revista bula
POR EM 19/10/2010 ÀS 12:17 PM

Amor adulterino

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Numa época em que a maioria dos casamentos eram muito mais arranjos familiares do que impulso e atração pessoais dos nubentes, estamos no século XIX, os escritores românticos pintaram o amor com as cores da pureza e os pincéis da fidelidade. Aliás, em algumas correntes o amor sofre algum tropeço para não chegar a seu corolário sexual.

Em “Eurico, o presbítero”, de Alexandre Herculano, Eurico busca a morte voluntariamente ao enfrentar os mouros, sem couraça ou elmo; e sua amada, Hermengarda, enlouquece ao ver-se entre o dever e o amor. Pouco depois, Camilo Castelo Branco, daria a morte a Simão e Teresa, antes que os amantes se tocassem a não ser com olhares distantes. 

Com ou sem intenção, o fato é que se tentava amenizar o peso do matrimônio por interesse com as tintas fortes de sua sacralidade. Romances de amores-paixão, como o “Amor de Perdição”, de Camilo, funcionariam como elemento catártico, como ocorre até hoje, sobretudo com as novelas de televisão. Tudo aquilo que não posso viver na realidade, vivo na imaginação. E com isso, mantinham-se em razoável estado de saúde os sagrados laços matrimoniais. São raros os casos, nesse período, de histórias em que aparece alguém cometendo adultério. E quando isso acontece, é com intenção moralizadora, é para denunciar as fraquezas humanas. 


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POR EM 12/09/2010 ÀS 06:16 PM

Lúcia, a cortesã

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Lúcia era seu nome de guerra. Na pia batismal chamaram-lhe Maria da Glória, nome que usou até os dezessete anos, época em que as circunstâncias de sua vida forçaram-na a esquecer sua madrinha, a Nossa Senhora da Glória.

Até aquela idade, teve uma vida comum, de menina que estuda apenas o suficiente enquanto espera o amadurecimento para tornar-se esposa e mãe, uma dona de casa para ser acrescentada como um número nas estatísticas demográficas. Na escola, durante o Ensino Médio, experimentou cigarro e sentiu a boca muito amarga, ficou duas ou três vezes com meninos da classe, conhecendo alguns amassos masculinos em exercício de maturidade. Repetiu, até então, o que via e ouvia em sua volta. Nunca tivera vocação para rebeldias além daquelas de ficar um almoço sem comer, para a aflição da mãe, por não lhe terem permitido passar o fim de semana em excursão com os colegas de classe.

O pai foi sempre um homem trabalhador, taciturno mas honesto, cumpridor, sem mancha alguma em sua ficha. Enfim, trabalhar pouco mais de vinte anos na mesma empresa era façanha  admirada por parentes e amigos. Um dia, entretanto, a empresa teve de enxugar-se e enxugou-se nas costas de alguns de seus empregados com toalha infelizmente muito áspera. Pairava sobre os lares uma fumaça ameaçando crise mundial e o pai de Maria da Glória inchou o dedo médio batendo em portas fechadas.


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POR EM 30/08/2010 ÀS 08:41 PM

Ambição excessiva

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Nossos valores, geralmente formados e sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Meu velho, enquanto viveu e eu meninei, gostava de contar-nos histórias, e, entre aquelas de que mais gostava estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia. Histórias exemplares, quase sempre, porque se sabe que é mais fácil reter na memória uma narrativa do que um conceito abstrato. Tenho certeza de que todos os discursos a respeito da ambição excessiva que você ouviu e eu também ouvi, já foram esquecidos. Mas uma história, ah, isso até hoje eu ainda posso repetir.  

Aborrecido com o que Pedro Malasartes fizera com sua filha, a princesa, o rei condenou-o à morte por afogamento. Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho. Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes, era de alta estirpe.


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POR EM 23/08/2010 ÀS 09:19 AM

O dia da sogra

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Dia desses, um jornal diário publicou uma crônica em que este antigo rabiscador (atualmente um digitador) propunha um dia para se homenagear a sogra. A resposta não me veio de sogra nenhuma, mas de uma intelectual das mais respeitadas da região, cujo nome declino por não estar autorizado a expô-la à sanha popular. Essa intelectual, que é minha amiga, mandou-me um emeil fazendo-me o reparo ao informar que o Dia da Sogra já existe e que é o dia 28 de abril. Agradeço pela informação, prometo marcar o dia em meu calendário e ainda sugiro àqueles que, como eu, adotaram a mãe de seu cônjuge como sua segunda mãe que façam o mesmo. Elas merecem.

Mas não é só isso que quero, minha cara amiga. Na verdade eu estava achando que um dia por ano é como aniversário: tão festejado nos primeiros anos quanto esquecido depois de certa idade. Um dia por ano sempre me pareceu muito pouco para que se dedique à reverência desta figura duplamente materna como de qualquer outra que a mereça. Elas merecem mais, muito mais, e não tenho culpa se você não gosta de sua sobra ou se ela não vai muito com a sua cara. 


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POR EM 16/08/2010 ÀS 08:26 AM

Alguns quilômetros a mais

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Depois de um período conturbado em que me envolvi com algumas viagens, umas tantas palestras e a tirania de uma dor enjoada na altura da articulação do fêmur com a bacia ilíaca, voltei às minhas caminhadas. E logo no início do retorno, me lembrei das aulas de anatomia, no Ginásio, quando ficava questionando por que tinha de aprender essas coisas, se não queria ser médico? A vida ajuda a superar tais questionamentos, pois não foram poucas as vezes que tive de mexer em eletricidade, anatomia, ácidos e bases e por que não?, até com trigonometria. Como a gente se engana com aquela idade.

Em algum lugar já disse (não me lembro se foi aqui) que não sou fã de exercícios físicos, nunca fui. Não me envergonho de dizer que no colégio nunca fui escolhido para a seleção de qualquer modalidade esportiva da escola, e que este fato não chegou a me criar traumas na adolescência. E nem era por isso bullinado, se é que cabe o neologismo.

Agora é diferente. Meu cardiologista, experto em coisas do coração, pelo menos em seu aspecto material, exigiu-me algum tipo de atividade física como modo de manutenção da carcaça. Que eu escolhesse: caminhada ou remédio. Como os remédios andam o olho de nossa cara em noite de tempestade, concordei em fazer minhas caminhadas de uma hora entre quatro e cinco vezes por semana. O susto que ele me deu foi tamanho que, passados os principais momentos da emoção, não acreditei que tivera a ousadia de uma promessa daquelas, sabendo os sacrifícios que me acarretaria seu cumprimento.


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POR EM 03/07/2010 ÀS 02:49 PM

Agora Inês é morta

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Inês de CastroQue a expressão significa alguma coisa como tarde demais ou algo parecido, isso toda gente sabe. Um prazo vencido, uma oportunidade perdida, algum acontecimento irreversível, e lá vem alguém e diz: Agora Inês é morta.

O que nem todos sabem é a origem da expressão. Até outro dia este cronista também não sabia.

Em várias obras literárias, desde Fernão Lopes (pai de todos nós, os que escrevemos crônicas, cronista-mor que ele foi del Rei D. Duarte, no século XV), passando por Sá de Miranda e chegando a Camões, encontra-se a história da infeliz Inês de Castro. Esta, uma nobre galega, veio para Portugal como aia de Dona Constança, futura esposa de Dom Pedro I, de Portugal. O príncipe, cujo casamento fora arranjo da corte, apaixonou-se pela dama de companhia de sua mulher. Até aí, nada de extraordinário, situação bastante comum naquelas épocas em que o sangue bom, mas bom mesmo, ainda era o sangue azul. E olha que logo depois Camões diria que o amor é fogo que arde sem se ver.

Morta Dona Constança, os conselheiros de Afonso IV exigiram que o príncipe Dom Pedro tomasse esposa indicada por eles e rompesse as relações com sua amada. Temiam que, por sua influência, Portugal perdesse a independência. Não houve jeito de convencer o príncipe, por isso, e por conspiração dos conselheiros, ele foi mandado para a guerra. Enquanto fora o príncipe, reunida a corte, Inês de Castro foi trazida do interior, onde se encontrava, e num julgamento sumário foi condenada à morte e ali mesmo, no palácio, foi degolada.


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POR EM 12/05/2010 ÀS 02:40 PM

A dona da casa

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O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.

Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.

Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.

− Vagabunda!

A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.


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POR EM 29/04/2010 ÀS 10:19 AM

A vida ensina

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A avenida Anhaia Melo, em São Paulo, praticamente nasce na favela da Vila Prudente. Houve uma época de minha vida em que era aquele meu caminho da roça. O trânsito, naquele local, é muito intenso, pra não dizer vertiginoso. Os carros que descem o viaduto vêm despencando sem dó, pois vão cair em uma reta bem longa. Só que, cinqüenta metros além, está um semáforo. Pois é nesse farol que uma multidão de bacuris ganha a vida. Alguns deles, dizem, representam a única renda familiar. Não sendo repórter, nunca tive a curiosidade suficiente para investigar a veracidade disso. Mas, sendo ou não verdade, é pelo menos verossímil. Na breve parada dos carros, lá vêm eles limpando pára-brisas, vendendo balas e tudo que é bugiganga. Os olhos arregalados, o discurso decorado, a coreografia do improviso.

Muitas vezes vi aquelas canelas finas trocando passo às pressas, com a planta do pé aparecendo e sumindo como se fossem verdadeiras máquinas. Frágeis máquinas de viver. Eles correm entre os carros, se for preciso pulam por cima do capô. Mesmo com o semáforo a favor do fluxo da avenida, os garotos a atravessam com uma ginga de fazer inveja a qualquer Ronaldo da vida. É um drible veloz, um jogo de corpo de toureiro. Passa um carro e o menino corre, pára entre duas faixas, olha para o lado, corre mais um pedaço, finalmente pula exultante na calçada do lado de lá. Mais uma vitória contra a morte que ronda o tempo todo, lambe-se gulosa e volta pra casa insatisfeita. 


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POR EM 09/04/2010 ÀS 09:38 AM

A verdade dos ditados

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A escola, como a conhecemos hoje, está na sua juventude. A verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. A sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, para incutir persistência (supostamente uma virtude). Supostamente, é claro, pois o filho do meu vizinho, que persiste em desobedecer aos pais, brindando-os com os mais cabeludos palavrões, não acredito que mereça ser chamado de virtuoso. Quem espera sempre alcança, é o que se costuma dizer para aqueles cuja esperança já está acabando. E o mundo está cheio de casos de uma vida inteira à espera sem ter alcançado coisa alguma.

Pois bem, até hoje crescemos ouvindo essas jóias da tradição oral e, à força da repetição, os ditados tornam-se verdades indiscutíveis. Para uma grande parte da população é assim. Não foram mordidos por aquela curiosidade de abrir para ver o que tem dentro. Era isso o que estávamos discutindo ontem à tarde no bar do Ranulfo, lugar em que costumamos libar enquanto desvendamos os mistérios da raça humana. 


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POR EM 01/04/2010 ÀS 10:38 AM

A palidez da esperança

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Todos vocês devem saber quanto é difícil, em determinadas situações, manter a esperança. Eu, de minha parte, tenho alimentado algumas esperanças fazendo um esforço que me protra e me deixa extenuado. Não sei até quando vou poder suportar o peso dessa “ferida verde” como a caracterizou minha amiga, a poeta Ruth do Carmo.

Há muito tempo as pesquisas vinham apontando o brasileiro como um leitor de 1,8 livros ao ano. É pouco, muito pouco. Principalmente se tivermos em conta que o argentino lê alguma coisa aí por volta dos 8 livros no mesmo tempo. Atualmente se fala em 4,9 e a gente precisa fingir que não sabe ter havido mudança nas técnicas de pesquisa, comparando-se, agora, laranja com abacaxi, ou melhor, somando-se dez laranjas com cinco abacaxis, quantas laranjas são? Apesar disso, quando me perguntam o que penso da leitura no Brasil, procuro mostrar-me otimista, dizendo que é preciso olhar a curva de tendência, que já foi pior do que está, que tem muita gente trabalhando para reverter essa realidade, e essas coisas todas de alimentar esperança. E para não ficar só na palavra, faço-me soldado da cruzada do incentivo à leitura. Tenho feito isso na sala de aula e fora dela. Tenho perdido algum tempo com o assunto. Mas esperança é um desgaste muito grande de energia. Manter a panela fervendo, exige muito combustível. E eu, que já me alimentei de muito mito, acabei ficando um ser desconfiado de minhas próprias crenças.


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