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POR EM 27/07/2008 ÀS 07:10 PM

Marcel Proust pode mesmo mudar a sua vida?

publicado em

Percorrer as duas mil e quinhentas paginas distribuídas em sete romances pode parecer uma tarefa cansativa, árdua, pesada, tediosa. Mas não. De fato, não. Proust fala de leitores de sua obra que não seriam seus leitores, mas sim leitores de si mesmos

 
 

Carlos Augusto Silva
Professor e crítico literário
 
Poderá mesmo um livro mudar a vida de um leitor? Pode mesmo uma obra de arte ter papel preponderante na modificação da concepção de pensamento a respeito da realidade na qual se vive? Poderá ela reconfigurar nossa maneira de se portar com as pessoas, de refletir sobre as atitudes, de conceber a realidade?
 
Essas são questões antigas quando o tema da querela é a criação artística. Serve para quê? Afinal, debruçar-se sobre um livro, postar-se diante de um quadro, sentar-se por duas horas numa poltrona às vezes desconfortável de teatro para ver a representação de algo que, grosso modo, não é verdade; buscar significado em movimentos sincronizados que nada mais possam ter além de beleza; ver algo além da utilidade em uma construção arquitetônica, é uma experiência válida para a consolidação de uma visão renovada da realidade? Se seguirmos José Saramago ou Oscar Wilde, a resposta é não. Para o português, a literatura para nada serve, mas pondera, numa entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, perguntando após dar sua polêmica resposta: “Mas para quê os pássaros cantam?”. O dandy irlandês, em seu prefácio ao romance O Retrato de Dorian Gray , é enfático: “Toda arte é absolutamente inútil”.
 
Evidentemente não podemos ser simplistas na interpretação dessas sentenças. São complexas, pois tratam de uma coisa complexa e advêm de pessoas igualmente complexas. Penso que tanto Saramago quanto Wilde, ao dizerem que a arte não serve para nada, dizem que ela serve para tudo. Ela é livre. Seria como questionar um filósofo a respeito do bordão conhecido a respeito da filosofia: “A Filosofia é uma coisa com a qual e sem a qual o mundo continua tal e qual.” Um filósofo provavelmente diria: “Ao menos ela não é escrava de ninguém, é complicado apegarmo-nos aos conceitos de utilidade de um mundo em crise de valores como o nosso.”
 
Essa pergunta parece desnecessária a um acadêmico de um curso de ciências humanas _ se seguirmos à risca os estereótipos a que são submetidos esses estudantes _, ou a um apreciador da Literatura, do teatro, da dança... Mas é muito pertinente quando se trata de um aventureiro pelos caminhos da apreciação estética, por alguém que vez ou outra pega um romance para passar o tempo, ou um poema para presentear a namorada, ou vai a um espetáculo antes da boêmia para encenar-se cult , já que arte é, no imaginário coletivo, ainda _ pela dificuldade de acesso e pelo clima de superioridade que a burguesia vazia imprime no ar _, uma coisa para aristocratas. Esses, que não formam o público cativo (ou cativado) da arte, com certeza fariam a si mesmos essa pergunta se parados diante das duas mil e quinhentas paginas do romance Em Busca do tempo Perdido : “Para que perder (ou investir) tanto tempo lendo isso, num mundo com tantas possibilidades de informação rápida e automática, mastigada, digerida, pronta para ser usada em minhas conversas de bar, nas quais tentarei forjar minha posição de burguês intelectualizado?” Ou, “por que ler esse? Somando as páginas, nesse tempo poderia ler, no mínimo, outros dez livros importantes. Dá, por exemplo, para se ler três vezes Ulisses ?”
 
De fato, essa pergunta seria feita, é feita, constantemente. Em contrapartida, hoje em dia é mais necessário do que nunca conhecer Marcel Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido . Com ele podemos correr atrás da verdade perdida, esquecida, da qual sabemos cada vez menos.
 
Em relação a Saramago e Wilde, Proust está na outra ponta da corda. Para ele, literatura não só serve para alguma coisa, como é a única possibilidade de conceber vida em um sentido completo, verdadeiro e genuíno. Nos diz ele no último volume dos sete que compõe a obra:
 
... captar, fixar, revelar-nos a realidade longe da qual vivemos. Essa realidade que corremos o risco de viver sem conhecer,[...] que está presente em todos os homens e não apenas nos artistas. Mas não a vêem porque não a tentam desvendar, e assim seu passado se entulha de clichês inúteis porque não revelados pela inteligência. Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem de seu universo que não é o nosso. Graças à arte, em vez de contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se. Esse trabalho do artista, de buscar sob a matéria, sob a experiência, as palavras, algo diferente, é exatamente o inverso do que realiza o hábito, amontoando sob nossas impressões os objetos práticos a que erradamente chamamos vida. 
 
Percorrer as duas mil e quinhentas paginas distribuídas em sete romances pode parecer uma tarefa cansativa, árdua, pesada, tediosa. Mas não. De fato, não. Proust fala de leitores de sua obra que não seriam seus leitores, mas sim leitores de si mesmos. Pretendia com ela oferecer a eles um instrumento óptico com o qual lhes fosse possível adquirirem modos de se lerem, de se conhecerem, de se perceberem. O conceito de utilidade fica por demais patético diante das aventadas sobre nossa alma que o livro opera, implacável em sua função de nos revelar a verdade por trás de cada gesto ou olhar, ocasiões domésticas, sentimentais ou fatos Históricos.
 
Ser um leitor de Proust é, antes de qualquer coisa, mergulhar numa experiência de singular beleza. São frases torrenciais, longas. Reflexões profundas, parágrafos de três, quatro, às vezes cinco páginas, nos quais o tema pode ser o mais prosaico, comum e corriqueiro, mas que ele transforma em algo de inacreditável, de maravilhoso, de relevante, como tudo, para a recuperação da verdade perdida no Tempo. Gilles Deleuze, filósofo compatriota de Proust, chega, em sua obra clássica dos estudos proustianos, Proust e os Signos , à conclusão de que o tema do romance não é o tempo, mas sim a verdade, o aprendizado dos signos, guardados na taça de chá, na sonata de Vinteuil, nas paixões da adolescência, nas crises de ciúme, nas variedades de desejo, de vertentes de sensualidade, de amores paternos, maternos, fraternais.
 
A vida inteira cabe na busca do tempo perdido , e se renova, sempre, incessante, a cada instante de leitura, releitura, reencontro com nossos sentimentos perdidos, (re)vistos nas personagens, estranhas, mas que nos parecem próximas, com as quais percebemos tantas afinidades, e temos tantas repulsas, revoltas, por vermos nelas a nós mesmos, nossas histórias de intimidade, jamais reveladas a alguém, claras, diáfanas, e temerosos, mas encantados por tamanha carga definitiva de vida, entregamo-nos a um momento raro nos dias de hoje, nos quais Proust é mais que conveniente.
 
Se no tempo nos movimentamos, se nos instantes caminhamos rumo ao conhecimento ou ao desconhecimento de nós mesmos, é nessa paisagem definida e sinuosa que Proust pretende se (nos) resgatar, colher, como lírios, antigos, porém renovados pela busca, pelo olhar artístico forte para restaurar um instante que parecia desimportante quando baralhado a tantos outros. O instante da rememoração é essencial para o francês. Para ele não se pode saber e viver ao mesmo tempo, pois no momento do viver estamos demasiado ocupados, identificados, sugados pelas percepções falsamente reais do dia-a-dia. Depois, na recordação, podemos filtrar, tirar das situações as pérolas capazes de nos salvar do ciclo do hábito, que faz com que o garoto não perceba seu quarto em Combray, e cuja ausência não o deixa sentir-se à vontade no quarto de Balbec, região litorânea na qual passa as suas primeiras férias do romance na companhia da avó, cuja ausência se fará dolorosa, densamente doída no retorno à Balbec, aí já sem ela, então falecida, na qual se operará o encontro definitivo com o vazio, produzido, tecido, configurado pelo tempo, que, junto com sua avó, arrastou, ou tentou arrastar, o sentimento que os fazia próximos _ não percebido em sua real dimensão por Marcel quando estava ela viva, mas visto em sua totalidade depois de ela morta _, mas que resiste, pois é salvo pela arte, que o reporta ao presente, transformado palavra, transformado beleza, transformado literatura. Arte.
 
É atual alguns livros que pretendem uma abordagem de auto-ajuda, contrária à do romance, à de Proust, à da verdadeira Literatura, trazendo a idéia de que Marcel Proust tem fórmulas prontas para operar na vida de seu público a tal mudança prometida pela maioria, ou talvez pela totalidade de seus leitores. É um engano maldoso, talvez mal intencionado, que encontra contorno de justificação na atualidade, na qual o vazio coletivo e a indisposição de empreitadas como as que Proust realizou, procura fórmulas, receitas. Não é essa a proposta de Marcel (narrador [?]), nem a de Proust. Se ele pode mudar a sua vida, não é através de formulas, ou de “como”, ou “de que maneira”. Assim não é porque não há fórmula. Não há receita. Não há roteiro. É um livro através do qual você poderá ler a si mesmo, encontrar-se nas paisagens, recordações que se fazem vivas por via da memória. Proust poderá mudar a sua vida na medida em que, mergulhado na leitura, parta você, enquanto leitor de si mesmo, no encontro de seu tempo perdido , de seus signos perdidos, e assim aprenda, por via do olhar proustiano, ou o mais próximo possível disso, a observar, através da arte e de suas próprias sensibilidades, encontrar, nos fatos, por menores que sejam, as verdades que só um olhar proustiano pode nos oferecer.
 
O autor francês não resolve problemas, nem passa a mão em nossas frontes, muito menos dá palavras de consolo. Ao contrário, instiga-nos a nos levantar da cadeira do hábito, na qual estamos acostumados a nos sentar diariamente, esquivando-nos de nossas partes não apetecíveis aos pensamentos acomodados e covardes, periféricos porque deficientes, incapazes, inconseqüentes, não decifrados pela inteligência . De modo algum ele facilita nossa vida. Não é esse seu objetivo, a arte tem mais a meta de desarrumar o ordenado para nos por a buscar novos modelos para a composição da realidade, do que o de deixar tudo como está.
 
Sobra-nos motivos para ler Proust. Walter Benjamin nos diz de um desejo de felicidade que permearia todo o Em busca do tempo perdido , divide essa felicidade em hino e elegia; hino é o novo, o sem precedentes; a elegia é o que se renova, como a Veneza, que surge do tropeção, ou a Combray, que surge do chá. E para os leitores é a felicidade do encontro, ou reencontro de si mesmo, a felicidade de se ver cúmplice da mais profunda intimidade, da mais visceral realidade, que transcende, tudo o que desprezamos em prol de uma postura realista, como disse Antônio Cândido, em seu ensaio "Realidade e Realismo" (Via Marcel Proust), contido no volume Recortes , no qual diz que
 
Se considerarmos realismo as modalidades modernas, que se definiram no século XIX e vieram até nós, veremos que eles tendem a uma fidelidade documentária que privilegia a representação objetiva do momento presente da narrativa. No entanto, mesmo dentro do realismo, os textos de maior alcance procuram algo mais geral, que pode ser a razão oculta sob a aparência dos fatos narrados ou das coisas descritas, e pode ser a lei destes fatos na seqüência do tempo . Isso leva a uma conclusão paradoxal: que talvez a realidade se encontre mais em elementos que transcendem a aparência dos fatos e coisas descritas do que neles mesmos. E o realismo, estritamente concebido como representação mimética do mundo, pode não ser o melhor condutor da realidade.
 
Antônio Cândido dá a Proust estatus de criador da supra-realidade, do real mais do que real, da verdade apontada por Deleuze, da ponte entre memória involuntária e aprendizado dos signos, da verdade que se sugere viva.
 
O livro A Técnica do Romance em Marcel Proust , do crítico Álvaro Lins, tem como meta defender a tese de que uma leitura completa de Em busca do tempo perdido só pode ser feita se lido e relido em seguida, como que introjetando na leitura a estrutura circular do romance. Ou seja, depois de uma primeira viagem, podemos ver, numa segunda, a verdadeira concepção de tempo, de memória como recuperação do mesmo e do modo como esta procura se dá na mente do narrador, e na estrutura ficcional do romance. Se pensarmos na dimensão da obra, veremos que o autor não pretendia realmente facilitar a vida de ninguém, nem fornecer fórmulas fáceis.
 
Proust pode mudar nossa vida, desde que mudemos com ele, e nos tornemos algo diferentes do que hoje impera em nossa sociedade desprovida de tanto sentido. Proust muda a vida de seus leitores, mas exige do leitor de hoje uma mudança prévia.
 
Por tudo isso, que é somente a ponta do imenso iceberg proustiano, vale a pena, na companhia deste francês que transformava tudo em que punha os olhos, arte, irmos atrás do tempo perdido, da verdade perdida, ou, como quer Benjamin, da felicidade perdida, sempre (re) encontrada, viva, verdadeira, plena, como cada uma das frases longas, profundas, densas de tempo, gravadas na eternidade da beleza, da humanidade, da arte de Marcel Proust, que conosco, pode sim, mudar tudo, e fazer-nos ver nossa vida, a verdadeira vida, a vida enfim descoberta e esclarecida, a única vida realmente vivida.

 

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POR EM 27/07/2008 ÀS 07:09 PM

Guimarães Rosa e Graciliano: Um antagonismo fecundo

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Os estudos sobre o regionalismo literário, que pareciam esgotados, paradoxalmente revigoram-se na nova etapa da mundialização do capital. A urbanização forçada e descontrolada, em vez de enterrar velhos temas e formas literárias, fez renascer no seio das grandes cidades, o regionalismo
 
 
 
 
Hermenegildo Bastos
Professor Doutor da Universidade de Brasília
 
Procuro analisar obras de dois ficcionistas brasileiros modernos (Guimarães Rosa e Graciliano Ramos), e explorar um possível e fecundo contraponto entre os dois. Ao mesmo tempo, a partir dos estudos sobre os escritores, pretendo discutir os modelos historiográficos com que tem trabalhado a crítica nas análises da passagem do regionalismo crítico ao super-regionalismo. Trata-se, portanto, de uma investigação sobre literatura brasileira e, ao mesmo tempo, sobre modelos de crítica e história da literatura, especificamente sobre a evolução do regionalismo. Assim, este texto que agora apresento é parte de uma pesquisa maior em andamento.
 
As duas dimensões da pesquisa são indissociáveis: por um lado os modelos historiográficos parecem ter se congelado e, com isso, parecem ter perdido a capacidade de iluminar as leituras dos escritores; por outro lado, as leituras e as análises, que já se formulam, ainda que não se dêem conta disto, a partir do modelo dominante, correm o risco de repetir visões estereotipadas. Pretendo, assim, trabalhar com esta dupla abordagem.
 
Os estudos sobre o regionalismo literário, que pareciam esgotados, paradoxalmente revigoram-se na nova etapa da mundialização do capital. A urbanização forçada e descontrolada, em vez de enterrar velhos temas e formas literárias, fez renascer no seio das grandes cidades, o regionalismo. O regionalismo continua atual e, segundo Ligia Chippiani, que realizou levantamento bibliográfico sobre o tema, ganhou “uma amplitude maior na intersecção dos estudos literários e artísticos, históricos e etnológicos.” (CHIAPPINI, 1995, 153).
 
No nosso caso, porém, estudo formas passadas do regionalismo. E o faço na perspectiva do historiador. A história não é um fluxo ininterrupto que nos leva e levará ao progresso inevitável. Mundos passados, como estes que estão representados em Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, continuam presentes, não só porque com o progresso os velhos problemas, em vez de se resolverem, se agravaram, como também porque nestas obras o leitor depara com um tempo que poderíamos chamar de longa duração – o da história da modernização brasileira. Fala-se aí de um processo deformado e deformador que é o mesmo ontem e hoje. Para o historiador, a análise do passado pode trazer ensinamentos sobre os impasses que vivemos no presente.
 
A atualidade das obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa pode ser atestada com a simples consulta ao catálogo de publicações e de produção de teses acadêmicas. Uma afirmação comum sobre Guimarães Rosa é que a publicação de sua obra desnorteou a crítica, como de fato não poderia deixar de ser. Mas a crítica especializada evoluiu, desde Cavalcanti Proença, Antonio Candido, até Heloisa Starling, Willi Bolle, Luiz Roncari. A crítica caminhou em direção a uma leitura política, o que não combina com a idéia anteriormente difundida de um Guimarães Rosa apolítico, metafísico. Na verdade, a metafísica ou o simbólico, ou ainda, o mítico são também políticos.
 
Segundo Antonio Candido, Graciliano e Rosa são dois autores antagônicos, mas o antagonismo, no sentido dialético, é uma situação de tese e antítese, uma situação, pois, em que um pólo requer, ou mais, exige o outro.
 
A oposição não-dialética entre Guimarães Rosa e Graciliano Ramos não se sustenta mais. Recentemente dois ensaios publicados no mesmo livro, um sobre Graciliano Ramos, outro Guimarães Rosa evidenciam isto 1 . Há mesmo, como que unindo os dois escritores, uma dimensão política que, de resto, Antonio Candido entendeu como uma característica determinante da literatura brasileira – o seu caráter empenhado.
 
Normalmente, a um Graciliano Ramos realista, determinista opõe-se um Guimarães Rosa mágico, mítico e poeta do imaginário. Sem dúvida, a bibliografia especializada não vai nessa direção, mas ainda falta um estudo comparativo dos dois escritores e, ao mesmo tempo, um estudo sobre a evolução da ficção moderna brasileira na passagem do regionalismo crítico para o super-regionalismo.
 
A oposição não-dialética empobrece os dois escritores e simplifica o que na verdade é complexo e pode ser colocado como prova de riqueza da ficção brasileira do século XX. Se trabalhamos com a idéia de realismo conforme Auerbach, realistas são Rosa e Graciliano, o que não impedirá de ver as grandes diferenças entre eles. Segundo Auerbach, realismo é a representação da vida ordinária em forma severa, problemática e sobre um fundo histórico. (AUERBACH, 1996, epílogo).
 
Ao mesmo tempo, o substrato popular que, com diferenças profundas sem dúvida, está presente nas obras dos dois grandes escritores tem muito de determinismo. Há muito de determinismo em Grande Sertão: Veredas, o que não faz do livro uma obra determinista. O determinismo é um dado da experiência popular, mas também da tradição ocidental, com que os autores têm que lidar. Por sua vez, há poesia e imaginário em Vidas secas, o que, entretanto, não impede que o determinismo esteja presente 2 .
 
Como cada um deles equacionou as contradições presentes na experiência que o povo tem da vida, da morte, do amor, da guerra, da justiça, do bem e do mal, isto sim me parece que ainda está por ser feito de modo sistemático. As diferentes equações não são apenas dos escritores, mas da cultura brasileira como um todo. Com certeza, na contraposição dialética entre os dois GRs, encontraremos os debates do Brasil.
 
A partir dos conceitos de regionalismo pitoresco, regionalismo crítico (ou realismo crítico) e super-regionalismo (ou nova narrativa) Antonio Candido forneceu ao estudioso de literatura brasileira um modelo de periodização capaz de captar a lógica de evolução da literatura brasileira, na sua perspectiva local como também no seu relacionamento universal.
 
Tomo as obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa como leituras do Brasil, leituras diversas e capazes de iluminar, pela diversidade, as contradições seculares da condição colonial brasileira. Há nessas obras, além de interpretação do país, formulações de projetos, porque interpretar não é um gesto inocente. A perspectiva aqui é ainda a de Auerbach, da causalidade figural, uma percepção de causalidade segundo a qual o acontecimento posterior explica o anterior.
 
Quando, por sua vez, o crítico literário, em perspectiva histórica, procura compreender as diversidades, está fazendo leitura de leituras. A dimensão do seu trabalho é a de construir a autoconsciência da obra ou de um conjunto de obras articuladas em torno de um problema.
 
As observações aqui desenvolvidas a propósito de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa me surgiram a partir da leitura de umas poucas palavras de Antonio Candido sobre o que chamou de “um contraponto fecundo” a propósito das diversidades existentes (e resistentes, eu acrescentaria) entre Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. As contraposições se exibem à primeira vista, para um leitor comum, mas permanecem, ainda que modificadas, nas visões especializadas do crítico. Se isto é assim, se as contraposições se modificam na medida em que o leitor afina a sua visão, isto pode ser sinal de que elas são significativas, isto é, não são apenas das leituras, mas são também constitutivas do seu objeto.
 
Contraposições existem entre vários escritores. Porém, nesse caso tomo os dois como paradigmas de diferentes momentos de evolução da literatura brasileira, do realismo brasileiro, na perspectiva Auerbach-Candido (ver sobre o diálogo Auerbach-Candido, Waizbort, 2007). Importa no caso formular o conceito de realismo brasileiro e estudar a sua evolução especificamente na passagem dos períodos referidos.
 
Sobre o método, vão aqui três palavras.
 
Primeira: esses autores estão no passado, sendo que um deles está no passado para o outro. Ler Graciliano Ramos depois de ter lido Guimarães Rosa é, sem dúvida, uma operação de crítico-historiador. Relembre-se que Graciliano leu a primeira versão do que viria a ser Sagarana. Ali encontrou “belezuras”, ao lado de contos que considerou menos bons. Relembre-se também que Guimarães Rosa reescreveu esta obra, não, evidentemente, tocado pela leitura de Graciliano, mas a partir de sua própria evolução como escritor. Procuramos captar as obras na sua contemporaneidade, isto é, nos seus momentos históricos únicos e singulares. Complementando esta leitura, procuramos captar o valor e significado que elas têm hoje, incluindo aí o diálogo entre elas. Há o momento do autor e o do crítico. A obra inclui os dois momentos que cabe ao crítico analisar.
 
Segunda: o mundo narrado por Guimarães Rosa é em alguns casos historicamente anterior ao mundo narrado por Graciliano Ramos, ou é o mundo da epopéia ou o da narrativa da experiência, nos termos de Walter Benjamin 3 . Resíduos desta narrativa, entretanto, podem ser encontrados em Viventes das Alagoas e Alexandre e outros heróis de Graciliano 4. Graciliano Ramos, na linha machadiana da literatura brasileira, rechaçou o pitoresco sertanejo, donde a estética do seco e da escassez. Guimarães Rosa enfrentou o pitoresco, correndo todos os riscos, mas conseguindo retirar daí a universalidade. Na verdade, ele retorna formas literárias da literatura sertaneja rechaçadas por caducas pela geração anterior a ele. Este é um dado histórico da maior importância.
 
Terceira: embora se situem diferentemente na evolução da moderna ficção brasileira, as suas obras são equações diversas do mesmo problema – o da modernização à brasileira. Sobre a modernidade à brasileira escreveram também Drummond, Mário, Machado, Lima Barreto etc. Mas o que se realça nos dois GRs é o antagonismo, o qual, no sendo exclusivo deles, parece ter encontrado nas suas obras um momento único de alta tensão. Tanto em Graciliano quanto em Rosa há um repúdio à modernidade imposta, mas, diferentemente de Graciliano, que é também crítico do patriarcalismo, em Rosa parece haver em algumas obras uma glorificação do passado patriarcal 5. Este é um ponto cheio de interesse: sendo um escritor paradigmático da nova narrativa, posterior, portanto, ao realismo crítico, Guimarães Rosa em muitos momentos tende a glorificar o passado senhorial que Graciliano critica. Assim, senhores como Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Zé Bebelo, Selorico Mendes, donos de terras e gentes, são os heróis do Grande Sertão: veredas.
 
Aproximações outras podem e são feitas: Machado de Assis e José de Alencar, Machado de Assis e Euclides da Cunha, Mário de Andrade e José de Alencar, Guimarães Rosa e Euclides da Cunha, Graciliano e José Lins do Rego etc. Mas a crítica parece ter preferido não enfrentar os GRs. Vale a pena anotar que João Luiz Lafetá deu a seu ensaio sobre S. Bernardo um título retirado de Guimarães Rosa – “O mundo à revelia”.
 
Dada a extensão das obras dos dois autores, é conveniente estabelecer um limite. Trabalho em duas frentes: 1ª) análise comparativa de Grande Sertão: veredas e São Bernardo; 2ª) análise comparativa de Vidas secas e “Meu tio, o iauaretê”, para o que me valho também de alguns contos de Primeiras Estórias.
 
No primeiro caso, incorporo a sugestão de Lafetá feita no ensaio citado. Um mundo à revelia é aquele que existe e prosseguirá existindo independentemente e contra a vontade do herói. Paulo Honório e Riobaldo vivem situações semelhantes no que tange à questão dos processos de modernização impostos. São, cada um à sua maneira, agentes da modernização, mas nos dois casos de modo extremamente problemático.
 
Em S. Bernardo, Graciliano valeu-se de um artifício narrativo que consistiu em criar um autor ficcional, Paulo Honório, que escreve o livro que o leitor está lendo. Em Grande Sertão: veredas, Rosa criou um fluxo ininterrupto de fala do personagem Riobaldo. Sobre a escrita nada se diz, mas o jogo narrativo sugere ao leitor a transcrição etnológica ou etnográfica de um depoimento oral. São, nos dois casos, jogos narrativos bastante diferentes, mas se assemelham enquanto tentativas de “ficcionalização da oralidade”.
 
Vale a pena também, ainda no primeiro caso, analisar os dois romances como narrativas fáusticas, investigando a possível existência de um “pacto” também em S. Bernardo assinalado pelos acontecimentos da capela da igreja onde se escondem as corujas. Trata-se possivelmente de um “pacto” entre Paulo Honório e as forças da modernização capitalista 6.
 
Com relação à segunda frente da pesquisa, um dos aspectos mais ressaltados em “Meu tio, o iauaretê” é o fato de a narrativa chegar diretamente ao leitor sem mediação de um narrador externo. O personagem conta sua própria história, o que tem sido assinalado pela crítica como sinal de superação das tradicionais barreiras que impediam que o personagem iletrado tivesse voz. Em Vidas secas, pelo contrário, um narrador externo conta a história de Fabiano e sua gente. O discurso indireto livre, porém, permite a Graciliano confundir narrador e personagem de modo a criar uma cumplicidade entre os dois, desfazendo a aparente neutralidade. A pergunta é: estes equacionamentos diversos da distância narrador/personagem a que correspondem na história social brasileira.
 
Guimarães Rosa é o inventor do idioma, o escritor que tomou para si a tarefa de recriar o idioma como forma de reinvenção do país. Manteve-se fiel ao espírito clássico da língua e da literatura, opondo-se assim, ao menos neste aspecto, ao ideário modernista, sendo este mais um dos ângulos da sua aproximação com Graciliano Ramos.
 
O ensaio de Alfredo Bosi “Céu, inferno” é ainda hoje a melhor tentativa de aproximação Graciliano Ramos/Guimarães Rosa. É uma leitura cuidadosa dos dois escritores e suas observações têm pertinência. E se aqui vou tomá-lo como ponto de partida da nossa crítica é porque o considero um ensaio fundamental para a questão que nos toca discutir 7 . O interesse aqui é estudar o contraponto entre os dois GRs como a dialética que vai muito além das suas obras e que pode ser expressão e/ou iluminação da dialética do Brasil. O contraponto é fundamentalmente literário, mas não só. Estão em jogo diferentes (e mesmo diversas) visões da literatura e do país. Mas unindo os dois escritores está a prática da literatura como vida, o que em inúmeras ocasiões foi enfatizado por eles.
 
A contraposição parece ser significativa por si mesma: de um lado a escrita da escassez, da contenção e do menos, de outro a da explosão, da exuberância e do mais. Mas, em que dimensão da literatura (e da cultura) brasileira essas escritas contrapostas de certa forma exigem-se, requeremse uma à outra? Que diálogo se dá entre as duas?
 
Diálogo no caso quer dizer que os dois escritores – antagônicos, como vimos –, complementam-se. Se as suas obras, reunidas, como diz Antonio Candido na entrevista citada, completam a nossa visão, é porque este antagonismo de certa forma define nossa cultura.
 
Em “Céu, inferno”, afirma Alfredo Bosi:
 
“A hipótese que me parece mais razoável é esta: separando Graciliano da matéria sertaneja está a mediação ideológica do determinismo; aproximando Guimarães Roas do seu mundo mineiro está a mediação da religiosidade popular”. (BOSI, 1988, p. 22)
 
À primeira vista ninguém discordaria desta afirmação. Mas não estou tão convicto de que a religiosidade popular está desprovida de determinismo e, sendo assim, “a mediação ideológica do determinismo” necessariamente não separa, podendo mesmo aproximar.
 
“A menina de lá” é um dos contos de Guimarães Rosa de que se vale Alfredo Bosi para estabelecer o contraste. Do outro lado está Vidas secas. Entendo ser possível fazer leituras outras dessas obras, o que vou aqui apenas esboçar.
 
Parece-me que à leitura de Alfredo Bosi de “A menina de lá” faltou considerar as diferentes perspectivas narrativas com que o conto é construído. Por um lado a perspectiva dos personagens, que também varia a depender de se é o pai, a mãe, a tia ou a gente; por outro lado, a perspectiva do narrador.
 
“E Nhinhinha gostava de mim.”, diz o narrador, para em seguida, antes dos acontecimentos centrais da história, dizer “Nunca mais vi Nhinhinha”. Os milagres de Nhinhinha chegam ao narrador por ouvir dizer, o que de fato nos coloca numa situação cara a Guimarães Rosa, a do narrador que recolhe histórias que correm pela boca do povo. Mas no caso em especial parece-me que o narrador toma distância dos fatos narrados, não que não creia neles, mas porque não faz parte do mundo de Nhinhinha 8.
 
Quanto à mediação da religiosidade popular, vale a pena retomar as discussões sobre a magia e o mundo mágico. A magia é também à sua maneira um modo de experienciar o mundo tão ou mais determinista do que o pensamento lógico-racional. Se isto é verdade, então estamos em face de dois tipos de “determinismo” e só poderemos entendê-los se nos reportarmos aos diferentes momentos da história brasileira representados nas obras dos dois escritores. Nessa perspectiva estudei “Meu tio, o iauaretê” como a narrativa da indisponibilidade ou impedimento da magia (ver BASTOS, 2006). Deslocado do seu mundo mágico, o caboclo do conto vive a magia como determinismo às avessas. É verdade que esta pequena obra prima que é “Meu tio, o iauaretê” é um conto diferenciado mesmo dentro da obra do próprio Guimarães Rosa 9.
 
Voltando à questão da distância, ou melhor, dos jogos de perspectiva narrativa, de “A menina de lá”, claro está que difere daquela que se impõe o narrador em Vidas secas, mas se a diferença é significativa o é no sentido de que são duas tentativas de equacionamento de um problema que para nós continua sendo o mesmo, um problema constitutivo da literatura brasileira – a relação entre narrador letrado e personagem iletrado. O que de fato não se pode dizer é que essa relação foi resolvida de forma satisfatória, nem literária nem socialmente 10.
 
É claro que em Vidas secas não há milagres na perspectiva do narrador que, entretanto, se mostra muitas vezes também cético com relação ao pensamento lógico-racional, o pensamento do intelectual brasileiro ansioso por doutrinar o homem da roça. Mas há milagres na perspectiva de Fabiano quando ele tenta curar o bezerro “no rasto”, como bem observa Bosi. Já em “A menina de lá” que função tem a frase “Nunca mais vi Nhinhinha” senão a de estabelecer uma distância entre os fatos narrados e o narrador? As questões de perspectiva narrativa ainda não foram, assim me parece, devidamente estudadas de modo comparativo com relação a Graciliano e Rosa.
 
O crítico uruguaio Ángel Rama desenvolveu o conceito de transculturação a partir do qual estudou alguns autores latino-americanos, dentre eles Guimarães Rosa. Segundo Rama, os transculturadores são ficcionistas que, entre outras coisas, superaram as barreiras que separavam o personagem iletrado do narrador letrado. Como já tive oportunidade de dizer em ensaios já publicados, a leitura de Rama absolutiza certos procedimentos narrativos e, como conseqüência, perde a visão histórica, mais relativa. As barreiras entre o personagem iletrado e o narrador letrado não deixaram de existir, migraram, deslocaram-se. O que urge estudar são as diversas maneiras de como os escritores tentaram equacionar o problema, que não é apenas das literaturas, mas das culturas latino-americanas.
 
Em ensaio que escrevi sobre Juan Rulfo e Graciliano Ramos, afirmei que a “ficcionalização da oralidade” (expressão cara a críticos ligados a Angel Rama), não é propriamente uma superação da barreira, a não ser que a entendamos como superação imaginária de um problema real – conforme alguns críticos têm procurado definir a atividade artística, dentre eles Jameson e Macherey-Balibar. Mesmo porque, na vida real, as barreiras entre o povo iletrado e os escritores não diminuíram. Se o personagem iletrado ascendeu à condição de narrador literário, isto não se fez acompanhar na vida real da ascensão correspondente. Assim em “Meu tio, o iauaretê” o personagem narra o seu próprio extermínio.
 
Da interação entre o personagem iletrado e o narrador letrado, o que podemos esperar, numa sociedade como a nossa marcada por tantas e enormes desigualdades, são negociações, quando muito, isto é, quando o outro de classe consegue se fazer notar. Graciliano e Rosa negociam a presença do personagem. As diferentes formas de negociação apontam para diferentes formas de relacionamento na vida social. Assim, se Fabiano não tem voz, entretanto invade e contamina o discurso do narrador e, com isso, negocia a forma da obra.
 
Chamo negociação o resultado do confronto entre o personagem e o narrador (ou escritor). A força que terá o personagem de fazer com que a obra se conforme aos seus interesses dependerá de sua presença e visibilidade na vida real. Esta não é uma relação mecânica, é claro. Os párias, os desclassificados, os vaqueiros, os jagunços, os migrantes, os pobres e explorados de todas as espécies estarão presentes nas obras com maior ou menor força conforme o escritor puder fazer ver o outro de classe.
 
As leituras políticas de Guimarães Rosa vêm crescendo desde Walnice Nogueira Galvão até Heloisa Starling, Willi Bolle e Luiz Roncari. Ao Graciliano Ramos político não já se pode contrapor um Guimarães Rosa apolítico. Há mesmo uma linha que une Graciliano Ramos e Guimarães Rosa como observa Heloisa Starling em entrevista que se segue a seu ensaio já citado sobre Rosa. A idéia de ruína une Machado de Assis, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. “A ruína, diz ela, é um lugar privilegiado de observação porque mostra que alguma coisa desapareceu, mas também ilumina o que provocou esse desaparecimento” (STARLING, 2006, p. 218).
 
A questão do determinismo e do seu oposto, a liberdade, é uma questão de grande complexidade em Graciliano Ramos. Em Angústia, por exemplo, a frase dita por Luis da Silva logo após o assassinato – “O que tem que ser feito tem muita força” –, contém inúmeros desvãos. É uma frase popular também, como um ditado ou provérbio. Em princípio nos passa a rigorosa causalidade que une os fatos narrados como numa cadeia que vai desde a infância de Luís da Silva até o assassinato de Julião Tavares. Esta rigorosa causalidade (como tento mostrar em ensaio ainda inédito), coexiste com a gratuidade: afinal para que seu Ivo dera a Luís da Silva uma corda? Seu Ivo e a corda, como também Vitória e as moedas enterradas, fazem parte de uma rede causal de ações que, entretanto, não deixam de ser gratuitas. A gratuidade, sim, é uma forma de causalidade perversa.
 
Luis da Silva vive dois momentos históricos: um o da velha fazenda do seu avô, na qual a lógica do capitalismo não se manifestava claramente; outro o da cidade onde a lógica capitalista se patenteia em todos os gestos, ações e situações humanas. De forma que o determinismo não é uma opção ideológica do autor, mas um dos efeitos do realismo de Graciliano Ramos, sendo o outro o grito por liberdade. Ora, o mundo narrado por Guimarães é, repito, muitas vezes historicamente anterior ao de Graciliano Ramos. E da análise desta diversidade poderemos retirar conclusões importantes.
 
Por outro lado em Vidas secas uma das questões centrais é a questão da liberdade, como procurei mostrar em outro trabalho (BASTOS, 2008). De fato o mundo de Vidas secas é o da necessidade, mas é este mundo mesmo que coloca como exigência a liberdade. À excelente análise de Bosi sobre o episódio do menino mais velho com a palavra inferno pode-se, entretanto, acrescentar o caráter eminentemente poético do romance. Já Carpeaux afirmara que Graciliano queria eliminar tudo para ficar só com a poesia. Ora, a atitude do menino mais velho é a atitude do poeta que vê a palavra como se pela primeira vez. A isto se segue o episódio da alpargata. Fabiano trabalha para desenhar no coro uma alpargata para o menino mais velho. O caráter teleológico de todo trabalho humano se faz presente aqui também, assim como a liberdade do criador. Mas o desenho do vaqueiro está de fato limitado pela crueldade do destino. Em Graciliano temos a exigência da liberdade como única saída para o homem, em lugar de simplesmente a reafirmação do determinismo.
 
A magia ou, na sua forma mais tênue, a saída inesperada para situações de aporia não pode também ser lida em Guimarães Rosa como consolo terreno para os injustiçados. Assim por exemplo em “Soroco, sua mãe, sua filha”, a cantiga puxada pela filha, depois pela mãe e, por fim, pela gente não é propriamente uma saída, uma resolução. Não é possível ver aí um rompimento do estado de necessidade inicial, tampouco é um consolo, repito. Então, o que pode ser? Segundo penso, é uma forma mais drástica de necessidade a que estão condenados os personagens.
 
Se as palavras de Nhinhinha viram coisas e as do menino mais velho não, a depender da leitura, o determinismo está no mundo de Nhinhinha, mais do que no de Vidas secas. As palavras de Nhinhinha de certa forma não podem não acontecer. Observe-se que, de modo paradoxal, a magia pode ser uma forma de aporia tão cruel quanto a que vive Fabiano frente às arribações. Aqui outra vez, deparamos com uma situação ainda não enfrentada pela crítica.
 
É claro que o ensaio de Bosi é muito mais complexo do que foi possível resumir aqui. Mas não posso concordar com a afirmação de que o narrador de Vidas secas olha de cima, “da História brasileira já conhecida”, o destino do seu vaqueiro. Pelo contrário, o destino do narrador (e do escritor) depende do destino do personagem.
 
Segundo Willi Bolle, o Grande Sertão: veredas é “o mais detalhado estudo de um dos problemas cruciais do Brasil: a falta de entendimento entre a classe dominante e as classes populares, o que constitui um sério obstáculo para a verdadeira emancipação do país”. Para Willi Bolle, o romance de Rosa é um “romance de formação” no sentido original presente no Wilhelm Meister de Goethe, o qual, em posição contrária à Revolução Francesa que defendia “o confronto armado entre as classes, propôs o diálogo entre elas.” (BOLLE, 2004, p. 10). Não sei, porém, se isto é tão pacífico em Rosa, entendo mesmo que há lugar aí para contradições. Ainda que esta seja a posição do autor, no plano dos acontecimentos e das personagens há muitas outras posições. O ponto de vista em Graciliano Ramos é claramente outro, acentuado que é o conflito de classe. Mas em Vidas secas, por exemplo, um dos poucos romances brasileiros em que se projeta com nitidez o outro de classe, Graciliano se distancia da esquerda brasileira da época.
 
Na perspectiva da crítica dialética, decisivo é assinalar o ponto de vista de classe do escritor, mas o ponto de vista que dá forma ao texto e que pode não corresponder às intenções do autor. O mundo narrado em Grande sertão: veredas, pela amplitude e magnitude da obra, com a diversidade de situações e personagens, representa, de fato, a pluralidade de pontos de vista que compõem o Brasil. Um Brasil arcaico, como o de S. Bernardo, que teima em permanecer como está. A recusa à modernidade pode ser tanto a posição de setores avançados que a vêem como forma de sacrifico e destruição do enorme contingente de seres humanos que não acompanham o processo de evolução, quanto pode ser a posição de setores retrógados que temem mudanças na estrutura social que mantém os seus privilégios.
 
 
NOTAS: 
 
1 - Ver os ensaios de Wander Melo Miranda e o de Heloisa Starling. In: Castro, Marcílio França (org.), 2006.
 
2 - Em entrevista concedida ao Correio Brasiliense, Antonio Candido enfatiza a importância de diálogos entre escritores brasileiros, dentre eles Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, que assinalam a complexidade da cultura. Diz ele: “Acho que Guimarães Rosa e Graciliano Ramos formam um par antagônico deste tipo e isto é uma sorte. De fato, é extraordinário termos ao mesmo tempo uma narrativa seca, contida, parcimoniosa, aderente ao real e outra transbordante, pródiga, rompendo as amarras da mimese. O leitor pode preferir uma ou outra, mas na verdade é melhor aceitar ambas porque, reunidas, elas completam nossa visão.” (CANDIDO, 2007). A nossa questão aqui é então esta: onde e como, reunidos, os dois escritores completam a nossa visão. Na verdade, esta colocação de Antonio Candido já está no ensaio “Literatura de dois gumes” (CANDIDO, 1987). Aí, ele se diz movido por uma atitude que define como “sentimento dos contrários” e que consiste em ver “em cada tendência a componente oposta, de modo a aprender a realidade da maneira mais dinâmica, que é sempre dialética”. Ele se demora na análise de quatro tópicos. No segundo – “Transfiguração da realidade e senso do concreto” –, encontra-se o contraponto que aqui pretendemos analisar.
 
3 - Davi Arrigucci Jr. vê em Grande Sertão: veredas ao mesmo tempo um romance de formação – um romance, pois, da tradição moderna – e um projeto épico de refazer em termos nacionais a história universal do romance. (ARRIGUCCI JR., 1994).

4 - O momento histórico da obra de Graciliano Ramos é o dos anos 30. Caetés e Angústia têm temática urbana. São Bernardo, embora narre uma história da conquista de uma fazenda, dá-se num espaço de tempo da modernização acelerada, e depois frustrada, da produção econômica. Vidas secas, escrito em 37, é a narrativa do início do processo de migração do Nordeste para o Sul do país. Já em Grande Sertão: veredas, como observa Walnice Nogueira Galvão, “Os limites máximos e mínimos [de tempo], em toda a sua deliberada imprecisão, demarcam contudo o contorno da República Velha.” (GALVÃO, 1972, p. 63).
 
5 - Luiz Roncari observa apropriadamente que no capítulo 7 de S. Bernardo Graciliano, contrapondo seu Ribeiro a Paulo Honório, aproxima-se de Rosa na glorificação do passado pré-capitalista, passando por alto a exploração que também aí existia. (RONCARI, p. 195-6).
 
6 - Este estudo começou a ser feito por Viviane Fleury Faria na sua tese de doutorado concluída e defendida em 2007.

7 - Alfredo Bosi é um dos poucos críticos e historiadores da literatura brasileira que se dedicou sempre com grande interesse tanto a Guimarães Rosa quanto a Graciliano Ramos. O leitor me dispensará de relacionar aqui os vários ensaios, todos divulgados e conhecidos.
 
8 - Luiz Roncari fala de “uma espécie de segundo ponto de vista, que aparecia só lateralmente, de modo a fazer um contraponto com as agruras do herói”. (2004, p. 17).
 
9 - A fortuna crítica de “Meu tio, o iauaretê” é imensa. A idéia do impedimento da magia aparece em vários críticos. Cito apenas, por economia, o estudo de Walnice Nogueira Galvão “O impossível retorno” (Galvão, 1978) e o de Flávio Aguiar “Mas allá del infierno. Contribuición a analise de “Meu tio, o iauaretê” in Zea (1993). 10 - Para Walnice Nogueira Galvão (1972) em Grande Sertão: veredas “perpassa a sombra do letrado brasileiro”.

 

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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:36 PM

Filmes

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Jornalismo sitiado, Eugênio Bucci e Sidnei Basile

 
 

É uma caixa com dois DVDs e mais um pequeno livro com os programas passados na TV Cultura, patrocinados pela CPFL (Espaço Cultural CPFL). Tem como curadores os jornalistas Eugênio Bucci e Sidnei Basile. Tem ainda a presença de Mauro Wilton de Sousa, Lúcio Mesquita, Nelson Blesher, Venício de Lima, Paulo Tonet, Ricardo Gandour, Mario Tascón e Wagner Pereira. Considero bastante salutar a imprensa pensar a imprensa (assim como a medicina pensar a medicina, a filosofia, a filosofia, etc). Um olhar autocrítico é sempre bem-vindo e enriquecedor. Eu já conhecia o trabalho de Eugênio Bucci por meio de seu interessante livro  Ética e imprensa (Cia. das Letras, 2000). De argumentação clara e bem articulada, Bucci é eficiente em passar sua mensagem, mesmo quando não se concorda (totalmente) com ela. A caixa não é cara (menos de 30 reais) e vale ter na biblio-videoteca.

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POR EM 15/07/2008 ÀS 04:16 PM

Filmes

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Fim dos Tempos (2008), do homem de um filme só, Shyamalan

               

O Fim dos Tempos
é o fim da picada. Não é só descaradamente doutrinário (e portanto pobre), é desbragadamente engajado (e portanto paupérrimo). É um acinte à inteligência do espectador. É uma bomba. É inacreditavelmente ruim. Se você é daqueles que, com O sexto Sentido na cabeça, sempre dá uma nova chance ao Shyamalan, mas ainda não foi a essa bomba, não vá. Não faça como eu. Li tudo isso que estou escrevendo aqui, não acreditei, fui. Fui, vi e perdi. Meu tempo, meu dinheiro, minha paciência, minha gasolina, meu ticket de estacionamento. A gente sempre pensa: “Agora o cara vai fazer algo que preste”. Mas não. Shyamalan é o homem do Sexto Sentido. Ponto final.

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POR EM 14/07/2008 ÀS 10:52 AM

Livro de encomenda

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Livro do jornalista e escritor Zuenir Ventura dá seqüência a outro lançado há 20 anos, arrolando o legado para as novas gerações em termos de comportamento, política e visão de mundo. O mais interessante da obra são as entrevistas, como a do ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, um dos ícones do movimento no Brasil e que, ao chegar ao poder, foi cassado
 
 
Cezar Santos
Há cerca de dez dias, no Oliveira’s Place, em Goiânia, em palestra promovida por um colégio, uma platéia formada basicamente de adolescentes ouvia o jornalista Zuenir Ventura falar sobre os acontecimentos de maio de 1968. Entre meio fascinados, meio confusos e meio indiferentes, por se tratar de tema tão distante no tempo para eles como o período paleolítico — e pelo fato de que a maioria estava ali por obrigação —, os jovens bebiam as palavras do escriba.
 
Zuenir falou de si e discorreu sobre seu mais recente livro, 1968 – O que Fizemos de Nós, lançado há poucas semanas. A obra tem a marca do oportunismo bem aproveitado, em cima da efeméride 40 anos do Maio de 1968, porque é claro que Zuenir programou seu lançamento para aproveitar a data — a obra foi uma encomenda de sua editora (Planeta). É o que se chama, no jargão jornalístico, de “gancho”.
 
E isso não é ruim, pelo contrário. O Velho Zuza, ou Mestre Zu (professor aposentado dos cursos de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial-Esdi), como o chamam amigos íntimos, está mais do que nunca em cima da pauta, por dentro do deadline, por assim dizer.
 
1968 – O que Fizemos de Nós foi lançado em uma caixa vistosa contendo em relançamento o livro 1968 – O Ano que Não Terminou, que veio a público há exatos 20 anos e já é um clássico da literatura brasileira sobre aquele período (os dois livros podem ser adquiridos separadamente). A leitura das duas obras dá uma boa visão das causas e conseqüências dos acontecimentos daquele ano emblemático no Brasil. Aliás, eles dialogam entre si e Zuenir disse que é mesmo uma continuação.
 
Tratamos aqui do oportuno (e oportunista, porque não?) lançamento. O livro está dividido em duas partes (“68 após 68” e “De olho na herança”) e, de cara, este articulista entrega que a melhor é a segunda. São sete entrevistas que valem a leitura: Heloisa Buarque de Holanda, Caetano Veloso, César Benjamin, Fernando Gabeira, Fernando Henrique Cardoso, Franklin Martins e José Dirceu. Como se vê, todos personagens “meia-oito”, que têm o que dizer por ter participado diretamente dos acontecimentos e por ter assumido importância inequívoca na história brasileira, em maior ou menor grau.
 
A primeira parte é dividida em oito capítulos: Reflexos do baile distante (O que restou dos tempos de Leila Diniz para as que são avós hoje), A falta de bússola (Para ser parecido com aquela época é preciso ser diferente), A culpa é de 68 (Como ainda dói nos filhos a lembrança do que os pais sofreram), Viva o corpo brasileiro (O tabu da sexualidade deslocou-se para o açúcar, as gorduras e as taxas de colesterol), Há um meia-oito em cada canto (Eles estão no poder, na oposição, à esquerda, à direita e até prestando contas à Justiça), Sexo, drogas e rave (O que houve com o lema que embalava os hippies), A figura paterna (De década em década, a memória de 68 ressurge como uma sombra), Nosso guia (Verbetes das mudanças e permanências destes últimos 40 anos).
 
Reciclagem — A habilidade como escritor e jornalista, principalmente como o editor tarimbadíssimo que ele foi — e quem foi é e sempre será — é escancarada. Zuenir recicla informações já dadas ao público nos últimos anos, trabalha dados conhecidos. Mas faz isso com cuidado, inclusive sem omitir o fato.
 
Um exemplo, no capítulo A falta de bússola, Zuenir comenta, entre outras coisas, estudos de pesquisadores como o norte-americano Russell Jacoby (autor do livro O Fim da Utopia: Política e Cultura na Era da Apatia) e reportagens de um caderno especial do jornal O Globo, lançado em dezembro de 2007, sobre os jovens nascidos e criados com internet, celular, redes de relacionamento e câmaras digitais.
 
Em todo o livro essa “reciclagem” de informações é uma constante. Zuenir sabe, como poucos, trabalhar seu material pesquisado, entremeando-o com informações novas, contando causos acontecidos com ele e com amigos e com amigos dos amigos. Aí entra o trabalho do repórter premiado, dono de um dos melhores textos do Brasil. Toda essa bagagem é posta inteligentemente a serviço da tese a que se propõe.
 
Na primeira parte, Zuenir faz um relato do que ocorreu no Brasil ao longo destes 40 anos, faz ligações entre os ícones de 68 com os jovens de hoje. Um dos capítulos mais interessantes é “Há um meia-oito em cada canto”, em que ficamos sabendo que muitos dos principais atores da vida pública atual são remanescentes do maio de 68, notadamente do movimento estudantil. Nem poderia ser diferente, visto que os participantes do movimento são, em sua maciça maioria, integrantes da classe média e teriam mesmo de compor hoje o status quo dirigente do País.
 
Deixemos as palavras com ele: (...) “O poderoso posto de chefe da Casa Civil da Presidência da República do governo Lula, por exemplo, foi ocupado pelo ex-deputado José Dirceu até 2005 e em seguida por Dilma Rousseff, dois ativos militantes do movimento estudantil — ele pela dissidência do PCB; ela, pela VAR-Palmares. Ambos, nos seus discursos de posse, se referiram com carinho à geração de 68.” Zuenir também cita, entre muitos outros, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia (ex-líder trotskista), os ministro Celso de Melo (que foi colega de Dirceu na mesma república estudantil em São Paulo), Sepúlveda Pertence e Eros Grau.
 
Zuenir levanta uma informação curiosa neste capítulo referente ao prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, que teria renegado sua militância de esquerda nos anos 60. Maia nega a renegação. Neste relato Zuenir “cozinha” reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, de outubro de 2004, deixando o episódio registrado em seu livro, o que é por demais válido, sem dúvida.
 
Zuenir encerra a primeira parte de sua obra com um guia, em forma de verbetes sobre as mudanças e permanências dos últimos 40 anos. 
  
 
Entrevistas são o ponto alto do livro
 
As entrevistas em pingue-pongue com sete personalidades são o mel de 1968 — O que Fizemos de Nós. Com aberturas bem didáticas e contextualizativas, os entrevistados falam de sua participação nos acontecimentos, as conseqüências, e, principalmente, refletem de forma crítica sobre o período, passado um tempo suficiente para decantar entusiasmos e arroubos juvenis.
 
Começa com Heloisa Buarque de Hollanda, professora que organizou o badalado revéillon de 1968 no Rio de Janeiro, o “revéillon da Helô”. Heloisa estudou e revelou para o público a produção poética alternativa que se seguiu ao AI-5. Ela diz que “graças a Deus 1968 terminou”.
 
A segunda entrevista é com o cantor e compositor Caetano Veloso, também ele autor de um livro interessante na abordagem do período, Verdade Tropical. Caetano, na imensa modéstia que Deus lhe deu, diz que o essencial foi feito em 1967: “Gil e eu lançamos Alegria, alegria e Domingo no parque em 67, acompanhados dos Beat Boys e dos Mutantes, respectivamente, com grande escândalo. Meu disco tropicalista (com Tropicália, No dia em que eu vim-me embora, Eles, Superbacana, Soy loco por ti América, etc) ficou pronto em 76...”
 
A entrevista mais interessante é a de César Benjamin, o mais jovem militante de 1968, que entrou para a clandestinidade e para a luta armada aos 14 anos. Preso e torturado, Cesinha foi recolhido a uma solitária e submetido a completo isolamento durante três dos cinco anos que passou na prisão. César conta um pouco de sua história e de seu desencanto com o PT, partido do qual se afastou. Ele é hoje o mais duro crítico aos atuais donos do poder no Brasil e sua entrevista é “pau puro”, embora tudo o que diz já tenha sido dito em entrevistas e artigos em jornais e revistas.
 
O deputado federal verde Fernando Gabeira, que em 68 participou do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, também reflete criticamente sobre o período e a atualidade. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que em 68 estava em Paris e foi professor de Daniel Cohn-Bendit, fala de sua experiência lá e cá. O ex-presidente da República também é duro com o atual, Luiz Inácio Lula da Silva: “Ele é um pragmático intuitivo, muito inteligente, se adapta rápido, é um tático, mas não tem estratégia, porque para ter estratégia tem que ter mais sofisticação e mais noção da história”.
 
A penúltima entrevista é com o jornalista Franklin Martins, militante estudantil em 68. Demitido da Rede Globo depois que o colunista da revista Veja Diogo Mainardi revelou seus jogos de influência no governo Lula, Martins é adepto da tese de que 68 terminou precisamente no dia 13 de dezembro daquele ano, com o AI-5. Martins virou ministro de Lula após sair da Globo, ou seja, passou recibo às revelações de Mainardi.
 
Fecha o livro José Dirceu de Oliveira e Silva, que na militância atendia pelos codinomes de Daniel e de Carlos Henrique Gouveia de Melo. Dirceu, que teve o mandato cassado no episódio do mensalão, fala sobre a relação com a imprensa: “Eu não tenho queixa da imprensa, só lamento que não haja uma imprensa nossa.”
 

Ao discorrerem sobre o maio de 1968 e suas ressonâncias em 2008, os entrevistados de Zuenir Ventura explicitam muitos dos descaminhos que o País vive hoje. Nessa reflexão o leitor mergulha em 40 anos de um período rico da nossa história.


Linha do tempo

 
Entre o que não terminou
 
“Capitalismo — Era mais forte do que a vã ilusão da época pensava. Bem que Marcuse advertiu: “Combatemos contra uma sociedade que funciona extraordinariamente bem”. Nesse caso, ele não foi ouvido. A direita repetia uma piada que irritava muito os comunistas: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o inverso”.
 
Entre o que terminou
 
“Comunismo — Embora não tenha sido uma invenção brasileira, foi a grande ameaça que os militares usaram para amedrontar a população em 1964 e 1968 (...) Funcionou tanto que a crença nesse risco existe até hoje como paranóia. Entretanto, seu partido é pouco representativo, e seus adeptos não têm expressão política. Convicto mesmo, comunista para ninguém botar defeito, só se conhece um: Oscar Niemeyer.”
 
Entre o que mudou
 
“@ — Pouco conhecido em 68, o termo “arroba” só servia para designar o peso — equivalente a cerca de 15 quilos — de produtos agropecuários. Hoje, no endereço eletrônico, aparece entre o nome do usuário e o do provedor, e como tal dever ser o sinal gráfico mais usado em todo o mundo.”
 
O que não existia
 
E sobre os quais os jovens de hoje têm dificuldade de imaginar que houve um tempo em que se vivia sem: CD, DVD, Gisele Bündchen, bala perdida, telefone celular, internet, (Web, Google, Orkut, site, e-mail, MSN, Second Life), alimentação diet, Viagra, Big Brother, mania de correr, notícia em tempo real, interatividade, iPod, aids, medo de colesterol, medo de assalto, grades nos prédios, piercing, depilação dos grandes lábios, botox, seios turbinados, o “estarei fazendo”, anorexia, globalização, DNA, pensamento único, academias de musculação, Bill Gates, baile funk, controle remoto, forno de microondas, TV em cores, TV a cabo, garotas de programa (com este nome), shopping centers, ecstasy e mania de fazer listar como esta. 

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POR EM 08/07/2008 ÀS 11:20 AM

Filmes

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De repente, no último verão (1959), dirigido por Joseph Mankiewicz, com roteiro de Gore Vidal, baseado em peça de Tennessee Williams. Com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn.
 
 

Hepburn não é a principal nesse filme, mas em qualquer filme de que participa rouba a(s) cena(s). Esse não é diferente. Com uma brilhante atuação no papel da milionária maquiavélica e amor jocastiano por seu filho morto, Katharine Hepburn está admirável. Liz Taylor está belíssima. Montgomery Clift, com seu jeitão contido, ciente do próprio charme, não fica atrás das duas. Tennessee Williams é sempre certeza de personagens angustiados (Um bonde chamado desejo, Gata em teto de zinco quente, etc), sempre uma boa peça, ergo, um bom filme.

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POR EM 01/07/2008 ÀS 07:20 PM

Filmes

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Splendor (1989), de Ettore Scola
 
 
 
Sou fã de Ettore Scola, particularmente de Feios, Sujos e Malvados (1976) e A Família (1987). Mas Splendor não é tão esplendoroso assim. Trata-se de um melodrama nostálgico sobre a perda do ibope das salas tradicionais de cinema. A intenção é dupla, nos fazer emocionar e arriscar uma pálida crítica social (principalmente contra a TV, já que internet praticamente não existia na época). Emociona mais ou menos. Critica mais ou menos. Tem como bônus Marcello Mastroianni e Massimo Troisi (de O Carteiro e o Poeta (1994), aliás, quem achava que ele fala daquele jeito lerdo n’O Carteiro... de propósito, como atuação, verá que é o jeito dele falar, sempre, mesmo) no elenco.

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POR EM 29/06/2008 ÀS 04:00 PM

Assuntos da vida privada

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José Carlos Guimarães

Conheço muitas pessoas que não gostam de televisão. Não é pra menos.

Suspeito que o “horário nobre” da Rede Globo recebe esse nome por causa dos grandes anunciantes, não por causa da programação, muito ruim (não discuto qualidade técnica, impecável). Novela é um saco: sempre existe uma empregada negra, não para expor uma situação de desigualdade, mas para demarcar um lugar social e legitimá-lo. Sempre existe um bando de pobres morando numa vilinha pitoresca com a função de fazer rir (não se leva a sério o pobre) e sempre existem os protagonistas: pessoas ricas, essas sim, sérias - ainda quando são crápulas. Conflitos sociais existem, é lógico – tá aí Juvenal Antena - mas para serem resolvidos pela fórmula duvidosa do amor ingênuo e não através do conflito aberto e sanguinário – aquele que testemunhamos todos os dias, ao por o pé na rua. Há também, não se pode esquecer, sempre uma mocinha pobre que ama o príncipe rico e, no final, um casamento para sacramentar tudo e levantar suspiros.
É fácil entender porque um grande ator como Paulo Autran se reservou o direito de não mexer mais com isso. O cara tinha bom senso. Foi fazer teatro: interpretar Molière tem muito mais graça que interpretar Silvio de Abreu. O pior é que caras como Gilberto Braga devem concordar com isso: não fazem novela senão para encher os bolsos – arte mesmo é outra coisa. Salvo alguns enredos e as boas interpretações, o resto é o resto.
Percebe-se uma simbiose clara entre teledramaturgia e jornalismo. Os dramas dos folhetins terminam alimentado a pauta dos jornais, de modo a manter sempre vivo o interesse pela trama fictícia, que nunca, jamais, excede o senso comum. Não pode, regra número um. Não pode ser denso nem doer: tem de ser anestésico.
Entediada de si mesma, a sociedade sob o foco televisivo quer entretenimento e não informação de verdade. Noticiários do domingo, por exemplo: metade de tais programas é dedicada à egolatria narcísica de famosos esnobes, aborrecentes mimados e celebridades aos borbotões. Celebridade: a palavra mais ouvida e pronunciada nos últimos tempos. Celebridade é sinônimo de futilidade e promessa de esquecimento. Falar nisso, o que importa mesmo é a etiqueta e os assuntos ligados à vaidade e ao corpo. Não que não sejam todos assuntos de grande relevância – o que são é tratados de forma superficial, an passant, literalmente boba. Terapeutas, psicólogos, nutricionistas e consultores de moda viraram os heróis de nossa civilização, especialistas que dominam os assuntos de ordem estritamente privada e doméstica. Sim, porque não existe mais espaço público, tampouco a idéia de comunidade como algo que transcende a porta da minha casa. Big Brother. Big Brother é uma droga, o programa mais débil mental do mundo. Num país onde a maioria é negra, apenas um negro participa como concessão de branco - e pra perder. Boi de piranha.
Quanta gente sarada com papo cabeça (“caraca, caraca, caraca, caraca...”), escolhida a dedo por Boninho. Novela é um drama, Big Brother uma farsa: você jura que escolheu, mas você é que foi escolhido pra exibir o nariz de palhaço.
Big Brother, porém, é sério: é darwinismo puro. Aliás, estou firmemente convencido de que Darwin continua vivinho da Silva (não sou pessimista por convicção). O objetivo dos brothers é alimentar a disputa e deixar claro que amizade e lealdade não existem: quando estiver só você e aquela pessoa que sempre esteve do seu lado, aí também é hora de dizer que a vida é um jogo onde um tem que perder – os dois nunca podem ganhar. É uma lei, não depende de você, de nós.Chega um momento em que deve-se apenas disputar, urdir, puxar o tapete, levar vantagem – condição sine qua non para se tornar uma celebridade. Pra ganhar o primeiro milhão. Incrível é que depois de tantos maus exemplos, você ainda conquista um monte de fãs tresloucados que se propõem a te cercar no terminal do aeroporto ou na rua com suas maquininhas fotográficas e celulares, aos encontrões – loucos pelo autógrafo de ninguém.
Parece que as pessoas crescem, mas não amadurecem. Ficam verdes para o resto da vida.
Televisão é isto: tudo na base da emoção, do coração, porque cérebro não convém ao seu interesse. Cérebro é chato, faz pensar. Coração, não: coração é dócil e fácil de passar a perna. É o ponto fraco do homem, liberta mas é também seu grilhão.

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POR EM 29/06/2008 ÀS 03:59 PM

Carpintaria literária

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“Literatura  é exatamente como carpintaria: uma questão de prumo, de esquadria, de equilíbrio: se você põe uma viga mais pesada deste lado, tem que contrabalançar com outra, da mesma grossura e comprimento, do outro, e no mesmo ângulo; do contrário o telhado vem abaixo, que é o que acontece com as obras mal calculadas, tortas e malfeitas” 

 
Monteiro Lobato
 

Maria Virginia Bastos de Mattos
 
Sobre Monteiro Lobato muito se tem escrito, especialmente neste ano em que celebramos o sexagésimo ano de seu falecimento. Embora outros aspectos da vida e da obra do “pai” da Emília e do Jeca Tatu possam ser estudados, acreditamos ser novidade a descrição da personalidade de Monteiro Lobato, feita por um de seus companheiros de jornada: Leonel Vaz de Barros, o Léo Vaz. Léo Vaz, jornalista e redator d’O Estado de São Paulo, é autor de O Professor Jeremias, O Burrico Lúcio, Ritinha e Outros Casos e Páginas Vadias. Deste último, dado a lume em 1957 e que reúne crônicas publicadas pelo redator, no mesmo Estadão, retiramos alguns trechos que permitem uma visada do jovem Monteiro Lobato, em seus tempos de Revista do Brasil (da qual também Léo Vaz foi redator, durante curto período). 
 
O encontro 

Ao chegar a São Paulo em 1917, vindo de Itápolis, onde lecionava, Léo Vaz encontrou seu colega Thales de Andrade, o autor de Saudade; este o apresentou ao jovem
Oswald de Andrade, recomendando o recém-chegado como “o bamba” da turma. Oswald, por sua vez, conduziu Léo Vaz à redação da Revista do Brasil e o apresentou a Monteiro Lobato, que convidou o futuro redator do Estadão a freqüentar a Revista: “Em vez de   ficar banzando pela cidade, venha aqui. Há sempre gente para conversar e, quando não, livros e jornais. Vá ficando”.

Léo Vaz passou a freqüentar a Revista, e a amizade entre os dois consolidou-se, juntamente com a mútua admiração. Com pequena diferença de idade (Léo nascera em 1890, Lobato em 1882), e sendo ambos “caipiras” que iniciavam a vida na capital (Lobato vinha de Taubaté e Léo de Capivari), unia-os ainda e principalmente a literatura.
 
Os “esfria-verrumas” 

Uma tarde, ao lembrar-se do conto de Monteiro Lobato “A Vingança da Peroba”, publicado na Revista do Brasil, Léo Vaz pergunta:

 - Doutor Lobato, o senhor não teria sido também, uma vez ou outra, um esfria-verruma?

No conto citado, Lobato explicava o significado da expressão:
 
“Esfria-verrumas são os “empaliadores dos carapinas”. Sentam-se com uma nádega à beira da banca e durante horas pasmam do rebote correr na tábua encaracolando fitas, ou do formão ir lentamente abrindo uma fura. Ora pegam da enxó, examinam-na, passam o dedo pelo fio e perguntam: “É Grive?(Greaves) Quanto custou?” E quando sai da madeira a verruma, quente da fricção, pegam-na e põe-se a soprá-la, muito sério”

Diante da pergunta de Léo Vaz, Lobato reage:
 
- Por que é que você pergunta?
- Porque eu fui; e me parece que só um colega poderia conhecer o tipo como quem o descreveu n’A Vingança da Peroba.
- Então você também?
- Também.

Os dois “caipiras” descobrem, então, seu comum interesse pela carpintaria, nascido na infância, nas fazendas de seus respectivos avós, acompanhando as atividades dos “mestres carapinas”.
 
A personalidade “esfria-verrumista” de lobato 

Diz Léo Vaz que a versatilidade de Monteiro Lobato – “escritor, editor, impressor, livreiro, metalúrgico, fazendeiro, loteador de terrenos, prospector de petróleo, assessor consular, jornalista” – era resultante de seu “complexo esfria-verrumas”, e acrescenta:

“Aquela mesma intensa e inteligente curiosidade que o levava em criança a sapear o ofício de carapina e o transformava em carpinteiro amador, o compeliria, mais tarde, a embarafustar-se em outras atividades, para as quais com pouca ou nenhuma aptidão nascera. Daí alguns dos seus malogros, se se olhar a coisa apenas pelo ângulo econômico dos resultados. Mas quanta satisfação e prazer verdadeiros não sentiu ele em todas essas experiências!”

Conta ainda Léo Vaz que, vendo passar uma carroça de aluguel, Lobato fizera o seguinte comentário:

“Veja você, se nós tivéssemos coragem e honestidade profissional, devíamos, antes de escrever um conto ou uma novela em que o herói fosse um carroceiro, ir emprestar ou alugar daquele homem a sua carritela, a sua roupa, o seu chicote e o seu bigode, e postar-nos no Paissandu, durante uns dias, para saber de fato o que faz, o que vê, o que ouve, o que sente, o que pensa, realmente, um vulgaríssimo carroceiro. Garanto que ele conhece mais sociologia urbana do que o nosso amigo Oliveira Viana. Porque o carreto que ele mais frequentemente faz é o de mudanças. E mudança barata de gente humilde, para quem isso é quase sempre o epílogo de algum drama: morte do chefe, perda do emprego, despejo, o diabo!... Aliás, não sou eu que descobriu isso: o Zola já fazia a coisa há mais de 50 anos”.

Léo Vaz observa que nesse momento estava diante do “mesmo Lobato, a esfriar, hipoteticamente, a verruma do carroceiro de mudanças, com a mesma curiosidade com que o fazia na pintura, no comércio, na política, no ferro, no petróleo e até mesmo na religião, indo a seções espíritas para saber o que aí se passa...”.
 
Lobato, o mestre na carpintaria literária 

Léo Vaz analisa, então, o escritor Lobato:

“Não venceu ele em nenhuma dessas esfria-verrumices por searas que não eram suas. Sua era a literária, onde venceu como nenhum outro, começando desde logo por onde poucas tentativas acabam: - o triunfo. É que aí não era o amador pasmado enquanto o profissional pratica com o formão a fura, ou vai espiralando fitas com a galopa: era o mestre, senhor do ofício, para o qual, além da inata vocação, tinha ‘Honesto estudo/ Com larga experiência misturado/ Coisas que juntas se acham raramente’ – como lá dizia o Poeta.”
[1]
 
Finalizando seu depoimento, o autor d’O Professor Jeremias reproduz uma definição de Literatura dada pelo “esfria-verrumas” Lobato:
 
“Literatura – dizia-me ele – é exatamente como carpintaria: uma questão de prumo, de esquadria, de equilíbrio: se você põe uma viga mais pesada deste lado, tem que contrabalançar com outra, da mesma grossura e comprimento, do outro, e no mesmo ângulo; do contrário o telhado vem abaixo, que é o que acontece com as obras mal calculadas, tortas e malfeitas.”
 
Carmo Bernardes, de esfria-verruma a carpinteiro
 
Tivemos em Goiás um escritor muito ligado à carpintaria. Carmo Bernardes foi mais que um “esfria-verrumas”: sendo seu pai carpinteiro, construtor de carros de boi, rodas de fiar, teares, tornou-se ele seu ajudante, e aprendeu bem a profissão. As descrições das atividades da “tenda de carapina” de seu pai, a enumeração das madeiras utilizadas, os detalhes das peças que compunham cada um dos objetos fabricados ali, é tudo um encantamento. Como ficariam felizes os dois caipiras, se pudessem ter lido as páginas de Quarto Crescente: Relembranças! Poderiam ter saboreado trechos como estes:
 
“Minhas narinas ainda hoje aflam e coçam em delícias, assim como o desespero de uma libido, como se sentindo agora o cheiro da madeira trabalhada. Saudade imensa que eu tenho de meu pai, das ferramentas de carapina e do cheiro de bálsamo que a enorme distância no tempo não apaga e até pouco acinzenta.”
 
“Começando bem cedo, já eu dando conta de ajudar, meu pai fazia uma roda de fiar em dia e meio de serviço bem trabalhado. Pegado ali, firme, contando com a madeira já mais ou menos desdobrada. Do contrário, tivesse que tirar as peças no serrote, desmontando madeira grossa, aí, ficava apertado, vezes que iam os dois dias. Isto, assim, o que o pessoal de hoje não sabe, era porque tudo tinha que ser feito na mão.”
 
“Sei que ajudava meu pai no serviço de carapina, e me tocava fazer as furas, serrar desdobrando madeira e puxar o golpeão na renteação de toras. Outro serviço que eu sempre fiz desde muito novo e, até hoje, quando me toca a fazer, ainda faço com prazer – foi amolar as ferramentas.”
 
“Chegou lá em casa um homem mais a mulher, e foi aí que eu me lembro de ter ajudado, pela primeira vez, meu pai a fazer um tear de tecer pano. (...) Ajudei a fazer muitos teares, quando eu era menino e, depois de grande, já sobre-si, andei fazendo alguns, sempre no mesmo molde e medida dos que meu pai fazia. Mas é trazendo aquele em lembrança que, com vagar, sou capaz ainda hoje de dar a lista completa das partes que compõem um tear, dos que eram feitos no sistema mineiro.” 

“Esfria-verruma” e os dicionários 

A consulta aos dicionários brasileiros nos leva a uma constatação curiosa: o significado da expressão “esfria-verruma” é um pouco diferente da versão lobatiana. Tanto o dicionário do Aurélio como o de Antonio Houaiss trazem a expressão como brasileirismo utilizado em Pernambuco, nos sentidos de “pessoa que sempre acompanha outra para prestar-lhe serviços; acólito, ajudante” e também “adulador, bajulador”. Ambos registram também o uso na forma reduzida, apenas “esfria”.

Terá sido a expressão “esfria-verruma”, no sentido citado no conto “A vingança da peroba” – e muito bem definida por Léo Vaz, como sinônimo de pessoa que fica a “sapear” a atividade de outra – uma invenção de Monteiro Lobato? Ou terá sido um termo de uso local, no vale do rio Paraíba, talvez, e que teria se perdido no tempo?



[1] Léo Vaz refere-se ao seguinte trecho d’Os Lusíadas:
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.”
(Camões. Os Lusíadas, canto 10, parte 3, estrofe 154)

 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:41 PM

A sombra da metrópole

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Em Desabrigo (1942), Antônio Fraga ataca primordialmente a linguagem empolada de seu tempo. As frases sem pontuação, o humor anarquista de Fraga têm seus momentos de Ulysses, o marco da literatura moderna escrito por James Joyce

Revista Bula

Mário Zeidler Filho

Disse o agora velho Paulo Francis n’O Afeto que se encerra: “escrever é organizar intelectualmente, parafrasear a linguagem viva do povo”. Dizia, mas não fazia: Francis não agüentava o povo e o povo não digeria o Francis – foi sempre o homem do middlebrow que enjeitava, como seus eternos wanna-be: mainardis e zé-galinhas do tipo. Na verdade, como qualquer um que escreva num país de analfabetos – que decifrar letreiro de ônibus não é saber ler, nem assinar o nome escrever. Francis é um que prova que, para escrever, não é preciso “parafrasear a linguagem viva do povo”. E se a pós-modernidade é a era do samba-do-crioulo-doido  e da superficialidade, pelo menos nos poupa de obrigações literárias, de escolas, de estilos. Há os modismos para quem os quiser adotar. Não que não existam patrulhas: a “acadimia”, por exemplo, não vive sem uma patrulhinha, sem uns ajustezinhos ideológicos aqui e ali, principalmente nas tais “sociais”. Mas, no geral, estamos sartreanamente livres de todo jugo constritor das letras. Até porque censurar o que ninguém lê é mais inútil até que escrever. Escreve-se por vaidade e por desfastio. A prova está aí, na avalanche de livrinhos despejados todos os dias, a quantidade de gente que se banca uma publicação: que mensagem urgente e necessária eles trazem? A mais importante: somos todos gênios incompreendidos.
 
Detour: como todo bom “pesudo-intelectual metido a marginal” que se preza, ou nem tanto, acabei por criar fama de bebum (de bebum e de presidente do fã-clube do Bukowski, mais isso é outra estória...). Em meu último aniversário, ganhei, de um amigo o ótimo livro Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésico Alcoólico, do Jaguar. Trata-se de uma espécie de guia dos botequins do Rio de Janeiro, com um apêndice relacionando alguns extra-rio: de São Paulo, claro. Foi comprado num sebo de Brasília, e, claro, encontrado por acaso. Por quê? Bem, obviamente, além das anedotas e da apologia, qual o interesse de algum extra-rio, um não-carioca, mesmo que bebum, por um guia dos bares copo-sujo do Rio? Nenhum. É um livro “da metrópole” e para a metrópole, não para os extraterrestres, na preferência dos doidões do cerrado do planalto central. Mesmo assim, é um puta livro, bom até para nós, E.T.’s, e recomendo a leitura, se você for sortudo de encontrá-lo, ou tiver amigos compreensivos que façam esse livro lhe cair no colo. 
 
Há algum tempo atrás, fui sortudo de topar (sim, tropecei no bicho procurando uma caixa de chocolates pra namorada) um outro livro “metropolitano”. Trata-se de Desabrigo e Outros Trecos, de Antônio Fraga (1916-1993). Hoje em dia, o Fraga é coisa de metidos a erudito, obscurantistas, ou de “pseudo-intelectual metido a marginal” obscurantista. Como o Campos de Carvalho, é até meio desagradável citá-lo. Agora só é agradável citar os “Nonada” ou os Patativas da vida. Quando topei o livro, nunca havia ouvido falar de Antônio Fraga. Lendo a quarta capa, fiquei até envergonhado – parecia uma coisa famosíssima de tão óbvia. Zuenir Ventura: “a publicação de obras do Fraga é uma dívida da cultura brasileira”.Oswald de Andrade: “O que há, não é post-modernismo e sim a nova literatura do Brasil. Veja: na prosa a maturidade está aí, em Clarice Lispector, em Guimarães Rosa, em Antônio Fraga”. Um livro “metropolitano”, pensei. Mas, lendo, descobri que ninguém mesmo, nem no rio, conhecia o Fraga. O prefácio, de Maria Célia Barbosa Reis, é parte de sua tese de doutoramento. Segundo ela, e segundo o Zuenir, trata-se de um trabalho de resgate. Não funcionou.
 
O livro “em si”, o objeto-livro, é um produto de alta qualidade, composto esmeradamente pela editora Relume-Dumará. Inclui a novela "Deasbrigo" e outros 14 “trecos”, contos selecionados, muitos deles inéditos, com ilustrações de Poty, além de desenhos do próprio Fraga; a capa é de “bom gosto”, papel de qualidade etc. Não vendeu nada, tanto que foi parar nos balaios de uma loja de conveniência, a dez mangos. Texto ruim?
 
O texto é da mais alta qualidade, embora muito mal lido. A novela (ou “quasi-novela”, como diz o autor) “Desabrigo”, ponto alto do volume, é um incrível e ímpar manifesto estético-literário.   No entanto, naquela mesma quarta capa, Antônio Callado chama Fraga de pioneiro porque “escreveu em gíria”. Uau... Escreveu em gíria... A própria Maria Célia, estudiosa do autor, coloca essa gíria como um dos pontos principais da obra, enquanto a “gíria” é somente a superfície. É o verniz dessa “quasi-novela”. Que não é nada despretensiosa. Mas voltemos.
 
Citei o Francis porque ele quase-reproduz o Antônio Fraga num “ponto de vista” de sua “quasi-novela”Desabrigo:
 
“...vou escrever ele todo em gíria pra arreliar um porrilhão de gente Os anatoles vão me esculhambar Mas se me der na telha usar a ausência de pontuação ou fazer as preposições ir parar na quiririca das donzelinhas cheias de nove-horas ou gastar a sintaxe avacalhada que dá gosto do nosso povo não tenho de modo nenhum que dar satisfações a qualquer sacanocrata não acha?”
 
A ênfase que até o autor dá à gíria é na verdade um ponto secundário em importância nessa “quasi-novela”. E não se engane o leitor incauto, que ela não é “da lavra”, como gostam nossos poetas, de nenhum rapper, punk, ou qualquer outro tipo de nouveau marginal literário de nossos tempos, muito mais chatinhos e “pseudos”. Desabrigo foi escrita no início da década de quarenta, e é o mais próximo que podemos chegar daquilo que talvez o historiador-crítico-escritor Ademir Luiz chame de “Obra de Arte Completa e Completamente”, com maiúsculas e tudo, e Antônio Fraga, seu autor, de “Artista Completo e Completamente”. Mesmo assim, a novela, ou quase, é uma das obras “de porte” mais negligenciadas e mal lidas de nossa literatura. Negligenciada porque o nome de Antônio Fraga, hoje, é coisa de filólogos, obscurantistas, e, pelo teor, de “pseudo-intielectual-metido-a-marginal” obscurantista.
 
Desabrigo é uma obra de arte completa e completamente porque vai do manifesto estético à crítica social, passando por motivações filosóficas e históricas, sem perder nada, aliás, ganhando muito. Além disso, com a novela, Fraga atingiu mesmo a “concordância” artística de Oscar Wilde em um de seus momentos mais geniais: “When critics disagree...”. Desabrigo arreliou mesmo um porrilhão de gente, e deixou confuso até os simpáticos à obra. O fardado Antônio Olinto, que, literalmente, pagou a primeira edição da novela, chegou a colocar Fraga “entre os surrealistas”, algo meio difícil de associar.
 
Permeada por “Pontos de Vista” – trechos de textos de outros autores, relacionados à forma, à linguagem e ao “fazer literário”, além de alguns cortes do próprio texto da novela, a obra é um desafio e tem uma ambição patente de renovação dos meios. Os únicos sinais de pontuação no texto são exclamações, interrogações e reticências, suprimindo vírgulas e pontos-finais. A separação entre frases é feita pelas maiúsculas, que, aliás, não existem nos nomes próprios. Para Fraga, o nome próprio era apenas uma referência, “não vale nada”.
 
A primeira edição de “Desabrigo”, primeiro e único livro da editora Macunaíma, pago com o salário de professor do fardado Antônio Olinto, não foi aceita pelos livreiros. Assim, Fraga viu-se obrigado a vender os exemplares na rua, “no cordel”. Diz a lenda sobre sua tabela de preços: “um livro – 5 mil réis; dois livros – 4 mil réis; um livro autografado – mil réis”. Saindo da linha, isso me lembra um poeta goianiense, que chegou a vender seu livro por 1 real, a não ser que o leitor demonstrasse interesse – então, ganhava de presente, com dedicatória e tudo. Boa parte, se não todos os escritores da nossa província, desocupariam um bom espaço de suas garagens se fizessem o mesmo. A coisa que mais me motivou a ler o romance Umbra, de Antônio José de Moura, foi ganhá-lo na distribuição gratuita da Semana da Biblioteca (segundo alguns, “semana do desencalhe”), quando era aluno da ETFG. Seu livro Dias de Fogo já “havia vendido mais de trinta mil exemplares”. Cavalo dado... Até que gostei do livro.
 
Mas voltando à linha: a forma heterodoxa de pontuação, vocabulário, sintaxe etc. são apenas parte da intenção da obra, que quer desafiar os “anatoles frangos” e os “sacanocratas”, e, com isso, criar um novo jeito de fazer literatura, assinalado nos “pontos de vista” inseridos (o primeiro é um trecho de texto do Campos de Carvalho, que lamenta a inserção do “calão da mais baixa ralé” na literatura, em depreciação dos “puristas, dos Camões e caterva dos séculos passados”).
 
O “teor sociológico”, se é que é realmente necessário o palavrão, está presente e entranhado em “Desabrigo” não só na “sintaxe avacalhada”, na forma, mas em todo conteúdo, na própria formação dos personagens, e, principalmente no “espaço-tempo” da obra. Trata-se de um retrato do Rio de Janeiro, principalmente do submundo boêmio, das “zonas de baixo meretrício”, do mangue (então em fase de “desmonte”) que, em sua profundidade e realismo, aproxima-se mesmo do regionalismo. Um “regionalismo metropolitano”, se os sacanocratas me permitem o paradoxo. Anarquista “de pai e mãe”, além de biscateiro notório, Fraga não pensa duas vezes antes de fazer heróis na “mais baixa ralé” (como disse o Campos de Carvalho), seja na pele dos malandros (o pilantra azarado Desabrigo, o esfomeado Cobrinha, que come a própria mão imaginando um mamão, ou o traidor Miquimba), dos trabalhadores low-life (o balconista-de-birosca Coisa, Coisada, ou “o garçom que gosta de samba”, ou até o portuga-condutor-de-bonde), as prostitutas (a oportunista “filha da Gália” Margô, ou a libertária e protofeminista Durvalina). Também não hesita em satirizar os “beletristas”, “anatoles frangos”, o vigário espertalhão que “cai no conto”, o “guarda 69”, o delegado Anacreonte, que depois de uma briga de navalhas entre Desabrigo e Cobrinha, prende não os dois, mas “quatro estivadores do vapor mauritânia suspeitos de contrabandear as navalhas”. Não escapa do chicote de Fraga, ou das metralhadoras de Evêmero, seu alter-ego, nem mesmo os postes da Light & Power (ou laite-em-pó), com seu esnobismo de estrangeiro.
 
A “quasi-novela” quase acaba numa guerra de confetes, no carnaval de 1942, ano em que se passa a narrativa, e que seria apropriadíssimo. Coloca mesmo na boca de Coisada as palavras de algum Zaratustra carnavalesco, fantasiado de caipira:   “Eu só aquerditaria num deus que sobesse sambá...” O deus ex machina é um expediente bastante usado, seja na inserção de bondes que passam convenientemente, ou até na “ajuda” pra que algum personagem tome alguma decisão, geralmente inusitada; Entretanto, no “Eterno Retorno”, último episódio da novela,  Evêmero ouve a “voz do Verbo”, ou a voz de deus, que seria o próprio fraga. O Verbo atenta para o fato de que Desabrigo vai continuar “no xilindró” pro resto da vida, e Cobrinha “está se devorando pra se conservar”. Evêmero se convence de que “É preciso fazer qualquer coisa – um esbregue danado de medonho ou uma revolução”. Ouvindo a voz do Verbo e explosões á sua volta, Evêmero arregaça as mangas e “metralha” na “reminton”: “Cobrinha entrou no buteco e botando dois tistas no balcão pediu pro coisa...” 

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