revista bula
POR EM 14/03/2008 ÀS 04:10 PM

A Vaca e o Jacaré

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Eleição enrascada foi aquela. Menino do céu, que coisa! A briga principal entre a Vaca e o Jacaré. O Jacaré era o 15, número do partido, que comandava a prefeitura, e a Vaca, o 25, do adversário, desafiante, cada qual com seus partidos agregados. Imagine uma eleição dura, ferrenha, descompensada, aquela atendia a todos esses requisitos e outros mais indizíveis. O prefeito, Jacaré ferrenho, amarelecia o município e arrotava arrogância sem pudor nem piedade. Os da Vaca se juntaram com um candidato previamente escolhido e, segundo as pesquisas, era o que poderia fazer alguma cosquinha no adversário.

O prefeito do Jacaré botava quente e fervendo nos contrários, com um gosto de gás que sopitava na jagunçada, coisa nunca vista naquelas bandas, arrotando que pudessem vir quente que ele era o dono do tacho e da fornalha, por isso a água estava fervendo. Um medo lascado e velado tomava conta dos adversários, até brotar tinindo num movimento estrondoso que buliu de vez com a estrutura do Jacaré. Mesmo assim, ninguém do lado da Vaca ao menos sonhava em ganhar a eleição, porque a máquina da prefeitura estava toda na campanha e ameaçando fazer e acontecer.

Para se ter idéia do salseiro que era a política daquela cidadezinha, numa determinada festa do padroeiro, num povoado do município, o filho do prefeito e seus capangas arrumaram um escarcéu do cão que culminou na morte de três irmãos e um primo do lado adversário, por causa de coisinha à toa. Acontece que um pouco do feitiço virou contra o próprio feiticeiro e na perlenga do tiroteio um dos capangas, involuntariamente, acertou um tirambaço no filho do prefeito, que também foi para o beleléu.

A história desse furdunço e outras do naipe voltaram na campanha, com todos os matizes e rancores. Num é de ver que a eleição chegando, o clima esquentando, as brigas aumentando, esculachos e esculhambações usando Vaca e Jacaré e ambos os lados arrotando vitória pra fora e desconfiança e medo pra dentro ilustravam a fantasmagoria do processo, até com famílias se engalfinhando, cuspindo fogo uns nos outros.

Dez dias antes do pleito, o candidato da Vaca, desafiante do prefeito, sofre um atentado a bala, em plena madrugada, dentro de casa. Motoqueiros adversários, segundo as versões menos adversas, encheram de bala a casa do tal e uma delas, inclemente, pipocou no ombro do dito. Precisava estardalhaço maior? Veja o que se deu pra ganhar um voto, gente! Aí é que tá. Ambos os lados sustentaram versões e versões sobre o ocorrido. Os do prefeito dizendo que o atentado fora simulado, e os adversários, do lado do candidato baleado, jogando a culpa no desespero dos situacionistas, argumentando que queriam matar o candidato desafiante, com o medo de perderem a prefeitura.

Até hoje não se sabe ao certo que lado teve razão na argumentação e eu também, só de pirraça, porque nenhum dos dois era meu candidato, não vou dizer quem ganhou a eleição.

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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:41 PM

Desejos e confidências

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Queria dizer, não fosse minha timidez, que desejava muito trepar com ela, assim na bucha, na cara limpa, sem subterfúgios que impedissem uma ação direta de constitucionalidade dos desejos humanos. Trepar, não, que não conseguiria dizer essa palavra, mas algo assim mais ameno e besta, como transar, fazer amor. Aí ficou melhor para nossos escrúpulos. Ela também podia se desvestir de incômodos pruridos pudicos e manifestar o desejo que eu vi em seus olhos, sopitando pelos poros. Mas que nada, na hora H não saiu a frase tão ensaiada e desejada, meus comedimentos tomaram conta do que não era o que eu queria ser, fazer, dizer.

No fundo, eu sentia que ela queria me dar, seus olhos diziam isso. Mas ela também mudava sua conversa quando a coisa se encaminhava para o engate. Que nada, sabe o que ela disse? “Uns safados, esses homens casados, muitos deles já me cantaram para me tornar amante. Uns safados, sim, eles são. Só querem aproveitar do sexo e depois dão o pira.” Ora, quem queria dar nunca viria com uma conversa dessa, tirando o seu ou a sua da reta. Eu queria justamente era me tornar amante dela, sem compromisso, só ir na boa, sem alarde. Tudo o que os outros também quiseram e ela os descartou dizendo um ‘não’ do tamanho do mundo.

Talvez tivesse razão no sentido de que um desses botou um filho nela e a deixou atarantada pra cuidar desse menino, a bem dizer sozinha. Ela tentou a justiça, mas ele se escafedeu. O grande porém dela, e eu sabia disso, é que não conseguia ficar muito tempo sem homem, mas aquela resposta me deixou descabriado. Que conversa mais insossa! Nada que uma camisinha, uma cartela de pílula e uma tabelinha não resolvesse. Mas parece que nossos propósitos eram desencontrados. Eu a queria na bucha e quando desse. Ela me queria também, mas antes de tudo queria compromisso. Compromisso eu já tinha, alguns até, querer mais pra quê?

Eu não podia desse jeito, mas ela também sabia disso. Que fazer diante de tanta necessidade? Eu de ter mais uma mulher pra chamegar e ela de ter um homem que lhe daria a satisfação necessária aos prazeres da carne, dos instintos de fêmea. Afinal, o trem foi feito pra coisa, dizia um velho amigo poeta.

É certo que se ela topasse eu quereria reserva, ou seja, que ela desse só pra mim, embaixo do quieto, mas só pra euzinho. É que eu sou um cabra macho e não admito ser chifrado. Mas essa parte ela nem precisaria ficar sabendo, porque eu cuidaria de fazê-la só minha, dentre as minhas. É que hoje em dia essas mulheres viraram um despautério, querem namorar, querem fidelidade, querem os seus machos só pra si. Tá difícil e ficando cada vez mais.

Depois de compadre Zelito me confidenciar tudo isso, ele que tinha fama de garanhão inveterado, cheguei à conclusão de que é muito difícil ser safado hoje em dia. E ainda arrematou: “Por essas e outras, compadre, é que tem muita mulher passando precisão.”  


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POR EM 26/02/2008 ÀS 02:39 PM

Avenças e desavenças

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Derna deu quininim me embatuco pra tomar tento e ciência com as avenças do mundo, as que estiolam e as que adjutoram. Tomo tino, mas ainda morro besta. Certa feita, um xibungo tampa de binga quis me embromar com sugestas diversas, foi quando atinei suas leréias e casquei fora, passando a divulgar  as mermas do que era o eito de sacanagens com que os pestiados a toda hora nos atentam. Foi preciso garguelar o bicho, o feladamãe e fidumacadela prenha, estrupício de gente e mandar tomar termo.

Era o tempo bom retado em que inda vadiava de calça curta gritando pros outros “quem tem rabo, avoa, quem não tem, caçoa”; ou quando alguém pedia uma coisa que você estava comendo e não queria dar: ‘dá dói, pedir incoe, murro no oi dói”; ou ainda quando gritava para mariposa: “cai, cai, tanajura, na panela de gordura”; ao feladaputa que te xingava, lascava: “xibumgo é ribibiu, comi sua mãe, seu pai viu”. Depois, debulhava um rosário contra os pecados do mundo, para agradar o céu.

As bondades também me acompanharam de bebéu, ainda refestelando nos peitos de mainha, coisa que aprendi e, quando posso e deixam, pratico com afinco, pra ficar fortinho, simpático e alegrinho.  Tive ciência de que pobre é quem gosta de ajudar o semelhante, que cachaça é suvela do cão, que fuxico chalera o que não deve, que godela é vício de fulero, que quem num sabe cuma é pergunta ontá.

Homem exemplado, Lindauro vivia e dava bons conselhos, era pissuidor de bons grados e pongava nos ensinamentos do bem. Mas a modo que vivia açulerado e era malino, acabou enterrado de novo, morreu de supetão, num houve Tretrec que desse jeito. Acontece muito de gente boa num tardar. Renato também era outra alma bondosa, que deu sapituca no pelego e bateu o pacau, foi pontá Deus. Sem tino pra enfrentar água, ia me afogando e ele pulou com roupa e tudo e me salvou. Senão não estaria aqui hoje com essas indagas.

Menino de lá pispiava a mocidade na bronha e no puteiro, sob o serviço da rameira mais experiente do brega, tirando definitivo qualquer possibilidade de boiolagem. Causa disso, prosperavam as doenças nos pissuídos. As desavenças da política surrupiavam o sossego, levando uns a despicarem nos outros da mesma laia, quando não da mesma família.  Uns imbromavam, outros despicavam, alguns iam com traquinagem e sempre dava em furdunço, destempero ou rebuliço.

A vida e suas bestagens, uns com mais, outros com menos, uns bestejados outros ladinos, gente feito sibesta e imbirrenta. E assim vai-se vivendo, uns fazendo e outros desfazendo, uns com a fivela outros com a manivela, lancetando a pustema, saindo dos cafundós e indo pro caixa prego, arreliando e xumbregando, gumitando o que não come, rindo de sastifeito e traquinando nos xamegos, promode de caçar rumo e a gente ainda sai na bistunta, trupicando nos ermos.
 


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