um condenado, momentos antes da execução, em seu romance O Idiota (1868). Esta experiência, juntamente com os anos de exílio, fez nascer pra valer um dos mais importantes romancistas da humanidade (senão o principal).
 
O conhecimento das idéias socialistas e das pessoas que atuavam nestes círculos, geralmente letrados, ateus, niilistas ou revolucionários, bem como um caso de “queima de arquivo” numa organização clandestina em 1869, foram a base de seu romance-panfleto Os Demônios de 1871. Falarei dele semana que vem e de sua premonição aos feitos terroristas da época atual. 

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POR EM 26/03/2008 ÀS 11:53 AM

Por quem os sinos dobram

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Em épocas de crise e turbulências financeiras, as pessoas são tomadas pelo frenesi ilusório de que podem se tornar milionárias da noite para o dia. Algumas conseguem, de fato, alcançar tal meta, enquanto outras, que eram milionárias, atingidas pela quebradeira, tornam-se os novos pobres da praça associada. O mais incrível é perceber o quanto são parecidos, em avidez de alma, os pobres que se tornam ricos, e ricos que se transformam em mendigos.
           
Só os que se acham profundamente adormecidos não escutam, no rugir dos gritos nos pregões das Bolsas de Valores, em quedas sucessivas, o desespero impotente das massas, a queimar dinheiro nas ruas, nos terríveis dias do crash de 1929. E depois ainda há quem não acredite que a história se repete. O que se vê e se sabe é que a financeirização da riqueza desvia a sociedade do circulo virtuoso da produção pelo trabalho.

Sendo a geração da riqueza representada pelas finanças (dinheiro fazendo dinheiro, via especulação) cifras passam ativos com mais valor no mercado do que produtos essenciais à existência humana. O dinheiro como fator capaz de gerar mais dinheiro passou a ser o cativador empenho mais levado em conta. E para as pessoas para quem só o dinheiro conta, perdê-lo, ou ganhá-lo em menor quantidade pode ser um desastre maior do que seria a sua própria morte. Assim sendo, os adoradores do bezerro de ouro vão ter que mamar em outras tetas...
           
Até que, chegada a hora do acerto de contas, uma vez desabando a pirâmide que tinha como base maços de algodão doce na chuva (portanto, uma falsa e virtual riqueza, que se volatiza em prazo a fazer quebrar tanto o Petrônio quanto a Tíbia, bem como todo o resto da família) lamenta o ávido investidor, que decifra a vida no sotaque do Deus môney: pois é... um rapaz tão moço... Mundo i-mundo, vasto mundo: como ficarão os meus fundos, se o meu môney acabou - e tudo michou?.

Ao ver mercados financeiros desabarem, abandonando o tom triunfalista e retumbante muitos, em todo o mundo, estão a dançar o tango argentino. Ou, para ser mais folclórico: terão de perguntar aos deuses consultores dos mercados e finanças: "Para onde foi o meu, que estava aqui, bem aplicadinho?". O gato comeu. E onde foi o gato? Foi pro mato. E onde está o mato. Fogo queimou. E onde está o fogo. Água apagou. E onde está a água? O boi bebeu..." E assim por diante segue a brincadeirinha de procurar o que não foi perdido, uma vez que era só um faz-de-conta.
           
Quando se chega à situação em que o devedor tem medo de tomar emprestado, e o banco, por medo de não receber, recusa emprestar, tem-se uma pedra no caminho. O chamado imbróglio, nó cego difícil de desatar. Como diria o vulgo: "Se a liquidez empossa", fazê-la fluir não há quem possa. Vamos e venhamos: a crise veio da prática do subprime - ou seja, passar adiante o desastre previsível - tiro que saiu pela culatra. No golpe da pirâmide os malandros locupletam-se e saem de fininho da cena do crime.

O que foi o caso dos bancos do "paraíso" norte-americano, que passavam a outras mãos a bomba de efeito retardado. Agências de classificação de risco empacotavam créditos, vendendo gato por lebre, em reluzentes embrulhos, em que havia mais joio que trigo. No futebol como nos mercados, feio é perder. Deram crédito a pessoas sem renda, sem emprego, sem bens, sem lenço e sem documento. Uma vez despertados do sonho do consumismo sem freios, viram-se em meio ao pesadelo de um inferno financeiro sem paradeiro.

Como se já não bastasse o estrago que causam na sanidade os catrumanos  -humanos que se tornaram desumanos - (evoé, Guimarães Rosa!) agora temos a mata enlouquecida dos parvenus (saudações, Visconde de Taunay!) - capitalistas sem capital, empresários sem empresa, que em frenesi demoníaco dedicam-se, como especuladores da Bolsa de Valores,. a fazer dinheiro com dinheiro. Outros Sonsândrades pós-modernos, em face da súbita falência, terão que vender as pedras da Vitória!  Na velha República como na nova, picaretas abaixo de toda suspeita (com suas malas pretas) entregam-se às viagens da voracidade (e como aves de rapina - ou hienas engravatadas) buscam lucrar em cima do trabalho alheio.

Mas quando a Bolsa cai que esborracha, saem com ar de coitadinhos, a anunciar á praça que são os novos falidos do pedaço. Sendo o jogo de ganhar o mesmo que nos leva a perder até as calças, é de se prever que não é difícil ser conviva no banquete milionário, quanto dar com os burros n´água. Pena que a queda tenha se dado quando os novos ricos e remediados estavam chamados à festa.

Agora, que soam na taba cívica de Macunaíma os sinais da quebradeira, uma pergunta não quer calar: por quem dobram os sinos da Bolsa? Os sinos dobram pelos que acreditaram ser possível enganar ganhar muito dinheiro o tempo todo, sem correr riscos. No mais, é como re-escrevevia Drummond, o vate itabirano, encarnando o cândido José: "E agora, José/ a festa acabou/o povo sumiu/o fogo esfriou/e agora, José/ para onde?".  

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POR EM 25/03/2008 ÀS 02:37 PM

Alberto Manguel

publicado em

Cia das Letras
R$ 37,50

 



por Jonas Lopes


http://gymnopedies.blogspot.com/

Passou batido, em dezembro, o lançamento da coletânea Contos de amor do século XIX, organizada pelo ensaísta argentino Alberto Manguel. Uma pena, pois se trata de uma seleção excelente e variada da produção do mais importante dos séculos literários. Como toda iniciativa desse tipo, evidentemente, é desigual. Porém bem menos do que a média, até porque Manguel, que não é bobo, encheu o livro de autores clássicos: Tolstói, Machado, Balzac, Goethe, James, Eça, Pirandello, Stevenson e vários outros. O amor, aqui, se manifesta de formas distintas. Há o amor pigmentado pela culpa católica (na história de Leopoldo Alas); a devoção física não correspondida (Rudyard Kipling); o amor por um pai desconhecido (Ivan Turguêniev); o amor exótico de uma pantera por um soldado em pleno deserto (Honoré de Balzac); a relação guiada pelas convenções sociais (Edith Wharton) ou impedida por princípios morais (Liev Tolstói). Alguns relatos resvalam no fantástico, como os de Goethe e Eça de Queiroz. Já Oscar Wilde consegue extrair meiguice de uma fábula tola e juvenil. Entre os autores menos conhecidos no Brasil, vale destacar o inglês Anthony Trollope, adepto das tramas provincianas, personagens minúsculas e conflitos banais.

Os dois melhores contos do livro são os de Machado de Assis e Henry James. O do brasileiro, “A desejada das gentes”, traz uma de suas cativantes personagens femininas, Quintília, uma mulher que possui aversão física ao casamento, que só aceita se entregar à beira da morte, “meio defunta, às portas do nada”. A história de James, “O altar dos mortos” (que François Truffaut transformou em O quarto verde, de 1978), de certa forma prefigura o enredo da novela A fera na selva: um casal que tem dificuldade em aceitar seus sentimentos e deixa o tempo passar, à espera de uma iluminação que nunca acontece. Os dois morrem sem perpetuar a paixão, limitados por suas próprias prisões pessoais.

Uma reclamação? Faltou Tchekhov, de preferência com seu adorável “A dama do cachorrinho”.
Tchekhov não se esquece.

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