revista bula
POR EM 17/11/2008 ÀS 08:15 PM

Sempre Neruda

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Seu Canto Geral é uma homenagem ao povo humilde das minas de sua terra. Não há ostracismo nem vacuidade em sua poesia, mas puro lirismo

Neruda, um dos maiores poetas líricos do século XX, nasceu há cem anos, no dia 12 de julho de 1904. Quando cheguei a Palmas, em meio à chuva de novembro, sonhei com um imenso tinteiro pálido diante do Palácio Araguaia. E Neruda me dizia “posso escrever os versos mais tristes esta noite”. Escrevi Ode a Palmas em homenagem a Pablo Neruda. Homenageei Palmas também, mas não me saía da cabeça o vácuo lírico poético do grande poeta, que nasceu no Chile, com nome de mascate de armarinho, ou seja, Neftali Ricardo Reyes Bosoalto.
    
Venceu o Nobel em 1971, o segundo daquele país, que chamam de “largo”,  mas que não passa (ou melhor, é tudo isso) duma fina franja de terra poética espremida entre os Andes e o Pacífico. O Chile se projeta para cima até o sul do Peru, próximo da capital do magnífico Império Inca, destruído por Pizarro - escorre para a Terra do Fogo como um mergulho de cabeça de cavalo marinho. 
    
Neruda, que enegreceu seu verbo lírico revolucionário, principalmente depois da Guerra Civil Espanhola, ao lado dos Republicanos, veio duma linhagem de poetas profundamente enraizados na terra, como Gabriela Mistral, a poeta dos niños, que o antecedeu na conquista do Nobel de Literatura.
    
Seu Canto Geral é uma homenagem ao povo humilde das minas de sua terra. Não há ostracismo nem vacuidade em sua poesia, mas puro (desculpem a repetição) lirismo. Escrevo em clave emocional, como escrevi sobre Picasso, sobre a morte de Allende, sobre a destruição dos troianos por um comando imperialista de gregos desabusados, ainda que mágicos e viscerais, da mesma forma que, baseado no livro de Skarmeta, Michael Radford pôs Philippe Noiret na pele de Neruda e realizou o tristemente poético “O carteiro e o poeta”.
  
Não dá para não emocionar quando lemos poemas como “Explico algumas coisas”, para saber se Rafael, se Frederico se lembram da bela casa que tínhamos em Madri, onde gerânios estalavam na varanda, antes dos mouros franquistas virem do céu com suas máquinas e sortilégios, cuspindo fogo. Vinde ver o sangue nas ruas, crianças, vinde ver. 
   
Pois esse homem um dia escreveu “acontece que me canso de ser homem”. Morreu fora de época mas no lugar certo, quando o amado Chile (o Arauco das araucárias, tantas vezes evocado nos versos) sofreu seu inominável golpe, que o lançou na longa noite das delações e perseguições, pouco depois do “suicídio” de seu amigo Allende, em setembro de 1973. A covardia humana é tão oportunista que pouco se falou (Brasil) então da morte “irreal” do grande poeta. Se vivo, certamente escreveria hoje “Ode ao meu centenário”.  

Lúcio Alves de Lima é escritor e tradutor de O tambor, do escritor alemão Gunter Grass, Prêmio Nobel de Literatura de 1999.


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