revista bula
POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Uma vergonha!

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Nesses últimos dias, tenho me lembrado muito do Boris Casoy, que nem sei por onde anda atualmente. Mas houve época em que era famoso o bordão com que demonstrava sua indignação com a política e os políticos brasileiros. Me lembrar do Boris  Casoy não implica adesão a seu pensamento ou concordância com tudo que ele dizia. Em muitos pontos, contudo, me parece que ele tinha razão. O sentimento da vergonha, em nossos frágeis corações, já é cicatriz que não desaparece nem com reza brava.

Tenho contado por aí passagens da minha vida, meu percurso até chegar a esta região que me acolheu como filho. Por isso aqui fiquei. Algumas pessoas até já sabem, mas nem todas, o que vou contar novamente com a esperança de não estar caceteando ninguém com o assunto. O caso é que investi a melhor parte de minha vida (os anos da juventude e boa parte da primeira maturidade) num projeto cujo centro era o Brasil, mas um Brasil democratizado. Vivi os anos de chumbo, melhor seria dizer sobrevivi a eles. Um dia conto isso tudo com mais detalhes. Acho que não é segredo o fato de que saí do Rio Grande do Sul clandestinamente no ano de 1965.

Os lances por que passei não foram privilégio meu, nem foram os piores. Houve gente que sofreu muito mais. Houve gente que não sobreviveu. Foi com lágrimas que participei dos comícios pelas diretas, na Praça da Sé e no Vale do Anhangabaú. O povo foi pra rua, os brasileiros queriam democracia.

Antes que alguém me interprete mal, declaro que jamais me arrependi um fio de cabelo pelo que fiz. Hoje vivemos em regime de liberdades democráticas.

Mas meu Deus do céu, o que os políticos que ascenderam ao poder (em nossas costas, diga-se de passagem) fizeram com a vida pública do Brasil é digno de um chiqueiro de porcos.  Não se passa uma só semana sem que um novo escândalo irrompa no horizonte do Brasil. São desvios de dinheiro, favorecimentos ilícitos a amigos e parentes, compra de votos e imoralidades de toda sorte. A Câmara Federal e o Senado (principalmente o Senado nestes últimos dias) tornaram-se palco de brigas de baixíssimo nível, dignas dos ambientes mais sórdidos.

Mas não se engane, caríssimo leitor. Não estou acusando este ou aquele partido, este ou aquele político. A verdade verdadeira é que não existe virgem na zona. As brigas não se dão porque fulano ou sicrano quer moralizar a vida pública brasileira. Ninguém é inocente, nesta história. As eleições, no ano que vem, é que motivam tantas acusações. Hoje é um grupo que mama nas tetas gordas do Estado, mas todos querem mamar, por isso brigam. E nós, que pagamos a conta, assistimos a tudo de camarote, como se nada tivéssemos a ver com tudo isso. Ora, ora, também não somos inocentes, pois sem nosso voto eles não estariam lá.

E viva a democracia! Por que não? Hoje somos um povo envergonhado, mas sem ela nem o direito de reclamar, como estou fazendo, nós teríamos.

Inté!
 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Estátua de barro

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"Fixou a touceira onde a caça estava escondida.
Só folhas, só silêncio e folhas empastadas de
sombra. Mas, detrás das folhas, através das man-
chas pressentia o vulto arquejante da caça. Compade-
ceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma
oportunidade para prosseguir fugindo."

  Lygia Fagundes Telles

No fundo do espelho, entre taças de cristal e xícaras de porcelana, o olhar de soslaio, severo, inspeciona a pose. Retoca. Este queixo, um pouco mais erguido, excelso, quem sabe, apontando para o horizonte, o espaço das aventuras. Assim. A sobrancelha esquerda, arqueada, assimétrica como um ponto de interrogação, talvez uma dúvida; e os lábios, ah! os lábios, mais firmes, entre cínicos e imperiosos, sem esta lassidão úmida de adolescente. Pronto, só faltava agora um bigode como o dele. Farto, dominador.

Preso entre os dedos, o cigarro aceso sobe até a boca apenas entreaberta, e a fumaça envolve-lhe a cabeça, em torvelinho, até dissipar-se, esgarçada, na lâmina de sol que penetra no aposento através da cortina deflorada e onde minúsculos pontos luminosos gravitam sem peso.

Reabre os olhos machucados pela fumaça, examinando-se, e descobre que, apesar das lágrimas, e do susto, levara sua experiência ao limiar de uma vitória. Recompõe-se. Fascinado pelo som marcial dos próprios passos, dá uma volta em torno da mesa, estufa o peito, ergue os ombros, tenta preencher os vazios que lhe impõe a idade. Um pouco largo, sobretudo nos ombros, o paletó exala um cheiro agridoce: os suores da vida, fumaças (noturnas?), perfumes proibidos. Leve tontura ao tirá-lo ainda há pouco e furtivamente do guarda-roupa dos pais — arca sagrada — e vesti-lo sobre o pijama, excitado pelo cheiro intenso e o sentimento da violação. Sente-lhe agora o peso de armadura, muito mais das histórias que já testemunhou e esconde do que da casimira inglesa de que foi confeccionado. Pára outra vez na frente da cristaleira e, com a mão direita espalmada, quase trêmula, afaga a lapela, onde coloca um cravo imaginário.

Senta-se à cabeceira da mesa de mogno, lugar do patriarca, o cigarro simuladamente esquecido em um canto da boca e o ar compenetrado de quem não se ocupa mais de pequenos vícios, assim como os heróis do faroeste que vê na televisão. Sufocado, porém, não resiste por muito tempo ao desconforto. No banheiro da escola, um dos pirralhos de vigia na porta, ninguém senão o Leonardo — olheiras profundas, sorriso sarcástico e histórias escabrosas — conseguia fumar assim, sem o auxílio das mãos. A tosse irrompe incontrolável e as duas mãos se cruzam violentas afastando a fumaça e desfazendo a estátua recém-composta no espelho.

Quando abre por fim os olhos, a pureza do ar restabelecida, sente um vazio no estômago, esta sensação de se estar a ponto de desertar do próprio corpo sem ter onde se refugiar: da porta inexplicavelmente aberta, descobre que o pai o observa - olhar em chamas — mas não sabe há quanto tempo. Tenta inutilmente esconder o cigarro. Inutilmente, pois já não tem o comando dos dedos, de nenhum centímetro do corpo, muito menos dos dedos. Também não consegue virar o rosto, apagar a paisagem enquadrada na porta: seu corpo imenso, feito de sombra e névoa. Toda vez que atravessava a praça — caminho da escola — a mesma vertigem ao passar olhando o duque enorme montado em seu corcel, com a espada erguida comandando o ataque. Quando as nuvens, no alto, serviam-lhe de fundo, então, tornava-se maior a certeza de que ele se movia, de que poderia precipitar-se daquela altura a qualquer momento para esmagá-lo. Sentia-se aterrorizado, mas não conseguia evitar o caminho nem o olhar. Não sabe se o cigarro continua a consumir-se nem tem coragem para conferir. O paletó está muito quente, o sol que penetra por uma frincha da cortina incendeia o ar da copa. Sozinho em casa, nem a mãe nem os irmãos que aparecessem para acordá-lo do pesadelo. No tempo congelado, em que mesmo a tênue escada azul de fumaça já não leva a lugar algum, ele espera, mas parece que entrou numa cena de caça de uma tapeçaria antiga em que o caçador, de arco retesado, aponta para um touceira espessa. O tempo esmaece o verde do bosque, o chapéu do caçador perde o brilho, mas lá está ele, apontando para um coelho amedrontado. Se o vento, se pelo menos o vento levantasse uma ponta da cortina cor-de-palha. Poderia ser o fim, mas também poderia ser o sinal de que chegara o momento da fuga.

Não se dá perfeita conta do que acontece ao levantar-se de um salto, derrubando a cadeira onde estivera sentado e interrompendo no ar o punho fechado. E ainda encara?, ele repete entre dentes, tem coragem de ficar encarando? Sem tempo ou coragem para dizer que não, que apenas não tem força para desviar os olhos. Ao aparar com a mão livre o segundo golpe, tropeçam ambos na cadeira caída e rolam no chão, esmagando o cigarro aceso e mergulhando na pequena lagoa de claridade que o sol desenha no assoalho. Alguma coisa se quebra: em seu peito ou nos bolsos do paletó. Os rostos se aproximam e se afastam, mudamente. O mesmo cheiro, agora mais forte, mais vivo, o mesmo cheiro do paletó. O esforço do pai para libertar os pulsos aprisionados dilata-lhe as narinas e as veias do pescoço. Há quanto tempo não vê assim de perto este rosto? Não se lembra mais de algum dia ter visto estas asperezas na pele, estes fios brancos no bigode.

Mera tentativa frustrada de resolver o mistério da caça e do caçador, ambos presos em uma tapeçaria antiga, coberta de poeira, que o tempo descolore mas não liberta. A respiração ofegante se acalma e, em suas mãos vigorosas, apenas dois pulsos inusitadamente frágeis e sem resistência. Ao levantar-se, prefere não se voltar mais para o espelho da cristaleira, pois percebe aterrado que todas as estátuas são feitas do mesmo barro.
 


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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

O proto-colo

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"Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional"

 

O prédio da Prefeitura, construído sobre um outeiro, vigiava vinte e quatro horas por dia pelo sono da cidade. Era um edifício moderno, imponente, de linhas entre arrojadas e tímidas. Bem diferente desses vetustos edifícios públicos que andam por aí, enredados em arabescos, carcomidos pelo tempo, espiando acanhados por pequenos buracos a que davam o nome de janelas. Esse não, todo envidraçado, sem colunas dóricas ou jônicas, nem sacada tinha para o aparecimento público; aliás, coisa que vai saindo de moda, porque aos poucos se torna sinônimo de apedrejamento.

Mal abriram-se as portas de vidro em caixilhos de bronze polido, Adão entrou. O esplendor de saguão, com mármores de Carrara e lustres de cristal da Boêmia, assustou o visitante. Como saber se não estava entrando no palácio de Júpiter, no Olimpo, ou na folha de parreira — misto de agenda e bermuda — e certificou-se de que estava no lugar certo. Os olhos ainda um pouco ofuscados pelo brilho do interior, localizou, sob um letreiro a néon, a recepcionista.

— Muito bom dia, senhorita.
— Que Deus o obsequie da mesma forma, cavalheiro.

Observaram-se durante alguns segundos, até que a recepcionista tomou a iniciativa.

— O que posso eu fazer por você?

A recepcionista era moça elegantíssima e tinha um ar soberbo, de grande dama, aprendido na Escola Superior de Relações Públicas para Funcionárias Municipais. Adão sentiu-se, no primeiro instante, um pouco atrapalhado.

— Não vê que eu, não é, isto é, quer dizer, que na minha casa já falta água há mais de um mês. Pelo amor de deus, gentil senhorita, estou sem banho há igual tempo, e o meu pomar começa a murchar. A árvore da vida, cujo trato me é ao caro, acaba de perder todas as flores. Isso é grave, senhorita, porque sem maçã não se poderá consumar o pecado original. E a Eva já anda se esfregando até em perna de mesa.

A recepcionista abriu uma gaveta de onde retirou um bloco de papel com o brasão da Prefeitura.

— O senhor vai desculpar-nos, mas é uma formalidade desnecessária que, entretanto, nos mantém o “status” de povo civilizado.

Seu nome, por favor?

— Adão do Jardim Edênico, às suas ordens.
— Muito prazer, Eva do Jardim Botânico.

Apertarem-se as mãos efusivamente.

— Endereço?
— Jardim do Éden.

Ela escreveu repetindo pausadamente as sílabas.

— Ótimo. Agora, por favor, o senhor lave os pés ali naquela pia de bronze e suba ao primeiro andar pela escada de mármore cor-de-rosa. No fundo do corredor, à sua esquerda, o senhor vai descobrir o Protocolo.

Adão agradeceu com mesuras e palavras corteses, fascinado com tamanha gentileza.

Ao localizar, finalmente, o Protocolo, o coração de Adão pulsou aplausos de contentamento. Cansado e transpirando, escorou-se no balcão.

— Boa tarde, cavalheiro.
— Um momentinho.

O funcionário, absorto, mantinha os olhos fixos no relógio da parede. Faltavam cinco minutos para as duas. Quando enfim o ponteiro maior encaixou-se entre o um e o dois de meio-dia ou da meia-noite, o funcionário virou-se para o visitante e ordenou:

— Pode começar tudo de novo.

Encantado com tanta exatidão, o visitante sorriu, mas obedeceu.

— Boa tarde, senhor funcionário.
— Que Deus lhe dê em dobro tudo o que o senhor me desejar, senhor... como é mesmo que o senhor disse que é seu nome?
— Eu ainda não disse meu nome.
— Pois então não percamos tempo, que já são catorze horas e dois minutos e o expediente de hoje vai ser foda. Nome, por favor.
— Adão do Jardim Edênico.

O funcionário não declinou sua graça e Adão ficou decepcionado. Bem se vê, pensou ele, que é um empregado subalterno, sem as sutilezas de comportamento que só uma boa escola pode ensinar.

— Muito bem, seu Adão, e o que o traz até nós?

Nem sombra de embaraço, agora, por ser homem e demonstrar a simplicidade de quem não possui um diploma. Além do mais, o piso do primeiro andar era de cerâmica vermelha e a iluminação vinha de uma lâmpada fluorescente. Mesmo o letreiro, acima do balcão, era impresso com letras negras em uma cartolina branca. Nada do que causava a intimidação da entrada.

— Água, só água. Estamos sem água há mais de um mês, lá em casa, e o meu pomar...
— Perdão, cavalheiro, mas não tenho tempo para ouvir histórias. Quero síntese, entende? Síntese.

Adão começava a impacientar-se, por isso gritou.

— Eu vim aqui fazer uma reclamação.

O funcionário sorriu vitorioso.

— Ah, sim, agora começo a entender. O senhor veio aqui fazer uma reclamação, não é mesmo?
— Foi o que eu disse.
— E quem o mandou à nossa seção?
— Aquele monumento de mulher, que se eu não fosse casado há tanto tempo, não sei, não, mas acho que até poderia convidá-la para juntos cometermos algumas loucuras.
— Quem!? — interrompeu o funcionário, batendo o carimbo no balcão.
— A recepcionista.
— Correto. Era isso mesmo que supunha. Passe-me o papel então.
— Que papel?
— O senhor não veio até aqui entregar uma reclamação?
— Vim.
— Então, passe-me o papel.
— Mas por que um papel?

O funcionário sorriu novamente, mas agora, irônico.

— Me diz uma coisa, seu Edênico, o senhor é daqui mesmo?
— Como, daqui?
— O senhor mora aqui na cidade?
— Bom, moro mais ou menos.
— Mais menos do que mais?
— É. Acho que é.
— Onde.
— No Jardim do Éden.
— Bem que eu vi. É gente da periferia.
— Alguma coisa de errado nisso? Não são vocês, por acaso, que garantem o abastecimento d´água no meu bairro?
— Não, não é nada disso. É que o senhor não leu o letreiro aí em cima.

A impaciência raiava à revolta

— Claro que li!
— Então, e o que está escrito?
— Protocolo.
— Aí, tá vendo? Protocolo. E o que o senhor pensa que nós fazemos aqui na seção?
— Sei lá!
— Pois eu explico.

O funcionário respirou fundo, muniu-se de paciência e começou a explicar.

— Olhe, seu Adão, no Protocolo, a seção mais importante desta Prefeitura, nós protocolamos. Sem nosso serviço, os despachos ficariam todos engavetados, os requerimentos jamais chegariam aos destinatários, as reclamações não teriam por onde entrar, as execuções ficariam paradas. Sem nós, seu Adão, a vida na cidade seria impossível. Entendeu?
— Entendi.
— Pois bem, então vamos, o papel. Sem ele eu não posso protocolar.
— Mas eu não trouxe papel nenhum.
— E onde está a reclamação, meu amigo?
— Aqui, na minha cabeça.

O funcionário coçou o queixo, olhos enviesados, coçou a cabeça, catou um piolho na barriga e mastigou mostrando os dentes alvos.. Apertou um botão do interfone e, em voz baixa, conversou por várias horas com o chefe da seção. Por fim, virou-se para Adão e jorrou peremptório.

— Impossível.
— E posso saber por quê?
— Claro. É nosso dever manter os munícipes bem informados. No dia dois de fevereiro do ano em curso, o Mui Digníssimo Senhor Prefeito Municipal assinou um projeto, em seu Gabinete do Prefeito, que enviou à Egrégia Câmara de Vereadores no dia seguinte.

Os senhores Edis Municipais, em sessão do dia treze de março, deste mesmo ano em curso, aprovaram por unanimidade e devolveram ao Gabinete do Prefeito, com o número protocolar 24.68/32, o projeto retro citado, que, no dia seguinte, depois de sancionado, passou a incorporar o Código de Posturas Municipais, sob o número 404/1313.

— Sim, mas e daí?
—Daí, que estamos, nós do Protocolo, terminantemente proibidos de protocolar sua cabeça.
— Puta que os pariu! Eu não sou personagem de romance absurdo. Eu só quero água lá em caixa!

O Chefe da seção passava, paletó no ombro, e parou surpreso.

— Parece que ouvi gritos!

O funcionário, respeitoso, perfilou-se para responder.

— Com sua permissão, senhor Chefe. É este senhor aqui, de quem já lhe falei. Ele veio fazer uma reclamação, mas não trouxe nada por escrito.

O Chefe da seção, fingindo em tudo um comportamento bem educado para que ninguém desconfiasse de que não tinha diploma e que, se ocupava o cargo, era por ser amigo do Prefeito, sacudiu a cabeça lastimando a sorte do Adão.

— Sinto muito, senhor munícipe, mas o expediente acaba de encerrar-se. Só amanhã poderemos resolver o seu caso.

Nisto de expediente encerrado, o funcionário tirou o avental branco, sumiu por instantes no banheiro e de lá voltou de paletó, penteado, um riso faceiro na cara. Estatuado, Adão fitava os pés.

— Nós precisamos fechar a Prefeitura. O senhor vai ou fica?
— Fico.

Os dois se entreolharam assombrados.

— Mas isto não pode.

Adão pressentiu que era seu momento de desforrar-se

— Como não? Me digam: qual o capítulo, o artigo, o inciso, a alínea do Código de Posturas em que se proíbe alguém de ficar?

No Protocolo, como nas demais seções, os funcionários eram obrigados a saber de cor os itens que lhes diziam respeito. A situação, assim, ficava complicada. O Chefe e seu subalterno afastaram-se cinco passos para confabular. Como nenhum dos dois conhecia o Código em sua íntegra, resolveram consultá-lo. Adão sentou-se ali mesmo, ao rés do balcão, enquanto os dois empreendiam uma exaustiva investigação.

Tarde da noite, ao virarem a última página do Código, o Chefe concluiu:

— Se não diz que não pode, é porque pode. Boa noite.

Na manhã seguinte, o assunto já encaminhado na véspera, foi tudo bem mais simples. Resolveram que Adão não estava obrigado a protocolar coisa nenhuma e fosse conversar diretamente com o Engenheiro, atual Secretário Municipal do Abastecimento de Água e Derivados. Adão alisou a folha de parreira, que começava a murchar, e foi em busca do Gabinete do Secretário.

Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional. Atravessou uma sala imensa e vazia, acarpetada por dez centímetros de calor, e aproximou-se da mesa de jacarandá da Bahia, móvel cujo estilo brigava com tudo que vira até ali.

— A que devemos a honra de sua visita? — gritou um homem de cabelos grisalhos.

Mesmo sem ter ouvido direito o que o outro dissera, Adão fiou-se no rosto simpático e contou sua história.

— Infelizmente este assunto não é comigo.

Desapontado, Adão consultou o relógio na parede: faltavam poucos minutos para encerrar-se o expediente.

— Com quem eu devo falar, então?
— Com o Engenheiro.
— Puxa vida, até que enfim nos entendemos. E onde eu o encontro?
— Ele saiu há quatro semanas em um périplo de vilegiatura pelos Estados Unidos.
— Porra! Como, nos Estados Unidos?!
— Sim, é lá que ele se encontra.
— E quem está no lugar dele?

O homem que o atendia, talvez um adjunto para questões eleitorais, soltou uma gargalhada.

— Seu pensamento, meu amigo, é anti... ou ante, e agora?

Ligou o interfone para a Secretária Sênior, que já se tinha ido, e contentou-se com Marina, a Secretária Júnior.

— Dona Marina, é anti ou ante?
— Depende, Doutor.
— Ora essa, mas depende do quê?

A voz eletrônica e ardida lascou sua explicação.

— A professora disse que se é antes do dilúvio, é ante-diluviano; mas se for contra veneno de cobra, é anti-ofídico.
— Ora, tenha a santa paciência, dona Marina! Não estou falando de cobra nem de dilúvio. Eu quero dizer que é contra a ciência.

O aparelho ficou mudo por alguns momentos.

— Perdão Doutor, mas disso ela nunca falou.
— Sei, sei. De qualquer forma muito obrigado.

Desligou o interfone e confidenciou a Adão:

— Estas secretárias juniores são umas mulas. Sem a sênior, não sei no que viraria isto aqui. Mas de que mesmo que estávamos falando?

Restavam apenas três minutos e Adão suava.

— O senhor dizia que o meu pensamento...
— Ah, é! Pois então, senhor Adão, o seu pensamento é contra a ciência, porque sua pergunta contraria as leis da física. Dois corpos, senhor Adão, não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. Ninguém pode estar no lugar do Engenheiro.

Adão arrancou desesperado os últimos fios de pentelho.

— Pois bem, se eu não posso falar com o Engenheiro, porque ele não me ouviria de tão longe, com quem mais posso falar, que resolva o meu problema.

O Doutor, já de pé, preparando-se para ir embora, ainda respondeu.

— Com Deus.
— Não, com Deus não falo. Ele já não quis me quebrar o galho por causa de uma porra de uma maçã bichada, nem pensar na ajuda dele, neste caso.
— Sinto muito. Não tenho outra sugestão.

E saiu, sem ao menos perguntar se Adão saía ou ficava.

Duas semanas circulando pelos corredores de todos os andares, abrindo e fechando portas e janelas, apresentando-se a todo ser movente que encontrava, já era amigo da cozinheira, da servente, da recepcionista, dos chefes de seção, dos sub-chefes, do caixa, dos adjuntos e adjetivos em geral, dos substantivos e subtítulos licenciados, das secretárias das secretárias, das próprias, do Vice e do Prefeito. Nada mais natural, portanto, que fosse convidado a ocupar (e aceitasse) o cargo de Secretário Municipal de Abastecimento de Água e Derivados, no lugar do Engenheiro, cujo avião, de volta ao Brasil, mergulhara no Oceano, e cujo atestado de óbito acabava de ser protocolado sob o nº 24.69/ diga 33, para posterior encaminhamento ao arquivo, morto.




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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

Da arte de perguntar

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Muitas vezes perguntar é mais difícil do que responder. Mesmo assim, o mundo está coberto de perguntadores de tipos os mais variados. Alguns bons, com perguntas inteligentes, claras; outros, contudo, bem... melhor contar a história.

Em um Salão de Ideias, repete-se uma cena bem freqüente nas entrevistas a que tenho assistido. Quando o mediador é um jornalista inexperiente e ainda está entusiasmado com seu ofício, atropela o entrevistado sem dó nenhum. Aliás, situação bem comum nos melhores e mais sérios canais de televisão. Conheço entrevistadores de largo curso que continuam trabalhando com o mesmo frescor juvenil de quem começa, isto é, usam o entrevistado como pretexto para exibirem seu vasto repertório de conhecimentos.

Na penúltima “Bienal do Livro de São José do Rio Preto”, estávamos falando de literatura, uma das poucas praias que freqüento, quando uma senhorita de ar inteligente, provavelmente mestranda em alguma coisa que não consegui descobrir o que era, levantou o braço pedindo o microfone e lascou:

“Nos últimos tempos venho estudando as transformações comportamentais de algumas faixas etárias em relação ao meio ambiente. Em meus estudos, parti da premissa de que toda mudança encontra resistência por parte daqueles que teoricamente deveriam ser os transformados, isto é, justamente os mais interessados na questão. Consegui isolar alguns casos atípicos e os comparei ao que ocorre com as plantas em situações adversas. Empregando a ciência estatística e, com base em observações já realizadas na Inglaterra, cheguei à conclusão de que a resistência a qualquer tipo de mudança é natural, diria mesmo, uma necessidade do ser em questão. É o instinto da sobrevivência que motiva tal comportamento, uma vez que toda mudança pode esconder algum tipo de ameaça. Ainda não tive oportunidade de ler nenhum livro seu, mas me parece que o senhor tem alguma opinião sobre o assunto. O senhor concorda com meu raciocínio?”

— Concordo — respondi, e, em constrangido silêncio, esperei até que alguém se animasse a fazer novamente alguma pergunta sobre literatura.


 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:58 AM

Em busca do tempo perdido

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Houve um tempo, não muito distante, em que fui perseguido tenazmente por uma mesma pergunta. Nas dezenas de entrevistas a que fui submetido, lá vinha ela. Já parecia que a quilometragem rodada por semana era o principal traço de meu caráter. Dezenas de vezes tive de responder que rodava mil e quinhentos quilômetros por semana. E isso não pareceria nada estranho aos repórteres se eu fosse um motorista profissional: sou professor. Mas à força de tanta repetição, a pergunta começou a fazer significado. “Repetitio mater sapientia est”, dizia minha velha professora de latim, repetindo os romanos antigos, conceito que, nestas épocas em que a memória quase descendeu à condição de vício humano (como se fosse possível a sobrevivência sem ela), é bom que se repita de vez em quando.
 
O significado que a pergunta começou a formular em minha consciência, contudo, eclodiu há alguns dias, quando uma repórter de sobrolho erguido, com ar meio incrédulo, acrescentou, Mas então quantas horas o senhor passa dentro do carro a cada semana? Pronto, estava estabelecido o conflito íntimo. A partir de então comecei a fazer cálculos, a estabelecer porcentagens, comecei a me torturar. Quanto tempo da minha vida estava jogando fora por semana, por mês, por ano? Os resultados me deixavam os fios restantes de cabelo de pé. Muito nítida a sensação de que eu era um perdulário da própria vida.
 
Torturei-me durante algumas semanas com essa idéia. Pensei até em mudar de profissão. Jogar fora pela janela das estradas meu precioso tempo, pareceu-me de uma irresponsabilidade sem perdão.
 
Ontem me lembrei de um poema daquele mágico que nós chamávamos de Mário Quintana, e que hoje brilha ali perto do Cruzeiro do Sul. Um poema lido há muitos anos e nunca mais encontrado. Era sobre a passagem do trem por uma estaçãozinha. Havia os que chegavam e havia os que partiam. Além deles havia os que não chegavam nem partiam, apenas ficavam sonhando com o mundo além, o mundo possível se houvesse a coragem de partir. E ele arrematava com uns poucos versos em que dizia não importar a estação de partida nem a de chegada. O que vale mesmo, dizia o mago do Caderno H, é a viagem.
 
A vida, meu caro, a vida aprende-se é na poesia. Os poetas são estes seres de olhar assustado porque veem tudo e, de vez em quando, quase que distraidamente, erguem uma pontinha do tapete para que vejamos um pouquinho do lado de lá.
                     
O poema do Mário Quintana devolveu-me a paz. Sem me sentir culpado por estar jogando fora a vida pela janela do carro, voltei a usar o tempo das travessias, em que o corpo está preso e condicionado a uns poucos movimentos mecânicos, para soltar a imaginação. Assim é que, no azul do céu quase sempre azul debaixo do qual costumo viajar, começaram a surgir revoadas de palavras que aos poucos e aos bandos se combinam, pintam cores e formas, botam algumas idéias respirando e de pé.  
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

A velhice da crônica

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Durante algum tempo, como fazem cronistas precavidos, mantive um banco de crônicas. Era uma notícia de jornal, a lembrança fugaz, qualquer experiência do dia, que me arrancasse da rotina, tudo ia sendo transformado em crônica. Aquele banco de crônicas era meu sossego, minha garantia. Podia adoecer, sair de viagem, vagabundear, sem preocupação com a próxima crônica. Ela estava pronta, com todas as vírgulas, num arquivo do micro. Um conforto. 
   
Mas o tempo passou e as necessidades modificaram-se. Não continuei alimentando o tal banco, que aos poucos diminuiu, mas que permaneceu com cerca de dez crônicas residuais, esquecidas no fundo do quotidiano.
   
Outro dia, por engano, abri a pasta onde as mantinha mofando. Então não resisti e passeei minha curiosidade pelo meio delas. Passeando, cheguei a pensar que algumas seriam aproveitáveis, porque, enfim, eram pedaços meus que fui largando ao longo do caminho. E, sem querer abusar do Machado de Assis, senti saudade de mim mesmo.
   
Reli uma primeira em que havia escrito: Mas acontece que, apesar de moribundo, o Celso Pitta de morto é que não tem nada. Muito vivo é o que ele é. Vivíssimo. Ora, meu caro leitor, quem poderá estar ainda interessado nas mutretas de um ex-prefeito, mesmo que o seja de uma das maiores cidades do mundo? A crônica estava velha, ela sim, moribunda.
   
Na segunda tentativa, encontrei uma afirmação estapafúrdia do Ministro da Educação, coisa de que ninguém mais se lembra: O Ministro da Educação, num arroubo popular, quisera dizer que a escola é aborrecida, entediante. Lembrei-me do tempo em que frequentava esse tipo de instituição. Se deixassem por minha conta, eu passava o dia lendo gibi e outras revistas do gênero, que eram muito mais divertidas do que aprender o nome dos ossos e o quadrado ou o cubo das hipotenusas. Meu pai, um homem antigo, dizia: Tuas revistas, só depois dos deveres cumpridos. Chamávamos as lições de casa de deveres. E ai de quem descuidasse dos deveres. As exigências começavam em casa mesmo. E os castigos também. Mas meu pai era um homem antigo. Ficava exigindo que cumpríssemos, eu e meus irmãos, estes tais de deveres. Que razões me fariam comentar, depois de tanto tempo, uma bobagem ministerial?
   
Alguém se lembra daquele caso de um partido político encomendando História, assim com H maiúsculo? Pois é, ninguém se lembra e por isso a crônica não serve mais. Na época, escrevi: Bem, que o PSDB esteja querendo reescrever a História do Brasil, em si, não me parece tão preocupante, mas existem dois pontos a considerar. 
   
Vocês já imaginaram se a moda pega!? O PMDB vai querer dar sua versão, e pode dizer que o Tiradentes não morreu coisa nenhuma, ele só está esperando a situação acalmar, descansando em uma fazenda de Vila Rica; e o PT não vai deixar por menos, provando que Tomás António Gonzaga foi preso quando tentava promover a Reforma Agrária e sua ida para Moçambique foi apenas uma saída estratégica, para iniciar, a partir da África, a Campanha Abolicionista; o PFL e outros partidos mais à direita vão provar que o ACM é herdeiro direto de Maurício de Nassau, e que a Companhia das Índias Ocidentais desfilou nuazinha em pêlo na Barão de Sapucaí. O Stanislaw Ponte Preta, meu compadre, ele é quem sabia das coisas, um dos mais bem informados profetas deste País varonil, ao compor seu Samba do Crioulo Doido. 
   
Então voltei a me lembrar do Tomás Antônio Gonzaga: Sobre as nossas cabeças/Sem que o possam deter, o tempo corre. Não sei se pode servir de consolo, mas acabei de descobrir que as crônicas, pelo menos, envelhecem mais depressa do que nós.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Paraíso prometido

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Mas e eu, ela pensava em língua estrangeira na escuridão interrompida apenas pela vela de luz precária. Em seus olhos o ódio pela última pessoa do mundo a mais de quarenta quilômetros. Suas mãos tremiam feridas enquanto o velho molhava a barba com lágrimas antigas. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele dissera ao ser derramado no chão batido da choça. Nem morrer e as lágrimas desciam mornas para a barba crespa. Mas e eu, gritava seu pensamento adolescente, e seu rosto jovem duro se estriava de lágrimas anoitecidas.

O banquinho de três pernas foi posto de pé, e Gustavo sentouse alisando a corda de embira que ainda abraçava seu pescoço. Gustavo, inteiramente envelhecido, desistente, sem direito algum, nem ao menos o de morrer. A coleira, de tão rústica, machucava os olhos e a tristeza da filha. Mas e eu, seu pensamento continuava insistindo, cada vez mais baixo.

Faltavam ainda algumas horas para o dia, e os catres ficaram esfriando, mudos e com cheiro forte de corpos doloridos de trabalho.

Mal se viam, dançando sombras nas paredes de varas e frestas, mal se olhavam rancorosos. Hilda, que tinha interrompido a fuga em vôo de Gustavo, a busca do além, precisava ainda carregar seus catorze anos nas costas e sentia impossível fazêlo sozinha onde habitavam cobras e pedras, e animais ferozes ficavam dia e noite à espreita. Gustavo, completando sua desistência, só não tinha contado com o barulho do banquinho, seu baque, ao ser empurrado pelos dois pés dependurados. Seus caminhos divergentes: o que restava de uma família, agora inteiramente bifurcada. 

As lágrimas secaram, tanto as velhas quanto as jovens, ambas salgadas do mesmo sal que vieram descobrir na América desconhecida: o paraíso prometido.

Além dos banquinhos rústicos, tãosomente dois, erguidos sobre três pernas magras, a mesa de tábua lavrada com o machado e o fogão de pedras, onde as latas com água fervente e a comida, em suas horas. No canto oposto à entrada, o pilão e a talha de barro; ele para apiloar, principalmente o arroz colhido na várzea, ela para saciar as sedes noturnas e outros embaraços. Por cima de suas cabeças, barrotes abarrotados de tentações, as que eles provocaram no velho por causa da altura. Nas varas internas, a parede separando, uma abertura para o quarto, o lugar de amontoar o corpo pesado de cansaço, e de chorar a terra um dia abandonada com toda a família em busca do sonho adulto. Mas e ela, com que poderia sonhar nos seus nove anos de idade além de bonecas loiras de olhos azuis? Apenas um biombo de varas separando pai e filha, na hora da saudade e do sono.

No primeiro destino, a colônia, todos falando a mesma língua, ainda sobravam os três, porque o casal de irmãos tinhamse extraviado pelo mundo, a irmã mais velha num trem europeu, fumacento, com rumo que sua idade não podia compreender, e o irmão, seguindo com o navio para as alturas, distâncias, os lugares que nem a imaginação conseguia configurar. E a mãe, com doença da viagem no navio, em menos de um ano deixoua sozinha com o pai.

Aqui não fico mais, ele dizia, molhando de baba e lágrimas o rosto frio e inorgânico da mulher deitada com os dedos cruzados dentro do caixão. Nunca mais Hilda se lembraria da mãe que não fosse daquela cor de entrar no céu, envolta pelo cheiro forte de flores murchas. A fumaça das velas. Quatro velas pobres ajudando o mortuório. Tarde da noite e alguns patrícios, companheiros de viagem, quase todos, falando baixinho para não perturbar o sono de ninguém. E o pai, num canto, dizendo que aqui não fico mais, numa língua que todos entendiam. Sem a esposa, agora ele queria de volta seus bosques limpos, sua neve e os rebanhos de ovelha. Mas como, se o paraíso era tão exigente, e não havia com que pagar a passagem de volta? Resumiu aqui, para significar somente a colônia onde estavam, que em poucos dias abandonaram para esquecer todos aqueles dias infelizes.

Com o trabalho de operário, na cidade, o paraíso encolhiase em excesso quase infernal, traduzido finalmente em comida três vezes ao dia, casinha em bairro pobre e aluguel rico, e pouco, muito pouco mais. Não foi isso que vim buscar, dizia o pai, e ficava triste. Nos curtos serões da cidade, Gustavo cantava com lágrimas nos olhos e contava como tinha sido sua infância de pastor. Maçãs, ele dizia, como não existem iguais no mundo. E a filha, aprendendo com os colegas de escola a língua difícil deles, entendia as recordações do pai, conhecia cada sílaba de sua voz meio estragada, e punhase a suspirar como se fossem também suas aquelas recordações.

Quando surgiu a oportunidade de ver o paraíso de perto, sua porta aberta, Gustavo hesitou. Voltava para casa, desfalcado da família, mas voltava a ver seus campos, onde pasciam rotundas ovelhas lanudas, sentia novamente o sabor das nédias maçãs, e sentavase ao pé do borralho enquanto a neve descia silenciosa de brumas insondáveis? Percorria as trilhas conhecidas de bosques limpos ou aceitava a gleba no sertão, ajudando este governo a povoar regiões desabitadas?

Hilda mexiase na cozinha, providências de dona de casa, sem contudo tirar o olho do pai, que nada dizia, porque já diziam seus olhos fixos num ponto qualquer da parede. Não consultou a filha, na hora da decisão, porque uma criança, se sonha, sonha com bonecas loiras de olhos azuis. E sua Hilda, mulher para o serviço de casa, era criança para ter opinião.

Até que um dia, o sol ainda bocejando, apareceu a carroça que os levaria até a gleba que lhes tocava. Dois cavalos fortes, de grandes patas e pernas possantes, sacudiam as caudas, parados na frente de uma casa pobre de bairro afastado. Machado, enxada, facão, foice, martelo, serrote e outras ferramentas fornecidas pelo serviço de imigração. Tudo num feixe padrão, promessa de desenvolvimento regional. Mantimentos para um mês, em caixas de tábuas claras e finas. Gustavo tremia muito ao conferir a carga com que se encaminhava para seu futuro.

Ao partirem, Hilda olhou várias vezes para trás lastimando tudo que deixava naquela casa, como sua cama, o fogão, sua primeira menstruação e as vizinhas, com quem já conseguia conversar. Fungava sentida como quem parte para o desconhecido, pois ela partia para o desconhecido. A carroça ia abarrotada, mesmo assim só levava o essencial.

A primeira cabana, os medos noturnos — vozes de um povo de animais demoníacos —  ventos e chuvas como jamais imaginara ver, o castigo do sol, tudo isso (o pavor de enfrentar uma natureza rebelde) eram coisas do passado. Como dois homens, puseramse a trabalhar, mal chegados ao morro que agora era deles. Sem vizinhos com quem discutir limites ou repartir o bolo de inhame. Sem conhecidos para quem se queixar de uma dor de dente.

Gustavo ia deixando de cantar, o corpo moído do trabalho, as lembranças entorpecidas. Chegava da roça arrastando as pernas, claudicando, e muitas vezes sem comer jogavase no catre à espera de que o sono o matasse um pouco, pelo menos por algumas horas. Hilda, atenta ao único ser humano com quem convivia inverno e verão, pensou que o pai já se esquecera das histórias de sua infância: bosque limpo, rebanho de ovelhas, nédias maçãs e a neve dos meses de inverno. Ele nunca mais falava sobre aquilo, não lhe contava mais como fora sua vida. Ele parece que aos poucos desaprendia de falar. Em qualquer língua.

Apesar de não ter sido consultada sobre enterrarse nas brenhas daquele sertão, ela conformavase com sua sorte, pois seu horizonte estreitavase em torno da família que lhe restara. Não era amor que a prendia àquele homem taciturno, mas a certeza de que sua sobrevivência dependia dele. Por isso acompanhou com preocupação as mudanças de humor do velho e afinou vistas e ouvidos para evitar que lhe fugisse.

Com o baque do banquinho derrubado com as pontas dos pés dependurados, Hilda saltou da cama mesmo antes de abrir os olhos. Empoleirada na mesa, feroz, sua mão esquerda encontrou rápido a corda esticada que seus olhos não podiam ver. Com dois, três golpes de faca a corda rompeuse, e o corpo do pai se derramou no chão batido da cozinha.

O velho pôsse a tossir por causa do pescoço machucado, enquanto a filha o punha sentado no outro banquinho de três pernas magras. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele queixouse na única língua que ainda lembrava. E o pensamento da menina gritava, mas e eu, na mesma língua do pai.

Quando os primeiros raios do sol atravessaram as frestas da parede, encontraram Gustavo muito quieto recordandose dos bosques limpos da sua infância, da melhor maçã do mundo. Em sua frente viu desfilar um rebanho de ovelhas lanudas antes que as montanhas se cobrissem de neve.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

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Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam.

Eu caminhava apressado e descontente, olhando às vezes para o céu com a sensação de que tinha caído numa armadilha de onde não conseguiria escapar jamais. O céu que me restava era apenas uma estreita faixa cinzenta de nuvens que se moviam sem direção definida, mas de maneira mais ou menos frenética. Só nós dois, o vento e eu, passávamos pela rua àquela hora da tarde. Sobre o vento, sei que é de seu destino às vezes varrer as ruas. Quanto a mim, não consigo me lembrar do que fazia por lá: o lugar parecia não ter afinidade alguma comigo. Lembro-me, entretanto, de que o céu estava escuro e baixo, como a tampa cinza de um alçapão, quando o vento, encanando por aquele desfiladeiro, levantou poeira tamanha que me vi forçado a proteger os olhos com as mãos. Com a poeira, alçou vôo uma folha de jornal cujas manchetes amarfanhadas gritavam que a chuva era iminente e, além de gritarem, embaraçavam-me as pernas que tentavam correr em busca de abrigo.

Os primeiros pingos da chuva eu os ouvi na pureza de sua individualidade: alguns pesados, líquidos e sonorosos, pérolas que se espatifavam ao cair, e caindo levantavam o pó do passeio. Apenas os primeiros, porque em seguida desabou o aguaceiro de pingos homogêneos, massa contínua de sons sem identidade: água jorrada. Não me alcançou, pois começou a cair exatamente na hora em que cheguei à esquina e saltei para dentro do bar, feliz ainda por ter podido escapar.

Depois de tomar o primeiro copo da cerveja que me justificava no interior do bar, voltei à porta para matar um pouco daquele tempo agora inútil, mas também para ver a chuva caindo — aquele modo estrepitoso de cair. Foi então que deslumbrado a vi: colada à parede suja e de reboco carcomido, no outro lado da rua, ela tentava proteger a cabeça com um jornal aberto ao meio, e o peito, com a mão esquerda espalmada. Seu vestido azul, seco ainda, tremulava ao vento sem temer o escândalo de seu gesto nervoso.

Inteiramente ocupada com sua proteção, a moça, para que me percebesse exposto na porta do bar, a observá-la. Parecia sentir-se muito desconfortável naquela faixa estreita onde a chuva ainda não tinha chegado. Equilibrava-se, por vezes, nas pontas dos pés, numa coreografia assimétrica e de equilíbrio quase impossível, como se quisesse entrar na parede, a mão esquerda sem dar conta de todas as regiões a proteger, a direita segurando ainda um jornal dobrado sobre a cabeça.

Antes mesmo de que me olhasse, ensaiei vários gestos à guisa de aceno, mas, quando me olhou (Meu Deus, de onde aqueles olhos entre doces e assustados, aquela mesma boca rasgada de lábios carnudos, a testa altiva e os cabelos caindo sobre os ombros, de onde?), perturbado, não arrisquei aceno algum, temeroso de espantá-la com minha ousadia. Ela me encarou, e seu jeito de me encarar era um pedido de socorro: seu vestido azul, marcas da chuva, grudara-se-lhe nas pernas, deixando de gesticular.

Com duas rajadas oblíquas do vento, a chuva engrossou ainda mais, encurralando a moça, cujas mãos já não protegiam coisa alguma.

Na sarjeta, um córrego de águas barrentas arrastava impetuoso uma caixa de papelão com que eu brincara de barco. Fiquei atento ao modo como ela era arrastada. Havia uma espécie de desespero naquele rolar silencioso e sem resistência. Alguns passos à frente, escancarada, a boca-de-lobo a esperava. No fim do quarteirão, meus primos me chamavam, mas eu não conseguia sair do lugar. Era uma luta em que eu me envolvera, em que me envolveria a vida inteira. Joguei todas as minhas esperanças no momento em que a caixa chegasse àquela boca escura: sua última oportunidade. Não demorou quase nada para que isso acontecesse. De repente, a caixa tornou-se magnífica em sua muda resistência. Ela cresceu ao pressentir o perigo. Ergueu-se, altaneira, as mãos e os pés fincados nas bordas, recusando-se a aceitar passivamente o próprio fim. A água insistiu violenta, brutal, mas a caixa, apesar de trêmula, não arredava pé, não se movia. Houve um instante de alegria, em meu peito — o vislumbre de uma possibilidade, se bem que remota, de ver derrotada a força bruta. Mas o córrego estufou por baixo da espuma escura, preparou-se com a paciência dos que têm a certeza da vitória e arrojou-se, finalmente, contra seu obstáculo. A caixa dobrou-se ao meio, aflita, e desapareceu. Mais uma vez. Por que mais uma vez, por que sempre assim?

Nossas decepções cruzaram-se no ar, seus olhos e seus cabelos inundados de chuva e tristeza.

Finalmente, percebendo que o aguaceiro aumentava, arrisquei um gesto, ainda que tímido, convidando-a para o abrigo do bar. A água descia-lhe pelo rosto, penetrava caudalosa no decote do vestido azul, perdia-se nas profundezas de seu corpo, que lentamente ia perdendo qualquer nitidez, mancha assimétrica colada em uma parede. Em pouco tempo a água já conseguira apagar seus lindos olhos negros, transformando a boca de lábios carnudos em um risco arroxeado, deformando testa e queixo, embrutecendo o que ainda há pouco era delicadeza e harmonia.

A sarjeta já sumira, e a ilha em que a moça a custo se mantinha diminuía rapidamente. Eu me preparava para providenciar algum meio de salvá-la quando parou, em sua frente, um ônibus escuro e vazio que a roubou de minha visão.

Aproveitei para encher o copo de cerveja e, justo na hora em que me voltei, vi que o ônibus arrancava furioso, levantando água, inundando o passeio. A chuva cessava e o sol, pressuroso, começava a empurrar as nuvens para o horizonte, para trás dos prédios mais altos. O último copo de cerveja chegava ao fim. Olhei para fora e, no outro lado da rua, vi apenas uma parede encharcada e de reboco arruinado. Bem no alto, um palmo abaixo do beiral, umas janelas estreitas e ridiculamente inúteis, por onde o sol espiava o interior daqueles galpões que ficavam para além das paredes e onde homens sujos de carvão não conseguiam entender seus próprios gestos.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Olhaí, o Adauto

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Conheci o Adauto nem me lembro quando, mas sei que faz alguns anos. Ele foi meu aluno no terceiro ano do colegial. Ainda não tínhamos resolvido os problemas da educação mudando os nomes. Era, naquele tempo, primário, ginásio e colégio. Hoje já nem sei mais como chamam isso tudo. Quer dizer, até que sei, mas os nomes de agora são tão água morna com sal que prefiro esquecer.

Então conheci o Adauto numa sala de aula. Ele não era muito diferente dos seus colegas a não ser pelo fato de que usava piercing na asa da narina esquerda, tinha uma tatuagem colorida naquele músculo que desce do ombro para braço, meu deus, no ginásio eu sabia o nome de todos esses músculos! E os ossos, não me escapava um só, com o nome e a posição. Pois é, mas era assim o Adauto. Um jovem handsome. O inglês tem dessas coisas: mulher pode ser pretty, mas homem não. Nós por aqui costumávamos usar, quando se tratava de alguém do sexo masculino, uma locução perifrástica: um jovem bem apessoado.

O Adauto era alegre e extrovertido, namorador, muito bem humorado. Comecei a notar o Adauto porque toda aula ele pedia para contar a última. E ríamos de suas piadas, que geralmente eram engraçadas. Em seguida, depois de tê-lo notado por causa das graças que ele fazia, descobri que o Adauto era um quadrúpede. Simpático, mas quadrúpede. Pra somar dois mais dois, contava nos dedos. Ah, sim, e quando começaram as provas, que ele tinha de assinar, percebi que às vezes ele escrevia Adauto, mas quase sempre grafava o próprio nome como Adalto. Um dia, curioso, quis saber a razão. Sabe, psor (era assim que ele me chamava) certeza, certeza mesmo do nome certo eu não tenho. Então tanto faz.

Aqui no Brasil vivemos tropicaliamente a síndrome do tanto faz. Que deus nos proteja.

Alguns tempos depois, soube que o Adauto, ou Adalto, já que tanto faz, estava envolvido em negócios madeireiros na região amazônica. Me garantiram que tinha enriquecido e se tornara um grande empresário. Não duvido. O mundo é assim mesmo. Não que eu tenha feito opção consciente pela pobreza, mas não quis investir minha vida em acumular fortuna. Há quem o faça.

Pois bem, qual vocês acham que tenha sido o destino do Adauto? Ou tanto faz. Mordido por uma cascavel? Esmagado por uma sucuri? Assassinado com um tiro na testa ou com uma flecha no peito? Suposições erradas, todas elas. Ontem abri o jornal, coisa que não faço com muita frequência, porque os fatos pouco me interessam e as reflexões morrem de pura obviedade, e o que leio lá? O Adauto, ou Adalto, tanto faz, membro de uma Comissão de nossa Câmara Federal. E para dizer toda a verdade, não sou profeta, mas alguma coisa já me dizia, nos tempos em que ele fora meu aluno, que ele acabava assim mesmo. A continuar deste jeito, ainda chega a Presidente.  
 


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POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

A inutilidade da literatura

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A palestra era para um público heterogêneo e o assunto era a linguagem literária. A certa altura, querendo exemplificar (o que sempre dá uma melhorada nos conceitos mais abstratos), parodiei um poema:

“Certa mulher declara que nem se deu conta do envelhecimento e está perplexa por não se reconhecer, como conseqüência das mudanças causadas pela passagem do tempo.”

Em seguida li, da Cecília Meireles,

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Surpreso, ao perguntar qual dos dois textos o público preferia, ouvi uma senhora dizer que preferia o primeiro, porque era mais direto, mais claro e ela o entendia melhor.

Confesso que passei alguns segundos na angústia de não ter o que responder, atordoado com a surpresa. O inesperado sempre nos desmonta um pouco.

Duas considerações: A mulher, do primeiro texto, não existe, era uma invenção minha. Portanto, a informação não informa nada. Não é isso que se busca na literatura. O primeiro texto está escrito em linguagem de domínio social, comum a todos, sem nada de original, sem marca nenhuma de autoria. O segundo texto explora toda a virtualidade das palavras: a sonoridade, as combinações inusitadas, a interação entre elas que as potencializa. O segundo texto, por seus arranjos e combinações, pelo eco, pela delicadeza no modo de falar de sentimentos mais concretos, por tudo isso, é um texto que não serve para informar, mas para encantar.

Quem busca informação na literatura, ainda não busca a literatura. Ela até pode eventualmente informar, mas não é sua especificidade. Como explicar aquele homem voando, no conto do Gabo, a quem pensa que literatura é instrumento de informação?

Enterrados em sua circunstância material, nem todos se encantam com a beleza.

 


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