revista bula
POR EM 12/09/2012 ÀS 09:38 PM

O livro censurado de Henry Miller

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“Pesadelo Refrigerado”, de Henry Miller, é um livro que ficou muito tempo censurado e, quando veio à tona, mostrou a América virada pelo avesso num tour radical. De olho clínico e com narração enxuta, o autor leva o leitor para o núcleo do drama — a formação de um país voltado para a dor e que tenta em vão mascarar essa evidência

Henry Miller

Não são os vestígios que importam, mas suas fontes humanas. A arqueologia não deveria se ocupar das ruínas, mas do es­plendor das mãos anterior a elas. Isso poderia tirar do estudo do passado remoto sua roupagem funerária, sua obsessão por túmulos, suas descobertas que se transformam em museus suntuosos. Descobrir um gesto numa fogueira extinta é mais importante do que ver imobilizado um trono de ouro a­companhando múmias.

A função civilizatória da arqueologia não é o deslumbramento provocado pela precocidade dos ancestrais, mas enxergar o que qualquer civilização esconde quando for comparada ao verdadeiro enigma, a natureza. O que faz o projeto esquecido de uma pirâmide no alto da montanha? Qual o sentido de uma cidade industrial americana colocada ao lado do Grand Canyon? Esses eventos poderão revelar toda a fuligem, precariedade, escândalo e horror que acompanham a modernidade?

É disso que se ocupa Henry Miller no seu clássico livro de viagens, “Pesadelo Re­frigerado” (tradução de José Rubens Si­queira, Francis, 320 páginas), um trabalho arqueológico que despreza os vestígios, a não ser que sirvam para provar sua tese sobre a sujeira da América. Ao detectar a origem do pesadelo — o divórcio entre homem e natureza no país que despreza a arte e a cultura — ele vai atrás do tesouro verdadeiro oculto a quilômetros abaixo das aparências: os gênios, anônimos ou simplesmente desprezados e perseguidos, que fazem a grandeza da sua época e que passam despercebidos pela brutalidade de uma nação que aposta nas vantagens da guerra. Esta, já estava desencadeada na Europa na época em que foi escrito o livro, mas ainda não havia o engajamento, vislumbrado como iminente, do governo Roosevelt, em 1941.


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POR EM 10/09/2012 ÀS 09:58 PM

Toda a obra de Chopin, Schubert, Brahms e Haydn para ouvir on-line ou download

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O site Classical Music, especializado em compositores clássicos, disponibilizou toda a obra de Frédéric Chopin, Franz Schubert, Joseph Haydn e Johannes Brahms para audição on-line. As peças são conduzidas por maestros e instrumentistas consagrados.

As obras também estão disponíveis para download gratuito, que são limitados ao número de oito por dia. Entretanto, com uma contribuição de 40 reais, todo o conteúdo do site, cerca de 30 mil horas de música, ficará disponível para downloads ilimitados.

Além de Chopin, Schubert, Haydn, Bra­hms (e Bach, Beethoven e Vivaldi, publicados anteriormente), outros 4 mil compositores também podem ser ouvidos ou baixados, embora suas obras estejam disponibilizadas em número menor. No site também é possível criar playlists com os compositores preferidos.


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POR EM 10/09/2012 ÀS 09:43 PM

Sai biografia de Tocqueville

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O francês Alexis de Tocqueville era um intelectual notável. Dois de seus livros se tornaram clássicos, “O Antigo Regime e a Revolução” e “A Democracia na América”. Embora seja muito estudado noutros países, no Brasil não havia nenhuma biografia. Sai agora uma obra imperdível: “Alexis de Tocqueville” (Record, 714 páginas, tradução de Mauro Pinheiro), de Hugh Brogan.

Tocqueville escreveu de forma brilhante, como cronista e analista político privilegiado do antigo regime e da Revolução Francesa de 1789. Intelectual refinado, investigava, explicava e escrevia muito bem. A sobrevivência de seus textos se deve, em larga medida, à qualidade de sua prosa e à sua capacidade de observação direta (não apenas mediada por outros textos). Magistrado francês, foi para os Estados Unidos com o objetivo de estudar seu sistema “judiciário-carcerário”. O resultado foi “A Democracia Americana”, um poderoso estudo sobre a sociedade dos Estados Unidos que extrapolou, de longe, os objetivos iniciais de sua pesquisa.
 
As ideias de Tocqueville sobre os Estados Unidos influenciaram a filósofa alemã Hannah Arendt. Pode-se dizer que a intelectual judia atualizou o trabalho de pensador do francês.

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POR EM 08/09/2012 ÀS 08:31 PM

40 discos PARA MORRER antes de ouvir

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Depois da polêmica sobre os Livros e Filmes Para Morrer Antes de Ler, convidei leitores, seguidores do Twitter e Facebook — músicos, jornalistas culturais, produtores — a responder quais eram os piores álbuns musicais — de artistas consagrados — da história. Cada participante poderia indicar entre um e dez discos, de artistas brasileiros ou estrangeiros, tendo como critério principal o gosto pessoal. A música sertaneja, o funk e o pagode não entraram na lista por ser considerados hors concours. A lista não pretende ser ampla ou definitiva e reflete apenas a opinião dos participantes consultados. Se podemos ter a lista de nossas preferências, por que não podemos ter a lista daquilo que não gostamos? Na lista, aparecem nomes consagrados da música mundial como Bob Dylan, Neil Young, Rolling Stones, David Bowie, Elton John, The Who, Eric Clapton, Mick Jagger, e brasileiros como Renato Russo, Caetano Veloso, Djavan e Rita Lee, que conseguiu a proeza de emplacar quatro álbuns. A “Rainha do Rock Brasileiro” é o nome, entre todos, que aparece mais vezes. 


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POR EM 07/09/2012 ÀS 04:06 PM

Profissão: poeta

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Mesmo após tantos anos sem escrever um verso sequer, os amigos escritores chamam-me poeta. Seria só fase ou o meu fuso mudou definitivamente? Uma vez poeta, sempre poeta? Estaria o mundo carecendo tanto assim da lira, ao ponto deste pelejante clã de escribas selarem os portões da rima com seus cadeados de crepom, a fim de demoverem da fuga este vate dissidente?

Nos dias atuais, declarar-se poeta é pior que se declarar culpado. E pior: quase ninguém acredita. Olham pro sujeito como se ele tivesse lepra. Não é lepra não, gente; é a letra, o verbo.

Conheci Antônio Carlos Piolho num jardim de inverno do Hospital das Clínicas, ocasião em que eu me graduava no curso de medicina e ele convalescia de uma fratura de pênis (Enverga, mas não quebra? Conversa fiada!), decorrente de uma desastrada tentativa de conjunção carnal com um travesti (desatento, ingênuo, louco, ele jurava fosse o sujeito “a mulher mais gata com a qual tivera feito amor nesta vida”), atrás de uma caçamba de entulhos na esquina da Rua Pegasus com a Caralho-de-Asas. Comovido com o acidente e o sofrimento do cliente (suponho que Piolho tampouco soubesse que o “impressionante encontro casual” tivesse um caráter claramente financeiro), Turíbio (era este o nome de batismo da travestida Melanie Madona) colocou-o dentro do velho Fiat 147 e tocou para o Pronto Socorro do HC. Nunca é tarde demais da noite para se operar caridades.


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POR EM 05/09/2012 ÀS 09:43 PM

Por que eu e Ademir Luiz estamos certos e os comentadores da Bula e do facebook que discordam de nós não só estão errados, mas são também intelectual e moralmente inferiores

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“Seus respectivos públicos, que se colocam como adversários, já chegam convencidos.” (Ademir Luiz, em seu artigo “Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil”, aqui na Bula)


A edição de 18 de maio da revista “Science” traz um dossiê especial sobre conflitos humanos, apresentando os resultados de experimentos em diversas áreas das neurociências (as neurociências de verdade, não as de autoajuda) bastante interessantes e úteis para nos ajudar a entender a nós próprios.

Ajuda a entender, por exemplo, por que uma resenha que critique Woody Allen, ou um artigo que defenda que ele é melhor do que Dostoiévski, provocam reações iradas de leitores ofendidos, como se se tratasse de times de futebol ou insultos a membros da família. É bizarro que alguém que se diga “doutor em educação”, além de cometer erros crassos de português, revele-se preconceituoso, discriminador. Isso porque outrem critica um filme. É patético ler comentários que não se envergonhem de escancarar, senão a ignorância do assunto em questão, mas o próprio artigo que estão criticando. Digo ignorância do próprio artigo pois a maioria dos comentadores não se dá ao trabalho de ler. Lê o título, passa os olhos muitíssimo por cima e pronto. E isso não é típico de uma certa geração twitter, mas, sim, do ser humano, que é preguiçoso por natureza, portanto, desde sempre.


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POR EM 04/09/2012 ÀS 10:28 PM

Por que Felipe Neto é o intelectual mais influente do Brasil

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“Se sou um elitista? Sou, sempre fui e sempre serei. O julgamento da maioria está sempre errado. O único jeito de consertar a sociedade é a pau. É preciso manter a cultura, o que resta, acima da canaille”. 

(Paulo Francis)

No longínquo ano de 2008, foi publicada na edição de agosto da revista “Playboy”, estrelada pela atriz Carol Castro, uma curiosa entrevista com Paulo Coelho. A chamada de capa é intrigante: “Sou o intelectual brasileiro mais importante”. Sensacionalismo, mas nem tanto. No recheio da revista, o leitor fica conhecendo a fala completa do “Mago”: “Sem dúvida, sou o intelectual brasileiro mais importante. Mas não queria dizer isso porque pode parecer arrogância. Refaz a frase aí de uma maneira que eu não pareça arrogante”. De alguma forma, ainda que tangencialmente, Paulo Coelho, o mesmo homem capaz de afirmar que James Joyce é nocivo para literatura, demonstrou possuir alguma mínima consciência do absurdo de sua declaração.

Era e é inconcebível que ele seja sequer candidato ao título de intelectual brasileiro mais importante. Sua produção, embora composta de uma lista de best-sellers, é culturalmente desimportante. O Brasil já gerou pensadores dignos de figurar no primeiro escalão mundial, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim Nabuco, Mário Ferreira dos Santos, Euclides da Cunha. Também tivemos divulgadores de altíssimo nível, como o exportado Paulo Francis e o adotado Otto Maria Carpeaux. Dentre os vivos, a coroa é disputada por medalhões do porte de Antonio Candido, Ciro Flamarion Cardoso, Roberto Machado, Oscar Niemeyer e Ferreira Gullar. Autores de obras fundamentais, já integradas ao cânone.


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POR EM 03/09/2012 ÀS 09:37 PM

A última entrevista de Cecília Meireles

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A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964

Cecília Meireles

“Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”


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POR EM 31/08/2012 ÀS 09:25 PM

O que (não) esperar do novo álbum de Bob Dylan

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“I ain't gonna work on Maggie's farm no more…” Robert Allen Zimmerman, por mais de 45 anos, clama, declama e repete, inúmeras vezes... “No, I ain't gonna work on Maggie's farm no more…” Mas nós, Mr. Jones viscerais, insistimos em não ouvi-lo. O novo álbum, “Tempest”, será lançado no dia 11 de setembro e inúmeros blogs e tablóides mundo afora já iniciaram suas especulações: comparação, descabida e já desqualificada pelo próprio Zimmerman, com uma das últimas obras de William Shakespeare, “The Tempest”. Em apontamentos feitos pelo “LA Times” e pela Billboard.com: “a darkness has replaced the instrumental interludes, buoyancy and lightness of his last three albums”.

Independentemente do que já se foi dito e especulado sobre o 35° álbum, uma coisa é clara: tratando-se de Dylan, não devemos esperar mudanças; segundo, devemos esperar mudanças. Seja o que ocorrer, muitos de nós não entenderão, não aceitarão. Apreciará quem quiser. Porém devemos, antes de tudo, compreender o “outro” e seu ponto de vista, ao invés de simplesmente taxá-lo, novamente, de “prostituído” ou “Judas”. Fazer esse esforço para chegar, o mais próximo possível, da perspectiva particular de Dylan. O que importa é que o “nós” não importa. “Something is happening here, and you don't know what it is”.


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POR EM 31/08/2012 ÀS 08:54 PM

Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha

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Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.

Pobre diabo. Àquela altura da vida, nem mesmo aulas poderia matar, uma vez que abandonara os bancos escolares (na verdade, fora abandonado por eles, pela constante falta de vagas na escola pública) ainda durante o Ensino Fundamental, atormentado pelos mapas geográficos incompreensíveis, as regras de três, os cálculos matemáticos, a fome e o comportamento destrutivo do pai.

Atualmente, vivia entretido mesmo era com o ócio, o uso contumaz de crack (engrossava as fileiras de viciados urbanos que muitos cidadãos prefeririam enfileirar num paredão e fuzilar) e a torcida organizada “Os Fanáticos Demônios”. Bom mesmo era comparecer ao estádio, urrar feito um primata, empurrar o time para dentro do adversário, aprontar quebradeira nos terminais de ônibus e trucidar qualquer safado vestido com camisetas dos times rivais. Especialista em miséria humana, o delegado supunha já tivesse visto de um tudo na sua carreira. Irmão que matava irmão. Crimes passionais. Latrocínios. Trairagens familiares seguidas de morte. Infanticídio. Raptos. Abortos clandestinos. Rupturas himenais forçadas. Torturas. Judiações. O supra-sumo do sadismo. A crueldade sem amarras. O Homem na pior acepção da palavra.


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