revista bula
POR EM 28/08/2012 ÀS 10:30 PM

Monteiro Lobato: alma de boxeador

publicado em

Os originais do livro de estreia do polemista Monteiro Lobato, “Urupês”, uma coletânea de textos analisados neste ensaio, dormiu algumas noites, esquecidos, na garçonière usada pelos modernistas liderados por Oswald de Andrade, em São Paulo. Foi em 1917, muitos anos antes da semana de 22. Depois foram devolvidos ao autor, que conseguiu definir um papel transgressor nesta obra que mudou a literatura brasileira por vários motivos, especialmente por um: o de ter inventado o povo no genial perfil do Jeca Tatu, personagem vítima do latifúndio e do colonialismo que foi apropriado pela cultura brasileira como um vetor de visibilidade e insurgência.

O modernismo é um movimento amplo, que extrapola a Semana e o enfoque paulistano (da capital). Nasceu do inconformismo do talento diante da mesmice da cultura, que estava amarrada a velhos esquemas agrários, culturais, políticos. É pioneiro mais no Rio de Janeiro do que em outros lugares, e não se circunscreve apenas à literatura, mas à caricatura, ao panfletarismo, ao deboche e à denúncia pura e simples. Vejo Monteiro Lobato como um dos primeiros modernistas e sua importância revolucionária foi reconhecida mais tarde pelo próprio Oswald de Andrade, quando se reconciliou com ele depois de anos de rusgas e ressentimentos. Mas Lobato era turrão e inconformado demais, e além disso, vivia no interior, para fazer parte de um movimento de inspiração europeia. Lobato bebia em fontes abundantes da literatura universal e aferrava-se à narrativa coesa, eficiente e encantadora, inspirada pelo mato que o cercava. 


leia mais...
POR EM 27/08/2012 ÀS 10:01 PM

30 tumblrs literários

publicado em

Uma seleção de tumblrs (pronuncia-se tâmblers) para aficionados por livros. O Tumblr é uma plataforma, um meio-termo entre os blogs e os microblogs, que permite aos usuários publicarem textos, imagens, vídeos e áudio. Os usuários também podem seguir, favoritar ou reblogar (semelhante ao RT do Twitter) outros usuários. Cri­ado em 2007, atualmente o sistema possui mais de 20 milhões de usuários.

Engraçados, esdrúxulos, belos ou bizarros, os tumblrs selecionados, trazem em comum a literatura. Seja homenageando autores clássicos como Dos­toiévski, Marcel Proust, Virginia Woolf, Ka­therine Mansfield, seja catalogando tatuagens literárias, trechos de livros, estantes e bibliotecas inspiradoras, livrarias famosas, fotografias de leitores de metrô, manuscritos de autores famosos, registros de escritores com seus animais de estimação. A lista também contempla tumblrs de revistas especializadas como a britânica “Granta” e a francesa “Paris Review”. Áreas como a poesia visual e o design de livros também estão presentes na lista.

leia mais...
POR EM 26/08/2012 ÀS 06:20 PM

Repórter do Times exclui Elis Regina e Noel Rosa da música brasileira

publicado em
 Larry RohterO repórter do “New York Times” Larry Roh­ter não é um in­térprete do Brasil que tenha o porte e o refinamento intelectual de Gil­berto Freyre (“Casa Grande & Sen­zala”), Sérgio Buarque de Holanda (“Raízes do Brasil”), ou, para citar um brasilianista, Thomas Skidmore (“Preto no Branco — Raça e Na­cionalidade no Pensa­mento Bra­sileiro”). Deve ser citado também o grande antropólogo belga Claude Lévi-Strauss, autor de “Tristes Tró­picos”, um livro que permanece gra­ças à sua prosa  viva e perceptiva, assim como ocorre com a sociologia “romanceada” do pernambucano Gilberto Freyre. Mesmo assim, no livro “Brasil em Alta — A His­tória de um País Transformado” (Geração Editorial, 391 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Wladir Dupont), Rohter tenta fazer um balanço da história do Brasil, com várias angulações, de Pedro Álvares Cabral, até um pouco antes, ao citar os índios, aos dias da presidente Dilma Rousseff. Há, em quase todos os capítulos, o tom do conselheiro, daquele que, de fora, parece entender tudo e, por isso, sabe quais caminhos devem ser trilhados. Con­centro-me no ensaio “Cri­atividade, cultura e ‘canibalismo’”, de 40 páginas. Curiosamente, apesar de omissões, é o texto mais interessável do livro. De cara, fica-se sabendo que Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Mário Reis, Ataulpho Alves, Cartola, Jacob do Bandolim, Bidu Sayão, Guiomar Novaes, Elizeth Cardoso, Elis Regina e Dorival Caymmi não existem e, por isso, não são citados por Rohter. Se a história brasileira começa em 1500, ou antes, com os índios, como explicita Rohter, a música patropi começa na década de 1950, com a bossa nova. Por que, num livro que busca as raízes políticas do país, esquecer algumas de suas raízes culturais?

leia mais...
POR EM 24/08/2012 ÀS 06:40 PM

Nunca antes na história deste prostíbulo

publicado em

A juventude compreende um período da vida deveras melindroso para o desenvolvimento psicossocial de um indivíduo. Quando se é jovem, nada parece impossível, inalcançável, nem mesmo os sonhos mais bestas. É fato: a mocidade está mais para poesia que prosa. Que o digam as musas e seus vates devotados. Houve uma época em que tive cabelos, e rimei muito amor com dor. Hoje, a lira foge dos meus pensamentos como o Tiago foge da cruz (Tiago é o meu vizinho ateu).

Há quase sempre muita energia vital para as atividades físicas, como esportes, pancadarias e sexo. Provocado pela efervescência dos hormônios, o cérebro juvenil funciona a mil por hora. Vive-se o apogeu da irreverência e do potencial criativo. Penando na adultícia, na chatice das encrencas cotidianas, gozando de irrisório élan, o máximo que conseguimos é enxergar, através do espelho retrovisor do tempo, o melhor de nós incrustado no passado longínquo. “Nossa... Éramos tão lindos e atirados...”. Dá até vontade de chorar ao idealizarmos fontes da eterna juventude. Por causa da impetuosidade, outra característica do mancebo é supor que já saiba tudo. Esta convicção de semideus torna-o arrogante por natureza. Tenho um dileto amigo que hoje trabalha como Juiz de Direito. Antes de adentrar a magistratura, penou, ao longo de três anos, como Delegado de Polícia no interiorzão do Estado. Naqueles idos ainda guardava uma cara de menino.


leia mais...
POR EM 23/08/2012 ÀS 09:37 PM

Einstein: Uma Biografia

publicado em

Aquela seria a mais importante autópsia de toda a vida do jovem patologista americano Thomas Harvey. Ele estava absolutamente consciente disso. Valia a pena correr o risco de cometer um grave deslize ético em nome dos possíveis segredos que talvez explicassem a genialidade daquele cérebro. Não teve dúvidas ao contrariar, parcialmente, o desejo do morto, que em vida expressou o destino que deveria ser dado ao cor­po: a cremação. As cinzas deveriam ser espalhadas num lugar deserto.

O desejo do falecido era mais que justificável, pois estava ciente da sua marcante passagem pelo mundo. Não queria ser alvo do que perfeitamente poderia vir a ocorrer no futuro: o culto de sua sepultura como objeto sagrado, ponto de convergência de eternas peregrinações. Teria seu desejo integralmente respeitado, não fosse o deslize ético do patologista que, na autópsia, cortou-lhe o cérebro em duzentos fragmentos e os distribuiu em dois recipientes.

Descoberta a conduta, o patologista foi demitido, mas nada se descobriu a respeito daquele cérebro. Em vida, realizou coisas fantásticas, mas em interação com muitos outros cérebros. Fora do mundo em que ele viveu, não sobrava nada. Em vida, as façanhas desenvolvidas por esse personagem revolucionaram não só os 200 anos que alicerçavam os princípios da física de Isaac Newton, mas também várias descobertas que impulsionaram significativamente o desenvolvimento da humanidade.


leia mais...
POR EM 22/08/2012 ÀS 08:41 PM

Especial Samuel Fuller

publicado em

Roteirista, produtor e diretor da maioria dos seus filmes, Sa­muel Fuller é uma lenda da sétima arte, o mais cult dos cineastas americanos, celebrado no auge da crítica francesa dos “Cahiers Du Cinema” pelos jovens da Nouvelle Vague. O impacto dos seus filmes se mantém, apesar de terem sido feitos há meio século, e funciona como um soco na cara do atual bom comportamento do cinema. Fuller contraria todos os consensos, de gênero, de protagonistas, de narrativas, jogando pesado e limpo com o espectador e o confrontando com a formação e o desmascaramento dos mitos. Seus heróis, histórias, lutas, diálogos são sempre antológicos e deslumbram gerações de espectadores e de estudiosos. Neste Especial, um painel ensaísticos sobre seus principais filmes e o que eles nos deixam de herança.

Os três primeiros filmes escritos e dirigidos por Samuel Fuller — sendo que só um não foi também produzido por ele — entre 1949 e 1951 despem os mitos que o próprio cinema vestiu. O primeiro, sua grande estreia, arrasadora, “Eu Matei Jesse James”, é o contraponto entre a formação do mito (o Robin Hood heroico invencível traído pelo melhor amigo, contado pelos folhetins e imprensa e cantado pelos trovadores ambulantes) e seu antídoto (a representação do crime no teatro protagonizado pelo próprio assassino, Bob Ford, o cara que assim fica marcado para morrer, pois matá-lo daria fama ao atirador). Em tese é um faroeste, mas Fuller rompe os mitos que cercam os gêneros.


leia mais...
POR EM 22/08/2012 ÀS 10:49 AM

A Espanha de Javier Cercas

publicado em

O país que está nos ho­lofotes da mídia devido à crise econômica tem no seu escritor Javier Cercas um mural literário que expõe de maneira magistral a vida contemporânea pós queda de Franco. Da obra, selecionamos três grandes livros do autor que ganhou o Prêmio Nacional de Narrativa de 2010 e é um dos maiores talentos da atualidade: sua estreia em “O Motivo”, uma radical interação com o mestre Dos­toiévski; “O Ventre da Baleia”, a composição de um virtuose do romance, e seu best-seller, que virou filme, “Soldados de Sa­lamina”, o rescaldo da Guerra Ci­vil espanhola fora do engessamento da vingança e do confronto, numa árdua e inesquecível celebração da tolerância.

Dostoiévski está na raiz de “O Motivo” (Editora Francis, 118 páginas), romance escrito ainda na juventude. Surpreende que na minuciosa análise do posfácio, acusado de panegírico pela imprensa espanhola, Francisco Rico nem cite o autor russo. Mas o livro é puro “Crime e Castigo”: um ho­mem solitário premedita um crime, o assassinato de uma pessoa idosa que tem dinheiro guardado em casa, e remói seus argumentos a favor e contra esse desenlace.

Embalado pela desconstrução do romance feita pelas vanguardas do século 20, Cercas no fundo parece querer desmascarar seu mestre, pois no lugar de refletir o país onde vive com seus personagens atormentados, tudo se reduz à literatura, como se esta se bastasse e fosse um círculo de ferro onde o leitor fica encarcerado para sempre, já que o final do livro é exatamente igual ao seu início. Como em Dostoiévski, o que importa não é desvendar o crime (quem matou? Está claro que foi o escritor, esse Raskólnikov de gravata, esse personagem clonado do próprio autor). O que vale são os motivos que levam ao assassinato, aqui uma representação da trama da novela que está sendo lida.


leia mais...
POR EM 19/08/2012 ÀS 05:29 PM

The Lady — Além da Liberdade, de Luc Besson

publicado em

James PattersonBirmânia era uma Shan­gri-lá cheia de belezas e riquezas onde o povo vivia feliz, mas aí vieram os malvados e a destruíram. O fato de o país ter virado colônia britânica no século 19 nem  vem ao caso. A malvadeza é toda atribuída à raça malaia, mulata, ditadora e truculenta, que tiraniza seus próprios iguais e persegue a sofredora dona de casa birmanesa filha de general líder da independência que tinha sido assassinado. Por sua linhagem, serve de imã para o mo­vimento democrático que se arrastou por décadas sem impedir que os generais da atual Mianmar dominassem o tempo todo.

A Orquídea de Aço, Aung San Suu Kyi, abandonou família para abraçar esse sonho que lhe caiu no colo depois de uma vida pacata no exílio. Guindada ao primeiro plano diante das massas, envolveu-se na luta e nunca mais saiu dela. Ficou afastada dos filhos e do marido, que conseguiu colocá-la como candidata vencedora do Nobel da Paz em 1991. A comunidade internacional nunca pressionou de fato a ditadura da Birmânia, tanto é que ela se eternizou. Mas posa de politicamente correta no filme “The Lady — Além da Li­berdade” (2011), do mentiroso Luc Besson, um cineasta de ação/ficção que omitiu o principal na sua hagiografia, como bem definiu a crítica: a de que a origem do mal da Bir­mânia veio do Oci­dente, que não pode posar portanto de vestal do processo.


leia mais...
POR EM 19/08/2012 ÀS 05:05 PM

Lista dos escritores mais ricos do mundo não tem escritores

publicado em

James PattersonA “Forbes” publicou  a lista dos escritores mais ricos do mundo. Não há nenhuma surpresa: não há escritores de verdade na relação da revista. (Escritores de verdade são aqueles que cobiçam a eternidade, como Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes, Laurence Sterne, Stendhal, Balzac, Flaubert, Nathaniel Hawthorne, Herman Melville, Machado de Assis, Eça de Queirós, Henry James, D. H. Lawrence,  James Joyce, Scott Fitzgerald, Faulkner, Thomas Mann, Graciliano Ramos, Carlo Emilio Gadda, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Lobo Antunes, entre muitos outros.) Os homens de letras citados pela “Forbes” são circunstanciais — surgem, ficam algum tempo na lista dos mais vendidos e, cinquenta anos depois (estou sendo generoso, aviso logo), ninguém mais sabe quem são eles. A literatura de mercado, para vender rapidamente, é assim mesmo. Sempre foi assim. Na época do francês Flaubert havia, é claro, muitos escritores populares — alguns faziam até mais sucesso do que ele, às vezes tido como obsceno, devido ao ruidoso processo provocado pelo romance “Madame Bovary”.

Hoje, assim como há indústrias de sabonete e cerveja, há azeitadas fábricas de autores e livros. Equipes talentosas, com um pé no jornalismo e na literatura de altíssima fofoca, escrevem livros, às vezes imensos, e fazem publicidade maciça. Vendem como água em dias quentes. James Patterson, se comparado a Proust e Joyce, deve ser tratado como analfabeto funcional. John Grisham, Ken Follett e Stephen King pertencem a um honroso quinto time da literatura mundial. Mesmo assim, não são grande coisa.


leia mais...
POR EM 17/08/2012 ÀS 05:21 PM

Seja o primeiro a curtir isto

publicado em

Já notaram que uma das coisas com que as pessoas mais se excitam é dar notícia ruim? Contar desgraças é palpitante e, numa roda de conversas fiadas, faz enorme sucesso. Os olhinhos brilham. Todos esperam ouvi-lo.

As gestantes (coitadas!), por exemplo, passam todo o pré-natal tomando vitaminas, levando dedadas na vagina e ouvindo das comadres, parentes e estranhos causos de decessos obstétricos os mais dantescos do planeta.  Sempre aparece alguém com aquela estória do bebê que passou da hora e nasceu roxinho.

Na seara dos dramalhões, eu me atrevo em contar mais uma. Reuniu a família na sala e disse: “Gente, eu vou morrer em breve”. A filha adolescente, que manuseava um ismarte-fone, entretida em fofocas e intrigas virtuais, pausou os polegares, deixou cair o queixo, a parecer ainda mais abestalhada que o costumeiro.

O irmão mais velho, a princípio injuriado pela abrupta interrupção quando então dedicava uma punheta a Popozuda Mascarada da Laje no banheiro (“Vem logo, menino”, ralhou a mãe), expressou uma face estarrecida, a melhor de todas as faces estarrecidas da sua curta existência. A mãe, que tomava chá verde emagrecedor, ficou pálida, bambeou as mãos e derramou o líquido fumegante no colo obeso cultivado às custas de muita comilança desenfreada, sedentarismo e duas barrigadas. Demandava perder peso, melhorar o visual, já que o marido parecia deveras interessado nas mulheres da vizinhança, muitas delas bem mais jovens, bonitas e jamais enxertadas. Seu sexto sentido vivia a lhe trair, ao fantasiar aventuras do marido com amantes. Então sofria de toda insegurança de que era capaz.


leia mais...
‹ Primeiro  < 8 9 10 11 12 13 14 15 16 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2020 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — [email protected]
wilder morais
renovatio