revista bula
POR EM 19/03/2010 ÀS 09:05 AM

A invenção da roda

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Isto me acontece com certa frequência: jovens que me assediam querendo saber, então, como é que é? O mundo do livro, em um país onde ele é artigo de luxo reservado a poucos privilegiados, conserva umas sombras misteriosas com que a moçada não se conforma e tenta iluminar. Quase sempre consegue apenas obscurecer. Rebelde sem causa, então, bate no dedão do próprio pé pensando que atinge a cabeça de quem viveu antes, também foi rebelde e agora prefere a doce e merecida paz conquistada com ou sem suor.

O último que me atacou com suas dúvidas queria saber se era possível alguém escrever um livro sem ter lido nenhum. Sim, porque na escola aprende-se o funcionamento da representação gráfica dos sons das palavras. Em geral, qualquer egresso de escola sabe ler e, muitas vezes, escrever. Tive de responder que, bem, impossível, inteiramente impossível não é. Uma vez que tenha frequentado uma escola e saiba traduzir em letras os fonemas de alguma língua, o essencial já está feito. Seus olhos brilharam vitoriosos. E imaginei que fosse um de seus projetos. Meu lado mau não deixou barato. Mas um livro desses eu não leio, acrescentei para estragar sua alegria.


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POR EM 03/03/2010 ÀS 11:01 AM

A invasão insidiosa

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Levantei hoje com aquela sensação na boca do estômago geralmente chamada de náusea, que é a sensação causada pela certeza de que o planeta dá voltas em volta de si a uma velocidade terrível, e que a história, este cronicão das sociedades que vieram depois da pré-história com seus registros, não fica atrás dando voltas como louca.

Como andei fossando em livros que relatam a queda de impérios, para escrever meu romance “A Muralha de Adriano” (que não é um romance histórico quanto aos fatos, mas tem um viés alegórico relacionado à queda dos impérios), me vieram à lembrança aspectos do Império Romano em seu processo de decomposição.

Em geral quando se pensa na invasão do Império Romano atribuída aos bárbaros, imagina-se uma horda de homens de cabeleiras loiro-sujas montados em cavalos semi-selvagens que, a galope e aos gritos, ultrapassa as fronteiras do Império devastando plantações de trigo, destruindo pontes e estradas, ateando fogo nas aldeias, estuprando belíssimas e virginais camponesas romanas. Enfim, invasão de bárbaros deve ser uma invasão bárbara. E o cinema ajuda muito a manutenção de algumas falsas verdades.


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POR EM 25/02/2010 ÀS 02:37 PM

A eternidade vai acabar

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Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Não tinha muita consciência de mim mesmo, quando acordava para a vida, e me parecia que os seres, como eu, teriam para sempre o mesmo formato e o mesmo tamanho congelado com que os via.

Depois vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. O Loyola, quando escreveu “Não Verás País Nenhum” estava profetizando, ele, que não é um profeta profissional, mas como diletante tem acertado muito, pois estamos bem perto das bolhas de calor que ele descobriu antes de todos nós. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina. Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunames, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Nossos avós deitavam-se à noite e dormiam pensando em um mundo amigo, meio compadre da gente. Nossos avós. Porque os avós de uns outros por aí dormiam pensando em como transformar a natureza em lucro. E transformavam. 


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POR EM 08/02/2010 ÀS 05:05 PM

À espera do milagre

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Somos um povo sonhador. Estamos sempre sonhando com algum milagre, com algum “meu tio da América”, como no filme de Alain Resnais. E isso vem de muito longe, de muito antes de 1385, quando cada português pensou que merecia pelo menos um marquesado.  

Meu compadre Adamastor, o gigante mais bem informado a respeito de sonhos, afirmou outro dia ser herança do cristianismo. Desde cedo, dizia ele, estamos ouvindo frases feitas e bonitas, muito feitas e ainda mais bonitas, histórias exemplares, hagiografias, enfim, toda sorte de textos de nossa formação cristã e ocidental, que nos induzem a estar sempre à espera de um milagre. Ah, os milagres! Que mal fizeram a esta humanidade portuguesa e brasileira! Quem espera sempre alcança, a esperança é a última que morre e outras frases reforçando nossa crença de que algo além de nossa força e de nosso esforço vai acontecer dando solução a nossos problemas. Quantas e quantas vezes “quem espera” não alcança nada, pois esperando não sai do lugar! E a esperança pode ser verde, mas murcha e seca e morre, contrariando o ditado popular. 

Não duvido de meu compadre, mas me lembro daquele rei D. João I, de Portugal, o Mestre de Avis, que, depois de 1385, levantado o cerco de Lisboa, danou-se a conceder títulos de marquês, conde, visconde a antigos mesteirais (barbeiros, tanoeiros, celeiros e tantos outros eiros). Desde então, nós, mais ou menos portugueses, e plebeus, estamos sempre à espera de algum rei que nos conceda um feudo, com castelo, gado, plantações e servos. Em suma, esperamos um milagre.


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POR EM 23/01/2010 ÀS 11:03 AM

Pensar é muito perigoso

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Revista BulaUm amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.

Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.

Dias atrás apareci em um evento, coisa que muito pouco tenho feito, e ouvi um ex-político, com a facilidade verbal que a maioria deles tem quando há público, afirmou que o povo brasileiro vai-se acanalhando. É um povo, são palavras dele, de chapéu na mão e sorriso calhorda, à espera das migalhas debaixo da mesa. E é claro que a mídia, sobretudo a eletrônica, que depende de índices de audiência para sobreviver, é claro que essa mídia não é inocente no caso. Os ratinhos da vida andam por aí, ditando gosto, lotando auditórios, olhando pra baixo.


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POR EM 15/01/2010 ÀS 10:52 AM

Da alienação

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Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.

2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.

Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Um banho de chope

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De que maneira, não sei, o certo, entretanto, é que precisamos trazer de volta o Stanislaw Ponte Preta. Ou seu espírito. E com urgência. Esteja ele onde estiver, porque o Brasil vem sendo assolado por uma enxurrada de besteiras que está ficando difícil de suportar. Precisamos de alguém com a verve e o humor do Stanislaw para que os besteirocratas não se sintam assim tão à vontade. É necessário que sintam pelo menos um pouquinho de medo do ridículo para que nos deixem em paz.

Ontem à noite, não me lembro por que, mas estava na frente da televisão quando minha casa foi invadida por um desses, como dizer... um desses pacóvios sarados sem muito treino na arte de pensar. O garotão veio anunciar uma festa que acontece em Santa Catarina e informou que os organizadores esperam um consumo de quarenta e cinco mil litros diários de chope durante os dezessete dias da festa.


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POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

Dos umbigos

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Uns bichos meio xucros, meus irmãos e eu, mas em que pese nossa xucrice, vivíamos bisbilhotando o mundo e inventando o futuro. À falta de coisa melhor, era essa uma de nossas distrações prediletas. E foi numa dessas conversas com que nos distraíamos inventando o futuro que meu irmão um pouco mais velho do que eu lascou a frase profética: Um dia, ninguém mais vai usar roupa.

Estávamos sentados em um banco de madeira, no alpendre, tentando adivinhar com que cor ficariam as nuvens quando o Sol tocasse o horizonte. A imagem das nuvens e suas cores não descolaram mais de minhas hoje cansadas retinas. Assim como a frase assus-tadora, vibrando até agora no tímpano já cansado.

De lá pra cá tudo veio encurtando. Calça curta com tirantes, uma das marcas da infância (Como não me lembrar da primeira calça comprida que usei?), de repente apareceu com nome diferente, uma importação, certamente, que nos veio das Bermudas? Sociólogos, esses camaradas que vivem estudando os comportamentos da gente, devem ter a explicação para o atual nome da calça curta. E os tirantes? Nem tirantes nem suspensórios. Aliás, tirante meu amigo Deonísio da Silva, acho que no Brasil ninguém mais usa suspensórios.

Tudo encurtou. Diz-se, inclusive, que as distâncias também entraram no processo geral. O avião é a prova viva do que estou dizendo. Meu pai sempre deu aula de terno e gravata (Aliás, terno sem colete não é um oxímoro?), e seu filho que vos fala só usa paletó para solenidades, e, como sala de aula nada tem de solene, prefere camiseta regata, ou pólo, ou qualquer outra coisa permitida pela direção da escola.

Mas nada encurtou tanto como as blusas feminis. Elas foram subindo ao mesmo tempo em que as calças foram baixando. A cobertura da parte de baixo não deve chegar a menos de quatro dedos do umbigo, enquanto a cobertura superior não deve se aproximar deste botão sensual que o Criador inventou de botar no ventre das mulheres, para gáudio da homarada. Não que os homens também não tenham esta coisa esquisita por onde nos informam os anatomistas nos alimentávamos em tempos que depois não lembramos mais. Os homens têm. Mas umbigo de homem, confesso a vocês, não tem graça nenhuma.

Difícil encontrar atualmente mulher que não traga exposta sua diminuta rosa pousada na barriga. Algumas são de fato merecedoras de escultura, ou como se diz na modernidade, de um close televisivo. Mas outras, não reparem na falta de humor, mais parecem um pequeno tumor, uma ferida desabrochando, um cravo, uma verruga. Suas donas e portadoras não se tocam do ridículo que é expor partes do corpo sem nenhuma beleza? Ah, sim, e outro detalhe: não existe mais limite de idade para mostrar o umbigo, nem idade tampouco peso. E seria tão simples! Bastava não encolher a blusa.

Mas a ordem geral, nestes tempos, é encolher.

A profecia de meu irmão ainda não se cumpriu, mas agora concordo com ele: caminhamos nessa direção. 
 


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POR EM 06/09/2009 ÀS 10:44 AM

As aparências enganam

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De tão velho, este ditado, já não pensamos mais nele. Mas me parece que não é fora de propósito vez por outra relembrar essas verdades da sabedoria popular.

Quem não se lembra do Collor? Era o jovem bem falante, trajando ternos provavelmente importados, que agradava, por sua aparência saudável e elegante, à maioria do eleitorado brasileiro. Gostamos muito de saúde, mas muito mais de sua aparência. A eleição do Collor deu no que deu, no que todo mundo sabe.

Nas eleições seguintes, algum marqueteiro experto (assim mesmo, com x) lembrando-se do resultado da eleição anterior, deu um banho de loja no candidato Lula, que aproveitou para tomar outros banhos, como o banho neoliberal. E deu no que deu. O povo gosta de um terno bem cortado, de uma gravata com aparência de cara.

Sei de muita gente que escolhe os produtos a comprar pela embalagem. Os semiólogos explicam o fenômeno afirmando que o ato da compra não é apenas o ato de aquisição de algum bem. Muito longe disso. Quando se faz a compra de um objeto, o mais importante não é o valor de uso que ele possa ter, mas o status social que ele garante.

Vocês já viram como jovens da classe média não usam roupa cuja marca não esteja na moda?

Meu falecido pai, um homem antigo, andou muito tempo por aí dizendo que o importante, o mais importante, não é o aspecto exterior, mas as qualidades de caráter, isto é, o que é invisível porque está escondido por dentro do ser humano.

Pode ser que meu velho tivesse razão, mas os semiólogos dizem que tudo é linguagem e já ouvi alguns deles afirmando que o modo de se vestir revela muito do ser vestido. Não duvido.

O professor Edward Lopes, meu amigo e orgulho da semiologia nacional, conta uma anedota que tem Manuel Bandeira como personagem central. Nosso poeta, eleito para a Academia Brasileira de Letras, vestiu-se com o fardão engalanado, para tomar posse de sua cadeira, e tomou um táxi, pois ele nunca dirigiu. No caminho, o taxista examinava-o pelo retrovisor, com olhos espantados, de quem não está acreditando no que vê. Na avenida Brasil, o carro encontrou uma sinaleira (estamos no Rio) fechada. O taxista aproveitou a parada obrigatória e virou-se rapidamente para trás. Muito solene e respeitoso ele perguntou:

— Sois rei?

Aquele taxista sabia muito: ele transportava não um rei, mas um dos príncipes da poesia brasileira. 
 


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Adeus, meu pai

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Portas e janelas mantêm-se fechadas desde o início da noite: o frio lá fora, rondando a casa, silencioso, enquanto na sala enfumaçada de vez em quando alguém abafa a tosse com a mão, pede um copo dágua, tenta espantar o sono. A mulher que até agora vem puxando o terço abre um pouco a janela da frente, respira a noite — sua cabeça escondida atrás da veneziana: não suporta mais o cheiro adocicado e murcho das flores, ela esclarece assim que retorna.

Soltas no regaço, em repouso, as mãos de Ana, ásperas e rugosas, desde a véspera irremediavelmente inúteis, não se movem. Há muito elas já vinham assumindo esta coloração baça de gesso, de maneira imperceptível porém progressiva, até que, esta madrugada, ao fitá-las através da fumaça, seus olhos sujos de pasmo e sono, ela diz para si mesma pois é, e eu continuo aqui, livre e sem razão. E suspira. Apreensiva. Mas, apesar do desconforto de ter a casa devassada por tantos olhos, com os vizinhos vasculhando seus cantos escondidos, ditando as providências, mudando lugares e horários, é um momento em que não gostaria de estar sozinha. E não está.

Pouco antes, um daqueles intrusos encostou-lhe delicadamente o assento de uma cadeira nas curvas das pernas, senta, criatura de Deus, porque ninguém pode ficar assim, de pé parada, a noite toda. E ela sentou-se em silêncio, apalermada, o busto um pouco erguido demais para quem velava desde a tarde anterior — o modo como pensava assumir a chefia da casa — mas sem muita consciência do ritual que se cumpre em torno daquelas quatro velas que pouco iluminam e mesmo assim se consomem irremediavelmente nos castiçais.

O ar espesso da sala enfumaçada torna-se mais denso ainda com o sopro quente daquele cochicho: seus olhos enxutos. A noite toda assim: enxutos. A vizinha da frente tenta arrancar de Ana qualquer sinal de sofrimento, inconformada com tamanha serenidade, e, como não consegue, abre com estrépito a janela por onde entra uma golfada de ar gelado e o movimento nascente do bairro. Aquilo, seu gesto brusco, parece a muitos um desrecalque, alguma vindita, forma de jogar o velho, mais entrevado do que nunca, no meio da rua. Alguns chegam a trocar olhares significativos; nada mais que isso, entretanto. Ana apenas suspira, mais por cansaço que de dor, ao ver despejar-se tanto sol sobre o esquife do pai: seus olhos cerrados. Enxutos. Mais do que ninguém, naquela sala, ela tem razões para a tristeza, todos sabem, mas quando seca o coração e há flores murchas nos vasos ao redor da mesa, os olhos não vertem mais lágrimas. O coração de Ana, ainda jovem ela o espanejara, espremera-o bem, e o trancara por fora, protegido. Quem sabe para sempre. A vida dele em suas mãos, minha filha — sua mãe no quarto do hospital. Em suas mãos.

Lágrima nenhuma, cochicham os homens na cozinha, quase alegres com o escândalo que é a falta de sentimento daquela filha. Nenhuma, repete ainda um dos mais velhos, cigarro pendurado em um dos cantos da boca, cismarento, olhar perdido na superfície agitada da cafeteira, de onde retira a colher pingando e onde a espuma, aos poucos, se desmancha. Também, pudera, recomeça depois de encher as xícaras, e, percebendo que vários de seus companheiros se voltam para ele, curiosos, decide silenciar: boatos antigos, apenas, o ódio pelo pai e aquela paixão devastadora. Boataria. E, enquanto coloca xícaras vazias em uma bandeja (o café das mulheres que rezam o terço na sala), sacode a cabeça repetindo: tudo boato, claro. Maldade do povo desta rua.
A não ser pela ladainha intermitente das mulheres na sala e pelo espocar de uma que outra gargalhada depois de uma anedota na cozinha, a madrugada avança lenta e silenciosamente para a maioria dos participantes da vigília — os que afundam as mãos na geladeira, servem-se com desenvoltura do fogão, enchem os cinzeiros de tocos de cigarros e os esvaziam no cesto de lixo. Outros, derrotados pelo cansaço, ressonam jogados sobre a mesa, a cabeça apoiada nos braços. Vez por outra um deles levanta a cabeça, o cabelo empastado na testa, os olhos injetados, para perguntar se já está na hora.

E então, ele veio?, perguntam ao velho, mal aparece de volta na porta da cozinha. A expectativa de que o passado encontre sua outra ponta nesta noite longa e fria já vai esmorecendo porque o dia começa a entrar pelas frinchas das venezianas e pelas frestas por debaixo das portas. Talvez não venha mais, respondem seus braços abertos e suas mãos espalmadas.

Instigado pelo barulho repentino e pelo cheiro marrom do café, um dos amigos da casa consulta o relógio e avisa: a hora chegando. Ninguém lhe contesta o direito de determinar a sequencia das ações naquela casa e naquelas circunstâncias. Há mais de trinta anos, desde que o entrevado e a filha vieram morar nesta água-furtada de fim de rua, ele e João Pedro, seu primo, eram as únicas pessoas a frequentar a casa quase todos os fins de tarde, por conta daquelas infindáveis partidas de xadrez que mantinham o velho aceso e combatente. Durante duas décadas ou mais os moradores da rua maliciaram suas visitas, sugerindo entre risos que um dos dois ainda sairia casado com Ana. Ou os dois. E isso os deliciava muito, pois não conseguiam imaginar o que seria feito do velho, então. Por fim, sem resultados aparentes, desistiram de inventar o futuro e esqueceram-se de Ana em sua prisão: a vida dele em suas mãos, minha filha. Mas o povo não estava inteiramente errado. João Pedro, o mais novo dos dois primos, durante muito tempo não fez questão de ganhar ou perder aquelas batalhas intermináveis, em que peões e bispos, brancos ou pretos, eram abandonados à própria sorte, enquanto seus olhos sequiosos bebiam gota a gota cada gesto de Ana, mergulhavam nas curvas da moça enquanto seus braços fortes e roliços empurravam a cadeira do pai. Ela não tinha ainda estes olhos fundos tão tristes e medrosos nem sua pele era pálida como agora. Seu rosto não era assim chupado, de maçãs salientes, nem seus cabelos tinham sido ainda tingidos pelas mãos do tempo. No dia em que ele criou coragem e declarou seu amor, sem nada responder a jovem sumiu para os fundos da casa desmanchando-se em prantos. Em suas mãos, minha filha. Em suas mãos.

O jovem entendeu a recusa de Ana e seu silêncio, jurando com a maior seriedade nunca mais voltar ao assunto sem que a moça estivesse desimpedida de seu penoso encargo.

Com o olhar embrutecido pelo sono, Ana observa o antigo companheiro de seu pai, enquanto ele pega a tampa do esquife, até então de pé e encostada à parede, para fechar o caixão. Nos quatro castiçais de alumínio, pequenos tocos de vela irremediavelmente inúteis tentam ainda resistir à lufada de ar gelado que acaba de entrar pela janela. Ninguém se inclina sobre o féretro armado em cima da mesa da sala, o rosto macerado pela dor; ninguém se joga sobre o corpo, tentando retê-lo por mais alguns instantes. As mulheres, todavia, que há bastante tempo descansavam, sonolentas, recomeçam suas rezas, agora, ante a iminência do ato derradeiro, com muito mais empenho, atropelando-se umas às outras, perdendo-se no ritmo desarvorado, esganiçando palavras que nem elas mesmas sabem o que significam. Algumas pessoas levantam-se, indecisas, sem saber como deve continuar aquela ação. Ana permanece como está, as mãos soltas no regaço, o olhar turvo, o busto um pouco levantado demais para quem vela desde a véspera.

Primeiro as mulheres sentadas do lado de trás do caixão. Ao verem-no ali de pé, estancam assustadas a ladainha, enfraquecendo de repente os apelos em favor da alma do velho. Então as demais, as que estão de costas para a porta, leem o susto nos olhos das companheiras e viram-se de uma só vez para trás. Ele chegou, ouve-se alguém gritar para os fundos, onde os homens fumam e contam piadas.

Recortado contra a manhã clara e fria que espreita a sala escura pela porta aberta, João Pedro observa como as mulheres subitamente interrompem suas rezas por descobrirem-no sombra ali parado; vê como os homens chegam da cozinha, atropelando-se pelo corredor demasiadamente estreito e desembocam na sala pela porta oposta. O recém-chegado adivinha curiosidade e dúvida em alguns olhares, ternura e esperança na expressão de antigos companheiros. Não entra logo, também ele ansioso, sem saber como será recebido depois de tantos anos de espera. Entre as mulheres, tão-somente duas ou três fisionomias um pouco mais familiares e uma cabeça que não se volta, onde ele supõe muitos cabelos brancos.

Por fim, quando parece que nada mais vai acontecer, João Pedro com sua sombra invade silenciosamente a sala e pendura o chapéu num prego ao lado da janela. Ninguém mais se move, ninguém ousa falar, e mesmo a respiração parece estorvo para quem não pretende perder nada da cena que se desenrola ali, à frente de todos.

São apenas quatro passos, mas João Pedro avança arfante e com extrema dificuldade — as quilhas de seus pés, entorpecidos na espera, singrando aquele mar de flores murchas. Só quando atinge o espaldar da cadeira onde Ana o espera e depois de apoiar suas mãos pesadas nos ombros da mulher é que João Pedro percebe perplexo que os tocos de vela agonizam em seus castiçais. Ana segura a mão do amigo em seu ombro, tentando retê-lo mas de maneira relutante. E assim, amparados um no outro, sem rota possível, todavia, os dois permanecem por longo tempo.

É o primo de João Pedro quem, por fim, consulta o relógio e informa que não se pode esperar mais. Pega novamente a tampa do esquife, que havia largado com a chegada do primo, e espera que Ana contemple o finado pela última vez. Ana move os lábios quase imperceptivelmente:

— Adeus, meu pai.

Um homem com as duas mãos pousadas nos ombros de uma mulher, protetor, as pessoas olham enternecidas, acreditando ser o destino que finalmente se cumpre. Então, como acham que ali o ritual já está completo, levantam-se os que estão sentados e juntam-se aos que tudo observam de pé para sair acompanhando o féretro, que já está na calçada.

Quando, por fim, o último toco de vela expira, João Pedro força levemente a mão presa, e Ana a solta sem mover a cabeça, sem manifestar emoção alguma, mesmo porque, ela já não tem certeza de sentir o que quer que seja. Volta-se finalmente para vê-lo pegar o chapéu e sumir na intensa claridade da manhã recortada pela porta.
 


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