revista bula
POR EM 12/06/2009 ÀS 11:20 AM

Pela porta dos fundos

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O início daquele jogo foi uma frase que me incendiou. O nosso jogo. No fim da peça, passei pela frente de seu camarim, e ela me disse não vivo sem você. Seu riso quente, então, invadiu minhas veias, ocupou cada célula do meu corpo. Não vivo sem você. Sem coragem para entrar, fiquei parado no limiar da porta fruindo até a última gota do olhar com que ela me amarrava ali. Tentei dizer alguma coisa para dar a entender que tinha ouvido sua frase e que seu riso já ocupava muitas de minhas noites, mas não con-segui mover os lábios, como não conseguia mover os pés.

Só bem mais tarde descobri ter entrado em um jogo julgando tratar-se da vida.

Meses depois, quando Diana disse hoje você me salvou mais uma vez, percebi que fora para mim, e só para mim, que a tinha salvado. Esbarrava em minha consciência um sen-timento de posse até então desconhecido. Diana era uma pertença a meu alcance. Sem minha voz, que só ela ouvia, a peça teria desandado. Foi a primeira vez que fingi estar jogando, mas o fingimento era apenas dos lábios, porque eu fingia que estava fingindo. Enquanto eu estiver por perto, foi minha resposta, você está salva. Nós dois misturamos nossos risos, e pensei que misturávamos nossas vidas. Até então, eu era uma estátua para seus ditos graciosos. E com que encanto, então, Diana os proferia, sabendo que me embaraçava − um vegetal em combustão.

Diana me amava, eu aparecia em seus sonhos, ela não podia viver sem mim. Quantas vezes ouvi tudo isso, meu sangue a ebulir, caudal de que mal dava conta o coração. Os outros integrantes da companhia sorriam para mim ao se referirem àquele caso entre nós dois. E eu, com a voz clara de um riacho entre pedras, e a dicção pura que jamais perdeu um só fonema, me encolhia sem nada dizer a meu favor. Sorvia tão-somente com ex-tremo gosto aquelas alusões cheias de malícia e que a meu ver justificavam minhas es-peranças.   

Houve meses em que era sacrifício imenso ficar na gaiola do ponto até tarde da noite. Mas era um sacrifício a que me dedicava sem relutância, pois era dele que emanava minha certeza de estar vivo. Minhas vistas se desgastaram na obscuridade em que era forçado a participar do espetáculo. Caí em desespero à simples idéia de me separar do palco. Um par de óculos foi que me restituiu a confiança em mim mesmo.

Restabelecida a rotina, meu único sofrimento acontecia nos dias de folga da companhia. Ficava em casa perdido, sem saber como passar o tempo vazio da espera, sem interesse por nada que não fosse a contagem de cada minuto que me separava de Diana. Da sala para a cozinha, da cozinha para a varanda, me movia num mundo descolorido, nem frio nem quente, um mundo de tempo feito de uma pasta viscosa e grossa, caldo lento e pe-sado.

Cheguei a desconfiar, por algum tempo, da sinceridade daqueles sorrisos. Como imagi-nar que todos, atores e atrizes, tivessem entrado em um jogo, ainda que como meros coadjuvantes? Para mim era mais conveniente acreditar na pureza da alegria com que me cumprimentavam piscando olhos maliciosos.

Na semana passada nos cruzamos nos bastidores depois de uma noite infeliz de Diana. Ela não conseguia se concentrar e pelo menos umas cinco vezes se pendurou em meus lábios, de olhos e ouvidos abertos. Desconheço suas razões, como não sei quase nada de sua vida. O que vivíamos debaixo dos spots já me satisfazia. Naquela noite estávamos todos cansados por causa da tensão provocada por um desempenho apenas medíocre. Diana, suada e de olheiras roxas, me disse assim na minha cara você é o homem da mi-nha vida. Disse e continuou andando na direção do camarim. Voltei e segui atrás dela. Ninguém diz impunemente uma coisa dessas, foi o que pensei.

Ela mal tinha entrado, a porta ainda aberta, e mergulhei no gesto mais ousado de minha vida. Sim, mergulhei, pois foi como se meu corpo todo, meus sentidos, estivessem na-quele momento penetrando em um elemento denso e perigoso, do qual nem sempre se pode sair com vida. Eu não conseguia respirar direito e achei que fosse morrer sufocado. Entrei também e tranquei a porta. Seu olhar de espanto me abalou, mas não me fez de-sistir. Peguei-a pelos dois braços e, mais perto de seu rosto do que jamais conseguira chegar, disse com a voz distorcida pela emoção, apesar da articulação perfeita de todas as sílabas, como eu sempre soube fazer, que queria casar com ela.

O que se seguiu, oh suor que não larga mais minhas mãos, oh nuvem que escureceu meu céu e minha vida, o que se seguiu não consigo lembrar claramente, As palavras e os gestos, a expressão de seu rosto, tudo me fez perder a noção de onde estava e o que fazia. Na luz mais forte do camarim, nos espelhos que nos rodeavam, nas flores mur-chas que tresandavam a cemitério, em tudo só consegui mergulhar como arrastado por um vórtice a que não se pode resistir. Eu me afogava. Você não se enxerga?, foi o últi-mo grito que ainda ouvi com alguma clareza. Seus olhos aterrorizados me enlamearam de ódio de alto a baixo.

Não sei como nem quando cheguei em casa. Ruas noturnas e silenciosas testemunharam meus passos incertos, recolheram muitas de minhas lágrimas. Eu queria morrer, mas não sabia como se faz isso. Também não sei se era mesmo morrer que eu queria. Às vezes, ao cobrar uma esquina, mudando a paisagem, me ocorriam idéias sinistras e me parecia que matar seria muito melhor do que morrer. Cheguei sujo e cansado, e do jeito que cheguei me atirei na cama. E dormi como quem acaba de morrer: um sono escuro e vazio.

Também não sei a que horas acordei no dia seguinte. O céu estava encoberto, as árvores da minha rua tinham adquirido esta cor de palha seca das coisas que morrem. Nenhum som dos muitos que sempre amei da cidade me ligavam ao mundo. A dor que andei derramando pelas ruas à noite transformou-se num clarão do ódio inventado pela desilu-são.

Tomei um copo de água gelada e sentei numa cadeira perto da mesa da cozinha. Olhava minhas mãos imóveis sobre a tampa da mesa e não entendia que elas fizessem parte de mim. Que utilidade teria comer, seguir a velha rotina de anos, indo à padaria logo de-pois de levantar, botar água a ferver para passar um café, ler os jornais, repassar os tex-tos da noite?

O sol bateu na janela e atravessou a cortina. Foi um raio dele que me atingiu os olhos e o cérebro. Tomei outro copo de água e corri à sala, onde me aguardava uma cópia da “Casa das Bonecas”, cuja estréia se daria no próximo fim de semana. Como geralmente fraco, tinha acompanhado os últimos ensaios para observar os principais obstáculos en-contrados pela memória dos artistas. Minha cópia estava rabiscada, com anotações que me ajudassem nos momentos de maior necessidade. Sem medo de mentir, eu já sabia a peça quase toda de cor. Mas resolvi estudá-la em cada fala e foi o que fiz até a chegada da noite.

Nos dias seguintes, tive um só pensamento: restaurar meu amor próprio abalado.

Ontem foi a estréia. E lá estava eu, naquela posição incômoda, o texto à minha frente, com todas as anotações que tinha feito durante os ensaios e mais algumas que durante a semana eu fora acrescentando.

Ali, a bem poucos passos de distância, quando abre o pano, Diana/Nora exercita sua generosidade e diz ao entregador que não precisa devolver o troco. Meu único temor é de ter os olhos inundados e não poder exercer minha função ou falhar nos meus planos. Quantas e quantas vezes, fascinado pela imagem da minha deusa, eu passaria semanas sem comer, sem dormir, dentro da minha concha, contemplando o semblante do ser a-mado. Pela primeira vez me soa extremamente falsa a bondade de Nora e estou para eleger Helmer como a personagem empática.

O primeiro ato transcorre sem novidades. Nora troca a deixa no final de uma de suas falas e diz: “Então os médicos declararam que ele precisava ir aos banhos”. Quando deveria ter dito ir para o sul. É isso, tenho certeza, que desorienta a Senhora Linde, que me olha desesperada. “É verdade: vocês passaram um ano inteiro na Itália”. E Nora se reencontra com as falas e vai em frente.

Logo nos primeiros minutos do segundo ato, começo a suar, porque meu momento se aproxima.

É uma das falas mais fáceis, mas sei que Diana, principalmente porque está desconcen-trada, como desde o início venho observando, não vai conseguir lembrar.

Com sua conhecida arrogância, Helmer se dirige à esposa.

HELMER – (afagando-lhe o queixo) “Gentil por obedecer ao seu marido? Vamos, mi-nha tontinha, bem sei que não foi isso que você quis dizer. Mas não vou importuná-la. Sei que você está querendo experimentar a roupa”.

Neste ponto ela se aproxima, pois também sabe que nunca lembra a fala seguinte. Al-guma coisa em sua memória se rebela contra a continuação, e ela depende de mim. Me mantenho um instante mudo, olhando para o texto, adivinhando apenas o desespero de Diana. Então ergo a cabeça, tudo isso em fração de segundo, um tempo que a platéia não chega a perceber. Ela agora está inteiramente em minhas mãos. E sabe disso. Eu não sou o homem de sua vida? Os tapinhas que recebia nas costas, o sorriso escarninho com que me cumprimentavam, tudo isso não era porque ela não vivia sem mim e tudo o mais que durante muito tempo ouvi, sim, com estes ouvidos sensíveis a todos os sons da voz humana, ouvi embalado por um caudal de esperança? 

Diana faz um gesto de nervosismo, gira sobre seu próprio corpo e passa a mão direita no rosto, como se assim vá lembrar-se do texto. Ah, mas aí mesmo é que não se lembra. Depois de levantar a cabeça, eu posso ver nitidamente os bagos de suor logo acima de seus lábios. Mário, que faz Helmer, também se angustia, tentando inventar alguma saí-da, quando concluo ter chegado minha hora. Mas reluto. É tal o pânico que percebo no olhar de Diana que me comovo. Seu rosto está desfigurado, com feições que se desman-cham. Tento desistir de meu plano, o que não é mais possível. Há dentro de mim um demônio que me guia contra minha vontade. Nora, neste momento, deve dizer apenas: “E você, vai trabalhar?” Apenas isso para que Helmer responda: “Vou”. E depois de mostrar uns papéis a Norma, continua seu discurso. 

Então minha voz, que a mim mesmo assombra pela clareza inusitada, sai nítida como lâmina de adaga para introduzir uma fala do terceiro ato, já perto do final.

NORA – “Durante esses três dias eu vivi um conflito terríve”l.

Não é a deixa esperada e Mário me olha perplexo. O que está acontecendo, justo numa estréia para um público convidado, atores de outros grupos, críticos e resenhistas de toda a cidade, professores e estudantes de artes cênicas? Tudo isso deve estar passando por sua cabeça, quando decido ajudar e insisto na fala com que Helmer deve assumir o erro: “E chegou a se desesperar;...”  Ele parece não me ouvir, os olhos relampejando, e insisto na deixa de Nora, repetindo cada vez mais alto, para ocupar seu cérebro. Sem escolha, finalmente ele repete.

HELMER – “E chegou a se desesperar;...”

Mário pega minha ajuda e continua, como se tudo estivesse transcorrendo normalmente.

Dali até a interrupção, não vi mais o que aconteceu.

Abandonei o ponto e saí rapidamente por um corredor pouco usado, porque ia dar na porta dos fundos, que se abria apenas para carga e descarga. Eu trazia a chave no bolso.

Do corredor ainda ouvi o diretor gritando para que se fechasse o pano de boca, sua voz abafada por vaias ruidosas. 
 


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POR EM 06/06/2009 ÀS 11:33 PM

Privado ou privada

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Um dia ainda escrevo uma crônica que comece assim: Um dos mais graves problemas do Brasil é que grande parte de seus políticos transformaram a coisa pública em privada. 
           
Depois de um sorriso mordaz, que é o meu, cometida alguma traquinagem, continuaria por aí em fora. Então, para minha surpresa, receberia uma carta comentando um aspecto da crônica e confesso aos leitores que isso se daria pela primeira vez, ou seja, receber uma carta comentando uma crônica minha.
           
E a carta, escrita naquele modo antigo, em letras finíssimas e bordadas no papel, me diria: "Meu caro senhor colunista: Ontem à noite, estando eu no apartamento de um jovem erudito, e ao ler-lhe sua coluna, fez-me ele parar a leitura e, com ar de deboche, disse-me que este calembur já é bastante antigo."

Para não cansar os leitores, interrompo aqui a carta, apesar dos florilégios com que termina.
           
Uma semana mais tarde (minha coluna é hebdomadária), voltava eu ao assunto, mas por vias tortas, que a retidão de há muito parece-me quebrada. E voltava com a evidente vantagem de responder-lhe por via pública, com a força que tal via me oferece, enquanto aquela boa senhora, talvez senhorita, ou quiçá ainda "amiga de um erudito" (mordacidade com o fito de desqualificar minha oponente), como dizia, enquanto minha oponente utilizara-se da via privada.
           
"Minha cara e insolente missivista: Que o trocadilho é velho, sei-o eu muito bem."
           
(E aqui uma pausa para explicações: primeiro, ao imitar o estilo de minha leitora, saiu-me este hiato horroroso - "sei-o eu"; segundo, "calembur" é uma palavra de origem francesa, razão por que alguns esnobes a consideram mais nobre do que nosso velho "trocadilho".)
           
E continuaria:
           
"Mas exatamente por ser velho, não me ocorria o nome de quem primeiro o usou no momento em que me pressionavam por telefone desde a redação para que entregasse minha crônica. E por não me lembrar do autor, também não lhe deixei expresso meu profundo reconhecimento pela colaboração."

E mais uma vez interrompo a missiva com o único propósito de não entediar o leitor.
           
Entretanto, devemos continuar, caso contrário não chegaremos à moral da história. Pois aquela senhora virtual (vamos chamá-la assim por absoluta ignorância de quem possa ela ser) apesar de apenas amiga de um erudito, simboliza uma boa parcela de nossa intelectualidade. Tão apegados à forma que esquecem o conteúdo, a ponto de muitas vezes confundirem o acessório com a essência.
           
O pior de tudo é que enquanto alguns ficam descobrindo o plágio de um calembur, grande parte dos políticos continua fazendo suas necessidades na privada em que eles transformaram a coisa pública.     


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POR EM 23/05/2009 ÀS 12:58 PM

Arrastavam-se móveis

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Quando acordei, hoje cedo, tentei por instantes não existir, porque estava com os olhos apagados e a colcha tinha escorregado para os pés. Acordei no meio de um sono duro e seco, com a sensação bem nítida de que houvera uma invasão. Por isso puxei a colcha até cobrir a cabeça. A primeira impressão que tive da vida, ao acordar, foi a de que se arrastavam móveis dentro de meus ouvidos.

Quando acordei.

Virado para a parede, tentava esconder-me do barulho áspero de móveis que se arrastavam, mas eles se arrastavam dentro de meus ouvidos, cobertos comigo debaixo da colcha, onde sufocávamos sem nenhum conforto. Num movimento brusco, empurrei a colcha de volta para os pés e me expus àqueles ruídos que me atrapalharam o sono, justamente em sua melhor parte. Minha testa estava levemente úmida quando me vi livre da colcha. As mãos também, as duas.

Mas então eram mesmo móveis que se arrastavam? Com a testa enrugada finalmente descobri que os móveis se arrastavam na sala. Era de lá que me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro.

Sempre tive medo de acordar porque quem abre os olhos torna tudo definitivo, com todas as mudanças que a noite não viu. Como sair da cama, de manhã, e fingir que o mundo é o mesmo, que sei muito bem onde fica o banheiro e aquele cabo verde é de minha escova? Como abrir os olhos e não perceber que durante o sono penetrou água pelas fissuras e que o musgo em fina camada cobriu minha pele? Por isso levanto tarde. E de mau humor.

Hoje, entretanto, ah, hoje fui acordado pelos móveis que se arrastavam dentro de meus ouvidos. Até que os empurrei para a sala, de onde me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro. Só então, quando já não havia mais possibilidade nenhuma de continuar fingindo que nada tinha mudado, foi que me levantei e fui abrir a porta do quarto. A claridade me vestiu de cueca e camiseta, aumentando o ruído dos móveis e das vozes que se arrastavam, secas. Não senti necessidade de resistir, por isso voltei para a cama.

Acordar é sempre uma aventura imprevisível.

Na cama costumo envolver-me com meus segredos, pois é um lugar vedado a quaisquer aproximações. É ali que refaço todos os atalhos, me procuro, quando pareço extraviado, ou me perco, por excesso de confiança, enfim, é sobre a cama que reconheço cada uma das dobras e rugas dos panos que me envolvem com carícias. Nos limites da cama é que exerço diariamente minha soberania, aquela que a ninguém jamais transfiro.

Já não parecia mais necessário esconder-me debaixo da colcha, por isso tinha deixado a porta aberta. Por onde. O ruído de móveis que se arrastavam também, pela porta. E as vozes, pisadas secas de botinas velhas, cada vez com maior nitidez. Quando vi passando em frente à porta do quarto dois homens bem músculos e de sorrisos que se escondiam por trás de barbas e bigodes, entendi o sentido do ruído, sua mensagem decifrada.

Para não chamar a atenção, tranquei-me imóvel sobre a cama. Teso. Meus ruídos sutis, eu mesmo os absorvia, não permitindo que me denunciassem. A respiração tornou-se tão leve que me pareceu possível flutuar. Se a borboleta, eu pensei, pesa menos do que sua cor, por que não posso ficar suspenso em minha respiração? E assim fiquei. Apenas os olhos se moviam porque o ruído que eles fazem ao se virarem para os lados nem mesmo as formigas, em geral tão concentradas, conseguem ouvir.

Não, não foi tenso que fiquei. Apenas imóvel. Porque o medo ainda não era tão grande que impedisse o controle sobre meu corpo. Imóvel apenas, com o corpo solto sobre a cama. Um corpo em repouso horizontal. Alguma coisa se quebrou na sala, um vaso, talvez, que se transformou em riso. Pois nem isso me fez repuxar um único gesto.

No início pensei que fosse o medo a inflar meu peito, mas logo percebi que aquilo era náusea, um sentimento materializado por certo aperto no estômago, como se uma bolota meio quente tentasse alcançar minha garganta. Isso eu descobri ao mesmo tempo em que senti minhas mãos úmidas nas palmas e o mundo oscilando suavemente. O pior mal-estar é nunca saber para que lado ele penderá no instante seguinte. O mundo nunca me parecera, como naquele momento, um barco inseguro, descontrolado. Minha boca encheu-se de uma saliva grossa, salobra, e tive de a engolir para evitar algum movimento.

Duas cabeças muito próximas uma da outra atravancaram a porta. Seus olhos apertaram-se avaliando a intensidade da sombra do quarto ao mesmo tempo em que forçavam passagem para um exame mais detido. Um dos homens, com passo firme, desenhou uma linha reta até a janela, que escancarou para espantar os resíduos da noite que ainda me envolviam. Eles não falavam, mas notei que seus olhares trocavam informações. O que entrou primeiro no quarto espalmou a mão na parede do guarda-roupa e o empurrou sem muito esforço, medindo seu peso. Fez um gesto rápido de sacudir a cabeça com as pálpebras descidas como um sono. Era fácil, agora, adivinhar-lhes o significado dos gestos. Prendi a respiração, surpreso com o movimento seguinte, que consegui prever: o segundo homem contornou o guarda-roupa pela frente, enfiou um saco enrolado por baixo de seus pés e em poucos segundos o móvel desaparecia na direção da sala.

A percepção de que o quarto tinha aumentado não me trouxe alívio algum. Tive até a impressão de que o espaço maior, vago, pesava sobre mim. E era uma impressão muito nítida, em que supunha ver o movimento de partículas girando a esmo numa faixa tímida de sol que entrava pela janela. Eram átomos que ainda não orbitavam organizados, o mundo em formação. Que mergulho poderia ser aquele, do qual voltava sem nada nas mãos ou na mente? Preferia o quarto em seu tamanho primitivo.

Minutos depois, os homens entraram novamente no quarto e pararam interceptando com as costas a faixa tímida de sol que descia oblíqua. De mãos nos bolsos me olharam algum tempo e trocaram duas, três palavras num timbre excessivamente grave para que eu pudesse entender. O mais alto sacudiu a cabeça, confirmando, e os dois passaram suas cordas de saco enrolado por baixo da cômoda.

No quarto fiquei eu e minha cama, com a colcha me cobrindo uma das pernas.

No início tentei concentrar-me em alguma passagem antiga, episódio que não me comprometesse, mas não me vinha uma só imagem que não estivesse fragmentada pela rapidez. Era impossível reter qualquer pensamento por mais que uns poucos segundos. Então desisti e me deixei ficar aqui deitado, quedo e sonolento, apaziguado pela certeza de que eles jamais voltarão.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 01:54 PM

Conversa de bar

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Parece que alguém já afirmou que cada um frequenta o bar que merece. Isso não me consola e continuo morrendo de inveja do João Ubaldo Ribeiro, que fica atiçando a imaginação e a vontade de simples mortais, como este que vos fala, com Flor do Leblon e Tio Sam. Não tenho remédio senão contentar-me com o bar do seu Juca Amaro, ali perto da padaria, aqui mesmo onde moro. Sentado em cima de uma caixa de cebola, costumo ouvir com atenção o que pensa o povo e, principalmente, procuro entender as opiniões de um de seus melhores representantes, meu amigo Adamastor, que há muito não circula por estas páginas. 

Ontem o assunto, não sei como isso foi acontecer, era cultura. Parece que há um clima de insatisfação de algumas pessoas com o modo como a matéria vem sendo conduzida pelo poder público em geral no Brasil. Bem, mesmo sem conhecer perfeitamente a gênese da conversa, prestei atenção, interessado que devo pelo menos ser no assunto.

Pois acontece que o Leonardo, filho do seu Juca, futuro bacharel e orgulho da família, não concordava com o Adamastor, e sua discordância ameaçava nossa paz. Tive de pedir mais uma cerveja e exigir que os dois levantassem um brinde à paz mundial para que em tom mais ameno o rebento do seu Juca expusesse suas idéias. Uma boa discussão é assim: todos têm oportunidade de falar e ninguém precisa ganhar no grito. Grito não é argumento.

Num sentido amplo, disse o Leonardo, cultura é tudo aquilo que se opõe a natural. Tudo aquilo que depende do homem. Assim, sexo é natural e casamento é cultural. Mas mesmo entre as formas do sexo, algumas são mais naturais que as outras.

O Adamastor apelou: pô, você não está sugerindo que o governo invente agora de cuidar de nosso sexo. Os olhos do dito rebento massacraram o Adamastor. Tive de intervir novamente. E o meu jogo de damas? Perguntou meu amigo. Meu jogo de damas não é cultura? 

O jovem bacharelando continuou: secretaria de cultura tem de cuidar de cultura, mas num sentido mais estrito. É de arte, que se trata. E entretenimento não é arte. Ninguém sai de um entretenimento mais sábio, melhor, mais humanizado. Pode sair mais descansado. Mas sai do mesmo tamanho. Arte não é passatempo.  O Adamastor cochichou ao meu ouvido: esse cara é elitista. Tive de pedir que ele se calasse mais uma vez.

O baile da saudade, disse o Leonardo Amaro, é cultural, nem por isso precisa da assistência  de uma secretaria governamental. E se precisar, não é de uma secretaria que deve cuidar da cultura.

O ambiente, que parecia ter acalmado, sofreu a interferência de outros circunstantes. Nem todos eu conhecia e me recusei a pagar uma rodada de cerveja pra tanta gente. Meteram-se no assunto, pedindo mais música sertaneja nas praças do Brasil. E por conta de nossos impostos.

O filho do seu Juca Amaro esvaziou um copo. Lambendo ainda a espuma, ele esclareceu: arte erudita é diferente de arte popular que não tem nada a ver com arte de massa. Esta última não precisa do poder público. É auto-sustentável. Arte popular precisa de apoio porque é praticada por aqueles que de menos recursos dispõem. Mas é a arte erudita, apesar de ser a mais elitizada, a que mais precisa de apoio do poder público. Uma orquestra sinfônica, em nossas cidades, não se mantém sozinha, e é uma das maiores aquisições da civilização. A transmissão escolar, o desenvolvimento técnico, o grau de perfeição alcançado, a sensibilização, tudo isso é obrigação do poder público manter. Vocês admitem uma cidade sem escola? Um homem sem escola também vive, assim como sem orquestra sinfônica. Mas viver, então, é mera função animal.

Quando ameaçaram dar uma surra no rapaz e ele teve de fugir para trás do balcão, joguei uma nota de dez na mão do seu Juca e vim ler alguma coisa do Theodor Adorno, que sabia, dessas coisas, muito mais que nós.    
 


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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:57 PM

Cara de anjo

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Só não falei com as plantas. De tudo que me sugeriram, só isso faltou. E não falei, por uma espécie de constrangimento moral. Me senti na situação de quem pega o telefone ao contrário e tenta falar pela concha receptora. Isso nem o Ricardo, meu vizinho aqui do lado, e que ultimamente vem tendo sérios problemas com o satanismo de alguns objetos caseiros amotinados contra o dono, isso nem ele faz. Poderia até tentar, apesar de minha arraigada descrença em comunicação intergenérica, mas imaginei alguém passando naquele exato momento e o que poderia sair por aí dizendo a meu respeito na vizinhança, onde já não desfruto de grande prestígio.

De tudo tentei, mas infrutiferamente. As plantas de meu jardim estavam mesmo era com saudade. Ah, sim, ainda não disse que a causa de tudo isso foi o Moisés. Não um Moisés de barbas brancas e olhar que dispara dúzias de raios aterradores. O Moisés, mesmo, com artigo e tudo, porque um sujeito simples, familiar, que visitava meu jardim todos os meses e que de repente alegou problemas em uma cidade distante para não voltar mais. Com o maior orgulho pelo estado do jardim de nossa casa, dispensei os serviços do Moisés. Deixe comigo, foi o que eu disse. Deixe comigo. Estou mesmo precisando de um pouco mais de atividades físicas.

Nos primeiros dias, tive a impressão de que as plantas ficaram até mais bonitas. Ah, os olhos, como são enganosos! Geralmente vemos o que estamos querendo ver. Ou precisando ver. Pois tive a impressão. Principalmente porque a glicínia, de um vaso de barro, soltou uma flor de um veludo roxo-vivo que encantou a família toda. Pois não é que leva jeito!, ouvi dizerem-me pelas costas enquanto fingia não ouvir nada.

A grama, as tuias (a azul, a compacta, a dourada), a touceira de areca, o legustro, a camélia, a palmeira fênix, com seus espinhos, pingos-de-ouro, sálvias, todas elas, as incontáveis plantas de meu jardim, algumas semanas depois da despedida do Moisés, começaram a demonstrar descontentamento. Reguei, adubei, podei. Só não conversei por razões já expostas. Fiz de tudo. Elas recusavam qualquer coisa que eu fizesse. Começaram a definhar. As begônias, nos vasos, melaram todas. Até melhoral na água eu andei botando, por recomendação da mãe de uma amiga, maga das plantas, no dizer desta. Nada. Foram meses de lutas e canseiras sem vislumbre de vitória. Visitei floriculturas, consultei especialistas. Resposta nenhuma dessas ingratas.

Há um mês, pouco mais, recebi um telefonema noturno. Era o Moisés. Não se dera bem na cidade distante e me perguntava se poderia ser aceito em seu antigo posto.

No dia seguinte bem cedo, acordei com o Moisés cantando ao ritmo de seu tesourão. Quando saí para cumprimentá-lo, ele sorriu e me disse qualquer coisa que, de longe, não entendi direito, mas que adivinhei. Já perto, disse a ele que cuidei, sim, dentro de minhas possibilidades. Ele não desmanchou o sorriso incrédulo.  

Hoje fui ler sentado à sombra do chorão mexicano (das poucas árvores que se mantiveram fiéis a mim) e, olhando em volta, me lembrei do Tistu, aquele menino do dedo verde. De anjo é que o Moisés não tem nada, acho eu, mas as plantas do meu jardim são capazes de jurar que ele é um anjo disfarçado de jardineiro.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 02:17 PM

Caçadores noturnos

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Não sou especialista em sociologia ou psicologia, tampouco em antropologia, mesmo assim ouso afirmar que o prazer que sentimos na captura de um peixe é um prazer atávico. Provavelmente tenhamos herdado tal prazer de nossos ancestrais, que, ao capturarem um peixe, garantiam a subsistência por mais um dia. Quanto prazer! Arrisco mesmo supor que grande parte de nossos prazeres, talvez todos, esteja ligada à sobrevivência. O prazer da reprodução humana, por exemplo, não tem nenhum que o supere.

Tenho muitos amigos pescadores e algumas vezes já fui pescar com eles. Quinze minutos do centro, em pesque-pague com todo conforto: cadeiras de plástico, quiosques de bebidas e guarda-sóis. Chega-se à beira d’água, joga-se o anzol com isca na lagoa e espera-se. Um peixe vai passar pelo anzol, vai pensar que encontrou comida e comido acaba sendo ele. Tudo muito limpo, tudo muito certo. Alguns escolhem o tanque da tilápia, outros preferem o pacu, talvez o piau. Eis a que foram reduzidas as aventuras de nossos avós.

Onde o prazer de romper o mato à beira do rio, observar o movimento da água, sua cor, descobrir o lugar em que se abrigam os capturandos, imaginar o que vai acontecer? Onde a sensação de vitória ao fisgar alguma coisa que não se sabe o que seja, impor-lhe nossas habilidades correndo todos os riscos, mesmo o de cair na água? Não existe mais o prazer da aventura, o gosto de encontrar o inusitado para comprovar nossa rapidez de raciocínio, o acerto de nossas decisões.

Tenho um primo que, quando criança, via-nos sair para a caça. Era um tempo em que caçar passarinhos não causava remorso, um tempo em que ninguém falava em politicamente correto ou incorreto. Isso ainda não fora inventado. Menino de calça curta, a gente não costumava levar por causa dos perigos. Como esse meu primo não era levado junto, mas já se manifestava nele a vocação de caçador, exercitava sua pontaria dentro do viveiro de seu pai.

Conheço pencas de caçadores de viveiro por aí, que tiram a noite para sonhar suas aventuras. Um deles me contou que, em viagem pela Europa, jantou com a Sofia Loren e depois... bem, não sejamos indiscretos.
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:49 PM

Aquilo era o mar

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Nascido no interior; era a primeira vez que eu via o porto. Andava aí por meus quatro anos, alguém, provavelmente um de meus irmãos mais velhos, puxava-me pela mão. Na minha lembrança eu era muito pequeno e imagino que tenha sido pequena também a emoção sentida no momento de olhar lá pra baixo e ver o mar, que os demais apontavam com alegria. Enfim, era a emoção possível em uma criança daquela idade, uma emoção que mais parecia um susto: aquela água movendo-se. 

Estávamos em cima de uma plataforma de cimento, uma plataforma muito alta, até hoje me parece que era altíssima, o que me enchia de terror. Acredito que fosse bem mais alta do que eu. A água, àquela hora do entardecer, vinha mansa até o pé de cimento da plataforma, correndo por cima de uma areia preta, misturada com todo tipo de dejetos da cidade. E a espuma, que navegava no dorso das ondas, não era branca como a neve. A impressão que me causou, logo depois do primeiro entusiasmo, foi horrível. Quatro anos de idade não é uma época da vida apropriada para sofrerem-se decepções, e lá estava o menino, olhando o fundo daquele mar ali, um mar vizinho, inteiramente decepcionado com aquele lodo asqueroso e com o cheiro intenso, talvez repugnante. 

A cidade de Rio Grande, onde se deu esse encontro, pode ser a cidade mais úmida do Brasil, mas não é mais suja do que qualquer outra cidade portuária, e estávamos no porto novo, por pressuposto um porto limpo. Bem perto de onde estávamos, um prédio escuro de sete andares vinha aos poucos sendo tragado pelas areias da praia. Mas isso fiquei sabendo depois, bem depois, quando já sabia o que eram decepções e as plataformas já não me pareciam tão altas assim.

Não sei como se deu o milagre, não me lembro. Nem me lembro do que era, mas deve ter sido um milagre, pois, de repente, surgiu daquele lodo alguma coisa de cor muito viva. Uma forma que brilhava lá no fundo. Minha memória inventa um azul intenso, com listras amarelas e vermelhas. O que era? Não há como saber. Podia ser um peixe ou apenas uma latinha de pomada ou de salsicha. Do que me lembro, e com que intensidade!, é do meu deslumbramento. Aquela coisa, aquele ser, me encantou. Nada de prático, nenhuma idéia de utilidade ou de significação me restou. O que ficou grudado em meus neurônios encarregados por minha memória, o que nunca mais vou esquecer, é a emoção que então experimentei. Essa vou carregar comigo enquanto viver.   
 


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POR EM 30/03/2009 ÀS 08:56 PM

Padrões da língua

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Em sua famosa “Carta às icamiabas”, um dos capítulos de seu romance (ou rapsódia) “Macunaíma”, Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra. A aproximação entre a arte literária e a língua das ruas era uma das bandeiras do pessoal da Semana de Arte Moderna, em 1922. Hoje, depois dos estudos lingüísticos e semióticos, depois de Saussure e todos que lhe seguiram os passos, tenho certeza de que o autor teria outra visão dos fatos.
 
A presença física dos falantes tem um grau de riqueza na comunicação que jamais será alcançado pela escrita, por mais que se usem recursos como os sinais diacríticos, os recursos gráficos. A voz, suas intenções, os gestos (quem disse que mão não fala?), as expressões faciais, o mover dos olhos, enfim, uma infinidade de detalhes que enriquecem o ato da comunicação oral que não são encontrados na língua escrita.
 
Li algures que um ator russo conseguiu dar quarenta e duas intenções diferentes a uma pequena frase. A escrita era uma só. 
 
Além disso, qualquer comunicação, escrita ou oral, assume formas diferentes para diferentes circunstâncias. Mas não só a linguagem sofre transformações. Todo o nosso comportamento. Ninguém vai ao casamento de um amigo vestido de bermuda e calçado de chinelinho-de-dedo. Não conheço ninguém que vá curtir um sol na praia vestido de fraque e calçado de sapatos de cromo alemão. O comportamento (e a linguagem) está certo quando adequado ao momento e ao lugar .
 
Já contei, mas não sei se foi aqui, a história daquele motorista de táxi que, intuitivamente sabia disso tudo. Quando Manuel Bandeira, trajando seu fardão para tomar posse de sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, tomou um táxi, o motorista não parava de observá-lo pelo retrovisor. Na primeira oportunidade, virou-se para trás e, muito sério, talvez até majestoso, perguntou ao poeta:
          
— Sois rei?
 
Ah, meu caro motorista, com sua simplicidade você criou uma anedota, mas também nos passou uma lição que jamais esqueceremos.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 06:19 PM

A lição de Alcácer — Quibir

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Depois de muito rolar por África e Ásia, Camões foi encontrado em Moçambique  tão pobre que, no dizer de Diogo do Couto, que por lá passava, “vivia de amigos”.  Com o auxílio deste mesmo Diogo, retorna, finalmente, à pátria, em 1568. Em sua quase inexistente bagagem, levava aquele que seria o maior poema da língua: “Os Lusíadas”.

Depois de uma Proposição, em que anuncia a pretensão de cantar o “peito ilustre lusitano”; depois da Invocação, em que as Tágides são chamadas a dar-lhe “uma fúria grande e sonorosa/E não de agreste avena ou frauta ruda,/Mas de tuba canora e belicosa”; depois disso tudo, colocava-se uma questão prática fundamental: era preciso publicar sua obra. Ora, no regime do mecenato, alguém de poder deve arcar com as despesas da publicação. Camões, na terceira parte do poema, na Dedicatória que faz a D. Sebastião, com o propósito de convencê-lo a autorizar a despesa, diz, por exemplo, no Canto 1, estrofe 8, “Vós, que esperamos jugo e vitupério/Do torpe Ismaelita cavaleiro”, ou, na estrofe 16, do mesmo canto: “Só com vos ver, o bárbaro Gentio/Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;”

Em 1572, quando publicados “Os Lusíadas”, por Alvará Régio desse mesmo ano, o rei D. Sebastião curtia sua adolescência régia, estava com 18 anos de idade. Por debilidades, inclusive de saúde, o jovem monarca acredita nas palavras do poeta e se julga realmente o “novo temor da maura lança”. Desde então alimenta o sonho de conquistar o Marrocos, quiçá todo o norte da África. Sonho alimentado, começa a preparar-se para o empreendimento. Em 1578, com 24 anos de idade, D. Sebastião lança-se na empresa bélica de conquista, isto é, a expansão do cristianismo e derrota do gentio. O resultado é bem conhecido: no dia quatro de agosto de 1578, no norte da África, nada sobra do exército português, dizimado pelas tropas mouras. O corpo de D. Sebastião desapareceu, dando lugar à lenda conhecida como sebastianismo. Portugal sofreu um prejuízo imenso, sendo um deles a incorporação de seu território ao reino espanhol de 1580 a 1640. Essa batalha, do dia quatro de agosto, deu-se em Alcácer-Quibir, de onde seu nome.

O cronista pode não ter sido exatamente fiel aos dados da história, aos fatos empíricos, mas o que diz faz muito sentido, ou seja, é um perigo cercar-se o governante de pessoas lisonjeiras, porque quase sempre ele acredita nelas.  
 


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POR EM 16/03/2009 ÀS 05:15 PM

O enterro de Osmar Belmonte

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Com passo escuro e lento, pesado como a tristeza, por estar debaixo de um sol de verão para cumprir o ritual da despedida, o cortejo movimenta-se já perto do cemitério. Sua a idéia de um cortejo a pé  três quarteirões apenas, pois desde sempre moraram naquela casa à beira do cemitério. O que não contava era com o sol do meio da rua e perto do meio-dia, porque nas calçadas, de ambos os lados, havia árvores que protegiam os transeuntes da inclemência do sol. Mas eles não eram transeuntes e cortejo não se faz na calçada.

Letícia olha para um lado e outro, olha para trás, impaciente, olha sem parar. Seu olhar apojado de ansiedade corre na frente, vai até a porta do cemitério e volta rastejante, queimando-se nos paralelepípedos escaldantes.

No bar, à direita, alguns fregueses amontoam-se e espremem-se na porta, querendo ver. O cortejo pelo meio da rua, cada um sobre seus próprios pés, o cortejo é um fato inusitado, que vale a pena ser visto. E lá dentro, entre os fregueses, corre a pergunta, Mas quem é ele?, e apenas o dono, por trás do balcão, responde com sua voz gorda e estragada que é um vizinho ali de baixo, um velho doente.

Os plátanos de mãos espalmadas acenam de leve à passagem da brisa, numa despedida sem nenhuma emoção. Dois ou três cachorros já invadiram a rua farejando o cortejo atrás de alguma coisa que lhes fosse de proveito. Agora estão sumidos, ficaram para trás, ocupados como sempre com sua reles sobrevivência de cães de rua.

Bem que Letícia tinha visto os cachorros, mas de sua posição à frente do cortejo, e com a solenidade de seu vestido preto, onde o sol emitia multidão de reflexos, enfim, na qualidade de viúva legítima de Osmar Belmonte, ela não podia fazer gesto nenhum para enxotá-los. Por sorte é que se foram espontaneamente. Viúva legítima, sim, porque apesar de chamar-se Letícia Gonzaga e Silva, era casada em cartório e igreja com o falecido, cujo pseudônimo, Osmar Belmonte, só se usava na televisão.

Mas quem é ele? E o dono do bar, com sua voz gorda de pigarros e cheia de falhas enfumaçadas, explica que se trata de um vizinho. Ali de baixo. Até costumava tomar umas que outras, aqui mesmo neste balcão. Eu aqui e ele aí, com a mão trêmula, talvez de velhice. E era assim sua homenagem. Eu aqui e ele aí.

Osmar Belmonte.

Letícia olha para um lado e outro, e seu olhar já brilha de ansiedade, mesmo sem receber os reflexos que o sol arranca de seu vestido preto. Ela olha para trás e fecha ainda mais a cara, quase sempre muito fechada. Finalmente descobre os fregueses do bar amontoados à porta e os cobre com um olhar cheio de desaforos. Osmar Belmonte, sim senhor. Cambada de ignorantes, ela pensa, a esta hora devem estar perguntando, Quem é ele, que ali vai?

Um automóvel freme de tão atrasado, seguindo o cortejo. É uma fome particular, o tempo escasso para o almoço. Por fim, sem qualquer respeito, e muito irritado, vale-se do clangor de sua corneta para forçar o cortejo a encolher-se perto do meio-fio. De passagem, o motorista desfecha um olhar irado na direção do esquife e resmunga alguma coisa a respeito do tempo, da morte que atrapalha a vida, e o muito que ainda tem de fazer neste mesmo dia.

Cretino!, Letícia tão-somente pensa, muito preocupada com as conveniências. Então, de maneira disfarçada, examina os acompanhantes à espera de algum sinal de solidariedade, mas nada descobre  todos muito concentrados na dor.
 
Ao passarem pela frente da lavanderia de porta aberta deixando inteiramente à mostra um espaço pequeno e sombrio, a passadeira aparece com o ferro de engomar na mão esquerda enquanto a mão direita arruma fiapos de cabelo no alto da cabeça. Ela faz um sinal da cruz pela metade, mas muito respeitoso, pois ultimamente, com o pai na cama, vem pensando constantemente na morte, na dele, mas também na sua. Ela só se volta para o interior quando passam os últimos acompanhantes do cortejo. Solta um suspiro ruidoso e volta ao serviço pensando, Quem será?

Letícia não se conforma com a pequena quantidade de amigos que vieram acompanhar a despedida de Osmar. Consegue abranger a todos com um único olhar. Ela esmaga na mão o lenço branco, que vem carregando, com o qual a cada minuto seca a testa. Não era essa a função do lenço, mas ela mantém-se com alguma esperança de ainda poder usá-lo perante as câmeras. Por isso olha tanto para os dois lados, para trás e para a frente. Será a ingratidão ou o esquecimento? Ah, não, mas a memória de Osmar jamais murchará. Pelo menos enquanto ela existir. Um pensamento denso cobriu-lhe o rosto, um pensamento tão físico, este, que lhe desceu pelo corpo e foi parar em seus pés inchados. A memória de Osmar será a presença dele em cada centímetro de minha pele. 

Uma brisa vem correndo e move as folhas espalmadas dos plátanos. Uma brisa ligeira, que mal chega para um suspiro. Ainda ontem podia ver os letreiros com o nome de Osmar Belmonte. Ainda ontem. 

Fechado em si mesmo, venezianas como óculos escuros, o palacete assistiu sem comentários à passagem do cortejo. A antiga residência do senador Teodoro de Sá. Quantas vezes o provecto senhor descia as escadas e vinha até o portão para uma prosinha com o Osmar Belmonte. Ah, eram amigos. Ambos pessoas importantes. Conversavam sobre política e economia, comentavam o mundo e seus percalços, acabavam sempre falando sobre o último programa em que Osmar havia aparecido. O senador não perdia desempenho nenhum de Osmar. Há vários anos o palacete não espiava mais pelas janelas. Quando a memória começa a escorrer esvaindo-se, a terra fatalmente a engole.

Poucos passos adiante, lentos passos de marcha lenta, Letícia vislumbra, pela porta da loja de luminárias, o perfil altaneiro de Adriana dos Reis. Seu alto penteado e uma argola pendurada na orelha  só pode ser ela. O esquife, carregado por amigos do falecido, continua avançando, e a viúva não se dá conta de que, ali, parada, vai ficar para trás. Nada disso interessa. Ela está degustando o rancor de encontrar em situação tão banal uma das poucas vizinhas que sempre se disse a maior amiga do casal. A impressão que fica é a de que Adriana discute uma questão de preço com o vendedor. Os dois têm papéis nas mãos, papéis que um brande contra o outro, numa luta em que ambos deverão perecer exauridos. Sem olhar para a rua, pelo menos esta aí não vai perguntar, Quem é ele, que vai ali?

Agora Letícia já pode ver com nitidez as pontas verde-escuras dos ciprestes e a cruz de alguns túmulos mais altos. Seu coração seca encolhido sem muita esperança. Movimento nenhum à frente do portão no alto do qual, em arco, se lê Lasciate ogni speranza, escrito com letras de ferro. Ninguém à espera.

Na última esquina, antes do portão, a banca de revista anuncia o novo ministro do planejamento ao lado de um empate de 0 x 0. Assim a vida, indiferente àqueles que já cumpriram o ciclo.

Osmar Belmonte teve seu tempo, no auge da carreira. Essas pessoas aí na calçada, que nem chegam a parar, curiosas, não perguntariam, Quem é ele, que ali vai? Em seu último espetáculo, Osmar não se dá o trabalho de mostrar a cara.

Quando já não espera mais nada, o féretro embocando pelo portão do cemitério, eis que surgem, lá de dentro, repórteres com caderninhos na mão acompanhados de operadores de câmeras. Rapidamente arrastam Letícia para fora do cortejo e, sob o bombardeio de perguntas e iluminada por refletores que ajudam o sol, a viúva finalmente leva o lenço aos olhos, de onde as lágrimas vertem caudalosas.

Ah, sim, agora Letícia tem certeza de que Osmar Belmonte, com quem viveu sua vida de legítima esposa, Osmar Belmonte está definitivamente morto. Não é mais um homem, tampouco um artista. Agora ele é a notícia que se espalha pela cidade, que penetra nos lares, para espanto geral. Então quer dizer que o Osmar Belmonte? Letícia não pode mais duvidar de sua própria dor e do passamento de seu marido.

Depois de tanta pergunta respondida, quando Letícia, finalmente, chega à beira da cova, sua fisionomia desmancha-se com tantas estrias pretas de rímel que lhe preenchem as rugas. Então desaba sobre ombros amigos sem oportunidade de se despedir  o caixão já desapareceu engolido pela terra. 
 


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