revista bula
POR EM 22/05/2009 ÀS 02:10 PM

Mancadas

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Há longínquos 30 anos ou mais, depois de descobrir que Papai Noel não existia, comecei a ter sonhos de adquirir bens materiais e tecnologias. Eis que é chegada a hora.

Eu queria ter um carro. Hoje tenho e o trânsito é um inferno, além do que levo muito mais meu carro pra fazer revisão dos cinco mil, do que ele me leva ao médico. Eu ainda pago a bebida dele, já que meu estômago não me permite mais beber.

Eu queria ter um “telefone móvel” como o agente 86. Hoje tenho, mas perdi o sossego com gente me ligando nos lugares e horas mais inusitadas.

Eu queria ter um computador pra não sofrer mais com o corretivo da máquina de datilografia. Hoje tenho e as letras estão ficando menores e minha vista cada vez mais cansada. Depois quis ter um “computador portátil”. Hoje tenho e ele é meu amo e senhor pois sou obrigado a carregá-lo pra onde quer que eu vá, como um escravo do século XVIII carregava a senhoria na liteira. E nem liteira tenho. “Vida de nego é difícil/ é difícil como o que....”

Eu queria ter uma conta num banco com caixa eletrônico pra não ficar 3 horas na fila do Banespa. Hoje tenho e sou obrigado a colocar o cartão 10 vezes na máquina, digitar três vezes a senha só pra ver um saldo, isto tudo depois de enfrentar uma fila básica de 20 minutos.

Eu queria andar de avião pra evitar a gentalha nas rodoviárias. Pois é, a gentalha veio junto comigo pros aeroportos. E tem mais, nem bem o avião parou as pessoas levantam alucinadas dos seus bancos pra abrir o compartimento de bagagem, pegar “os trem” e ficar apertadas em pé no corredor. Êta povinho infantilizado. Pior: elas ainda esperarão meia hora pra chegada das malas...

Eu queria ter TV a Cabo pois nela não passava propaganda, já que você pagava todo mês. Hoje tenho, pago e vejo o cara das Casas Bahia me oferecendo um armário “super-chic” e outro do China in Box, gritando irritantemente nos meus ouvidos.

Eu queria ter internet pra me comunicar com os amigos. Hoje tenho e não paro de trabalhar por causa dela.

Eu queria ser professor universitário pra lidar com gente educada, de bom caráter, com cultura ligeiramente superior à média da população. Pois é pessoal, esta foi realmente mancada: virei professor universitário.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 10:21 PM

Eles já foram embora

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Quem acompanha esta coluna sabe que desconfio muito das previsões sobre aquecimento global feitas pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), em especial do alarmismo feita sobre elas. Aliás, tenho um carro bi-combustível mas nunca uso álcool, pois afinal prefiro destruir o planeta daqui a 100 anos, queimando petróleo, do que inviabilizar (hoje) o manancial de água que fica a 10 km de casa, financiando a plantação de cana que está crescendo por lá. Eu e minhas causas perdidas... 

Mas os relatórios do IPCC (de vez em quando sou obrigado a lê-los) não falam apenas dos problemas causados pela queima de combustíveis fósseis, mas também do uso da terra, isto é, da diminuição de áreas de vegetação natural, substituindo-as por pastagens ou plantações, que passam a refletir mais calor já que absorvem menos luz solar e isto obviamente também colabora com o aumento da temperatura, ao menos localmente.
 
De qualquer forma, uma das piores conseqüências da diminuição de áreas naturais é a extinção de espécies que por perderem seu habitat não conseguem mais se reproduzir e completar o “ciclo da vida”, como é o caso, por exemplo, do tecopa pupfish, um peixe da Califórnia, declarado extinto em 1981, pela antropização dos rios em que vivia.
 
Neste endereço, você ainda pode ver dez outras espécies de animais que foram extintas, nem sempre pela diminuição do habitat, mas que, como o ex-peixe californiano, também foram fotografadas ainda em vida: o tigre da Tasmânia, que não era tigre e apesar de parecido com cachorro, era na verdade um marsupial; o boto cor-de-rosa de Baiji, declarado extinto em 2006, e que vivia no Rio Yangtze na China, em cuja bacia hidrográfica moram em torno de 12% da população mundial (!) e que, além de poluírem o rio, ainda caçavam os indivíduos desta dócil espécie no rio que os chineses consideram ser o símbolo da paz e prosperidade (Ave Maria...); o tigre de Java, extinto nos anos 80, é outra espécie que perdeu seu habitat devido à agricultura e mineração, na ilha mundialmente conhecida pela fúria de seu vulcão.
 
Um outro caso interessante é a cabra dos Pirineus que, apesar de extinta, tinha material genético preservado e por isto foi tentada a clonagem. Mas o clone, gerado no ventre de uma espécie aparentada, morreu após sete longos minutos de vida. Constatou-se depois uma má formação pulmonar na cabritinha.
 
Pois é, a extinção é uma via de mão única, que acaba com a variabilidade inerente da evolução biológica que, na tentativa de ajustar as espécies ao habitat, escreve a evolução por linhas tortas.
 
Pena que o homem sempre pensa que o que faz é certo.
 

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POR EM 08/05/2009 ÀS 06:43 PM

Uma força pra mãe natureza

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O dia das mães chegou e vou falar aqui da mãe de todas elas, a mãe natureza.

Esta coitada padece em plena Terra, pois trabalha dia e noite, noite e dia sem sossego. Já criaram até uma expressão pro batente pesado e cotidiano dela: “serviços ambientais”. Por exemplo, ela realiza a fotossíntese e com isto retira o gás carbônico da atmosfera, que segundo alguns entendidos e muitos alarmistas, esquenta nossas cabeças.

Neste mesmo processo de produção primária, ela libera oxigênio aumentando o nosso fôlego, e elimina vapor d’água resfriando, mais uma vez, nossos dias quentes de crianças que insistem em exercer seus pequenos e podres poderes.

E o lixo, então. Ela não se contenta em levá-lo para fora. Tem o costume de decompor a matéria orgânica morta nas florestas e campos, ao mesmo tempo que consegue absorver os nutrientes liberados neste processo, através das raízes da plantas. Pois é, fala-se tanto em reciclagem, mas isto já é assunto e prática antiga daquela que não dorme enquanto eu não chegar, aliás não dorme nunca...

Pra piorar, decididamente, não somos bons filhos. Apesar dos esforços de alguns, a maioria ainda tem o costume de degradar a terra, não evitar erosões e usar rios como depósito de esgoto (largar o chinelo na sala é o de menos).

Tudo isto tem enervado a mãe Terra, que responde com extremos de humor: ou deixa esturricar ou manda baldes de água. TPM? Difícil dizer. De qualquer modo estas oscilações bruscas estão dentro do esperado pelos modelos climáticos mais recentes e que há pelo menos uma década têm mostrado o aumento da ocorrência dos extremos de variabilidade climática.

Num editorial de três anos atrás no periódico “Global Environmental Change”, o cientista Steve Ryner já avisava: é necessário aumentar a capacidade buffer das cidades para suportar estes eventos mal humorados da mãe Terra. Assim, além de replantar a mata galeria e aumentar a área verde para evitar enchentes, é necessário reformar o ambiente das cidades, através de práticas de Engenharia Ecológica. Para isto, é preciso delinear procedimentos de restauração ecológica, com base nos exemplos naturais usados pela natureza para reformar sistemas degradados.

O principal modelo de trabalho da mãe natureza é a sucessão ecológica, isto é, a substituição seqüencial de espécies em clareiras de florestas, áreas agrícolas ou mesmo terrenos baldios em cidade. Assim, este exemplo começa a ser seguido pelos filhos quando eles realizam intervenções que iniciem e ou acelerem a sucessão ecológica de uma área, pois a introdução de certas espécies num ambiente degradado facilitará a chegada e o estabelecimento de outras, já que as primeiras adicionarão nutrientes ao solo, aumentarão a umidade e amenizarão a temperatura com o sombreamento. As interações desta nova comunidade poderão, com o tempo, retomar os serviços ambientais paralisados com a degradação.

Em 2000, ao custo de 30 milhões de euros, instituições alemãs iniciaram a restauração ecológica de um trecho de 8 km do rio Isar que atravessa a cidade de  Munique. Os objetivos principais eram o de deixar o rio seguir seu próprio e original regime de fluxo hídrico, suportando os distúrbios naturais, com condições de receber as enchentes em suas áreas de inundação e recompor a fauna aquática (peixes e invertebrados).

As ações no Isar foram pra valer com as retiradas das estruturas de canalização antrópicas, o alargamento do leito e a criação de “piscinas” de cascalho, que compunham o sedimento original do rio e permitiram o re-estabelecimento da fauna até então perdida. É importante notar que o conhecimento das características originais, é oriundo da análise de um trecho do mesmo rio que nunca foi degradado, algo ainda possível de se realizar em alguns rios brasileiros.

Assim, o rio Isar que já foi usado para transporte, geração de energia elétrica e carreamento de esgotos para longe da cidade, está agora em plena restauração ambiental com os alemães já podendo nadar em seu leito, mais limpo e belo. Além disso, a resiliência do rio, isto é, a capacidade de resistir e se adaptar às grandes fúrias da mãe natureza aumentou.

Os brasileiros ainda têm muito o que fazer para agradar mamãe. O tempo tem mostrado que ela não nega auxílio aos que se dispõem a seguir seus passos na restauração ambiental. Afinal, ao contrário do que diz a lenda, coração de mãe é de quem se esforça para lá entrar.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 02:01 PM

Fisher e a evolução

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Ronald A. Fisher era um arrogante, sem paciência com ninguém que fosse, ou parecesse, menos inteligente que ele, isto é, quase o mundo todo. Era extremamente original e ainda, um pesquisador muito produtivo, que nos últimos 50 anos de sua vida conseguiu publicar praticamente um trabalho (importante) a cada 2 meses. Isto numa época (ele morreu em 1962) sem computadores, com suas correções automáticas e cálculos precisos. Ele fez os dele em calculadoras primitivas e praticamente sozinho.

Já tratamos semana passada de sua colaboração significativa com a Estatística, mas ele não ficou só aí.

Em 1900, 35 anos depois de publicado (literalmente) numa “revista de paróquia”, o trabalho das ervilhas de Mendel foi redescoberto. Desta forma, enormes dúvidas surgiram sobre o darwinismo que aparentemente era contraditório à elegante pesquisa mendeliana, pois esta resultava numa evolução por saltos e não gradual, como afirmava Darwin: “a natureza não dá saltos” com ajuda e o apoio dos biométricos, liderados por Karl Pearson, que por defender tanto o gradualismo, viviam medindo tudo e todos, buscando variações entre as populações.

Em 1915, T. H. Morgan estudou a Drosophilla (a mosca-das-frutas) e publicou um trabalho desenvolvendo grandemente a teoria mendeliana mas do qual ainda restaram muitas dúvidas de como os genes nos cromossomos, que seriam os principais mecanismos de herança, poderiam ser escolhidos pela seleção natural.

Este enigma, ficou para nosso herói, Lord Fisher, que em 1918, publicou o artigo “A correlação entre parentes na suposição da herança mendeliana” que com, modelos elegantes, mostrou que a herança mesclada é o efeito cumulativo de um grande número de fatores mendelianos que são individualmente insignificantes. O mais incrível é que nesta data, Fisher, com 28 anos, praticamente nem tinha emprego, pois só no ano seguinte (em 1919) é que ele se estabilizaria na Estação Experimental de Rothamsted, para então, praticamente criar a Estatística.

Depois em 1936, publicaria um trabalho no qual afirmava que os resultados de Mendel eram “bom demais pra ser verdade”, mas que mesmo assim, Mendel tinha demonstrado grandes talentos como pesquisador experimental (olha o Fisher, fazendo elogios, gente...).

Fisher ainda escreveu outros trabalhos, importantes para a chamada “síntese evolutiva moderna”, como aquele em que mostrou o teorema fundamental da seleção natural: “a velocidade de aumento na aptidão de qualquer organismo em qualquer tempo é igual à sua variância genética em aptidão naquele momento”. Isto é, quanto maior a variabilidade genética, maior a probabilidade do organismo (ou espécie) ajustar-se ao seu ambiente no tempo presente.

Hoje, quando comemoramos 200 anos do nascimento de Darwin, parece ser coloquial, entre cientistas, aceitar a seleção natural, mas isto nem sempre foi assim, pois antes da síntese evolutiva, isto é, antes do conjunto de modelos matemáticos elaborados por Fisher e outros, muita desconfiança havia sobre darwinismo, já que o mendelismo mostrava outras perspectivas.

Então pra concluir: o cara era um chato, mas “inventou” a estatística, que perpassa por todas as áreas do saber, e agregou a genética mendeliana com a evolução e a seleção natural. Mas não é que qualquer pesquisador que eu conheça, gostaria de ter um chato deste no próprio departamento?
 


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POR EM 21/04/2009 ÀS 03:14 PM

A significância de Ronaldo A. Fisher

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Ronald A. Fisher nasceu em Londres em 1890 e com 22 anos se formou em Cambridge, onde estudou física e matemática. Portador de uma miopia crônica desde a infância, por vezes recebia aulas de um instrutor que lia para ele. Há certa concordância entre os historiadores da ciência que isto despertou e canalizou sua capacidade matemática-geométrica. 

Em 1919, depois de vários empregos mal-sucedidos e já com filhos e casado, ele passou a ser o estatístico da Estação Experimental de Rothamsted que fazia “experimentos” agrícolas há quase 100 anos. Fisher conseguiu esta posição pois antes de sair de Cambridge, conheceu o Sr. Gosset, um químico e matemático que trabalhava na Cervejaria Guinness, que faz aquela cerveja escura e super-cremosa.
 
Gosset havia desenvolvido um método para comparar pequenas amostras e publicara o trabalho no periódico “Biometrika” de Pearson. Fisher descobriu um erro no trabalho de Gosset, enviou a correção à ele, que então encaminhou a Pearson, que a publicou. Depois disso, Pearson e Fisher continuariam publicando seus trabalhos, mas cada um em sua trincheira apontando os erros um do outro, a chamada “briga de cachorro grande”.
 
Aqui duas notas: A primeira é que Gosset publicou seu trabalho sobre o pseudônimo de Student, pois tinha um contrato de exclusividade com a Guinness e seu teste, primeiramente chamado de z, ficou conhecido como “t de Student”.
 
A segunda é que, diante da soberba de Pearson, Fisher ficara sem a “Biometrika” (a principal revista da época) para publicar, restando-lhe a “Journal of the Royal Statistical Society”, mas como esta já recusara um de seus trabalhos, ele passou a publicar em revistas menores, muitas vezes pagando do próprio bolso a publicação. Assim, Fisher não publicava em periódicos “Qualis A”, mas aqui vale lembrar que, assim como a abadia de Westminster precisava mais do cadáver de Darwin do que ele da abadia, as revistas precisavam mais das colaborações de Fisher do que ele delas. Foi ele quem fez com que estas revistas passassem a ter, no jargão moderno, “alto índice de impacto”. Por isto que em 1947, já bastante tarimbado e tendo voltado as páginas das principais revistas, Fisher disse numa entrevista à BBC: “Deve-se avisar e aconselhar o jovem cientista, de que quando tiver uma jóia a oferecer ao conhecimento da humanidade, alguns certamente desejarão cercá-lo e despedaçá-lo”.  
 
Segundo David Salsburg, em seu “Uma senhora toma chá....como a estatística revolucionou a ciência no século XX” (Jorge Zahar Editor, 286p.), morando na estação de Rothamsted, Fisher logo concluiu que os 90 anos de pesquisa por ali, tinham sido em vão, pois nos experimentos com “estrumes artificiais” (depois batizados de fertilizantes) realizados e avaliados por diversos índices de fertilidade, não havia algo que o mundo, atual e pós-Fisher, acha básico: uma pergunta (hipótese) simples e um delineamento que teste apenas a variável de interesse, padronizando outras que podem contribuir para mudar os resultados. Assim, se você quer testar três tipos de adubo no crescimento do milho, outras variáveis que influenciam o crescimento da planta devem ser padronizadas (quantia de irrigação, tipo de solo, temperatura, etc..). Ainda, são necessárias réplicas dos tratamentos (tipos de adubo), pois com elas é possível medir a variância dos resultados em torno da média. Esta técnica ficou conhecida como Análise de Variância, cujo resultado é o teste F (em homenagem a Fisher).
 
Mesmo assim Fisher aproveitou-se dos 90 anos de dados de Rothamsted, que incluía produção de grãos e informações pluviométricas, e deu os primeiros e sólidos passos de uma área estatística que é conhecida hoje como Análise de Séries Temporais. Fisher era uma máquina de publicar e dada a genialidade de alguns de seus textos, outros caíram no esquecimento. Em 1970, L.J. Savage da Universidade de Yale, foi ler os originais de Fisher e descobriu que ele havia resolvido alguns problemas que até aquele momento ainda eram insolúveis para os estatísticos, isto é, Fisher foi genial até em seus escritos desconhecidos.
 
 As brigas entre Pearson e Fisher podem ter sido ruins para eles, em especial, o primeiro, mas foram excelentes para a estatística e o mundo. Pearson desenvolveu o teste de qui-quadrado para comparar duas proporções e no mesmo artigo descreve o teste de significância. Fisher apontou um erro no artigo, mas a partir daí, desenvolveu a maioria dos métodos para calcular o teste de significância, que é a probabilidade (p) de assumir que a hipótese testada é verdadeira. Assim, se p=0,01 “só um valor em 100 excederá [a estatística de teste calculada] por acaso, de forma que a diferença entre os resultados seja claramente significativa”.
 
Mas Fisher ainda tinha colaborações a fazer com a genética e a evolução, um capítulo à parte na sua vida que veremos semana que vem.
 

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POR EM 13/04/2009 ÀS 02:10 PM

A distribuição de conhecimento: Pearson e a estatística

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Para um pesquisador, o método científico é muito mais importante que os resultados de um trabalho. É a metodologia da pesquisa que vai decidir se aquela frase de duas linhas na conclusão (se é que no trabalho há conclusão) tem validade científica ou não. Sem uma metodologia adequada, um bom número de argumentos não ajuda em nada. Exemplos também não servem pois, como diriam os matemáticos: “exemplo não é prova”.
 
São necessárias observações honestas e um delineamento experimental adequado para dizer sim ou não para a hipótese testada. Hoje é muito trivial pensar que se queremos comparar, por exemplo, dois tipos de arroz, basta cozinhar os dois em panelas separadas com o mesmo tempo de cozimento, a mesma quantidade de sal, cebola e tempero, e depois experimentá-los, com o auxílio de outras pessoas que não devem saber qual é o tipo que estão comendo. Mas amigos, nem sempre foi assim.
 
Aliás, a trivialidade desta comparação só começou a ficar evidente há pouco tempo pros padrões científicos, algo em torno de 120 anos quando a revolução estatística se iniciou (lembremos que nosso modo de ver ciência nasceu com Galileu, isto é, 400 anos atrás).
 
Um dos mentores desta revolução estatística foi Carl Pearson (que depois mudaria a grafia do próprio nome para Karl, em homenagem a Karl Marx). Aluno brilhante no King’s College de Cambridg, lutou tenazmente contra as aulas de religião que eram obrigatórias desde a fundação da Instituição em 1441. Ganhou com a ajuda do pai, um advogado de primeiro time. Também conseguiu dispensa das orações da capela, e irritou todo mundo quando ia lá por livre e espontânea vontade.
 
Foi para a Alemanha estudar física e voltou ao King’s College, socialista, darwinista e erudito em Lutero (!). Em suma, um perturbador da ordem e tradição inglesas, que ainda por cima em 1880 recebeu uma bolsa do King’s College que lhe rendeu total liberdade para fazer o que bem entendesse antes de assumir a cátedra Goldsmid de matemática aplicada e mecânica no University College de Londres.  
 
Tendo já várias obras publicadas sobre assuntos diversos como: um romance, a teoria da elasticidade, o bom senso das ciências exatas, e pasmem amigos, socialismo e sexo, em 1892 Pearson lançou a primeira edição de um livro muitíssimo influente na época: “A gramática da ciência”, onde escreveu: “a unidade de toda ciência consiste apenas em seu método, não em seu material...não são os fatos que fazem a ciência, mas o método segundo o qual eles são abordados [e que exigem]: precisa e cuidadosa explicação dos fatos, observação de sua correlação e seqüência, que levará a descoberta de leis científicas que são atingidas também, com imaginação criadora e autocrítica”.
 
Neste meio tempo, foi procurado pelo zoólogo Weldon, que queria aplicar os métodos descritos em “Natureza da Hereditariedade” de Galton, para sustentar a hipótese darwiniana da evolução.
 
Aqui vale uma palavra sobre Sir Francis Galton, que era primo de Darwin, mas sempre evitado por ele. Galton havia montado um laboratório de biometria e descrito métodos de cálculos de regressão e correlação, que auxiliavam no estudo da hereditariedade pois relacionava medidas de pais com seus filhos (pais mais altos, filhos também mais altos).
 
Na verdade foi aqui que a eugenia científica nasceu porque estes pesquisadores começaram a medir as diferenças entre as “raças humanas”, e aqui também ocorreu uma grande distorção, pois o principal resultado de Pearson, mostrou que não havia diferenças significativas entre estas raças, mas os racistas, quando querem um argumento para odiar, desvirtuam até a ciência.
 
Mas o que Pearson realmente fez? Pearson foi o primeiro a entender que os então chamados problemas de medição de uma variável não eram realmente problemas, mas sim a variação inerente à natureza dos dados e que teriam uma dispersão aleatória, cujas probabilidades podem ser descritas por uma função de distribuição (a mais famosa delas é a distribuição normal, ou curva em forma de sino).
 
Pearson identificou os parâmetros (do grego ‘quase-medições’) que toda função de distribuição tem: média, desvio padrão (variação em torno da média), simetria (o grau em que as medições se acumulam apenas num dos lados da média) e curtose (o quanto as medições raras se afastam da média).
 
Segundo, David Salsburg, em seu “Uma senhora toma chá....como a estatística revolucionou a ciência no século XX” (Jorge Zahar Editor, 286p.) é neste momento que Pearson foi revolucionário, pois propôs que os fenômenos observáveis (as variáveis) fossem considerados meros reflexos aleatórios – real mesmo era a distribuição probabilística, isto é, os tentilhões de Darwin não eram objetos de investigação científica, mas sim a distribuição aleatória das variáveis medidas nestes tentilhões.
 
Pearson, substituiu Galton no laboratório biométrico em 1897 e junto com o próprio Galton e Weldon fundou uma revista científica que é prestigiada até hoje: a “Biometrika” e como seu principal editor, arrumou um desafeto: Ronald A. Fisher. Mas esta história de “Guerra de Estrelas” fica pra semana que vem.   
 

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POR EM 06/04/2009 ÀS 01:58 PM

Ciência proibida para esposas

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Recentemente uma jornalista da revista “Época” gerou a fúria dos blogueiros divulgadores de ciência, pois fez críticas rasas a algumas pesquisas realizadas em diferentes universidades do mundo todo.

O episódio tem várias facetas e uma delas é o enorme ego de boa parte dos cientistas que só admitem críticas, aos seus procedimentos e resultados, vindas de seus pares. É como se as críticas de “alienígenas” ao mundo científico não valessem e por isto devem ser logo tratadas como coisa de “não-iniciados” pois os pesquisadores cada vez mais se parecem com os cientistas-profetas de “Fundação”, o clássico de ficção-científica de Isaac Asimov, em que os cientistas são vistos como homens operadores de milagres, tal o avanço tecnológico que demonstram, e não como mero seres humanos que conseguem suas proezas com muito esforço e boa dose de talento. 

Outra faceta é como as revistas semanais e jornais diários enxergam e divulgam a ciência e seus resultados. Ainda é norma os erros crassos de conceitos, além é claro de extrapolações de resultados beirando o mau gosto. Por exemplo, recentemente a Veja publicou uma reportagem sobre os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e escreveu que “na perspectiva evolucionista vamos às compras para nos mostrarmos poderosos, o que é uma herança ancestral”. Pois é, meu amigo. Se sua mulher pegou seu cartão de crédito, não a deixe ler isto. Ela vai culpar nossos avós que moravam nas cavernas ou que ainda nem da árvore haviam descido: “Desde que o mundo é mundo querido, eu mereço uma Vuitton...”.

Este tipo de bobagem chegou aos píncaros no livro “Os Ovários de Madame Bovary”, no qual os autores, com a maior cara de pau, tentam explicar a traição de, por exemplo, madame Bovary ao marido, porque ela está procurando um “macho melhor, mais ajustado ao ambiente...”. Imagine, a traidora pega em delito ao invés de dizer: “Não é nada disso que você está pensando”, afirmar: “Não é que aquele Darwin tinha razão? É meu instinto de procriação...”

Quer mais, amigo leitor e cabra-macho? Num artigo publicado recentemente na “Biology Letters” (April 23, 2009 5:179 -182), os autores (um homem e uma mulher) mostram que o “oestradiol”, um hormônio produzido nos ovários tem implicações decisivas na fertilidade feminina mas, mais do que isto, também na motivação e comportamento sexual das mulheres. Quanto maior o nível de oestradiol, menor a motivação da mulher com o parceiro principal e maior a inclinação dela em procurar outros parceiros! É companheiro, as desculpas “cientificamente comprovadas” estão aí, pra livrar a cara das mais assanhadas: “Menina, te contei? Na festa ontem meu oestradiol estava alto...”.

Fiquei sabendo deste trabalho, na “Ciência Hoje” (jan/fev, de 2009), que é a menina dos olhos da divulgação científica nacional. Uma nota foi publicada, com a frase “....os homens, antes do casamento...podem querer exigir um exame de sangue com os níveis de estradiol das parceiras....na média, as voluntárias com maior nível do hormônio, tiveram mais parceiros que as outras...”. A nota é ilustrada com, acredite meninos, duas mulheres se beijando. (Pois é, companheiros de divulgação científica. E a gente reclama da “Veja” e da “Época”).

Antigamente havia romances proibidos para meninas. Mas neste mundo, tão cheio de cientistas com suas máquinas e pesquisas maravilhosas, talvez seja necessário censurar, à nossas moçoilas, alguns artigos científicos.


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POR EM 30/03/2009 ÀS 04:36 PM

Mais que apenas um jogo

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Todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, conseguiram o sábado à tarde para jogar

Um dos chavões sobre a esquerda brasileira é que ela não era unida nem na prisão. Bem, parece que isto não é só um defeito de brasileiros. Na Robben Island, ilha símbolo do regime racista sul-africano conhecido como apartheid, os presos políticos de diversas facções também não se bicavam, nem na hora do futebol. Futebol na Robben Island? Por acaso presos políticos negros de cabelos pixaim podiam jogar bola, sem serem incomodados pelos guardas “brancos de olhos azuis”?

E não é que podia? Claro que não foi fácil, os presos tiveram que reclamar muito para conseguir este direito e contaram com a ajuda fundamental da Cruz Vermelha Internacional. Esta história é contada por Chuck Korr e Marvin Close em “More Than Just a Game: Soccer v Apartheid” (editora Collins, 2008), que traduzo livremente para: “Mais Que Apenas um Jogo: Futebol X Apartheid” e pode vir a ser um best-seller em 2010, quando a Copa do Mundo será jogada naquele país que foi banido do futebol pela FIFA em 1964, e assim permaneceu por quase 30 anos, quando a democracia finalmente nasceu na África do Sul.

C. Korr e M. Close concentram-se principalmente na história de quatro homens presos na ilha por lutar contra o regime, dentro de suas diferentes facções: Lizo Sitoto (lado armado do ANC, Congresso Nacional Africano) Marcus Solomon (Yan Chi Chan Club de orientação chinesa, também ligado ao ANC), Tony Suze (PAC, Congresso Pan Africano) , Sedick Isaacs (Movimento da Juventude Muçulmana). Por causa de suas atividades, Isaacs, por exemplo, era químico e fazia bombas, todos foram presos e enviados a ilha, que fica próxima à Cidade do Cabo, quase que concomitantemente com seu preso mais famoso, Nelson Mandela, que foi para lá em 1964.

Na ilha os novos detentos notaram que a vida seria difícil com privações de conforto mínimo, castigos imerecidos, trabalhos forçados sem sentidos de carregar pedra de um lado para outro, comida péssima, entre outros abusos. Alguns deles então, perceberam que se não tivessem qualquer distração sairiam de lá completamente amalucados.

Começaram por educar outros presos analfabetos, mas estas aulas eram mal vistas pela diretoria da prisão já que tinham alto teor ideológico e por vezes terminavam em incríveis discussões entre os próprios presos das diferentes facções contra o regime. Mas como começar a solicitar futebol ou outra distração?

Os brancos sul-africanos da época eram divididos em dois grupos principais, que inclusive, já haviam guerreado no início do século XX na chamada Guerra Anglo-Boer: de um lado os de origem inglesa e de outro os “africâners” descendentes de holandeses que se achavam os legítimos africanos, e que possuíam um ferrenho sentimento patriótico. De qualquer forma, ambos os grupos se achavam superiores e devido a ascendência, eram tremendamente organizados e burocratizados.

Assim, todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas, etc... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, não vou contar todos os detalhes, conseguiram o sábado à tarde para jogar.

Os presos, também inacreditavelmente burocráticos, criaram uma Liga com estatuto, uma associação de juízes de futebol, um conselho para deliberar punições aos jogadores e, claro, os oito times que refletiam as tendências políticas da Robben Island. Apenas um time tinha em seu estatuto a clara norma de aceitar qualquer jogador independente de facção política: o Manong que foi campeão várias vezes.

Existiam três divisões dadas as qualidades dos jogadores (A, B, e C). E era normal o campeonato ser interrompido por causa de disputas jurídicas e apelações ao tribunal feitas por clubes que se achavam prejudicados. Isto é, os presos deixavam de jogar futebol e se distrair, para discutir os problemas “legais” das partidas. Isto é que é levar a lei e a organização, à sério.

Eu acho exagerado e coisa de gente chata, mas Korr e Close afirmam que, no fundo, eles estavam “praticando para a futura África do Sul democrática, que eles todos sonhavam apaixonadamente”. Bem, mais ou menos, porque se no processo de abertura, não fosse o Mandela a coisa iria desandar para uma vingança atroz que levaria o país a bancarrota (mas isto é outra história).

Segundo os autores, que entrevistaram apenas recentemente os principais personagens destes episódios, ainda hoje alguns deles ficam nervosos ao discutir resultados de sentenças dados pelo tribunal da Liga de Futebol da Robben Island, bem como das decisões dos conselhos. Mais ou menos como a gente quando assiste a reprise do Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982.

O futebol foi ainda o precursor de outros esportes para os presos na ilha, como o rugby e o basquete e à despeito das rusgas que ainda permanecem em alguns, o esporte bretão foi um alento de união para homens presos que queriam apenas a liberdade de ir e vir.

Até onde sei, o livro ainda não tem versão em português.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 06:28 PM

A maçã de Turing

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Turing sempre foi homossexual, isto é, nunca pensou em casar ou teve uma namorada. Em 1952 se envolveu com um garoto de programa que o assaltou. A polícia ficou sabendo da história e como na época homossexualismo era crime, além de preso, Turing teve que tomar injeções de estrogênio para se curar

Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático Alan Mathison Turing matriculou-se numa organização de defesa que aceitava voluntários. Quando perguntado no formulário se compreendia que a partir daquele momento, estava sujeito as leis militares, respondeu não. Com o treinamento, tornou-se um exímio atirador, mas não participava das paradas e lhe foi pedida uma explicação. A dele era simples como a resolução de uma equação de primeira ordem: como havia respondido não no questionário da matrícula, ele não era um soldado e não devia explicações.

Nem por isto o jovem de 28 anos deixou de ajudar os ingleses na Guerra. E que ajuda! Com uma vasta teoria matemática na cabeça, já comprovada durante seu curso na Universidade de Cambridge e depois com seu trabalho: “Sobre os números computáveis, com uma aplicação aos problemas da decisão”, realizado em Princeton, no qual delineava o conceito de uma máquina hipotética de computação universal (que chamamos hoje de computador), Turing foi parar no Departamento de Comunicações do Ministério de Relações Exteriores e sua missão era, nada mais nada menos, que desvendar os códigos secretos das mensagens alemãs.

David Leavitt conta em seu “O Homem Que Sabia Demais: Alan Turing e a Invenção do Computador” (Editora Novo Conceito, 2007, 221p.) que em 1938, Turing fez um curso de criptografia (a ciência de “embaralhar uma mensagem para só o destinatário entendê-la”) já prevendo que sua ajuda na Guerra iminente seria neste ramo.

Mesmo assim, em 1939, Turing teve tempo de assistir ao curso de Wittgenstein que era ministrado em sua sala pequena e austera, com os estudantes sentados no chão ou nas cadeiras que eles mesmos traziam. Inesperadamente o recatado Turing era um dos mais falantes sempre pronto a desafiar o professor, que realmente por vezes se exasperava com a necessidade ferrenha que Turing tinha de se agarrar à lógica (sabemos os detalhes dos diálogos pois, dois ou três alunos faziam a transcrição do que era dito em aula). De qualquer forma, o curso parece ter sido enriquecedor para Turing, que ouviu inúmeras vezes uma das frases mais famosas de Wittgenstein: “Não tratem seu senso comum como um guarda-chuva. Quando entrarem na sala para filosofar, não o deixem lá fora, tragam-no com vocês.”

No final de 1939, Turing se apresentou em Bletchley Park , a 80 km de Londres, onde começou a trabalhar para ajudar a desvendar os códigos alemães feitos na Enigma, uma máquina pequena inventada nos anos 20 pelo engenheiro alemão Arthur Scherbius, que gostaria de vendê-la para industriais ciosos de seus segredos, mas que acabou tendo um único freguês: o governo alemão.

A Enigma era tão boa que possibilitava 17.576 possíveis rotas para uma letra assumir dentro de uma mesma mensagem! Por isto, mesmo no final da guerra, quando os aliados já conseguiam (não sem muuuuuito trabalho) decifrar quase todas as mensagens, os alemães continuavam a acreditar que a Enigma era inexpugnável e que as falhas de segurança se deviam a espionagem (para um patriota a culpa é sempre do inimigo externo, nunca dele mesmo...).

Pois é, mas a matemática pura foi mais decisiva que a espionagem. Em pouco tempo Turing escreveu um manual de centenas de páginas explicando os fundamentos teóricos da linha de ataque que o grupo adotaria contra a Enigma (não se engane, aquele filme de anos atrás chamado Enigma, não fala nada sobre Turing). Este manual ficou conhecido como “Prof.’s Book”, já que Prof. era o apelido de Alan em Bletchley que, ao se levar em conta um período de guerra, teve uma atmosfera cordial segundo todos que por lá passaram.

Ao pensar pela primeira vez em sua máquina universal no trabalho dos “números computáveis”, Turing não estava preocupado com a rapidez de processamento dos cálculos, o que evidentemente foi mudado nestes anos de guerra e no trabalho junto com os engenheiros que construíram a “contra-enigma” uma engenhoca enorme apelidada de “bomba”. Com isto em mente, ele recusou, em 1945, um cargo em Cambridge e associou-se ao Laboratório Nacional de Física, chefiado por Galton Darwin (neto de Charles Darwin), para trabalhar no projeto de uma máquina de computação automática. Depois mudou de emprego indo para a Universidade de Manchester, mas sempre participando em projetos vinculados a construção de tal máquina inteligente, apesar de que nas “horas vagas” ainda teve tempo de escrever trabalhos de matemática pura e de matemática aplicada a biologia.

Um de seus textos mais famosos é “Máquinas computacionais e inteligência” com análises técnicas e considerações filosóficas, já que naquela época muito se especulava se as máquinas iriam dominar o mundo (Algo parecido com o que ocorre hoje com toda esta história do genoma e clonagem humana). Mas a argumentação de Turing é muito interessante: ele dizia que a infalibilidade não é necessariamente um pré-requisito da inteligência, por isto as máquinas não seriam necessariamente inteligentes. Mas ao mesmo tempo o aborrecia a tendência “maquinal” dos intelectuais em achar que uma máquina nunca pode alcançar o cérebro humano, simplesmente porque o cérebro é...humano. Ele se perguntava se um carro precisava de pernas para correr mais que um humano.

Turing sempre foi homossexual, isto é, nunca pensou em casar ou teve uma namorada. Em 1952 se envolveu com um garoto de programa que o assaltou. A polícia ficou sabendo da história e como na época homossexualismo era crime, além de preso, Turing teve que tomar injeções de estrogênio para “se curar”.  A mesma lei que condenara Oscar Wilde 50 anos antes, pegara Alan agora.

Foi demais pra ele, que escreveu à um amigo: “Turing acredita que as máquinas pensam/ Turing deita-se com homens/ Portanto as máquinas não podem pensar.” Desta forma, em 07 de junho de 1954 se matou ao morder uma maçã envenenada com cianureto. Desde 1938, quando assistira pela primeira vez “Branca de Neve” de Disney se encantara com a cena na qual a Rainha Malvada envenena a maçã e diz: “Mergulhe a maçã no caldo/Deixe o sono imortal impregná-la”.

Sim, Sir Turing, a imortalidade o impregnou. Sem você eu não estaria escrevendo nesta máquina (cujo logotipo é o de uma maçã mordida, segundo a Apple, nada haver com Turing). E o leitor não estaria lendo minhas palavras neste vídeo.
 


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POR EM 16/03/2009 ÀS 02:33 PM

Quem vigia os vigilantes?

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Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes. “Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super” 

 

Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Assim, se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados e como serão os quadrinhos do futuro, quando finalmente resolvermos não gastar mais papel com estes “graphic novels”, isto é, romances em quadrinhos criados pelo mestre no gênero Will Eisner. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes.

“Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super”. Assim, o aclamado roteirista dos gibis, Alan Moore, pode ver uma de suas histórias finalmente bem contada, depois das péssimas adaptações da “Liga Extraordinária”, “Constantine” e “V de Vingança” (Moore pediu até pra sair dos créditos deste último que distorcia sua mensagem). Não por coincidência, estas adaptações tiveram roteiros que não seguiram o original e, por isto, umas mais outras menos, fracassaram.

Não é o caso de “Watchmen”, que é fiel a história de Moore. Pano de fundo: EUA, 1985. Os americanos estão próximos de eleger pela terceira vez Richard Nixon como presidente, já que a vitória do Tio Sam no Vietnã foi avassaladora, graças ao super-herói Dr. Manhattan, um físico que sofreu um acidente nuclear, mas tendo reaparecido em forma de, digamos, “energia pura”, vira uma arma poderosa contra os inimigos. Por seu grande poder, ele é acusado de ter fomentado a corrida armamentista nuclear e por este motivo, a grande potência ocidental está muito próxima a uma guerra nuclear fatal contra a URSS.

Mas Dr. Manhattan é uma exceção, pois os outros vigilantes são demasiados humanos, aposentados-saudosistas ou agindo nas sombras já que foram postos na ilegalidade pelo próprio Nixon, afinal “Quem vigia os vigilantes?” (frase atribuída ao antigo poeta romano Juvenal). Aliás, colocar os “super” na ilegalidade também foi um expediente usado por Frank Miller no famoso “Batman - o Cavaleiro das Trevas”. Neste clássico dos quadrinhos, a Liga da Justiça é acusada pela Associação de Pais e Mestres de dar mau exemplo as crianças já que batem e matam os bandidos, ao que Batman teria respondido as gargalhadas: “Claro que matamos. É nosso serviço!”.

Mas aqui estamos falando de Watchmen que se passa num universo, onde Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha não existem (pra quem não sabe os quadrinhos funcionam assim. Mundos paralelos que apenas algumas vezes se cruzam).

Nas tocantes histórias paralelas de “Watchmen”, vale destacar as viagens no tempo do Dr. Manhattan, cuja narrativa é poética: “É março de 1959. Sou fotografado com Janey num parque de diversões/ É 1985. Estou em Marte com a fotografia nas mãos/ Em 15 segundos ela estará no chão marciano/ É agosto de 1959. A luz dos canhões de partículas me faz em pedaços/ 5 segundos para foto cair das minhas mãos/ É novembro de 1959. De alguma forma sou reestruturado /A foto no chão./ Tudo que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”.

O filme começa com o assassinato do Comediante, um super-herói mercenário que também lutou e assassinou no Vietnã. Por causa disto, o sombrio Rorschach (outro vigilante) desconfia que alguém possa estar querendo se livrar de todos os ex-companheiros. No túmulo do Comediante recém assassinado, Rorschach (o nome vem daquelas cartas com manchas usadas por psicólogos para entender a mente do paciente) conta uma piada ao seu estilo: “Um homem vai ao médico e se diz deprimido. O doutor receita-lhe ir ver o grande palhaço Pagliacci que está na cidade, ao que o homem responde: Mas eu sou o Pagliacci!”.

O ponto alto do filme é o discurso do Dr. Manhattan a Laurie, quando ela, chorando lhe convence da beleza da vida: “Milagres termodinâmicos...eventos improváveis...eu anseio por observar algo assim/ e no entanto em cada par humano, milhões de espermatozóides avançam rumo a um só óvulo/ Multiplique as possibilidades por incontáveis gerações. Junte à chance de seus ancestrais estarem vivos; de se encontrarem; de conceberem esse preciso filho, você: o pináculo do improvável/...mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto destes milagres que nos esquecemos deles...”.

Clichês?

É 16 de março. Aperto botões numa máquina / 17 de março. Alguém lê o que escrevi/ 11 de março. Me emociono no enterro do Comediante, mas que, infelizmente, é menos triste que a piada de Rorschach / 19 de março. Semana de calor. Difícil perceber o milagre da vida. / Tudo que vemos no espelho, é conseqüência de um big-bang e de um universo em expansão/ Pra que ansiar pelo improvável, se nós somos o resultado dele?
 


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