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POR EM 05/12/2008 ÀS 08:57 PM

João do Rio entrevista Bilac

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Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio


 

João do Rio
 Entrevista feita em dia incerto de junho de 1907

A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas. — Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem outra alma, à luz dos bicos de gás. Quando, porém, ia tocar o timbre de um velho bronze, o meu receio desapareceu. Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.
 
 
 
João — Pode-se importunar?
 
Bilac — Ó ave madrugadora! Tu por aqui?
 
João — Ergueu-se com a sua aristocrática distinção. Estava todo vestido de linho branco, a camisa alva compunhos e colarinhos duros.
 
Bilac — Aposto que vens ver os meus cartões postais?
 
João — Eu olhava a sala onde há tanto tempo mora a Musa perfeita. As paredes desaparecem cheias de telas assinadas por grandes nomes, caquemonos de Japão, colchas de seda cor d'ouro velho. As janelas deixam ver o céu, a rua e as árvores entre cortinas cor de leite e sanefas de veludo cor de mosto. Do teto pende uma antiga tapeçaria francesa, a um canto um paravento de laca parece guardar mistérios no bric-à-brac do mobiliário — cadeiras de várias épocas, poltronas, estantes de rodízios, guéridons, divãs, dois vastos divãs turcos, largos como alcovas... Ao centro a mesa em que escreve o poeta, muito limpa e quase muito pequena, de canela preta, encimada por um ventilador. Os meus olhos repousam nos bibelots, nas jarras de porcelana cheias de flores frescas; a alma sente uma alegre impressão de confortável. O poeta faz-me sentar.
 
Bilac — Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
 
João — Versos?
 
Bilac — Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto. Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo o entusiasmo —que é a vida — a este sonho irrealizável.
 
João — Basta o entusiasmo pelo irrealizável para que um homem seja perfeito, já disse Barrès. Bilac sorriu.
 
Bilac — Mas então não queres ler decididamente os pensamentos dos quarenta membros da Academia Francesa?
 
Bilac — Eu venho para coisas muito mais graves.
 
— Tenho que há na vida coisas que se dizem mas não se escrevem, coisas que só se escrevem e outras que nem se escrevem nem se dizem mas apenas se pensam. Seria feliz se me viesses perguntar aquela, que sem me entristecer aos outros, pudesse ser pensada, falada e escrita. É entretanto difícil...
 
João — Eu ouvia-o embevecido. A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível.
 
Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes. É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente." E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.
 
Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução. Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. Eu o ia interromper na composição de um livro para perguntar a sua opinião sobre o estado da literatura brasileira e o papel do jornalismo para com essa mesma literatura. Ele falou-me com uma certa amargura, ligando as minhas perguntas ao seu ideal.
 
Bilac — Que queres tu, meu amigo? Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio. Há de resto explicações para o fato. Somos uma raça em formação, na qual lutam pela supremacia diversos elementos étnicos. Não pode haver uma literatura original, sem que a raça esteja formada, e já é prodigiosa a nossa inteligência, que consegue ser esse reflexo superior e se faz representativa do espírito latino na América. Ah! A nossa inteligência! É possível atacar, espezinhar, pulverizar de ridículo tudo o que constitui o Brasil, a sua civilização e o esforço dos seus filhos. Esses ataques são em geral feitos por brasileiros. Duas coisas porém ficam acima dos maus conceitos: a beleza da terra e o espírito que a habita, o encanto da natureza e a clara inteligência assimiladora dos homens.
 
Os comerciantes, os artistas em tournée, os humildes e os notáveis levam daqui a impressão imorredoura de que não há país mais aberto a todas as idéias generosas, mais espiritualmente irônico. Poderíamos acrescentar: nem mais indolente. Mas não basta haver talentos e belos livros para que haja uma literatura. Esta opinião talvez não seja uma grande novidade, mas é verdadeira. Nós nos regulamos pela França. A França não tem agora lutas de escola, nós também não; a França tem alguns moços extravagantes, nós também; há uma tendência mais forte, a tendência humanitária, nós começamos a fazer livros socialistas. Esta última corrente arrasta, no mundo, todos quantos se apercebem da angústia dos pobres e do sofrimento dos humildes. Um artista sente mais as dores terrenas que cem homens vulgares, os poetas são como o eco sonoro do verso de Hugo, entre o céu e a terra, para transmitir aos deuses os queixumes dos mortais...
 
A Arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro e marfim, em que os artistas se fechavam, ruíram desmoronadas. A Arte de hoje é aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela representação da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Somente um louco, — ou um egoísta monstruoso —, poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa, cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem, em que anseiam as ambições e choram os desesperos, em que se decidem os destinos dos povos e das raças...
 
Uma revista, que se fundasse, no Brasil, para exclusivamente cuidar de cousas de Arte, seria absurda. A Arte é a cúpula que coroa o edifício da civilização: e só pode ter arte o povo que já é "povo", que já saiu triunfante de todas as provações em que se apura e define o caráter das nacionalidades.
 
O que urge é compreender isso, e é aproveitar a lição dos fatos. Nós não temos unicamente, diante de nós, o problema do saneamento e do povoamento. Com o saneamento apenas, livrar-nos-emos das epidemias que os mosquitos, os ratos, os micróbios transmitem de corpo a corpo, mas deixaremos, intacta e tremenda, pairando sobre nós, a ameaça das epidemias morais, que depauperam o organismo social, e o conduzem à indisciplina, à inconsciência e à escravidão. Tratando apenas do povoamento, feito ao acaso das levas de imigração, sem fundar uma escola em cada novo núcleo de povoadores, conseguiremos somente aumentar e dilatar o império da ignorância e da irresponsabilidade.
 
O problema que tem de ser resolvido, juntamente com esses dois, é o da instrução. E o que dói, o que desespera, é que toda a gente culta do Brasil tem a consciência disto, e que, há mais de um século, esta verdade, anunciada, proclamada, escrita, em todas as tribunas, em todos os livros, em todos os jornais, ainda não achou governo que a servisse em terreno prático.
 
João — Houve um silêncio. O poeta falava como um filósofo e no seu lábio a verdade vibrava. Timidamente comecei uma frase, que não chegava a ser pergunta: Os Estados procuram criar literaturas à parte. Ainda há pouco, logo após a publicação das minhas primeiras entrevistas sobre o momento literário, todos os Estados agitaram-se, S. Paulo, Rio Grande, Pernambuco...
 
Bilac — É dividir o que não se pode dividir. Não há talentos do Norte nem do Sul. Há talentos brasileiros. Não posso compreender, para não citar senão um exemplo, em que os versos de Francisca Júlia possam ser paulistas. Quanto à separação da nossa futura literatura, ela se fará lentamente, como se vão formando a nossa raça e o nosso gosto, conforme as correntes mais ou menos fortes dos povos colonizadores. Talvez em 2500
existam literaturas diversas no vasto território que hoje forma o Brasil.
 
João — E o jornalismo? — Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, tão poeta que o seu nome é um alexandrino, limpou os vidros do binóculo e disse praticamente:
 
Bilac — O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; os proprietários de jornal vêem limitada, pela falta de instrução, a tiragem das suas empresas. Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! Tenho estatísticas aterrorizadoras, fenomenais. Era natural que decrescesse a lista dos analfabetos à medida que a população aumentasse em número e civilização. Pois dá-se o contrário. Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem.
 
João — Parou, foi até a janela, olhou o céu, que escurecera prenunciando chuva. Toda a sua figura transpirava simpatia harmoniosa. E, de entre as cortinas cor de leite, uma outra voz grave vibrou, cheia de melancolia:
 
Bilac — "Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!"

 

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POR EM 05/12/2008 ÀS 08:46 PM

Volta ao mundo em 32 curtas

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Nostálgico ou irônico, Cada Um Com Seu Cinema explora o amor pela sétima arte em diferentes vertentes e culturas. Reunindo prestigiados diretores da atualidade, como Alejandro González Iñárritu, Walter Salles, Lars Von Trier, David Cronenberg, a cineastas alternativos de prestígio como Atom Egoyan, Wong Kar-Wai
 
 
 
 

Tacilda Aquino
 Jornalista e crítica de cinema

Um passeio de 120 minutos pelo cinema mundial e uma pequena amostra de como cineastas conhecidos e admirados pelos cinéfilos de carteirinha gastaram os três minutos a que tinham direito para falar de sua paixão pelo cinema como arte e espaço físico onde se dá o encontro com o espectador.  Essa pode ser uma breve descrição do conteúdo deste Cada Um Com Seu Cinema (Chacun Son Cinema), longa idealizado pelo presidente do Festival de Cannes, Gilles Jacob, para celebrar a 60ª edição do evento, no ano passado e que acaba de ganhar lançamento direto em DVD, sem passar pelo circuitão goianiense, em uma iniciativa da distribuidora Dreamland. 
 
Reunindo prestigiados diretores da atualidade, como Alejandro González Iñárritu, Walter Salles, Lars Von Trier, David Cronenberg, a cineastas alternativos de prestígio como Atom Egoyan, Wong Kar-Wai e gente com passado de respeito como Michael Cimino, Manoel de Oliveira, Jane Campion, Abbas Kiarostami,Takeshi Kitano, Nanni Moretti, Roman Polanski, Ken Loach e Claude Lelouch, o filme é de fazer qualquer cinéfilo babar. A diversidade dos filmes prova que enquanto o entusiasmo pelo cinema é possivelmente universal, cada experiência cultural que advém dele – isso para não falar de cada espectador – é completamente única. O conjunto dos canônicos cineastas representa cinco continentes e 25 países.
 
O tom de nostalgia marca a maioria dos filmes, com seus realizadores focando suas histórias na decadência de algumas salas de cinema que eles freqüentavam na juventude. Outros preferem ressaltar o fato da experiência coletiva de estar no escuro de uma sala de cinema sendo substituída pela solitária experiência de ficar na frente do computador.
 
Só o prazer de saber que ninguém é gênio 100% do tempo já vale a experiência de ver o filme. Normal, considerando-se que como outros projetos coletivos – vide os recentes Crianças Invisíveis, Paris eu Te Amo e 11 de Setembro –  também foram marcados por pequenas preciosidades misturadas a alguns momentos de pouca inspiração. Sem esquecer que a limitação de tempo em exíguos três minutos para passar o recado foi um desafio difícil de se lidar.
 

Zhang Yimou (Movie Night)
 
Bom mesmo é tentar adivinhar quem assina cada filmeto, já que o nome do diretor só aparece ao final de cada curta, com os devidos créditos. Confesso que sofri tentando descobrir quem tinha feito o que e sentindo orgulho de mim mesma por identificar alguns cineastas “de cara”.
 
Kiarostami integra o grupo de diretores que fala de sua paixão pelo cinema em uma sala escura, explorando o tom nostálgico nas referências aos grandes clássicos, aos grandes mestres, sem esquecer a decadência das salas “intimistas”. Ele emociona mostrando mulheres de diferentes idades que têm as mesmas reações ante a perspectiva trágica de Franco Zeffirelli em Romeu e Julieta (1968).
 
Diário de um espectador entrega a identidade de seu realizador ao apresentar do italiano Nanni Moretti lembrando, com bom humor momentos inusitados de sua vida de cinéfilo, como quando vibrou com Rocky Balboa ou tentou explicar ao filho de sete anos que os filmes dele não são parecidos com Matrix. Ele sabe que seu cinema não atende exatamente as demandas da sociedade, de seu filho, inclusive, mas não deixa de acreditar e apostar na heterogeneidade do cinema, dando a cada filme o seu espaço.  
 
No quesito homenagens a grandes mestres, Fellini ganha duas lindas homenagens. A melhor delas é a de Theo Angelopoulos, que mostra o encontro de Jeanne Moreau com o fantasma de Marcelo Mastroianni, mas Andrei Konchalovski também emociona com a história de uma lanterninha que chora a cada sessão de Oito e Meio.
 
O francês Robert Bresson tem sua cota de homenagem. A primeira é assinada pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne – que já ganharam a Palma de Ouro duas vezes -, grandes discípulos do mestre francês. A segunda é de Hoa Hsiao Hsien, The Electric Princess House.   
 
Cada Um Com Seu Cinema tem ainda alguns cineastas fazendo o que se esperava deles e por isso mesmo sendo facilmente reconhecíveis. O Primeiro Beijo, protagonizado por adolescentes, sugere que é na sala escura que acontece o primeiro beijo, momento de comunhão da realidade e ficção. Dá para imaginar quem assina? Gus Van Sant, é claro.
 
Tsai Ming Liang, realizador de It's a Dream, apresenta um trabalho bastante coerente com sua obra. O filme é igualmente nostálgico, ao lembrar dos filmes aos quais assistia em sua infância nos anos 70, na Malásia, e que tanto influenciaram as carreiras de outros cineastas asiáticos, como Wong Kar-wai, Chen Kaige, Zhang Yimou e Takeshi Kitano. Já Amos Gatai aborda a questão judaica tão explorada em sua filmografia e usa seu episódio como um instrumento ideológico e político. E Jane Campion é Jane Campion, com seu forçado simbolismo psicanalítico feminista, na estória de uma barata bailarina que é pisoteada num cinema.
 

Ken Loach (Happy Ending)
 
O brasileiro Walter Salles está entre os cineastas que buscaram a ambientação fora da sala de projeção, prestando um tributo a Cannes. Em frente a um cinema brasileiro que exibe Os Incompreendidos (Les 400 Coups, 1959), de François Truffaut, o brasileiro cria uma paralisante performance musical com seu filme A 8944 Km From Cannes, cujo tema é o próprio festival. O filme deixa a gente imaginando o trabalho que foi legendar a “embolada” dos artistas para o francês.
 
Em Anna, do mexicano Alejandro González Iñárritu, um belíssimo plano-seqüência enfatizando a emoção incontida de uma mulher cega “assistindo” O Desprezo, de Jean-Luc Godard. Roman Polanski faz piada com a história de um casal assistindo ao clássico pornô soft Emanuelle  e fica incomodado pelos gemidos insistentes de um homem sentado logo atrás. O filme chama-se Cinéma Erotique.
 
O humor também marca o filme do quase centenário Manoel de Oliveira que, reinventando a História, mostra o encontro entre Krutchov (Michel Picolli) e o Papa João XXIII.
 
O sempre irreverente Lars Von Trier faz em seu filme o que todo cinéfilo gostaria de fazer com espectadores mal educados que vão para a sala escura para ficar de bate-papo ou com o celular ligado. E o que é melhor, o personagem pentelho do filme de Von Trier é um crítico de cinema. 
 
Independentemente da nostalgia e da homenagem ao cinema, Cada Um Com Seu Cinema explora ainda os rumos do cinema diante das novas tecnologias. Atom Egoyan, por exemplo, aposta nas novas tecnologias como capacitadoras da continuidade do cinema. Em Artaud Double Bill, duas pessoas trocam mensagens de texto por celulares. Elas foram ver filmes diferentes e uma manda um vídeo do filme que está assistindo para a outra. Assim Egoyan prova que o cinema definitivamente atravessou a barreira da sala escura e estendeu sua difusão para outros formatos exibidores, com uma propagação bastante forte. E independente de onde é exibido, continua sendo capaz de emocionar.
 

Alejandro González Iñarritu (Anna)
 
O canadense David Cronenberg, por sua vez, usa No Suicídio do Último Judeu do Mundo no Último Cinema do Mundo para propor uma ficção sobre o futuro das salas de cinema. O filme tem uma única seqüência em close-up na qual um homem de meia-idade experimentando várias formas de se matar com uma pistola no banheiro de um cinema. Há uma narração em off, de dois repórteres numa transmissão em tempo real, relatando que se trata do último judeu da face da terra assim como da última sala de cinema, abandonada. Brincadeira ou crítica, Cronenberg questiona as possibilidades do cinema e a interferência da televisão em seu projeto. Atento para o direcionamento da tecnologia, ele acaba deixando em aberto o futuro do cinema, pois não há tempo para o desdobramento da sua história, narrada ao vivo.
 
E Ken Loach questiona se o cinema ainda é uma boa diversão. Em Final Feliz, os protagonistas, pai e filho, estão em uma fila da bilheteria, indecisos sobre a que filme assistir. A escolha é grande, afinal trata-se de um conjunto multiplex, com várias opções de sala, coisas da modernidade. Eles lêem em voz alta a programação, incomodando os demais indivíduos na fila. Filme de terror, de ação, aventura, trash, qual deles? Na boca do guichê, a bilheteira já sem paciência, o pai pergunta ao filho: e por que não vamos a uma partida de futebol? E saem felizes com a decisão tomada.
 
E finalmente Olivier Assayas abraça a contemporaneidade filmando sua história em digital e em uma sala de cinema em funcionamento. 
 
O filme original, exibido em Cannes no ano passado, contava com mais três filmes que acabaram ficando de fora do DVD lançado pela Dreamland. Os filmes de Joel e Ethan Coen, Michael Cimino e David Lynch. O curta dos Coen, aparentemente realizado no set do oscarizado Onde os Fracos Não Têm Vez, Josh Brolin interpretava um caubói matuto indeciso diante de dois filmes num cinema poeirento. Já o de Cimino marcava a volta do diretor após 11 anos afastado do cinema.  Já o curta de David Lynch, Absurda, é o retrato fiel de seu realizador, a começar pelo nome.  Para quem se interessar, o curta-metragem de Lynch está disponível no site youtube 

FILMES PARTICIPANTES

 
Theo Angelopoulos (Trois minutes) - Olivier Assayas (Recrudescence) -  Bille August (The Last Dating Show) - Jane Campion (The Lady Bug) - Youssef Chahine (47 ans après) - Chen Kaige (Zhanxiou Village) - Michael Cimino (No Translation Needed) - David Cronenberg (At the Suicide of the last Jew in the World, in the Last Cinema in the World) - Jean-Pierre e Luc Dardenne (Dans l´obscurité) - Manoel de Oliveira (Rencontre unique) - Raymond Depardon (Cinéma d´été) - Atom Egoyan (Artaud Double Bill) - Amos Gitai (Le Dibbouk de Haifa) - Hou Hsiao-hsien (The Electric Princess Picture House) - Alejandro González Iñarritu (Anna) - Aki Kaurismäki (Fonderie) - Abbas Kiarostami (Where is my Romeo?) - Takeshi Kitano (One Fine Day) - Andreï Konchalovsky (Dans le noir) - Claude Lelouch (Cinéma de boulevard) - Ken Loach (Happy Ending) - Nanni Moretti (Diario di uno spettattore) - Roman Polanski (Cinéma érotique) - Raoul Ruiz (Le Don) - Elia Suleiman (Irtebak) - Walter Salles (À 8.944 km de Cannes) - Tsai Ming-Liang (It´s a Dream) - Gus Van Sant (First Kiss) - Lars von Trier (Occupations) - Wim Wenders (War in Peace) - Wong Kar-Wai (I Travelled 9.000 km to Give it to You) - Zhang Yimou (Movie Night).


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POR EM 05/12/2008 ÀS 08:44 PM

Os dez maiores filmes de todos os tempos

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 Pedimos a dez convidados, dos mais díspares perfis, (em comum apenas o fato de todos serem aficionados por cinema), para que apontassem os dez grandes filmes de todos os tempos. Como toda lista, essa também provocará questionamentos sobre o resultado. Primeiro, pela subjetividade da pergunta: “Quais são os dez grandes filmes de todos os tempos?”. Como definir o que é maior, se o critério de avaliação é pessoal, sendo altamente variável de acordo com preferências individuais, onde o gosto pesa mais do que um suposto valor objetivo ou crítico de cada um dos dez escolhidos? Entretanto, a pergunta foi respondida. Se o resultado não chega a ser surpreendente, de certa forma, também foge um pouco do comum. Alguns filmes marcos como Cidadão Kane, Casablanca e A Regra do Jogo, não aparecem na lista.

Confira voto a voto e o resultado final  

 


Frederico Carvalho Felipe – Especialista em cinema e músico 

O Bandido da Luz Vermelha — Rogério Sganzerla
Pulp Fiction – Tempo de Violência — Quentin Tarantino
Tetsuo: The Iron Man — Shinya Tsukamoto
Cidade dos Sonhos — David Lynch
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola
Festim Diabólico —Alfred Hitchcock
Quotidianas Kodak — Ivan Cardoso
O Cheiro do Ralo — Heitor Dhália
Sin City – A Cidade do Pecado — Robert Rodriguez
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
 

Bruna Oliveira — Produtora cultural
 
Amarcord — Federico Fellini
1900 — Bernardo Bertolucci
A Doce Vida — Federico Fellini
Um Estranho no Ninho — Milos Forman
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
O Desprezo — Jean-Luc Godard
Short Cuts — Robert Altman
Amor à Flor da Pele — Wong Kar Wai
Trainspotting — Danny Boyle
Tomates Verdes Fritos — Jon Avnet
 

Leandro Araújo Torreal – Cinéfilo e músico
 
Batman — Tim Burton 
Snatch - Porcos e Diamantes
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick 
Rejeitados Pelo Diabo — Rob Zombie
Trainspotting — Danny Boyle
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa — Woody Allen
Forrest Gump — Robert Zemeckis
Cidadão Kane — Orson Welles
Os Goonies — Richard Donner
Alta Fidelidade— Stephen Frears 
 

Edmar Carneiro – Psicólogo e videomaker
 
Cova Rasa — Danny Boyle
Pulp Fiction — Quentin Tarantino
Sin City (Cidade do Pecado) — Robert Rodriguez e Frank Miller
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
Psicose — Alfred Hitchcock
Los Angeles, Cidade Proibida — Curtis Hanson
Ponto de Mutação — Bernt Kapra
Boogie Nights — Paul Thomas Anderson
Dogville — Lars Von Trier
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola
 

Renata Lima — Doutora em semiotica
 
8 ½ — Federico Fellini
Vanilla Sky — Cameron Crowe
A Doce Vida — Federico Fellini
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola
Cidade dos Sonhos — David Lynch
Amor à Flor da Pele — Wong Kar Wai
1900 — Bernardo Bertolucci
M., O Vampiro de Düsseldorf — Fritz Lang
Clube da Luta — David Fincher
 

Daniel Almeida – Professor de literatura
 
O Bebe Santo de Macon — Peter Greenaway
Terra em Transe — Glauber Rocha
Antes da Chuva — Milcho Manchevski
Adaptação — Spike Jonze
Drácula de Bram Stoker — Francis Ford Coppola
O Homem que Sabia Demais — Alfred Hitchcock
Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes — Guy Ritchie
Ajuste Final — Joel e Ethan Coen
Depois de Horas — Martin Scorsese
Amores Brutos — Alejandro Gonzáles Iñárritu
 

Flávio Paranhos — Médico e escritor
 
Dodeskaden — Akira Kurosawa
Crimes e Pecados — Woody Allen
O Anjo Exterminador — Luis Buñuel
Sacrifício — Tarkovski
O Sétimo Selo — Ingmar Bergman
Short Cuts — Robert Altman
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
Pulp Fiction — Quentin Tarantino
Amor à Flor da Pele — Wong Kar Wai
A Doce Vida — Federico Fellini
 
 
Alfredo Bertunes — Estudante de direito e especialista em cinema
 
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola
O Poderoso Chefão Parte 2 — Francis Ford Coppola
Clube da Luta —David Fincher
Oldboy — Chan-wook Park
Pulp Fiction — Quentin Tarantino
M., O Vampiro de Düsseldorf — Fritz Lang
Um Estranho no Ninho — Milos Forman
Apocalypse Now — Francis Ford Coppola
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick
Era Uma Vez Na América — Sergio Leone
 

Tacilda Aquino — Jornalista
 
A Cor Púrpura — Steven Spielberg
Fahrenheit 451 — François Truffaut 
Adeus Meninos — Louis Malle
Macunaíma — Joaquim Pedro de Andrade
1900 — Bernardo Bertolucci
Fanny e Alexander — Ingmar Bergman
A Garota do Adeus — Herbert Ross
Monalisa — Neil Jordan
Eu Te Amo — Arnaldo Jabor
Bye Bye Brasil —  Cacá Diegues
 

Marcelo Silva — Jornalista
 
Um Estranho no Ninho — Milos Forman
Pulp Fiction – Tempo de Violência — Quentin Tarantino
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola
O Touro Indomável — Martin Scorsese
Era uma Vez na América — Sergio Leone
Short Cuts — Robert Altman
Trainspotting — Danny Boyle
Chinatown — Roman Polanski
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick 
Clube da Luta — David Fincher
 
 
 
Discutindo gostos 
 
 
Laranja Mecânica — Stanley Kubrick — 8 votos

 
           
Flávio Paranhos 
           
Antes de falarmos do filme vencedor (“Laranja Mecânica”, com 8 votos), falemos um pouco dos “perdedores”. Gosto é gosto, não se discute. Ou se discute? Vamos fazer o seguinte. Vamos discutir só as escolhas com as quais concordamos. Ou seja, as boas escolhas. “Amacord” e “8 ½” são dois Fellini excepcionais lembrados por outros, digamos, jurados (na falta de melhor termo). Por que não os escolhi, preferindo A Doce Vida? Simples: esse é o problema com as listas dos tantos melhores. Temos que deixar de fora ótimos filmes. Não dá pra colocar todos os bons de todos os bons diretores. A não ser o caso de Tarantino, o homem de um filme só (tudo bem, Cães de Aluguel é bom, mas não é genial). Era o caso de colocar todos os do Tarkovski e do Woody Allen, pelo menos uns dez do Bergman (tive de escolher “O Sétimo Selo”, mas quem escolheu Fanny e Alexander escolheu muito bem), uns cinco Kurosawa (me doeu deixar Sonhos e Madadayo de fora), outros tantos Buñuel (se bem que nesse caso foi fácil escolher, “O anjo exterminador” é o melhor filme já realizado por alguém). Aliás, fiquei surpreso com um detalhe. Ninguém mais se lembrou de Buñuel. Mas deixa pra lá, eu disse que só discutiria o que concordasse. Depois que vi a lista dos outros, fiquei surpreso também com meu próprio esquecimento com relação a Greenaway e Lynch. O Bebê Santo de Mâcon e Cidade dos Sonhos poderiam entrar no lugar de “Short Cuts” e “Amor à Flor da Pele”, em minha lista. Não. Pensando bem, seria injustiça. Melhor estender a lista para os doze melhores. Ou quinze. Ou vinte.
           
Quanto ao vencedor, foi feita justiça. De fato, “Laranja Mecânica” é sério candidato a melhor filme em qualquer lista. Trata-se de uma combinação perfeita entre ficção, filosofia, imagem e som. Não é uma adaptação de obra literária, mas uma subversão. Anthony Burgess não ficou satisfeito com o final cínico, diferente do final redentor de seu livro. Algo bem parecido, diga-se de passagem, com o que Woody Allen fez com Crime e Castigo de Dostoiévski, em seu Crimes e Pecados. Também outra decisão muito feliz de Kubrick foi a de enfatizar a Nona do Beethoven em vez de desenhar um protagonista apreciador de música erudita em geral. A Nona Sinfonia de Beethoven é a mais bela música já criada por alguém, e sua utilização no filme, como pano de fundo a cenas de violência é altamente perturbadora (não me venham com a história de que a Nona é o hino oficial dos nazistas e blá-blá-blá, pois a “Ode à Alegria”, poema do Schiller cantado no quarto movimento, não tem nada de fascista, além do quê, acho difícil ter sido essa a intenção do Kubrick). Malcolm MacDowell está tão perfeito no papel do marginal Alex, que funcionou como uma maldição à sua carreira. Ele nunca mais fez nada que chegasse aos pés de sua atuação em Laranja Mecânica. Um detalhe interessante é o contido no DVD duplo do filme, recém lançado, e com bastante extras. Kubrick, após receber ameaças de morte, recolheu e proibiu o filme de ser exibido na Inglaterra. A liberação só aconteceu após sua morte. Quem diria? Laranja Mecânica já foi sinônimo de pornografia suja e violenta. Hoje é um clássico. E vencedor. 
 
 
O Poderoso Chefão — Francis Ford Coppola — 5 votos

 
Carlos Willian Leite 
           
Dizem que as respostas para todas as perguntas do mundo estão na Bíblia ou em O Poderoso Chefão. Mais do que o um filme sobre gângsters, a saga da família Corleone é estudo sociológico sobre a violência numa narrativa repleta de reviravoltas. O filme dirigido por Francis Ford Coppola, baseado no livro de Mario Puzo e com a trilha sonora composta por Nino Rota (famoso por ser autor de trilhas de filmes de Felini) apresenta um realista e chocante retrato de uma família mafiosa que controla negócios ilegais na Nova York dos anos 1940 e 1950, em constantes conflitos com outras famílias e dons. Don Corleone, o patriarca, é o último dos mafiosos que não aceita a chegada do tráfico de drogas. Para o velho chefão, esse tráfico não condiz com os códigos de honra da máfia. E isso é o estopim para uma guerra entre famílias. A sutileza e os duplos sentidos por trás dos diálogos deram solidez e sofisticação à trama. A interpretação de Marlon de Brando, é considerado por muitos críticos a melhor atuação da história do cinema. Surpreendentemente O Poderoso Chefão foi um filme de encomenda e mesmo assim Francis Ford Coppola o transformou num trabalho autoral.
 
Pulp Fiction — Quentin Tarantino — 4 votos

 
Frederico Carvalho Felipe  
           
Em um dos filmes mais ambiciosos e provocantes das últimas décadas, o diretor Quentin Tarantino reuniu grandes astros e estrelas do cinema como Samuel L. Jackson, John Travolta, Uma Thurman, Bruce Willis, Tim Roth, Rosanna Arquette, Maria de Medeiros, Christopher Walken e Harvey Keitel para dar vida a um mundo repleto de gângsters, assassinos triviais e diversos outros personagens que remetem ao submundo do crime.
           
Ambientado em Los Angeles, com uma trilha sonora estonteante, diálogos rápidos, narrativa cruzada, cultura pop, críticas ao estilo de vida americano e muito humor negro e perversidade, Pulp Fiction se tornou um fenômeno do cinema contemporâneo.
           
Elogiado pelo público e cultuado pela crítica em todo o mundo (além de levar a estatueta de Melhor Roteiro Original da Academia em 1994) Pulp Fiction é um filme que não basta ser alugado, deve ser adquirido — é uma obra essencial em qualquer videoteca de qualidade. 
 
 

 
Um Estranho no Ninho — Milos Forman — 3 votos
 
Um homem finge ser doente mental para trocar a cadeia por uma casa psiquiátrica. No local, interage com os pacientes e descobre que a enfermeira chefe é muito mais perigosa do que eles. 
 
Short Cuts — Robert Altman — 3 votos
 
O atropelamento de uma criança, casamentos em crise, pais e filhos que não se compreendem fazem parte dos oito contos de Raymond Carver que deu a Altman a indicação ao Oscar de Melhor Diretor.
 
Amor à Flor da Pele — Wong Kar Wai — 3 votos
 
Hong Kong, 1962. Um jornalista muda-se, com a esposa, para um novo apartamento. No local, conhece uma linda mulher casada. Aos poucos, eles se tornam amigos e descobrem que seus respectivos companheiros estão tendo um caso. 
 
1900 — Bernardo Bertolucci — 3 votos
 
O filme faz uma retrospectiva histórica da Itália desde o início do século XX até o término da Segunda Guerra Mundial, com base na vida de Olmo, filho bastardo de camponeses, e Alfredo, herdeiro de uma rica família de latifundiários. Apesar da amizade desde a infância, a origem social fala mais alto e os coloca em pólos antagônicos.
 
Trainspotting — Danny Boyle — 3 votos
 
Num subúrbio de Edimburgo, quatro jovens sem perspectivas mergulham no submundo para manter seu vício pela heroína.
 
A Doce Vida — Federico Fellini — 3 votos
 
A cultura italiana vista através da figura de um jornalista, amante inveterado, que se depara com a histeria do povo, resultado da possível ocorrência de um milagre.
 
Clube da Luta — David Fincher — 3 votos
 
Um executivo que trabalha como investigador de seguros sofre com problemas de insônia. Para tentar se curar, ele começa a freqüentar um clube da luta, onde pessoas amigas, se esmurram iolentamente. 

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:47 PM

Em defesa das biografias

publicado em

Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o Judiciário 
 

CLAUDIO WILLER

Décadas atrás, por volta de 1980, interessava-me por Dashiell Hammett, o pioneiro autor norte-americano de “O Falcão Maltês” e outras histórias de detetive. Escrevi um poema homenageando-o. Publiquei algumas páginas de ensaio (no então “Folhetim”, depois em mais alguns lugares). Interessava-me a inovação no gênero que Hammett promovera, enriquecendo-o: histórias de crime e detetive tornaram-se ambivalentes, menos lineares, e expressavam uma crítica e uma posição política (mais tarde, Hammett seria perseguido pelo macarthismo). Fascinava-me o mistério: como era possível, um detetive particular desempregado, sem formação literária, escrever tão bem? E como podia, saindo do nada, escrever uma obra em 12 anos, e depois silenciar, nunca mais produzir nada?

Li toda a obra de Hammett. Examinei biografias. Na época, duas. Uma, a biografia autorizada, de autoria de Diane Johnson: contou com a colaboração da companheira e sucessora de Hammett, a dramaturga Lilian Hellman. Não gostei. Achei piegas, prolixa, e resenhei sua edição brasileira de modo bem crítico (no “Leia”). A outra, a biografia não-autorizada, “The Shadow Man”, de Richard Lyman. Gostei. Mais concisa e precisa que a de Johnson (hoje, Lyman está na praça, reeditado — Diane Johnson sumiu de vista). No prefácio, Lyman reclama de Lilian Hellman; na biografia, deixa-a em má situação (nenhum demérito para sua importante dramaturgia, nem para o modo corajoso como, por sua vez, enfrentou o macarthismo).

Imaginemos que tudo isso tivesse acontecido no Brasil. Que Hammett, Hellman e Lyman fossem brasileiros. Que as editoras fossem brasileiras. Qual a chance de Hellman mover uma ação, pedindo a retirada de circulação da biografia por Lyman? E, nesse caso, qual a chance de uma ação dessas prosperar, dar certo? Enorme, a julgar pelas vicissitudes enfrentadas por Ruy Castro com sua biografia de Garrincha, e pelo biógrafo de Roberto Carlos, Paulo César de Araújo. E, agora, por Alaor Barbosa com “Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa” (LGE Editora, 2008).

Para quem ainda não soube: a biografia de Rosa por Alaor foi retirada de circulação pelo juiz da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro, atendendo a uma ação movida por Vilma Guimarães Rosa, sua filha e sucessora, alegando incorreções, erros do biógrafo, e pela editora de Rosa, a Nova Fronteira.

Parece estar-se firmando uma jurisprudência: aqui, no Brasil, biografia só pode circular se for autorizada pelo biografado ou por seus sucessores. Textualmente, na ação movida por Vilma Guimarães Rosa e pela Nova Fronteira (conforme o “Consultor Jurídico”): “A família, na qualidade de única responsável por zelar pela sua memória, deve ser consultada sobre qualquer utilização de sua imagem, nome e dados biográficos, com o objetivo de evitar abusos”.

É censura judicial. Apesar da censura ser expressamente proibida pela Constituição.

A censura no Brasil, hoje, não se restringe às biografias. Houve mostras de artes visuais interditadas. Tentativas de impedir que jornais publicassem notícias. Interpretações arbitrárias da legislação eleitoral, tentando cercear meios de comunicação. Há um projeto de regulamentação da internet que, aprovado, criaria o provedor informante policial e tornaria todo usuário da net culpado até prova em contrário. Recentemente, a 5 de outubro, foi noticiado e comentado (no suplemento “Mais!” da “Folha de S. Paulo”) o caso do professor demitido de um colégio por incluir poemas eróticos em seu blogue de poesia na internet. Tudo isso é censura tentando voltar pela porta dos fundos. Censores podem estar à sombra; mas não dormem.

Voltemos à hipótese dos Hammett, Hellman e Lyman brasileiros. Quais seriam as conseqüências de uma proibição de “The Shadow Man”? Uma delas, que eu ficaria sabendo menos sobre Hammett. Teria menos subsídios para pesquisá-lo. Eu e muito mais gente, é claro. Qualquer interessado no assunto. Haveria prejuízos à circulação de informação, à produção e transmissão do conhecimento.

Alguém poderia observar que minha argumentação não vale para as retiradas de circulação das biografias de Garrincha e Roberto Carlos, fora do campo dos estudos literários. Vale, sim. Obras sobre brasileiros de projeção informam sobre o Brasil. Interessam aos historiadores e sociólogos. E à crítica literária, na razão direta de seu valor literário, é claro.

Examinemos mais alguns casos de biografias. Daquelas relevantes, que efetivamente contribuíram para o conhecimento de algum autor.

No topo da minha lista, colocaria “Federico García Lorca — Uma Biografia”, de Ian Wilson. Obra monumental, modelo de biografia literária, referência obrigatória em estudos lorqueanos. Wilson enfrentou dificuldades e correu riscos para levar sua pesquisa a cabo. Franquistas não gostaram nem um pouco de alguém remexer em esqueletos da Guerra Civil Espanhola, desvendando como foi o assassinato de Lorca (a pesquisa de Gibson foi na década de 1960, com Franco ainda no poder).

Ian Wilson tampouco recuou diante da vida íntima de Lorca. Da sua pederastia. Conta como foi sua paixão e seu relacionamento com Salvador Dalí. E os casos, com Emílio Aladrén e outros rapazes.

Interessa, isso? Claro que sim. Lorca, homossexual em uma Espanha machista, integrista, conservadora: isso não tem a ver com seu desespero, a sensação de ser um estranho no mundo? Não está na gênese de seu auto-exílio, do qual resultou “O Poeta em Nova York”? De sua euforia ao visitar Cuba, onde era tolerado o amor entre homens, resultando em um poema em homenagem à ilha?

Voltemos àquele exercício de imaginação. Se tudo isso fosse no Brasil. Com algum sobrinho ou sobrinho-neto querendo preservar a intimidade de Lorca, sua reputação.

Querem mais cases de biografias? Então prossigamos. Richard Ellmann, o grande biógrafo de James Joyce e W. B. Yeats. Em “Joyce — a Biography”, um guia para a leitura de “Ulisses”, ao confrontá-lo com a “Odisséia”. E, também, o autor de “Ulisses” caindo de porre, dormindo nas ruas, autodestruindo-se. Omisso diante do nazismo e dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Desprezando Nora Barnacle, sua companheira. Joyce foi grande, literariamente. E foi mau caráter. Gênios podem ser complicados (pessoas comuns, também). E a filha de Joyce, irremediavelmente louca, que ele abandonou? Isso interessa? Em “Love’s Body” de Norman O. Brown (e certamente em outros autores: não sou especialista em Joyce), a hipótese: “Finnegan’s Wake” mimetiza a fala e o mundo esquizofrênico da filha de Joyce; é um acerto de contas com a loucura.

“Yeats — The Man and the Masks”, também de Ellmann. William Butler Yeats. Mago aos 30 anos de idade. Até casar-se, casto, ou quase isso. Aos 70 anos, celebridade, senador da Irlanda, Prêmio Nobel, após descobrir um precursor sucedâneo do Viagra, tornou-se um sátiro. Transava com todas as tietes. Belo final de vida. Que prato cheio para sucessores ciosos, empenhados na preservação da reputação ilibada de seus representados. Que prejuízo aos estudos literários, especialmente ao exame das relações entre esoterismo e criação poética, se fosse no Brasil.

Um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém. Tenho defendido biografias de escritores, contrapondo-me ao vezo formalista do ‘recorte’ da obra, dissociando-a da vida; e, conseqüentemente, excluindo biografias dos estudos literários. Justifico a utilização da informação biográfica pela crítica, tomando como ponto de partida o que diz Antonio Candido sobre a relação entre texto e contexto em “Literatura e Sociedade”, criticando tanto o formalismo quanto o sociologismo redutor, mecanicista, ao mostrar que o contexto está “dentro” da obra. E afirmando que: “A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição”. O que significa “do artista ‘e’ das condições sociais”? Este “e”, será conjuntivo ou disjuntivo? Autoria e biografia são históricas; portanto, um dado contextual. O artista está “dentro” da obra, nessa visão consistentemente dialética. Biografia, ponto de encontro do texto e do contexto.

Importa saber que Rimbaud efetivamente estudou alquimia na biblioteca de Charleville? Claro que sim. Justifica interpretações simbólicas de “Vogais” e outros de seus poemas. O que Baudelaire e seus amigos faziam no ateliê da Rue Pimondan? Mais ainda — vejam na mega-biografia de Baudelaire por Pichois e Ziegler, ou em “La Mystique” de Baudelaire de Jean Pommier, como viajar por paraísos artificiais está na gênese de “Correspondências” e de sua inovadora crítica de arte.

Imaginem, algum sucessor cioso proibindo que se dissesse que Baudelaire se drogava, era irresponsável com dinheiro e sifilítico... Alguém proibir de dizerem que Machado era epilético, que Raul Pompéia era doido e se matou, que Lima Barreto era alcoólatra, que....

Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o judiciário. Agora, temos o juiz dublê de crítico literário: dupla usurpação, do nosso direito á leitura, do nosso direito ao julgamento. O certo, na hipótese de haver mesmo tais erros e imprecisões, teria sido convocar algum dentre os nossos bons especialistas em Guimarães Rosa, pedir-lhe um parecer, e divulgá-lo.

No caudal de obras sobre Guimarães Rosa — merecidamente, o mais estudado autor brasileiro da segunda metade do século XX — o trabalho Alaor Barbosa acaba por sobressair-se, ao tornar-se tema de debate jurídico. É bom lembrar: em 1956, ao ser liberado após uma tentativa de interdição, “Howl and other poems” (Uivo e Outros Poemas) de Allen Ginsberg imediatamente teve 250.000 exemplares vendidos. A censura, inadvertidamente, contribuiu para produzir a geração beat.

“Tutela antecipada”, o nome da medida que retirou esta obra de Alaor Barbosa de circulação: que termo antipático. Recuso-me a ser tutelado. Não precisa: sou adulto, minhas faculdades mentais estão em perfeito estado.

É isso o que a censura faz: equipara leitores e espectadores a um bando de retardados, incapazes de discernir, negando-lhes a capacidade de julgar ao subtrair-lhes o acesso á informação. Censura, em qualquer uma de suas modalidades, é um múltiplo desrespeito: à obra, a seu autor, ao leitor, à sociedade toda.
 

CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta, tradutor, doutor em Letras, ex-presidente e atual conselheiro da UBE — União Brasileira de Escritores.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:45 PM

Coelho Neto é entrevistado por João do Rio

publicado em
A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário. Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, — o homem que joga com maior número de vocábulos. Alguém já lhe calculou o léxico em 20.000 palavras

 

João do Rio
Entrevista feita em dia incerto de junho de 1907
 
Dez horas da manhã. O grande artista escreve. A sala forrada de cinza está atravancada de altas estantes de canela, de largos divãs indianos, de vastas rocking-chairs de couro lavrado. Na secretária, um frasco de neurosina, um volume de Dumas, um pote de faiança com fumo rio-novo. Ao fundo, uma coleção de retratos de amigos. Muitos estão mortos. Os amigos que morrem levam para a sepultura um pedaço da nossa própria vida... A atmosfera morna é de inteira quietação. Na rua, o mormaço do céu, afogado em nuvens, parece abater as árvores; na sala ouve-se apenas o imperceptível cicio da pena no papel de linho, enquanto um gato, muito gordo, muito branco, muito peludo, lambe devagar uma das patas. Coelho Neto levanta-se normalmente às cinco da manhã, senta-se a escrever às seis, trabalha até às doze, vai para o duche frio, almoça e às três da tarde recomeça para só terminar quando se acendem na cidade as primeiras luzes. Há quatro horas já, impalpável e divina, a fantasia impele a sua pena de aço.
 
— Pode-se falar? O artista levanta a cabeça.
 
— Oh! tu? entra...
 
Aproveito e descanso um pouco. Estou a escrever agora uma peça para a companhia Lucinda e Christiano. A princípio foi um prazer. Mas eu tenho um juiz, o meu primeiro público, minha mulher. Outro dia sentei-a naquela cadeira e fi-la ouvir um ato. Sabes a sua opinião? É uma peça perversa, que me vai criar uma porção de inimizades! Verdade é que não há nada de mais atual. Estudo aspectos da nossa sociedade ainda por estudar no teatro, e entre os quais o mundo dos decaídos e a célebre questão dos casamentos... Minha mulher obrigou-me a rasgar uma cena inteira, entre um velho, que é o elemento honesto, representativo do nosso antigo fundo moral, e o grupo moderno.
 
Senta-te. Tomas café?
 
Coelho Neto está de pijama branco, meias de seda, escarpins de pelica. Senta-se um instante.
 
— Vamos ver o questionário. Deve estar numa destas gavetas.
 
Procura-o. O papel branco em breve aparece dobrado em dois, e eu prevejo que daquelas simples perguntas a imaginação de Coelho Neto fará surgir a maravilha e o encanto. Se é de pasmar o brilho, a cintilação de estilo no escritor, a faculdade da imagem, o poder evocador, o comentário agudo e a torrencial fantasia do seu claro espírito como que se acentuam na conversa. Neto conversa irresistivelmente, caleidoscopicamente. A palavra vive no seu lábio com um poder formidável e consciente. Há momentos em que se tem, pela harmonia dos períodos, a rápida impressão dos malabaristas jogando bolas de metal de pesos diferentes, e cada fase sua em torno do assunto traz, numa palpitação de encantos, a constante visão dos cultos mortos e dos deuses. Coelho Neto é, de resto, de uma rude franqueza meridional. 
 
Para sua formação literária, quais os autores que mais contribuíram?
 
— Para a minha formação literária, começa ele, não contribuíram autores, contribuíram pessoas. Até hoje sofro a influência do primeiro período da minha vida no sertão. Foram as histórias, as lendas, os contos ouvidos em criança, histórias de negros cheias de pavores, lendas de caboclos palpitando encantamentos, contos de homens brancos, a fantasia do sol, o perfume das florestas, o sonho dos civilizados... Nunca mais essa mistura de ideais e de raças deixou de predominar, e até hoje se faz sentir no meu ecletismo. A minha fantasia é o resultado da alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. É do choque permanente entre esse fundo complexo e a cultura literária que decorre toda a minha obra, e daí Baladilhas, Rapsódias, livros de uma fatura absolutamente especial.
 
— Há, entretanto, uma parte da sua obra...
 
— Sim, a parte fescenina. É aí, no Fruto Proibido, que começo a ter a responsabilidade do meu trabalho. O amor pelas lendas, pelo fantástico ficou porém. O livro que mais me impressionou foi As Mil e Uma Noites. Depois toda a obra de Shakespeare, o Dom Quixote, os poetas gregos, Plutarco, que releio constantemente... 
 
— E dos modernos?
 
— Flaubert, o admirável Maupassant, Taine, que é a base da minha visão crítica, e os ingleses contemporâneos, com especialidade os dramaturgos.
 
— Quanto a Portugal?
 
— Todos os clássicos, Eça de Queirós... Eu estudo com grande amor a língua portuguesa, mas sou pela liberdade, fujo aos estudos propriamente chamados clásssico-gramaticais. As línguas evoluem, e eu admito, como necessidade de representação de idéias, o estrangeirismo. Tenho a respeito da palavra uma teoria: a palavra falada é a palavra viva, livre, solta de todas as cadeias, capaz de por si só definir, pintar, colorir; a palavra escrita é a palavra agrilhoada, morta, sem a expressão imediata. A primeira tem a intenção que é tudo e a inflexão que é a realidade da intenção. Toma por exemplo a
 
palavra Deus. Deus tem uma cor no juramento solene, outra no auge do pavor, outra na ironia, tem todas as cambiantes do sentimento, graças à inflexão e, às vezes, apesar de sagrada, falta-lhe moralidade, como quando uma rapariga, comida de beijos pelo amante, murmura trêmula: — Meu Deus! 
 
A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário. Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, — o homem que joga com maior número de vocábulos. Alguém já lhe calculou o léxico em 20.000 palavras.
 
— A questão não é de vocabulário; é de disciplina. Os russos têm uma porção de dicionários de soldados e para nada lhes serve o possuí-los. Eu consegui disciplinar o vocabulário. Dada um certa impressão, concluída uma idéia, posso sentarme e escrever. A idéia sai vestida e os termos exatos juntam-se no perfeito reflexo da impressão. Estou a tomar uns ares dogmáticos... Perdoa. É quase uma confissão. Vem desse esforço, que foi a pouco e pouco desbastando do meu estilo os guizos de muitos adjetivos para substituí-los por um só, exato, o emprego de certos termos populares como sarrilho e de
 
palavras desejosas de dar a idéia mais onomatopaica do fato, como buchorno com a significação de mormaço — dois substantivos vítimas em tempo da crítica... Acusam-me de preciosismo, meu caro amigo. Não sabem eles que o artista é o resultado de mil influências desencontradas...
 
— Qual dos seus volumes prefere?
 
— O Pelo Amor! Não se admire. Prefiro o Pelo Amor! por uma questão de momento. Ainda naquele tempo julgava-me capaz de alguma coisa no Brasil. Foi uma batalha perdida, mas de que me lembro com saudades, como certos generais velhos recordam nostálgicos as derrotas. Em todo o caso foi uma perda que acentuou a cisão e determinou uma corrente literária. 
 
— Mas só o Pelo Amor?
 
— E no romance Inverno em Flor. A verdade é que, enquanto escrevo, sinto um grande prazer e depois fico assustado com os defeitos. Tenho um processo de trabalho constante. Só as novelas foram acabadas e retocadas antes de serem entregues aos editores. O resto da minha obra tem sido escrito dia a dia para os jornais. Assim fiz A Capital Federal, O Rei Fantasma, o Turbilhão.
 
— Mas é impossível!
 
— É a verdade. Devo muito à Gazeta e a O País, que receberam os meus primeiros ensaios. A crítica, quando foram dados à luz alguns volumes meus com intervalos apenas de dias, gritou contra o que ela chamava mercenarismo. Não sou infelizmente conhecido nem do público nem da crítica. O público não sabe a capacidade do meu trabalho, a crítica ignora por que trabalho tanto. A publicação de O Rajá de Pendjab levantou então uma celeuma. Não sabem eles que, subordinado o estilo à concepção, a pena trabalha quase mecanicamente, não querem recordar que muitas obras-primas foram escritas em dias como o Hamlet de Shakespeare e principalmente recusam compreender a necessidade de um escritor que resolve viver apenas da própria pena.
 
Não conheces a história do Rajá? Eu entrava na Gazeta precisando de dinheiro e encontrei o Araújo zangado. Por quê? Tinham perdido um novo e sensacional folhetim. Não se incomode, doutor, faço-o eu. Qual! Tens muitas psicologias... Faço sem psicologias! Fomos dali tomar um sorvete. Então fazes? O príncipe encantado serve? Também é um título velho. O rajá seja, o Rajá de Pendjab. Para depois de amanhã? Para depois. E a reclame foi feita para um romancista francês, de que a Gazeta deu o retrato reproduzindo a cara do Humfreys...
 
Rimos os dois alguns instantes. Coelho Neto continua:
 
— A crítica não fala só da abundância de atavios, do mercenarismo com que confunde a realização imediata de uma idéia acabada, fala também do número dos meus volumes.
 
Neste país, onde se tem, não a preguiça mental, mas a preguiça física que inibe de escrever, o Sr. Coelho Neto tem cerca de trinta volumes. Pois, não senhor. Coelho Neto tem acabados 50 volumes.
 
 — Cinqüenta?
 
— Sim, e a todos prezo, sim, cinqüenta! Bastava que em cada um houvesse uma página digna para que os publicasse. Levanta-se maquinalmente para mostrar-me a lista dos volumes a aparecer. Nesse momento febril, com o olhar brilhante, o lábio grosso, cheio de juventude e de esforço, é impossível deixar de admirá-lo.
 
— Sou um trapista do trabalho, a bête de somme dos franceses — quero, e mourejo como um servo da gleba... Ah! meu amigo, o artista não é o zoilo das confeitarias à cata de jantar. Preciso de um relativo conforto, preciso rodear os meus filhos de bem- estar. Trabalho! Creio que só a tenacidade e o querer têm obstado a minha morte. Hei de ir até o fim com o prazer de ter pago sempre as minhas dívidas...
 
Ficamos um tempo calados. Neto mostra-me as provas dos seus livros, agora editados em Portugal — A Treva, Água de Juventa, o Mistério do Natal, a Pastoral. Que extraordinária atividade! Que prodigioso cérebro! 
 
— E quanto a escolas, a lutas?
 
— Não há nada. Vejo no Brasil uma coisa curiosa: dois grupos, um muito pequeno, dos que podem; outro, enorme, dos que não podem. Lembram-me a história da princesa Parizat nas Mil e uma noites. No alto da montanha havia três talismãs: a árvore que canta, o pássaro que fala e a água amarela. Quem subisse até lá seria possuidor de todos três, mas o caminho era aspérrimo e as pedras faziam um estranho clamar. Quem atendesse ao chamado das pedras em pedras se transformava. Só a princesa chegou ao pico da montanha. O clamar das pedras é aqui o nefelibatismo, o ocultismo, o criticismo, o torcido, o escabujamento, o histerismo... Acho, entretanto, que chegaremos a ter uma Escola Brasileira, não o indianismo mas idéia brasileira, o costume brasileiro, numa língua que terá a clareza do Eça, e a maneira francesa na mais plástica de todas as línguas — a língua portuguesa. Para isso, é preciso antes de tudo o prestigio oficial. A transformação farse-á violentamente, porque nós somos um povo de explosões. No dia em que a proteção oficial for uma realidade, o público admirará a arte no teatro e no romance, como se encaminhou para a Avenida, e o artista, tendo-se deitado num grabato, acordará num leito de púrpura.
 
— Falei-lhe da literatura dos Estados.
 
— O Euclides da Cunha já dividiu magistralmente o norte e o sul. É incontestável. Daqui para alguns anos teremos duas literaturas distintas: a dos trovadores ao norte, a dos troveiros ao sul. O norte não é belicoso. Um profundo lirismo vive na sua alma, e tanto as alegrias como as dores são sempre postas em canto. Daquele pedaço de terra o sol nunca de todo se arreda, porque, se a luz foge, fica o calor acalentando o solo, as árvores e os céus. Os homens vivem com os elementos, são dispersivos e crêem nas divindades. No sul, ao contrário, a terra fria faz a concentração, a luta, e os elementos estrangeiros vão se acentuando. O norte é virgem e bravio; ao sul, os homens de músculos brancos e cabelos de metal vão escorraçando a raça primitiva. O norte, para onde emigram os pretos, os caboclos e os descendentes deles, será o reservatório fatal da grande poesia natural do Brasil. Prevejo no futuro o Rio como um grande celeiro e a divisão da literatura em duas literaturas distintas — a do sertão e a da campina...
 
Eu interrompi sincero: 
 
— Como é difícil ser céptico ao lado do corifeu da esperança!... Havia na sala confortável o encanto das nobres emoções. Neto parou.
 
— Falemos então do jornalismo, já que é preciso. O jornalismo foi sempre, no Brasil, político. Cansado o público, a mania politiqueira foi atenuada pelos processos industriais. O jornal deixou de ser a urna para ser...
 
— Para ser?
 
— ... uma oficina. Tem sido para a nossa literatura um grande bem relativamente. Como nunca teve audácia para educar, aceita um trabalho, não pelo gênio do autor, mas sempre de acordo com o agrado do público. Às vezes é perverso.
 
A decadência do teatro é devida exclusivamente ao jornal e aos próprios escritores dramáticos jornalistas. O público é um animal que se educa. A princípio ia aos teatros bons. Veio o anúncio, o balcão dominou, começaram os incentivos para o trololó. Hoje o público está acostumado e não quer outra coisa. Quanto à literatura que publicamos nos jornais, lembra os livros impressos no tempo do Santo-Ofício. Não tem o visto da Inquisição, mas tem o visto do redator-chefe. 
 
— Uma última pergunta: é religioso?
 
Muito. Não sei se creio em Deus Cristo , se em Deus-natureza, mas creio no princípio imanente da divindade. E por isto, talvez seja neste país um dos raros homens que esperam... Tornou a sentar-se, pôs-se a escrever. Pela janela aberta entrava o dia abafado e só o gato impassível, muito gordo, muito branco, muito peludo, olhava os céus com um perturbado olhar da sua verde pupila cor de topázio verde... 
 
*Mantida a grafia original.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:38 PM

Recordações de infância numa colónia portuguesa em África

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A polícia-política portuguesa, de então, e grosso modo os coloniais, frisavam que não iriam admitir em África que "mulatos" imitassem os "mulatos" do Brasil. Os autores brasileiros não eram vistos com bons olhos pela polícia política de Salazar  

 

João Craveirinha

O Professor Adelto Gonçalves da USP, pediu-me algumas linhas sobre o ilustre Machado de Assis (1839 —1908). É gratificante, porque através de Assis faço um rewind às memórias do "antigamente".

De facto conheço algo de Machado de Assis...sim senhor...de ouvir em casa desde infante pela geração de meu pai João (1920 —1997) e de meu tio, o poeta José (1922—2003). Tinham alguns livros dele: "Quincas Borba"; "Esaú e Jacó" (com a problemática da escravatura). Mas "Iaiá Garcia", "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), eram os títulos favoritos de meu pai João sénior, um especialista em língua e literatura portuguesas e admirador da literatura brasileira. Mesmo com as restrições de certa literatura do Brasil lá chegavam à colónia de Moçambique autores brasileiros e traduções. Algumas vezes, certos livros do Brasil, eram retirados das livrarias. Os autores brasileiros não eram vistos com bons olhos pela polícia política de Salazar. Exceptuando a revista "O Cruzeiro" de Assis Chateaubriand, 1892 —1968 (amigo do ditador português, Oliveira Salazar, 1889—1970).

A questão mestiça nunca foi referenciada positivamente

Outro aspecto, de identificação do mestiço de Moçambique com o Brasil e os EUA, era o factor mimético: Machado de Assis, filho de um mestiço pintor de casas (Francisco José de Assis, descendente de escravos alforriados do lado materno suponho) e de uma lavadeira açoriana-portuguesa (Maria Leopoldina Machado), ambos humildes. Uma mestiçagem luso-africana no Brasil, só que o "macho dominante" era o elo mais fraco do ponto de vista social: o mestiço.

Nas colónias africanas, mesmo em casos de relacionamentos do homem europeu (dominante) mulher africana (submetida) não eram aprovados socialmente. Daí a razão de raros casamentos mistos, oficiais. Impensável homem negro-mestiço com mulher branca. Eis a razão devido à extrapolação, da rejeição em Moçambique, a um Machado de Assis por temerem contaminação quer em ideais liberais quer no olhar marginalizado "do outro" para com as mulheres soit disant brancas — tanto as vindas de Portugal quer as filhas nascidas em África (pior). Este preconceito iria se reflectir inclusive na literatura e na poesia em que (uns) mesmo utilizando a língua portuguesa se demarcariam identificando com os valores negro-africanos (baNto) e outros com os portugueses ainda que reivindicando um espaço cultural sui generis dentro de Moçambique. Ora na literatura (início séc. XX) desde os pioneiros irmãos Albasines (João e José) a um Rui de Noronha (outro mestiço) passando por um José Craveirinha irrompendo pela negritude até às pioneiras do "gender", Noémia de Sousa na poesia e Bertina Lopes na pintura, há uma tónica comum em todos; são mestiços e seus modelos intelectuais eram os mestiços do BRASIL e mais os afros dos EUA (pela rebeldia). Em ambos os casos, descendentes de escravos: Machado de Assis, William Wells Brown (1814—1884), Frederick Douglass (1845—1895), citando os mais antigos, os dois últimos mais empenhados na causa anti-esclavagista além de escritores e editores.  

Literatura e autores do Brasil vistos com desconfiança

Ora estes aspectos genealógicos incomodavam os portugueses coloniais em Moçambique, por "serem maus exemplos". A geração de meus pais tinha dois modelos de negro — mestiços como referência: os brasileiros e os norte-americanos. Isto porque a geração deles era uma geração silenciada na sua dignidade de valores da fusão afro-europeia. O poeta José Craveirinha "cantou": "música de mulato asa amarrada", ele que era filho de uma negra moçambicana e de um branco português, sabia porque dizia isso.

O termo pejorativo mulato, no século XV na península ibérica, teria surgido do tráfico de escravos para classificar a besta de carga "parda" do cruzamento do cavalo superior (o branco) com a burra inferior (a negra). Resultando num mulato, macho de mula. Impensável ao contrário: homem negro com mulher branca. Os dicionários de língua portuguesa, editados em Portugal, somente depois de 1974 colocavam timidamente essa última possibilidade. Dentro deste critério colonial, Machado de Assis, eventualmente, seria catalogado de "cabrito" por ser filho de "mulato" com "branca", por tal "menos besta de carga" e mais próximo de branco.

A intelectualidade soit disant branca, portuguesa, de Moçambique rejeitava figuras como Machado de Assis pelo seu nível intelectual e postura de dignidade de um mestiço (ainda que mais claro) com a "ousadia" de casar com uma branca portuguesa de família conhecida do Porto (Carolina Xavier de Novais). Figuras mestiças como, Machado de Assis, eram para as autoridades coloniais em África, um mau exemplo para o "negro assimilado" considerado não indígena por ter a escolaridade primária e em particular para o mestiço em Moçambique (nomeadamente na capital colonial, cidade de Lourenço Marques, edificada no século XIX na terra dos baNto do clã dos Mpfumos. Situação de discriminação era pior na cidade da Beira).

Sempre existiu uma profunda clivagem entre o suburbano negro-mestiço e a cidade dita branca dos reinóis vindos da metrópole colonial e os filhos desses colonos portugueses de Moçambique. Era notória a adesão a influências quer da Rodésia quer da África do Sul do apartheid (1950 a 1970). Sobretudo a partir do pós 2ª Guerra Mundial, quando os caminhos da identidade cultural do negro-mestiço em Moçambique se definiriam mais acentuadamente através do desporto e da literatura nas décadas de 1940 a 1960. No período da luta pela independência a partir de 1962 a 1974 seria totalmente definido o assumir de uma nova nacionalidade na forja.

Os intelectuais brancos portugueses de Moçambique (crescidos ou nascidos) nunca se identificaram com a cultura negra-africana ou baNto se preferirem — um universo de 99% do total da população. Para esse núcleo europeu ou deles descendentes, válido era enaltecer os valores europeus numa visão de um mundo africano sem africanismos. Evidentemente que em tudo, há sempre raras excepções.

JOÃO CRAVEIRINHA é escritor e pintor. Nasceu em Moçambique e mora atualmente em Portugal

Nota: Em Moçambique no início da independência, prevaleceu o conceito norte-americano do "one drop rule" (regra de uma gota negra no sangue) do séc. XIX…em que deixava de haver mestiços para todos serem blacks por mais claros que fossem. Aliás está a entrar no Brasil actualmente essa corrente. No entanto em Moçambique, actualmente, está a haver um retrocesso conceptual em que a juventude soit disant mestiça reivindica o epíteto de mestiço - mulato (independente do tipo de mestiçagem). Por outro lado temos o exemplo dos mestiços sul-africanos (sobretudo de Cape Town) que se intitulam de "browns" e rejeitam ser "blacks"…Enfim coisas de situações anteriores coloniais…

Observação: o leitor deve ter percebido que, em respeito ao escritor, manteve a grafia original do texto. O título, portanto, não tem erro, como se poderia pensar.

 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 06:25 PM

Filmes

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Cabra Cega
, (2004). Dirigido por Toni Venturi

Do mesmo diretor do excelente Latitude Zero (que também tem Débora Duboc como premiada atriz principal), Cabra-Cega é um bom representante da atual ótima safra de nacionais. Trata da angústia de um revolucionário na época da ditadura ferido em combate e escondido em um apartamento de um colaborador. Angústia da "prisão" em que se encontra e angústia por perceber que seu lado na guerra está perdendo (tema semelhante ao excepcional Na teia do sol, de Menalton Braff). O finalzinho é meio piegas, com a "redenção" do colaborador, até então resistente a pegar em armas.

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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:47 PM

Filmes

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Casa Vazia
, (2004). Dirigido por Kim Ki Duk

"É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho."


Tae Suk, tem um costume um tanto quanto incomum: invade casas quando seus respectivos donos estão viajando. Não rouba nada, apenas come alguma coisa que está na geladeira e lava algumas roupas sujas. Certo dia, em uma de suas aventuras, é surpreendido por Sun Hwa, ex-modelo que tem uma vida bastante infeliz ao lado do marido violento. Cansada de ser tratada como objeto, Sun Hwa resolve fugir com Tae Suk e passa a acompanhá-lo em suas invasões cotidianas.

E assim começa uma belíssima estória, escrita e dirigida pelo diretor sul-coreano Kim Ki Duk, um explorador das infinitas possibilidades da linguagem cinematográfica.

Na ausência de diálogos entre os protagonistas, o diretor opta por transmitir tudo através das imagens, usando e abusando de símbolos, brincando com a capacidade de interpretação dos espectadores. O título Casa Vazia é uma metáfora da vida que levamos, uma vida que não nos pertence: ele, invadindo residências alheias, ela vivendo um casamento que detesta e nós levando uma vida onde não conseguimos nos enxergar, tentando preencher a qualquer custo o nosso vazio existencial.

O final é extremamente surpreendente e poético.
 

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POR EM 07/10/2008 ÀS 03:27 PM

Autores e livros

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Um Nobel para o universal Philip Roth


Na quinta-feira, 9, a Academia Sueca divulgará o Prêmio Nobel de Literatura de 2008. Os escritores mais cotados são o francês Jean-Marie Le Clezio, o israelense Amós Oz, o americano Philip Roth e o japonês Haruki Murakami.

Se derem o Nobel a Le Clezio é porque querem fazer renascer a combalida literatura francesa. Ele não é ruim, é apenas filho da mediocracia do país de Balzac. Os franceses, desde Proust e Gide, não produzem nada de certa qualidade. Só um lixão incompreensível, experimentos de monturo, firulas literárias, e polemistas artificiais. Uma tristeza dos diabos. Talvez Satã tenha mesmo culpa, mas desconfio que os franceses copiaram James Joyce, via novo romance, e deram com os burros n´água. Joyce tem o condão de esterilizar seus imitadores. Faulkner, felizmente, não é uma imitação — é um par, digamos assim; num dia de mais ousadia, direi que é superior a Joyce, mas, em literatura, pega mal esse discurso de "superior" e "inferior", de "evolução". Se voltarem a Flaubert e a Proust, não para copiarem sua prosa, e sim para reinventá-la, se isto é possível, talvez descubram, mais uma vez, o caminho das Índias da qualidade literária. A França, em termos de literatura, está morta, como a Inglaterra, em termos coloniais. Mas, em termos de literatura, a Inglaterra é, hoje, a metrópole do mundo. Quem tem Ian McEwan, amigos, tem Deus. Por falar nisso, daria o Nobel a McEwan, pelo romance "Reparação", sua principal obra. Daria e aplaudiria, soltando foguetes. Assim como daria a Martin Amis, pela ótima prosa sobre o stalinismo. Amis escreveu um romance russo, "Casa de Encontros", com a leveza dos ingleses. Gostaria, muito, de saber como foi sua recepção na Rússia e nos outros países da extinta União Soviética.

O judeu Amós Oz é um escritor esplêndido, mas pode esperar um pouquinho mais e abrir espaço para o transcendental (ele detestaria a palavra) Philip Roth, autor dos seminais "O Complexo de Portnoy" e "O Teatro de Sabbath". Eu daria o Nobel a Roth, sem pensar meia vez. É o meu nome para este ano. Friso que Roth está se portando como esquerdista e que isto, para a Academia Sueca, é adequado. De bom-tom. Os politicamente corretos, que chamo de politicamente burricos, são prestigiados pelos suecos. Roth apóia o negro Barack Obama para presidente dos Estados Unidos. Se a Academia Sueca prestigiá-lo com o Nobel estará dando uma mãozinha a Obama. Por mais que não aprove Obama, espécie de embuste americano, fico na torcida pelo sucesso de Roth.

Depois de Roth, e acima um tiquinho de Amós Oz e David Grossman (que prezo pra caramba; "Desvario" é um belo livro, belíssimo. "Ver: Amor" é uma obra-prima — melhor do que muito do que Roth tem publicado nos últimos anos), exijo o Nobel para, empatados, Mario Vargas Llosa ou John Updike. Pelo conjunto da obra. São escritores notáveis, até brilhantes, e críticos do primeiro time. Updike escreve muito bem sobre variados assuntos, inclusive, e talvez sobretudo, artes plásticas — área na qual proliferam pseudos (alguns extorquindo os coitados dos artistas plásticos).

José Saramago, o escritor mais chato e pedestre de todos os tempos, ganhou o Nobel e, com isso, atrapalhou António Lobo Antunes, que escreve muito melhor, de modo mais literário e inventivo. Lobo Antunes talvez não ganhe o Nobel, porque dificilmente a Academia Sueca dará dois prêmios para autores de língua portuguesa num curto espaço de tempo. Lobo Antunes é o Roth de Portugal, quer dizer, aquele escritor nato, que não se consagrou às custas da patota comunista. Saramago é um filho tardio da Guerra Fria, escreve literatura como se fizesse relatórios para o PC. É um Jorge Amado um tantinho mais sofisticado.

Há outras apostas, às quais eu daria meu voto, sem medo de cometer injustiça: Don DeLillo e Thomas Pynchon. Este, autor difícil.  Joyce Carol Oates, uma das poucas mulheres cotadas, senão a única, escreve bem, mas, não sei por quê, torço o nariz para sua prosa, e não conheço a sua poesia.

Se Murakami ganhar, deixo de ler literatura por dois anos.

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POR EM 07/10/2008 ÀS 09:18 AM

Filmes

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Zona Mortal,
(2005). Dirigido por Aku Louhimies

Se você espera algum tipo de redenção por parte de algum personagem do filme, esqueça. Se você espera algum final feliz esqueça também. Com a sua narrativa não linear, permeada por sexo, depressão, drogas, desemprego, traição e tudo o que de pior pode acontecer na vida de um ser humano, Zona Mortal consegue, baseando-se na Teoria do Caos, incitar reflexões acerca do alcance de nossas ações e sobre nossa responsabilidade para com o próximo. Um filme negro e triste, para o qual contribui a escuridão do inverno finlandês e dos ambientes mal iluminados.

Link para o imdb

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