revista bula
POR EM 14/01/2012 ÀS 12:58 PM

Bartleby e Companhia

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Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.

Outro dia (há três anos; vocês não sabem, mas sou o arqueólogo oficial desse site, um caçador de textos empoeirados) o Flávio Paranhos, ilustre escritor da Bula, falava da sua recusa a escrever (e até de ler) ficção e que isso não era ocasionado pela síndrome de bartleby, que ela não causa nada, pois os escritores é que se recusam, numa espécie de abstinência consciente, ao seu ofício de escrever.

Pra mim, escritores que não escrevem é um mistério insolúvel. Como explicar o fato de Salinger, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea, ter publicado apenas 4 livros e logo em seguida se calar, num silêncio que durou mais de 40 anos até sua morte em janeiro de 2010? Assim como Salinger, existem muitos outros bartlebys na literatura.

A síndrome de bartleby tem esse nome por causa do conto de Herman Melville, “Bartleby, o escrivão”, sobre um jovem que responde a anúncio de jornal oferecendo uma vaga de copista. No início se dedica com vigor ao seu novo emprego, sempre na ânsia de copiar algo, até que uma apatia vai tomando conta dele, a ponto de ficar dias sem fazer nada, sem se alimentar, sem sair do seu lugar, apenas olhando pela janela, e quando o dono do cartório insta-o a copiar algo, responde sem vontade: “preferia não o fazer”. E assim segue, absolutamente indiferente às coisas até seu triste fim. E, isolando a essência desse personagem, o escritor Enrique Villa-Matas escreve seu livro “Bartleby e Companhia”.


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POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

E esse tal de Saramago aí, é bom?

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José SaramagoJosé Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, sou mais o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa de pressão e todo aquele blá, blá corriqueiro. Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas.

Os críticos de Saramago apontam um fator que é relevante: a irregularidade. Talvez essa seja uma das raras acusações que faça sentido. Faz sentido porque é o que se comprova de fato. Por exemplo: na publicação de “Terra do Pecado” (1947) Saramago escreve no estilo naturalista-realista, enquanto as tendências literárias da época estão flertando com o neorrealismo; seu primeiro romance passa merecidamente, despercebido. Ele escreve com uma linguagem que é da metade de século XIX, escreve um romance péssimo sendo obscurecido por Alves Redol, Vergílio de Ferreira e Soeiro Pereira Gomes. Ou ainda quando, depois de um grande hiato literário, ele resolve escrever poesia e publica “Os Poemas Possíveis” (1966), mais uma vez com um estilo anacrônico ao que havia de literariamente moderno, mais uma vez sendo passado para trás por outros escritores que eram “melhores” do que ele. Dessa vez foram Herberto Hélder e Cesariny. Admito isso, ele foi irregular. Escreveu coisa ruim, sim. Temos que admitir.


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