revista bula
POR EM 29/09/2008 ÀS 04:41 PM

Filmes

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O Pagador de promessas,
1962, Dirigido por Anselmo Duarte

Muito mais do que uma crítica à intolerância religiosa, a obra de Dias Gomes, transportada para a grande tela pelo diretor Anselmo Duarte, ressalta as concessões que o indivíduo é obrigado a fazer para adaptar-se à engrenagem social. Zé do Burro, humilde homem do campo, queria apenas cumprir a promessa que fez para Santa Bárbara. O filme narra a triste saga do "Novo Jesus", do "Revolucionário", que certo dia, meio sem querer, resolveu nadar contra a corrente e acabou se afogando. É a narrativa da intolerância universal, da eterna dificuldade do ser humano de conviver com o outro, com o diferente.

Lançado em 1962, o filme é, até os dias atuais, a única obra tupiniquim a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Confira o Trailer aqui.

Só a título de curiosidade, a obra de Dias Gomes foi adaptada pela Rede Globo, no formato de minissérie. Versão esta que foi censurada a pedido dos patrocinadores, pois fazia menções positivas à reforma agrária.


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POR EM 28/09/2008 ÀS 02:02 PM

João do Rio entrevista Sílvio Romero

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É no jornal que têm todos estreado os seus talentos; nele é que têm todos polido a linguagem, aprendido a arte da palavra escrita; dele é que muitos têm vivido ou vivem ainda; por ele, o que mais vale, é que todos se têm feito conhecer



 

João do Rio
Entrevista feita em dia incerto de 1907

Dez dias depois de mandar o meu questionário para a Campanha, onde o mestre refundia toda a sua obra, recebi uma carta telegráfica que se pode resumir em duas frases: "É difícil. Vou ver se faço." Passaram-se mais duas semanas e outra carta surgiu: "Tanto trabalho fez-me neurastênico. Não posso responder nestes trinta dias."
 
Fiquei descorçoado. Entretanto, não esperei muito. Ainda não decorrera metade do tempo marcado para o repouso do incansável espírito, recebi com a resposta este simples bilhete: "Não pude esperar. Lá vai a coisa. Se não servir, rasgue." A coisa era esta extraordinária carta, cheia de mocidade e de fulgor: "Meu amigo. — O seu questionário pôs-me em sérios embaraços. Logo que o recebi, supus ser coisa facílima o dar-lhe imediata resposta.
 
Quando me afundei em mim mesmo, para sondar como se me tinha operado o que se poderia chamar a minha origem e formação espiritual, conheci que essa espécie de exame de consciência não era nada fácil. Achei, em minh'alma, meio velada, num semicrepúsculo subjetivo, tantas antropologias, etnografias, lingüísticas, sociologias, críticas religiosas, folclóricas, jurídicas, políticas e literárias, que tive medo de bulir com elas e me meter nesse matagal...
 
Conheci, sem esforço e para meu mal, que, se não sou ao pé da letra um cientista, não me cabe também a denominação de literato, no sentido restritíssimo que este qualificativo tem entre nós e parece ser a intuição por v. abraçada, quando diz no auto de perguntas: De seus trabalhos, quais as cenas ou capítulos, quais os contos, quais as poesias que prefere?
 
Escrevi, é certo, algumas poesias, entre os dezoito e vinte e cinco anos, que andam aí em dois volumes. Mas foi só. Não tenho romances, contos, novelas, dramas, comédias, tragédias, folhetins, crônicas, fantasias...
 
Não, nada disso. Conheci, mais e de súbito, que essas confissões de autores são coisa perigosa: se se diz pouco, parece simplicidade afetada e insincera; se se diz um tanto mais, parece fatuidade e pedanteria. Quis fugir à resposta; mas estava preso pela promessa. Palavra de tabaréu não torna atrás... Aí vai, pois.

Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?

Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca o pude delas separar, nem mesmo agora para lhe responder. Não tive nenhumas precocidades literárias, científicas ou outras quaisquer.
 
Quando escrevi a primeira poesia e o primeiro artigo de crítica, tinha dezoito anos e meio bem puxados e já andava matriculado na faculdade do Recife. Para lhe dizer tudo, devo partir do princípio. Faço-o com acanhamento, mas é indispensável.
 
Nestes assuntos ou tudo ou nada. Não se assuste, serei breve. Como caráter e temperamento, sou hoje o que era aos cinco anos de idade. Não se admire; é que sou, se assim posso dizer, uma vítima das duas primeiras, mais famosas e mais terríveis epidemias que devastaram o Brasil no século XIX.
 
Em 1851, ano em que nasci, foi nossa terra invadida por uma violenta epidemia de febres más, que se estendeu por várias províncias. A vila sertaneja em que nasci, em Sergipe, o Lagarto, não ficou imune.
 
Minha mãe teve a febre (supõe-se que já era a hoje nossa patrícia mui conhecida — a amarela); esteve às portas da morte, não me podia amamentar. Eu tinha seis semanas. Fui transportado para o engenho de meus avós maternos a quatro léguas de distância, na região chamada o Piauí, de um rio deste nome que ali corre águas turvas e cortadas no tempo das secas.
 
O sítio era delicioso, com trechos de mata virgem, belos outeiros fronteiriços, riachos correntes e o engenho. Este era dos de animais. São os mais poéticos nas cenas de sua movimentação especifica. Basta a almanjarra (manjarra — chama-se lá), para pôr em tudo uma nota festiva.
 
Fiquei no engenho Moreira, tal é sua denominação, até aos cinco anos. Dos três em diante a moagem era para mim um encanto. Quando os bois ou cavalos eram bem mansos, eu trepava também na almanjarra e ajudava a cantar a algum dos tangedores:
 
"Pomba voou, meu camarada,
 
Avoou, que hei de fazer?
 
Quem de noite leva a boca,
 
De dia que há de comer? "
 
Ainda agora sinto no ouvido a melodia simples e monótona desses e de outros versinhos do gênero; e invade a saudade, doce companheira a quem devo nos dias tristes de hoje as raras horas de prazer de minha vida. Tudo que sinto do povo brasileiro, todo meu brasileirismo, todo meu nativismo vem principalmente daí.
 
Nunca mais o pude arrancar d'alma, por mais que depois viesse a conhecer os defeitos de nossa gente, que são também os meus defeitos. Outra coisa me ficou incrustada no espírito, e com tanta tenacidade que nunca mais houve crítica ou ciência que dali ma extirpasse: a religião.
 
Devo isso à mucama de estimação, a quem foram, em casa de meus avós, encarregados os desvelos de minha meninice. Ainda hoje existe, nonagenária, no Lagarto, ao lado de minha mãe, essa adorada Antônia, a quem me costumei a chamar também de mãe. É um dos meus ídolos, dos mais recatados e mais queridos.
 
Nunca vi criatura tão meiga e nunca vi rezar tanto. Dormia comigo no mesmo quarto, e, quando, por alta noite, eu acordava, lá estava ela de joelhos...rezando...Bem cedo aprendi as orações e habituei-me tão intensamente a considerar a religião como coisa séria, que ainda agora a tenho na conta duma criação fundamental e irredutível da humanidade.
 
Desgraçadamente, ai de mim! não rezo mais: mas sinto que a religiosidade jaz dentro de meu sentir inteiriça e irredutível. Muito diáfana, idealizada, mas é sempre ela. Uma epidemia — a febre amarela — pôs-me fora do Lagarto, no engenho; outra, a do cólera morbus, em 1856, fez-me voltar definitivamente para a vila, para a casa de meus pais. Havia mais recursos na povoação do que no engenho, quase despovoado na escravatura pela peste.
 
As cenas do cólera de 1856 foram dolorosíssimas por quase todo Brasil. Lembra-me bem a chegada à casa paterna em meio da epidemia. Numa vasta sala (era a sala de jantar), junto a uma das paredes laterais, em colchão posto no chão, agonizava minha irmã Lídia, a primeira deste nome. Minha mãe, chorosa, sentada perto da doentinha, punha-lhe botijas de água quente, fervendo, aos pés.
 
Meu pai, ainda muito vigoroso, e um senhor que eu não conhecia (era o médico) preparavam numa mesa, ao meio da sala, um emplastro de não sei que substâncias. A menina, muito formosa, nos seus quatro anos, muito esperta, muito inteligente, muito pegada com minha mãe, só tinha, então, vida nos seus enormes olhos negros.
 
Que estranho olhar! Alumiou-me tristemente a entrada na casa de meus pais — e tem-me brilhado através da existência por cinqüenta anos seguidos sem se apagar. A volta a casa era assim feita em meio da tristeza. A peste continuou a lavrar com intensidade. Lídia morreu; minha mãe, atacada depois, esteve a se partir também. Muitos escravos de estima faleceram. Eu nada tive, mas acendeu-se-me n'alma uma tão intensa saudade do engenho, que me torturou por anos inteiros.
 
Quando, aos domingos, meus avós vinham à missa na vila, a minha alegria era sem par. Os encontros com Antônia eram festejados com lágrimas de contentamento. Mas as separações, quando tinha de regressar ao engenho! Eram o inferno.
 
Eu, criado fora até aos cinco anos, era, no princípio, como estranho aos meus irmãos mais velhos, que me faziam troças e me maltratavam muitas vezes, com essa malignidade própria dos meninos. Daí, um estado d'alma que se me produziu e ainda hoje perdura, digo-o à puridade, quer me acredite, quer não.
 
Habituei-me cedo a ser paciente, sofredor, ao mesmo tempo desconfiado, suspicaz, talvez, e, ainda por cima, resistente, belicoso. Algumas dessas qualidades são boas, parece, outras inconvenientes.

Existem em mim, encerram os germes de minhas tendências de analista e crítico. Aliadas às que tinham origem no engenho Moreira, explicam, em grande parte, toda a minha vida e toda a minha obra.
 
E eis aí porque disse, em princípio, que era vítima das duas maiores epidemias que assolaram o Brasil no século XIX. Não seria, talvez, sem razão afirmar, por outro lado, a existência de certas predisposições hereditárias:
 
a propensão analista e crítica, como devida, em grande porção, a meu pai, André Ramos Romero, português do norte, muito inteligente e muito satírico; a bonomia para não dizer de mim — a bondade, à minha mãe, Maria Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, cujo coração é uma herança de meu avô Luís Antônio de Vasconcelos, outro português do norte, de quem até hoje só descobri um igual na bondade nativa, inesgotável, espontânea, — no velho Barão de Tautfoeus.
 
Peço-lhe que me perdoe o ter aqui incluído os nomes de meus pais e avós.
 
Há disso uma razão: é que meus desafetos, por me eu assinar, a princípio, Sílvio da Silveira Ramos, para abreviar o nome, e, depois, só Sílvio Romero, por o encurtar ainda mais, andaram aí a tecer uns libelos sem graça e sem verdade. No Rio há muita gente que conheceu e conhece toda a minha família. Os senadores Olímpio de Campos e Martinho Garcez são do número.
 
A nova residência na vila, onde meu pai era negociante abastado, dos cinco aos doze anos, fortificou em mim as disposições inatas e as adquiridas. O Lagarto, naquele período, era uma terra onde os festejos populares, reisados, cheganças, bailes pastoris, taieiras, bumbas-meu-boi... imperavam ao lado das magníficas festividades da igreja.
 
Saturei-me desse brasileirismo, desse folclorismo nortista. Não devo ocultar certa ação de dois livros que foram, nos últimos tempos de escola primária, a base do ensino do meu derradeiro mestre de primeiras letras.
 
Um — o Epítome da História do Brasil, de J.P. Xavier Pinheiro, por causa da descrição de nossa terra — de Rocha Pita, que ocorre logo nas primeiras páginas: "O Brasil, vastíssima região, felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutos..." Outro, Os Lusíadas, por muitos trechos que me encantavam.
 
O Brasil da descrição de Pita ficou sendo o meu Brasil de fantasia e sentimento; a poesia de Camões ainda hoje é uma das mais elevadas manifestações da arte no meu ver e sentir, e, com seu ardente amor da pátria, fortaleceu o meu nativismo.
 
Apesar das inúmeras palmatoadas que apanhei na leitura e análise dos dois livros, nunca perdi a simpatia por Luís de Camões e pelo, mais tarde, tradutor do Dante. Da minha aprendizagem de preparatórios no Rio de Janeiro, de 1863 a 67, guardo saudosas reminiscências de cinco homens que influíram assaz no meu pensamento.
 
Padre Gustavo Gomes dos Santos, professor de latim, pelas muitas coisas que profusamente, com muito gosto e muito saber, comunicava, em aula, não só das letras antigas como das portuguesas e brasileiras. Foi quem me despertou o prazer literário. Joaquim Veríssimo da Silva, lente de filosofia, pelas exposições da metafísica alemã, principalmente de Kant, de que se mostrava grande sabedor.
 
Padre Patrício Muniz, mestre de retórica e poética, pelas excursões que, em conversa, fazia também pelos domínios germânicos, de cuja filosofia era muito admirador, combinando-a, já se vê, com a escolástica. Estes dois fizeram-me divisar ao longe os sistemas filosóficos.
 
Francisco Primo de Sousa Aguiar, a cujo cargo estavam as cátedras de história e geografia, no antigo Ateneu Fluminense, onde eu estudava, por suas admiráveis lições em que salientava o papel e o valor histórico das gentes germânicas, e pelas muitas cenas da terra alemã que, com intenso prazer e num acento muito comunicativo, punha diante dos olhos de seus ouvintes.
 
Finalmente, o barão de Tautfoeus, o ídolo da mocidade do tempo, verdadeiro tipo lendário, que a todos enchia de respeito, admiração e amor. Não foi meu lente; mas, por ser a bondade em pessoa, deu-me a honra de inúmeras palestras nos tempos dos exames, em que o procurava.
 
A filosofia da história deste sábio tinha uma raiz etnográfica poderosa, que me fez logo impressão e ficou até o presente. Aos dois últimos, é claro, devo o meu germanismo histórico, político, social, diverso do alemanismo literário, pregado em Pernambuco, por Tobias Barreto, de 1870 em diante.
 
No Recife, onde aportei em janeiro de 1868, e onde permaneci até 1876, levei os dois primeiros anos calado, no estudo das disciplinas que, até aos dias atuais, me têm preocupado mais. As influências ali recebidas não fizeram senão desenvolver o que em mim já existia, desde os tempos do engenho, da vila, da aula primária e dos preparatórios. As três primeiras leituras que fiz no Recife, por um feliz acaso, me serviram para abrir definitivamente o caminho por onde já tinha enveredado, fortalecendo as velhas tendências.
 
Foram um estudo de Emílio de Laveleye acerca dos Niebelungen e da antiga poesia popular germânica, um ensaio de Pedro Leroux sobre a Gothe e um livro de Eugênio Poitou sob o título — Filósofos Franceses Contemporâneos. O primeiro meteu-me nessas encantadas regiões de folclore, crítica religiosa, mitologia, etnografia, tradições populares, que me têm sempre preocupado. O segundo nas acidentadas paragens da crítica literária moderna, que tanto me tem dado que fazer.
 
O terceiro no mundo áspero e movediço da filosofia, em que me acho nas mesmas condições. Mas tudo isso já vinha de trás. Aí ficam as várias cenas do 1º ato — As Origens — de minha vida espiritual.
 
Como, depois, me orientei de tudo isso, por entre as leituras e estudos que tenho feito por quarenta anos ininterruptos, o que aprendi dos mestres, o que tirei de mim próprio, isto é, o 2º ato do drama — A Formação — deixo de indicar, porque já me vou tornando secante. A crítica indígena que o procure por si mesma descobrir e refazer, se achar nisso algum interesse.
 
Deixei para o fim a influência em mim exercida por Tobias Barreto, para ter o prazer de destacá-la com mais força. Não recebi dele propriamente idéias; aprendíamos, por assim dizer, em comum.
 
Dele aproveitou-me intensamente, e nunca fiz disso mistério, o entusiasmo de combater, o calor da refrega, o ardor da luta, o espírito de reação, a paixão das letras, o amor pela vida do pensamento, pelo espetáculo das idéias. E assim, penso, meu caro João do Rio, tenho respondido ao seu primeiro quesito. 

Das suas obras, qual a que prefere?

Ao segundo, pondo de parte uma fingida modéstia que nunca tive, e sem perder a cabeça em julgá-los mui grande coisa, declaro que se se pode assim falar, de meus trabalhos prefiro todos, porque cada um deles visou um fim e teve função especial. Me gustan todos... Desculpe a rude franqueza de nortista. 
 
Lembrando separadamente a prosa e a poesia contemporâneas, parece-lhe que no momento atual, no Brasil, atravessamos um período estacionário, há novas escolas (romance social, poesia de ação, etc.) ou há a luta entre antigas e modernas? Neste último caso, quais são elas? Quais os escritores contemporâneos que as representam? Qual a que julga destinada a predominar?

O terceiro ponto do questionário se me antolha coisa para ser discutida em estudo aprofundado. O momento atual parece-me um momento de simples parada, não de decadência. O mesmo se deu em começos do século XVIII depois de Gregório de Matos e Antônio Vieira, que se pode considerar brasileiro pela ação; o mesmo nos princípios do século XIX, após o surto da escola mineira. É o que se nota na própria Europa.
 
Fazendo mais de perto a distinção da poesia e da prosa, não me parece que esteja esta pujante no momento de agora e a outra decadente. Apurando bem os prós e os contras, eu me decidiria antes pela poesia. Estão ainda vivos e na força da mocidade e vigor do talento seis, pelo menos, dos melhores poetas que o Brasil tem produzido. Fazem ainda verdadeira a sentença de ser o lirismo a mais fulgurante manifestação da estesia pátria.
 
O desenvolvimento dos centros-literários dos Estados tenderá a criar literaturas à parte?

À quarta pergunta respondo sem hesitar: a função literária e intelectual de nossas antigas províncias não é a de criarem literaturas à parte, como, com alguma ironia, se alvitra no Rio de Janeiro, depois que o saudoso Franklin Távora falou em literatura do Norte.
 
Não foi no sentido incriminado o seu pensamento, com o chamar a atenção para as tradições, os costumes, as cenas nortistas e com o aludir aos bons talentos daquela zona. A sátira é escusada, ainda que parta principalmente de provincianos acariocados. A função das províncias, prefiro lhes chamar assim, do norte, sul, centro e oeste, é a de produzirem a variedade na unidade e fornecerem à Capital os seus melhores talentos.
 
Sempre foi isto desde os tempos de Silva Alvarenga, dos Andrada, Cairu, Odorico Mendes, até Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Coelho Neto, Raimundo Correia, Artur e Aluísio Azevedo, Luís Murat, José do Patrocínio, Graça Aranha, Araripe Júnior, Afonso Celso, Arinos, João Ribeiro, José Veríssimo, Capistrano de Abreu, Fausto Cardoso, Melo Morais, Teixeira Mendes... e duzentos mais, passando por Gonçalves Dias, Alencar, Porto Alegre, Macedo e as mais vivas figuras do romantismo.
 
Inútil é lembrar os políticos cujo número é legião. Pelo que se refere ao quinto e último quesito, afirmo convicto, posto nunca tivesse sido um homem do ofício, que o jornalismo tem sido o animador, o protetor, e, ainda mais, o criador da literatura brasileira há cerca de um século a esta parte.
 
É no jornal que têm todos estreado os seus talentos; nele é que têm todos polido a linguagem, aprendido a arte da palavra escrita; dele é que muitos têm vivido ou vivem ainda; por ele, o que mais vale, é que todos se têm feito conhecer, e, o que é tudo, poderia ser mais se houvesse um acordo e junção de forças; é por onde os homens de letras chegam a influir nos destinos deste desgraçado país entregue, imbele, quase sempre à fúria de politiqueiros sem saber, sem talento, sem tino, sem critério, e, não raro, sem moralidade... E aqui faz ponto seu admirador."
 
Não é preciso fazer o elogio desta carta cheia daquele espírito que o filósofo chamava de eterno... 

 

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POR EM 22/09/2008 ÀS 09:47 PM

Ópera

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Rigoletto, de Giuseppe Verdi, libreto de Francesco Maria Piave

Pra variar um pouco, uma ópera.

Há várias gravações de Rigoletto. A que tenho é conduzida por James Levine, do Metropolitan de Nova York, com Plácido Domingo no papel do Duque sacana. Aliás, a ópera é toda sacana. Rigoletto, o bufão que não perdoava ninguém e gozava de privilégios com o Duque, é amaldiçoado por um pai (Monterone), cuja filha foi desonrada pelo Duque. Rigoletto é cruel com ele como era com todo mundo. Mas a maldição do pai injuriado faz efeito. Gilda, sua filha e única pessoa por quem nutre alguma afeição, é seduzida pelo Duque. Rigoletto planeja matá-lo, mas a patetinha da menina (nem tão menina assim), apaixonada pelo Duque, se sacrifica por ele. Quando Rigoletto vai jogar no rio quem ele acha que é o Duque, vê, finalmente, que patrocinara a morte da própria filha. Rigoletto é dessas óperas melodiosas, com menos “diálogo cantado”, que é meio chato, às vezes (embora essencial pra apreciar a estória e não só a música).


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POR EM 15/09/2008 ÀS 10:25 PM

Filmes

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Assim é a vida ou a morte, (2008), curta-metragem. Dirigido por Mateba.

Sim, é preciso relevar eventuais dificuldades técnicas (cinema é arte cara!). Sim, é preciso conhecer um dos envolvidos no projeto para ter acesso ao DVD. Sim, é preciso estar predisposto a gostar. Declaro-me triplamente culpado. Conheço Carlos Eduardo Rodrigues, o Duca, e estava predisposto a gostar por causa dele. Assisti a uma interpretação sua d'Os males do tabaco (de Tchékhov), na casa do Fayad há alguns anos (o tempo voa!). Genial. Genial mesmo, estou sendo sincero. Até então eu considerava essa uma obra menor do Tchékhov. Mas, também, só tinha lido, nunca tinha visto encenada. Pra vocês verem a importância da interpretação para que o teatro se torne verdadeira arte (não, não vou ressuscitar a discussão sobre arte, fiquem tranqüilos). Portanto, relevei as evantuais dificuldades técnicas e gostei do filme. Parabéns à turma toda que o realizou.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 06:22 PM

Filmes

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Antes de partir (2007), dirigido por Rob Reiner

 
A presença de Morgan Freeman e Jack Nicholson já é garantia de um bom filme. Apesar de ambos fazerem o mesmo papel de sempre (que lhes cabe nos últimos tempos). Freeman, o sóbrio, aristocrata (mesmo sem ser rico), inteligente e culto. Nicholson, o cínico, irritadiço e metido a besta (independente de fazer papel de rico). Apesar, também, de estar recheado de clichês dramáticos e cômicos. Ainda assim é um bom filme. Impagável a cena em que Nicholson diz mais ou menos o seguinte: “Algumas coisas que você aprende quando fica velho... Nunca deixe passar um banheiro, nunca desperdice uma ereção e nunca confie num peido”.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 02:25 PM

Filmes

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Antes de partir (2007), dirigido por Rob Reiner
 
A presença de Morgan Freeman e Jack Nicholson já é garantia de um bom filme. Apesar de ambos fazerem o mesmo papel de sempre (que lhes cabe nos últimos tempos). Freeman, o sóbrio, aristocrata (mesmo sem ser rico), inteligente e culto. Nicholson, o cínico, irritadiço e metido a besta (independente de fazer papel de rico). Apesar, também, de estar recheado de clichês dramáticos e cômicos. Ainda assim é um bom filme. Impagável a cena em que Nicholson diz mais ou menos o seguinte: “Algumas coisas que você aprende quando fica velho... Nunca deixe passar um banheiro, nunca desperdice uma ereção e nunca confie num peido”.

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POR EM 18/08/2008 ÀS 08:28 PM

Filmes

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Sicko (2007), Michael Moore
 
Todo médico deveria assistir a esse filme. Realmente, há ali um monte de verdades. Entretanto, é bom que se o veja com algum olhar crítico. Que o sistema americano de saúde é cruel tanto com quem não tem, quanto com quem tem seguro-saúde, é inquestionável. Que a medicina está ficando cara demais, e cada vez mais, também é verdade. Entretanto, é bom que se diga tudo. Que essa dinheirama não está indo pro bolso dos médicos. A imensa maioria é tão vítima quanto os pacientes. Há pontas de iceberg (no bom e no mau sentido). Mas a base desse iceberg, afundada e afogando, é muito maior. Outra coisa: quando ele mostra os americanos sendo tratados maravilhosamente, e de graça, em Cuba, passei a desconfiar de seu espírito crítico pro resto. Cuba cobra, e caro, dos estrangeiros para realizar seus tratamentos milagrosos e sem comprovação científica (pra Retinose Pigmentar, por exemplo). É um crime. E com cumplicidade de médicos. Moore tem de pesquisar mais, ir mais a fundo, pra não ser feito de besta, como o foi em Cuba.

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POR EM 12/08/2008 ÀS 07:15 PM

Filmes

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Batman – O cavaleiro das trevas (2008), direção de Christopher Nolan
 
Para quem se interessa pelo cruzamento entre psicologia, sociologia e filosofia, além dos efeitos especiais, há uma cena interessante nesse último Batman, que remete à “teoria dos jogos”, citada, entre outros, pelo filósofo escocês radicado nos EUA, Alasdair MacIntyre (cap. 8 de seu “After Virtue” – The Character of Generalizations in Social Science and their lack of Predictive Power – há uma edição brasileira da Edusc). Lá pelas tantas, o “Joker” (Heath Ledger, absolutamente impecável) arma uma cilada para os cidadãos de Gotham City. Coloca-os em duas balsas cheias, sendo uma delas com prisioneiros perigosos. Em cada uma das balsas há um detonador das bombas da outra. Os ocupantes de uma têm até certa hora para explodir a outra, caso contrário, ele, o Joker, explodirá as duas balsas. Uma decisão moral limite, geralmente usada na teoria para discutir ética, mas que o piadista pôs em prática. O que farão os nobres cidadãos de Gotham City?

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POR EM 05/08/2008 ÀS 05:15 PM

Música

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Franz Liszt Complete piano music, Volume 1, Arnaldo Cohen, Naxos

Peço licença pra dar uma variada nessa seção e indicar música no lugar de filme. Por dois motivos. Primeiro porque é boa. Segundo como forma de protesto.  Protesto, sim, pois eu gostaria de saber por que as grandes atrações, quando vêm a Goiânia, se apresentam em dias desgraçados? Por que, diabos, Arnaldo Cohen apresentou suas versões para Chopin e Beethoven em plena quarta-feira, quando eu estou no hospital garantindo o leite das crianças? Bom. Protesto registrado. Essa gravação de peças doLiszt para piano (a coleção da Naxos, uma gravadora com preços acessíveis, têm cinco volumes, o de Cohen é o primeiro) inclui a “Grande Fantasia sobre os temas da ópera Os Huguenotes”. Abre com a belíssima e perturbadora “Dança Macabra” (a partir da “Dança macabra”, de Saint Säens), segue perturbadora (La lúgubre gondolla) e fecha arrebatadora, com “Totentanz” (também da “Dança macabra”). Não é o tipo de CD que sirva de fundo a uma leitura, definitivamente. Nem pra uma caminhada. E desaconselho ainda para quem estiver em momento com tendências negativas. É um CD egoísta, pra ser ouvido e digerido devagar.

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POR EM 29/07/2008 ÀS 07:18 PM

Filme

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Diário de um padre (1951), de Robert Bresson e Luz de inverno (1963), de Ingmar Bergman 


 
Um exercício interessante é assistir aos dois no mesmo dia. Pouco mais de dez anos os separam. Já ouvi de gente boa que o de Bergman é um arremedo pobre do de Bresson. Discordo. Talvez pela minha maior afinidade com o diretor sueco, penso que Luz de inverno é mais ‘eficiente’. De toda forma, ambos tratam do mesmo tema, que parece ser religioso, mas vai além. É existencialista. Ou, pelas tintas da filosofia do professor da UnB, Julio Cabrera, é ético-negativo.  Principalmente o de Bergman. Questiona-se não apenas as regras do jogo, mas a existência mesma dele. Jogar pra quê? Se o final é previsível. Não há como ganhar. É como se a “Ética da finitude” loparic-heideggeriana fosse invertida.

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