revista bula
POR EM 15/04/2008 ÀS 09:09 AM

Novo rumo para autores

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Alega-se que a intervenção do Estado conduziria ao totalitarismo cultural. Os exemplos de França, Inglaterra e Itália indicam o oposto, ao passo que o totalitarismo menos evidente do mercado sempre marginaliza ou deturpa o talento. Os governos mudam ou modificam sua perspectivam o comércio não pode fugir à sua finalidade

 

Revista Civilização Brasileira – Ano I, Número 1, março/1965 

O teatro brasileiro enfrenta dois problemas graves, sem solução à vista, que determinam sua qualidade cultural. O primeiro é dinheiro. Os bancos emprestam a 3,4 ou 4% ao mês, os rentiers cobram média de 30% sobre a renda bruta. Poucos negócios podem prosperar nessas bases, e quando consideramos o potencial modesto do teatro em face do entretenimento massificado, concluímos pela sua inviabilidade econômica, a não ser como caudatário do popularesco.
 
Em nenhum país civilizado o teatro permanece sob a iniciativa privada. A exceção americana é discutível, pois se, tecnicamente, os espetáculos melhores da Broadway acompanham, quando não superam, seus equivalentes europeus, são os próprios críticos americanos os primeiros a negar-lhes expressão cultural, a deplorar o comercialismo vigente. A equação, afinal, é simples: teatro feito para o mercado, visando ao maior número possível de fregueses, só pode ser produto de carregação. O fetiche da iniciativa privada nos EUA impediu até hoje que o Estado financiasse o palco, embora no período reformista do New Deal tivesse existido o Federal Theater, que se aproximou, segundo Francis Fergusson, da coesão e senso de rumo dos ensembles. Hoje, as grandes fundações parecem dispostas a substituir o Estado, agüentando o déficit sem o qual não se restabelece uma tradição teatral.
 
No Brasil, o Estado se porta como uma instituição de caridade, relapsa e insuficiente. Distribui algum dinheiro aos empresários, que não lhes cobre o investimento; e nem ao menos exige, em troca do auxílio, uma política de repertório. A estultícia vem de cima. O Sr. João Goulart nunca pisou num teatro, que se saiba. O Sr. Castelo Branco é periodicamente visto assistindo a comediotas americanas, para depois posar, com jeito de Humpty-Dumpty recomposto ao lado de atrizes, em benefício da imprensa sem assunto. Não existe mentalidade teatral no País, mas, ao menos, no setor econômico, a maneira de criá-la só depende de cultura aritmética e da renovação da burocracia. Quando lemos Stanislavski sobre As Três Irmãs, compreendemos parte da grandeza do Teatro de Arte de Moscou. Stanilavski experimentou cenicamente com o texto de Tchecov até se dar por satisfeito, o que levou anos. A rotina do comércio teatral prescreve apenas um mês de ensaios. Em seguida, o produto é submetido à lei de oferta e procura. Perfeito para a venda de sapatos.
 
Alega-se que a intervenção do Estado conduziria ao totalitarismo cultural. Os exemplos de França, Inglaterra e Itália indicam o oposto, ao passo que o totalitarismo menos evidente do mercado sempre marginaliza ou deturpa o talento. Os governos mudam ou modificam sua perspectivam o comércio não pode fugir à sua finalidade.
 
É ingenuidade, portanto, combater empresários como Oscar Ornstein que transformaram o palco em balcão. Num organismo doente não se começa o tratamento por células isoladas. Ornstein levou às suas conseqüências lógicas o teatro sob a iniciativa privada. Deu-lhe mentalidade e métodos capitalistas. Sentem nostalgia do status de artistas. Quando lhes sobra algum dinheiro quase sempre o aplicam em peças que consideram sérias “para ganhar prêmios”, como explica Sandro Polônio, com candura. Ornstein consulta a Variety, anota os espetáculos que mais renderam e os copia, se possível importando alguns elementos do original. Faz o marketing, usa os meios de comunicação com a desenvoltura de um fabricante de sabonetes: é o Brasil capitalista de hoje em miniatura teatral, inclusive com a contribuição em divisas para os EUA. Seu interesse em dramaturgia não é maior que o dos laboratórios de remédios no processo mental de descoberta dos antibióticos. Limita-se a suprir o produto em demanda, com o mínimo de risco e o máximo de lucros possíveis.
 
Não há necessidade de socialismo no Brasil para servir de forceps ao teatro como expressão e interpretação da vida do nosso povo. O Estado burguês, desde que razoavelmente intervencionista, poderia cumprir esse papel. Teatro não representa perigo para a classe dominante, ao contrário da imprensa, por exemplo, ou do cinema, rádio e televisão, cujo alcance pode ser decisivo na conquista da opinião pública. É interessante, aliás, especular sobre o destino do teatro e, por extensão, de outras artes, numa sociedade livre de injustiças sociais. Platão baniu os poetas de sua república, pois esta excluía a principal componente da criação artística: a revolta. É provável que os dramaturgos de Utopia voltassem a escrever como os gregos, sobre sexo e morte, as grandes realidades individuais.
 
O segundo problema é de linguagem. O teatro acompanhou a evolução política do país, interrompida em 1º de abril de 1964. Os temas da nacionalização da economia, da reforma agrária, etc., pesam sobre a dramaturgia, que passou a sintomatizar as atitudes do povo no processo de modernização do País. Mas este processo é caótico, sofreu distorções grotescas e carece de filosofia política, ou mesmo de uma ideologia para consumo comum. Daí, sem dúvida, o romantismo revolucionário dos nossos dramaturgos, a confusão de propósito como resultado e a ausência de princípios normativos que impediram até o presente a concretização de uma escola nacional de teatro. A maioria dos escritores é de esquerda (a palavra mais vaga do nosso léxico político), mas em vão procuramos textos estruturados na dialética marxista, à maneira de Brecht, ou mesmo da consistência fabiana dos primeiros esforços de Shaw. Aliado ao problema concepcional existe o formal. O moderno realismo, embora dê a relevância às condições objetivas que determinam o comportamento humano, confere a este a primazia no desenvolvimento dramático. O Ibsen na fase intermediária continua o Aristóteles no teatro contemporâneo. Ninguém mais o aceira integralmente, mas é impossível evita-lo por completo. A própria revolução brechtiana estaca em Galileo Galilei, onde a personagem central é um modelo de psicologia aristotélica e ibseniana.
 
Para o nosso dramaturgo político, sujeito à iniciativa privada de empresários, a situação se agrava, pois seu público é a burguesia que ele está combatendo, ou, ao menos, tentando conduzir numa direção estranha a seus preconceitos de classe. Mas se excetuarmos os panfletos cênicos do Centro Popular de Cultura, diversos textos passaram pelo crivo de gordas platéias sem despertar hostilidades. O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, e Eles Não Usam Black-Tie, de Guarnieri, servem de exemplo. A primeira, tenta demonstrar que a sociedade burguesa dá a liberdade formal ao homem, mas não lhe permite exercê-la se conflitar com os interesses da classe dominante. Na segunda, um jovem operário prefere submeter-se às regras do jogo capitalista a enfrentar os sacrifícios da luta de classes. Em ambas, entretanto, o público deixou-se fascinar pela psicologia dos protagonistas: o primitivismo sofrido e puro de Zé do Burro, e a faiblesse de Tião (que, tratado de maneira simpática pelo autor, criava empatia com os espectadores que já optaram pela conveniência própria em prejuízo de seus ideais: 99% da humanidade).
 
Alguns dramaturgos sérios, como Jorge Andrade, aceitam tranquilamente a predominância da psicologia das personagens sobre a crítica social, embora se considerem comprometidos com a disquisição da realidade política do País. São relegados ao limbo pequeno burguês pelos revolucionários. Estes, entretanto, sem cair no panfleto (que rende mais em comício ou no papel) não conseguiram resolver o impasse.
 
Examinemos Opinião, pelo Teatro de Arena. O espetáculo vive da personalidade de três intérpretes, Nara Leão, Zé Kéti, João do Vale e da música dos dois últimos, samba de morro e cantigas nordestinas, respectivamente. Há comentários políticos, anedotas e caricaturas, mas sua tônica é a inocuidade. Ficamos sabendo, por exemplo, que o nordestino pobre precisa de terra própria e que Tiradentes deu a vida na luta contra o imperialismo português. O Marechal Castelo Branco endossaria a reivindicação e a homenagem. Ele e sua gente, que algum humorista malévolo apelidou de Sorbonne, comemoraram Tiradentes em 21 de abril de 1964, enquanto planejavam a compra da AMFORP e o Decreto da Hanna. E já não fizeram o Estatuto da Terra? A direita no Brasil apropriou-se de todos os temas populares, desde o “verdadeiro nacionalismo” do Sr. Roberto Campos ao “desenvolvimento pelo despojamento” do Marechal. A diferença entre o slogan e a realidade só a longo prazo é percebida pelo povo destituído. De slogans e pouco mais viveu o Governo João Goulart. E caiu sob a apatia dos seus destinatários. O próprio samba-título de Opinião é conformista. Serve contra Carlos Lacerda que vem botinando os favelados à maneira ditatorial, mas propõe também a ligação eterna entre o habitante do morro e seu meio-ambiente, tese que dificilmente se pode considerar progressista. Note-se que Opinião atinge, por excelência, o público burguês de Copacabana. Nara Leão aparece vestida na última moda juvenil, o iê-iê look. Ninguém se ofende com o espetáculo, exceto alguns representantes da lunatic fringe da direita. As reclamações dos infelizes cantadas pelo trio são muito comoventes. Valem uma boa chorada, como os velhos filmes de Norma Shearer ou Vivien Leigh. Mas nada há no texto que faça o espectador de Cr$ 2.000 (dois mil cruzeiros) por cadeira sentir-se ameaçado em seus privilégios ou que o leve, no mínimo, a um auto-exame. Daí a indiferença do Governo da Guanabara à Opinião, já estendida aos garranchos de analfabeto anticomunista do Sr. Seixas Dória em Eu, Réu Sem Crime.
 
Não estou denegrindo o espetáculo do Arena. Hoje, qualquer protesto é útil (invertendo Eliot, pode-se dizer que todo whimper soa como um bang), pois, desde 1º de abril, o país parece imerso em catatonia, precisando de ser sacudido. Mas Opinião, quando chega ao público, pelos intérpretes e música, nada contém de indutivo à ação política. Basta-se a si próprio, é muito agradável, podendo ser comparado favoravelmente ao gosto ciclópico dos Medina, Carlos Machado, etc. Mas daí a considerá-lo como um evento político vai uma certa distância, pois, nesse terreno, o espetáculo nunca sai do kindergarten sentimental da esquerda brasileira.
 
Haverá uma linguagem que una teatro e política, sem prejuízo de nenhuma parte? Ouvimos falar da participação do Casamento de Fígaro, de Beaumarchais, no parto da Revolução Francesa; de Uma Casa de Bonecas, de Ibsen, na emancipação social da mulher; do Group Theater, no reformismo do New Deal; de Brecht, Wesker, etc. Os exemplos são múltiplos, mas as provas de que tenham influenciado os acontecimentos estão para ser validadas. É mais provável sua participação no alargamento de consciências já predispostas à dinâmica revolucionária, já impulsionadas por forças econômicas e sociais que o palco é pequeno demais para reproduzir. O teatro como centro de edificação desapareceu com a Idade Média (Shakespeare já é a antítese dos mistérios medievais). E a edificação sempre veio de cima para baixo. A ética e a religião que alicerçam a tragédia grega emanavam da classe dominante. O próprio desencanto de Eurípedes, que nos parece revolucionário, é, em verdade, o inconformismo do conservador com a erradicação de seu mundo.
 
A meu ver, o futuro da dramaturgia brasileira está na análise da classe dominante de um ponto de vista revolucionário, e não no que ocorre, presentemente, ou seja, no drama baseado nos oprimidos. A maioria, senão a totalidade de nossos autores, é burguesa e pequeno burguesa. Seu público, idem. Por que não começar a revolução em casa? Brecht, sem dúvida, conseguiu fugir, até certo ponto, a essa formulação, mas para tanto, teve de elaborar uma doutrina formal divorciada de toda a tradição do teatro europeu (incluindo a dos países socialistas, que nunca o adotaram como preceptor, preferindo Stanislavski e seus próprios currículos folclóricos). Artistas como Villar e Planchon, que procuraram retirar o teatro de sua prisão de classe, serviram-se de clássicos como Molière ou Shakespeare, indo buscar neles os elementos de crítica social que a burguesia havia obliterado. Trocando em miúdos: não posso crer que Eles Não Usam Black-Tie e congêneres tenham maior influência política do que, digamos, uma comédia satírica sobre a mentalidade militar, ou sobre os costumes e maneiras em voga no Country Club. Nosso teatro político é pouco agressivo. Fixa-se sentimentalmente nas vicissitudes dos oprimidos (os proletários são reais e complexos, nunca as criaturas idealizadas que encontramos no Arena, TBC, etc.). É esse sentimentalismo que a burguesia instintivamente reconhece como inofensivo e que proporciona a seus autores generosas percentagens na bilheteria.

O Teatro do Absurdo, na Europoa, a obsessão sexual, pseudo-freudiana, dos americanos, representam o impasse cultural da classe a que são destinados, ou melhor, expressam esse estado de coisas sem criticá-lo, pois seus autores também se encontram num beco sem saída, na huis-clos de Sartre. O correto, política e teatralmente, seria reproduzir o Zeitgeist com fidelidade, mas apontando o caminho de sua transformação. No mais sombrio Shakespeare ou Sófocles isso acontece sempre, pois estes nunca tiveram a pretensão dos artistas menores como Beckett ou Ionesco, de que a decadência do seu mundo representava o fim da civilização. A classe dominante no Brasil, sua subserviência às vezes relutante à dominação colonialista, sua impostura religiosa e moral, suas atuais inclinações por uma espécie de facismo caboclo, etc., são, temas que permanecem praticamente virgens no teatro brasileiro, à espera de quem ouse escavá-los. Os próprios acontecimentos de 1º de abril, que pegaram os progressistas de surpresa, ficariam melhor esclarecidos se os nossos dramaturgos estudassem alguns de seus protagonistas. O filão é rico e me parece imprescindível explorá-lo para a melhor compreensão da realidade brasileira; isto, se quisermos ir além das fórmula de gabinete ou do esquerdismo juvenil.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 11:54 AM

Filmes

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A vida secreta das palavras
Direção: Isabel Coixet
Site Oficial:
www.lavidasecretadelaspalabras.com
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Filme recomendado demais é um perigo. Jogaram um confete danado nesse. Daí aluguei. Não é que seja desgraçado. Tem bons momentos. Mas há furos importantes de verossimilhança. Por exemplo, o vocabulário rico e fluência em inglês de uma refugiada da Bósnia. A “cegueira” fajuta do Tim Robbins (“problema na córnea”, dizem os personagens, mas dá pra ver bem como as córneas do cara estão perfeitas). Aliás, 100% das vezes que o cinema se mete a lidar com o tema (cegueira) faz bobagem. Que o digam o melodrama com Val Kilmer e Mira Sorvino (me esqueci do título) e o musical do Lars Von Trier com a Bjork (Dançando no escuro, se não me engano). Mas o que mata mesmo o filme é o discurso da tutora dinamarquesa. A vida secreta das palavras não é um filme. É um discurso.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:57 PM

O Poeta malogrado

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Poeta goiano quase desconhecido, nascido na antiga Vila Boa e que morreu há mais de 100 anos, em Franca, São Paulo, tem parte de sua obra resgatada em livro. O professor e juiz de direito Carlos Alberto Bastos de Matos, que morreu em 2004, vasculhou arquivos de cidades paulistas e mineiras e reconstituiu a atribulada biografia do poeta 



Carlos Alberto B. Matos
 
“Eginio Venancio”.Este haveria de ser na verdade o nome de quem afinal se consagrou, após curta e atribulada existência, como o inspirado poeta “Ygino Rodrigues”.

Seu pai, Salvador José Venâncio, emigrado da Bahia para a cidade de Goiás, aí casou-se em 12 de maio de 1867 com Luiza Alves Barboza. Nasceu o poeta a 11 de janeiro de 1872, sendo seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca. Há, pois, de ter sido do padrinho que Ygino herdou o sobrenome “Rodrigues”. E isto era, na época, costume comum entre gente simples.

Filho de família humilde, não foram certamente de muito conforto seus primeiros anos às margens do rio Vermelho, na antiga Villa Boa. Aliás, as próprias condições da então capital da província de Goiás eram, naqueles tempos, de todo desfavoráveis.

Um século mais tarde, traçando a biografia de quem já então era o patrono da cadeira nº 24 da Academia Goiana de Letras, Humberto Crispim Borges conta que Ygino, sob a proteção de seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca, iniciou o estudo das primeiras letras em 1879. Em 1884, revelando inteligência incomum, ingressou no “Lyceu de Goiaz”, que concluiu em 1888. No ano seguinte assentou praça no 20º Batalhão da Infantaria, mas dois anos depois, em 1891, deixou as fileiras do Exército, passando a colaborar ativamente, em 1892 e 1893, na Gazeta de Goiás, do monsenhor Inácio Xavier da Silva. Também publicou poemas
em O Goiás e no Jornal de Goiás. Em 1894, desgostoso, retirou-se da modorrenta Goiás. Sua mudança de Goiás deveu-se, certamente, a seu irrequieto espírito, a seus anseios de vôos altos noutros lugares. Havia de ter consciência de seus dotes de jornalista e de seu valor como poeta, que não haveriam de permanecer confinados nos limites estreitos da terra que o vira nascer.

Ei-lo então em Uberaba, acolhido por Quintiliano Jardim, diretor do” Lavoura e Comércio” e proprietário da Tipografia Jardim, onde é impresso o primeiro livro de Ygino, "Dinamites"( publicado em três volumes , era dedicado à memória de Floriano Peixoto, por quem ele tinha uma admiração fanática). Mais tarde, em 1908, já morto Ygino, o jornalista lembrava que ele lhe chegara do “Goiás tropical, trazendo o cérebro ardendo em fantasias e o coração aflorado de esperanças, fantasias, falenas doiradas que espalhava a mãos cheias numa prodigalidade nababesca por jornais e folhetos; esperanças, minaretes aurilavrados erguidos nos seus sonhos de poeta...”.

Irrequieto, Ygino segue para o Rio de Janeiro, onde trabalha como redator de O Nacional e onde, no ano de 1895, imprime "Pampeiros", em edição da Tipografia da Papelaria Ribeiro. Pouco depois, todavia, já está
em São Paulo, tentando levar adiante um pequeno jornal, A Mogyana, de curta e intermitente vida. 

Afinal, em meados de 1901, surge em Franca. E surge fulgurante, publicando no Sétimo Districto de 26 de maio dois sonetos que fazem imediata fama: "Flor de Maio" e este "Ato de Contrição":
 
Eu sei que Deus que é bom, que é Infinito,
Há de lenir-me o sofrimento, em breve,
E hei de ficar tão puro, como a neve,
Pelo perdão que peço-lhe contrito
 
Eu sei que Deus escuta a voz do aflito
E violar seu poder ninguém se atreve;
Minha alma subirá qual pena leve,
Pois eu creio em Jesus e no seu rito!
 
Arranca-me, Senhor, deste planeta
Onde arrasto duríssima grilheta,
Onde, em seis lustros, quase não vivi!...
 
Dá-me forças no transe derradeiro,
Como as tiveste embaixo do madeiro...
Dá-me coragem pra subir a Ti! 

O poeta, desde aí, desde maio de 1901, não mais abandona Franca. Em agosto publica a brochura "Faíscas"; apenas dois meses após, em outubro, vem a lume "Flores do Deserto, ambos editados pela Tipografia Espírita de Franca. Seus versos, políticos, líricos ou satíricos, são continuamente divulgados nos jornais da terra. Mas, ao mesmo tempo, Ygino envolve-se em confusões e arranja alguns inimigos que cultiva com visível prazer. Assim, é preso na cidade de Amparo porque, muito ébrio, queria por força que o delegado de polícia, Dr. João Guedes, comprasse um seu livro de poesias. Logo a seguir abre dura campanha contra a Santa Casa e principalmente contra seu zelador, Domingos, a quem acusa de "esmurrar os doentes" e até de "lhes negar água". Meses depois é surrado, a vassouradas, pela cozinheira Gregória, num restaurante da rua da Estação.

Parece que, sobranceiro, Ygino não se abala. E, com a pena satírica que de quando em quando brandia, continua a golpear um e outro. Todavia, prossegue encantando os francanos com líricos poemas que os jornais estampavam a toda semana. Embevecida, a cidade lê certa manhã, para memória até nossos dias, uns versos que - segundo se diz – teriam sido escritos de um jato, em mesa de botequim, a pedido de uma jovem, Joaninha, filha do dono do bar e que possuía na face uma delicada pinta preta:
 
                            A pinta preta que tu tens no rosto
                            É uma pinta mimosa e tão pequena,
                            Que te dá mais encanto e mais amena
                            Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.
 
                            Faz um soldado abandonar seu posto,
                            Faz queimar-se na luz uma falena,
                            Invejam os anjos da mansão serena
                            A pinta preta que tu tens no rosto.
 
                            E eu imagino até, bela menina,
                            Que Deus de ti, um dia, enamorou-se
                            E chorou de pesar e de desgosto...
 
                            Chorou... e a branca lágrima divina,
                            Gota do céu, caindo, transformou-se
                            Na pinta preta que tu tens no rosto... 

Entretanto, fazendo editar
em São Paulo, nas oficinas gráficas Rosenhaim e Meyer, "Aerólitos"(livrinho de 25 páginas dedicado a Santos Dumont) e publicando em Franca outro festejado livro de poesia, "Trinos e Trenos", Ygino não deixa de dar asas às turbulências de seu espírito. A bengaladas, agride-o Elias Mota na rua do Comércio: Ygino, no inquérito, atribui isto a "boatos que correm na cidade a respeito de seu casamento com a mãe" de Elias Mota, mas desconversa, dizendo que não tem "a menor participação neste assunto". O agressor, no entanto, confirma que o móvel é realmente esse e que ele, de fato, se opõe ao matrimônio porque o poeta, "um homem que constantemente acha-se em estado de embriaguez", não está "na altura" de receber sua mãe.

Põe-se como feroz inimigo do Intendente municipal, o jornalista Álvaro Abranches Lopes, d'O Francano. Nesse período, certamente, já sofria a doença dos pulmões, agravada pela vida desregrada e pelo álcool.

E, ao meio desse turbilhão, casa-se com uma rica viúva, Maria Thereza Espíndola, bem mais velha que ele: era a sogra de Álvaro Abranches; era a mãe de Elias Mota...

Não há notícia de que o casamento, que não lhe deu filhos, tivesse trazido sossego à alma do poeta. Ygino continua a se crer um incompreendido – e, ante a dor da fria indiferença de que se supõe cercado, lamenta em tristes versos sua orfandade que "nenhum prazer (...) aquece". Mas, a isto, diz que reage:
 
Vingo-me, desprezando essa horda à toa,
Bebendo pinga, seja ruim ou boa,
  Que não bebe por gosto quem padece

              (“Dor e desprezo", Tribuna da Franca, 19.1.1904. 

Meses após o casamento, inicia-se longa contenda entre Álvaro Abranches e Ygino, a respeito da tutela dos filhos menores de Maria Thereza, e da herança de um sobrado, no qual a filha mais nova, Sabina, teria parte.

Quintiliano Jardim, em visita a Franca, reencontra Ygino "muito magro, o rosto socavado, coberto de um livor esverdeado e os olhos com um brilho sinistro". Viu-o "tomando aguardente aos copos (...), longe dos fregueses, num canto, solitário e abandonado das gentes – como sempre ébrio, bastante ébrio e falando cavernosamente, arrastando as palavras". Não se reconheceram de pronto: do boêmio, a tuberculose "devastara horrivelmente o corpo, e transformação acentuada se fizera em sua fisionomia". Só a custo o chegante, que há dez anos fora seu editor, deu-se a conhecer àquele freguês de "casaco ensebado, puído nos cotovelos". O boêmio, continua ele, "levantou-se então, cambaleante, arrastando cadeiras, quebrando copos, e veio para mim abrindo os braços esqueléticos e compridos" para, logo a seguir, "com aquela sem-cerimônia que lhe afugentava os amigos" pedir ao jornalista um dinheiro: - "Passa-me uma de cinco aí, é para o vício".
 

Sobre esse Ygino, boêmio desmiolado, escreveu seu amigo Ricardo Paranhos, do jornal Goyaz e Minas, que "se o tico-tico lhe almoçasse o juízo" é bem certo "que o modesto e sóbrio animalzinho ficaria em jejum". É o mesmo Ricardo Paranhos quem noticia a publicação de mais um trabalho de Ygino: "Versos Diversos”. Segundo Paranhos, "o mimoso livrinho (...) prima, não só pela confecção typographica, que não póde ser mais caprichosa e artistica, como pelas preciosidades que enfeixa." (Cidade da Franca, 15.6.1905).

É de 1904 um poema
em que Ygino traça a autobiografia poética:
 
Hoje
 
Aos doze anos amei e fui traído,
Aos quinze comecei de poeta o fado;
Chego aos dezoito... e fiz-me então soldado...
Aos vinte e três já era um foragido.
 
E do destino sempre perseguido,
Vivendo sempre a amar sem ser amado,
Agora aos trinta e dois eis-me chegado
E inda não sei p’ra que fui eu nascido!
 
E se do amor jamais banhou-me a espuma,
Fortuna nunca achei em parte alguma...
Não tenho amigos, nem do 'arame' a luz!...
 
E contudo o meu nome faz estrondo!
Serei muito feliz inda transpondo
Os trinta e três, a idade de Jesus!
 

A saúde, no entanto, a essa altura já dava mostras de que fugia do maltratado corpo do poeta. Várias notas nos jornais referem-se aos longos padecimentos pulmonares de Ygino.

Afinal, na fria e chuvosa tarde de 4 de julho de 1907, uma enorme multidão leva, da Santa Casa para o cemitério da Saudade, os restos mortais do desditoso poeta de 35 anos. A Banda do Grêmio executa a marcha fúnebre, composta por seu diretor para aquela ocasião. A Estudantina Francana comparece, trazendo seu estandarte com o sinal de luto. Uma "rica coroa" depositada sobre o caixão tinha os dizeres: "Recordação do Povo da Franca". É a Franca que se despede de Ygino Rodrigues, por certo recordando, comovida, sua "Última Súplica":
 
Quando, cansado da mundana lida,
Meus frios ossos entregar à terra,
Na sepultura que meu corpo encerra
Não quero pompas, ouropéis da vida!
 
Nem mesmo uma elegia dolorida,
Triste como um luar prateando a serra,
Não vá dos vermes perturbar a guerra
Sobre meu corpo na final jazida!
 
Escuta, ó Tu que foste meu querido
Amor, escuta o último pedido
Que venho te fazer, banhado em pranto:
 
Por mim ergue uma prece à Divindade,
Planta no meu sepulcro uma saudade,
Não te esqueças de mim que te amei tanto!
(O Francano, 5.7.1902).  

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POR EM 01/04/2008 ÀS 09:55 AM

Lewis Milestone

publicado em

Warner Home Video
R$ 69,90

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Por Flávio Paranhos

Este é o filme original, cujo remake fez sucesso três vezes na atual década. Frank Sinatra fez o papel que agora pertence a George Clooney, Danny Ocean (daí o “Ocean”, “Os onze [camaradas] de Ocean”). A primeira versão da franquia (esse é o nome que se dá quando se faz render uma idéia cinematográfica à exaustão) é de 2001. Confesso que não me lembro direito do final. Mas me lembro bem do terceiro (de 2007), que teve final feliz pra gangue de Danny Ocean. Corrijam-me se eu estiver enganado, mas todos os três tiveram finais felizes pra gangue. E isso é o que diferencia (além do cinismo de Sinatra e Steve Martin ser mais eficiente do que o de Clooney e Brad Pitt) a versão original das atuais. Em 1960 os onze de Danny se lascaram no final. Não deixa de ser sintomático da representação (e percepção) de valores, digamos, morais, no cinema, quatro décadas depois.

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POR EM 25/03/2008 ÀS 02:37 PM

Alberto Manguel

publicado em

Cia das Letras
R$ 37,50

 



por Jonas Lopes


http://gymnopedies.blogspot.com/

Passou batido, em dezembro, o lançamento da coletânea Contos de amor do século XIX, organizada pelo ensaísta argentino Alberto Manguel. Uma pena, pois se trata de uma seleção excelente e variada da produção do mais importante dos séculos literários. Como toda iniciativa desse tipo, evidentemente, é desigual. Porém bem menos do que a média, até porque Manguel, que não é bobo, encheu o livro de autores clássicos: Tolstói, Machado, Balzac, Goethe, James, Eça, Pirandello, Stevenson e vários outros. O amor, aqui, se manifesta de formas distintas. Há o amor pigmentado pela culpa católica (na história de Leopoldo Alas); a devoção física não correspondida (Rudyard Kipling); o amor por um pai desconhecido (Ivan Turguêniev); o amor exótico de uma pantera por um soldado em pleno deserto (Honoré de Balzac); a relação guiada pelas convenções sociais (Edith Wharton) ou impedida por princípios morais (Liev Tolstói). Alguns relatos resvalam no fantástico, como os de Goethe e Eça de Queiroz. Já Oscar Wilde consegue extrair meiguice de uma fábula tola e juvenil. Entre os autores menos conhecidos no Brasil, vale destacar o inglês Anthony Trollope, adepto das tramas provincianas, personagens minúsculas e conflitos banais.

Os dois melhores contos do livro são os de Machado de Assis e Henry James. O do brasileiro, “A desejada das gentes”, traz uma de suas cativantes personagens femininas, Quintília, uma mulher que possui aversão física ao casamento, que só aceita se entregar à beira da morte, “meio defunta, às portas do nada”. A história de James, “O altar dos mortos” (que François Truffaut transformou em O quarto verde, de 1978), de certa forma prefigura o enredo da novela A fera na selva: um casal que tem dificuldade em aceitar seus sentimentos e deixa o tempo passar, à espera de uma iluminação que nunca acontece. Os dois morrem sem perpetuar a paixão, limitados por suas próprias prisões pessoais.

Uma reclamação? Faltou Tchekhov, de preferência com seu adorável “A dama do cachorrinho”.
Tchekhov não se esquece.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 01:25 PM

O homem sem qualidades

publicado em

por Marcelo Backes

Em agosto de 1913, momento em que a ação do romance principia, Ulrich - o homem sem qualidades - tem 32 anos. Ele faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante. A primeira delas é na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, exatamente as três profissões dominantes - e mais características - do século 20. Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabariam desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. Depois das três grandes tentativas, Ulrich reconhece que o possível significa, para ele, muito mais do que o real, sempre estereotipado, medíocre e esquemático.

Ulrich - cujo sobrenome é omitido "em consideração a seu pai" -, chegou a se chamar Aquiles, mais tarde Anders (o diferente), e mesmo o título do romance de Musil mudou várias vezes antes da publicação, passando de O espião a O salvador (Der Erlöser) e As gêmeas, títulos que assim como aquele que acabou se impondo dizem muito sobre o romance. O relato acerca da busca "desencantada" de Ulrich lembra a velha busca - ainda sagrada - do Santo Graal. Ulrich quer compreender o "motivo e o mecanismo secreto" de uma realidade que desmorona e para isso se retira à passividade de uma postura apenas contemplativa, que marca também a postura do autor e a postura do romance.

Ulrich se sente um homem sem qualidades porque o mundo contemporâneo inverteu os princípios do humanismo e colocou a matéria no centro da realidade moderna. Na verdade, Ulrich via em si todas as qualidades e capacidades privilegiadas por sua época - exceto a de ganhar dinheiro, da qual também não necessitava -, mas foi obrigado a constatar que a possibilidade de aplicá-las já havia lhe escapado às mãos. "Surgiu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive" e, assim, o personagem se vê confrontado com as contradições centrais do universo contemporâneo: a luta entre causalidade e analogia, entre crença na ciência e pessimismo cultural, entre lógica e sentimento, em suma. No fim, o que resta é a impossibilidade de perpetuar a reconciliação entre eu e mundo, de consumar a "entrada no paraíso", a ataraxia de Schopenhauer, a placidez ausente de vontade e busca da vita contemplativa.

Todos os personagens de O homem sem qualidades apenas são importantes na medida em que se relacionam com Ulrich, na medida em que são, inclusive, superfícies nas quais ele mesmo se espelha. Todos eles não deixam de configurar, de certo modo, possibilidades e aptidões do próprio Ulrich. Mesmo o assassino de prostitutas Moosbrugger, o símbolo central do descalabro em que se encontra o mundo, é um espelho no qual Ulrich se vê refletido, já que os delírios do homicida não deixam de ser variações extremas das experiências de Ulrich em relação àquela que chama de "outra condição" (anderer Zustand), de sua busca incansável da liberdade do disparate e da vivência original, paradisíaca. Na segunda parte do romance, aliás, Ulrich passa a vivenciar cada vez mais situações de enlevo quase sobrenatural, em que já não logra mais distinguir os limites espaciais e temporais do mundo que o envolve. Mais tarde Ulrich inclusive tenta a "outra condição" junto com Agathe, sua irmã, a "duplicação assombreada de si mesmo na natureza oposta". O amor mítico-incestuoso entre os dois constitui uma das mais belas e dolorosas histórias de amor da literatura universal.


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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

O Adeus de Fidel

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Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos



 

Idelber Avelar
O biscoito fino e a massa

Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.

Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.

O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami – cidade que visitei, para além de seu aeroporto, só duas vezes, o suficiente para nunca mais querer voltar --, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.

Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana — causa mui legítima — simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.

O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.

Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.

Idelber Avelar é professor do Department of Spanish and Portuguese — Tulane University.
 

 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 07:02 PM

Trono Manchado de Sangue

publicado em

Distribuição: Continental Home Vídeo
R$ 44,90

por Flávio Paranhos

            
Semelhante a Kagemusha, Os Sete Samurais e Ran, em que cenas de batalhas nos enchem os olhos, mas diferente de Dodeskaden, Madadayo e Sonhos, em que o que nos enche os olhos é a sensibilidade (naturalista em Dodeskaden, poética em Madadayo e Sonhos), Trono Manchado de Sangue é um Kurosawa típico. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro quando foi lançado, tem o figurinha-fácil-em-filme-de-Kurosawa, Toshiro Mifune, perfeito, como sempre. Como assisti (de novo) logo depois de ter visto Ran (mais uma vez), achei curioso o papel das personagens mulheres em ambos: são elas as traiçoeiras, as diabólicas, as responsáveis pelos homens se digladiarem e, portanto, pelo derramamento de (muito sangue) e conseqüente derrocada de seus respectivos e bobocas maridos. Em tempo: Ran é a versão de Kurosawa pro Rei Lear de Shakespeare (há inclusive uma cena hilária em Maridos e Esposas de Woody Allen, em que a namoradinha estúpida de um personagem reclama que Shakespeare não teria escrito nada em japonês).


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