revista bula
POR EM 20/05/2008 ÀS 11:33 AM

Variadas maneiras de amor

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Os avós de Ticiano, nascidos nos idos de mil e novecentos e comecinho, fizeram 'upa' para iniciar um namoro de pegar na mão. Beijo, então, nem se via. Os primeiros indícios de que namoravam vieram pelos olhares e esses eram furtivos e convidativos, insinuantes. Casaram-se cedo, como Ticiano ficou sabendo depois, quase meninos ainda, quando os pais dela acederam ao pedido muito bem formalizado e coisa e tal. A partir desse pedido, puderam então segurar um na mão do outro, sem mais delongas e pronto.
 
O mundo se dava no ano a ano e as modernidades foram aparecendo, coisas como rádio, máquina de datilografia, telégrafo, gramofone e os pais de Ticiano já puderam entabular um namoro a partir do aconchego das mãos, isso assim depois de muito tempo de investidas, recados e insinuações. Quando houve o consentimento dos pais dela para o namoro, foram namorar na sala, à vista de todos da casa e sem passar das 8 horas da noite. Coisa bem vista e apetrechada de respeito e comedimentos. Depois, vieram o noivado, o pedido de casamento e, após o matrimônio, a noiva ainda teve de esperar uma semana na casa dos pais dela para depois se mudar para o novo lar, ao lado do marido.
 
Vigia também o que até pouco tempo era determinado pelo Código Civil brasileiro, que o marido tinha o direito de devolver a mulher, caso constatasse, até uma semana depois de casado, que ela não era mais virgem. Era tudo nesse conforme e notícia de devolução era pouca, mas volta e meia aparecia uma história dessa.
 
Ticiano já teve mais liberdade para namorar e até um beijo, volta e meia, ele roubava. Era coisa roubada mesmo. Beijinho assim de bicota, um selinho como se diz hoje em dia. Namorava no claro, de mãos dadas e algumas vezes tinha o privilégio de sair para um passeio, à tarde e à vista de todos. Foi nesse tempo que mulher começou a querer usar calça comprida, a fumar e por aqui já tínhamos a televisão. Começaram as novelas e nesse tempo as noivas já saíam com o marido em lua-de-mel. Vieram então a pílula anticoncepcional e as mulheres queimaram sutiã em praça pública. As mudanças se aceleraram.
 
Ticiano até já usava camisinha, fazia a tabelinha para evitar filho e depois sua mulher começou a tomar pílula. Certo é que todos os dois filhos e a filha foram muito bem programados. O primeiro menino hoje namora de dormir junto com a namorada, inclusive na casa dela, com o consentimento de segismundo e todo mundo. O segundo menino teve uma filha com a namorada, que é criada ora na casa de uma avó ora na casa da outra. Foi consenso nas famílias e eles acharam melhor não se casar e, mesmo, logo logo devem estar cada um pro seu lado. A filha, mais nova, de 18 anos, já está no segundo namoro e a namorada de agora é bem diferente da primeira, na verdade um xodó da casa. O casal usa anel de compromisso e assim que ambas terminarem a faculdade pretendem se casar.

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POR EM 13/05/2008 ÀS 10:02 AM

Voltar é bom

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Algum tempo depois, voltar ao lugar em que nasceu, sentir as diferenças, as pequenas e grandes diferenças incorporadas pela modernidade, auscultar o barulho das coisas, o marulho das águas, a sinfonia das conversas jogadas fora, da demora pouca, duma pilhéria de Canô mais adiante, do bate-papo com Manezim, que ficou cego, da visita à venda de Tio Temisse, à sapataria de Nem de Baia, ao Bar de Nego Tota, do zumzumzum da gambiras, do bate-papo na esquina com um pouco de política e de futebol, surpreendendo-se com as crianças que nasceram, cresceram e estão mais taludas que os pais, do povo vendendo e comprando bugigangas, pedir a bênça a mainha, aos tios e tias, relembrar os que morreram, abraçar os que vivem e que se fazem mutuamente felizes.
 
Ir ao mercado, às vendinhas do mercado, com seus de-comeres e quitutes típicos, comidas fortes como sarapatel, buchada, cuscuz, beiju de tapioca com queijo e requeijão, feijoada, bolo de arroz, broa, biscoito de queijo, quebrador, avuador, requeijão com doce de leite, carne cozida escorrendo aquele óleo mais vistoso, arroz de leite (arroz doce), canjica e uma ruma de iguarias que nos enlevam o paladar e nos levam com mais prontidão à casinha. E a gente sonha com o que não mais se vê por lá, o manuê e o cascarrão.
 
Esse retorno é importante e imprescindível para energizar o mundo que nos cerca com a alegria de rever as pessoas queridas, que fizeram parte de sua infância e ajudaram a construir um mundo de sonhos, fantasias, de poesia e de uma realidade dura e visceral. A gente se desafia a viver essa realidade num ente querido que se foi deste mundo e nos deixou a saudade junto com as boas recordações, histórias que completaram sua vida durante muito tempo de alegria e também nas horas de maior dificuldade.
 
Mesmo se deparando com tanta mudança, com muita coisa que inexistia, o barulho e o perigo dos carros e motos substituindo os cavalos e os carros-de-boi, o tilintar exótico dos telefones celulares, que nem em sonho existiam, e hoje além de tudo fotografam, filmam e dão acesso à internet. Eis aí uma outra diferença. Antes, topávamos com as oficinas de calçados, as selarias, as alfaiatarias, os folheiros, as vendinhas, um ou outro carro velho que a gente denominava de lecheba. Hoje em quase toda rua há os cybers com computadores que dão acesso à internet, rede mundial de comunicação, muita gente tem seus endereços eletrônicos para se comunicar, a televisão chegou e abarcou o tempo e virou diversão e lazer, com um mundo encantado e vasto de parabólicas. E logo, logo virão as TVs fechadas, com suas dezenas de canais e uma variedade imensa de coisas que requerem o tempo que não dispomos para tanto.
 
Como é bom ver e conviver com a entrada das bandeiras dos festejos do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário, com a cavalaria, as caixas tocando e a flâmula santa abençoando os que acreditam e aos santos creditam. Fui em caravana de Goiânia, comandada por Laércio Correntina, para a inauguração do campinho soçaite do seu irmão Marcelo Cláudio e um show com Emídio Queiroz, Tom Chris, Fernanda, Huck Pontes, Luiz Wagner (de Mariano), o sanfoneiro Zé Américo, Vavá Cunha, que terá a música Saudade do Vapor gravada por Geraldo Azevedo, professora Ena Rocha, com seu bandolim, Zé Bezerra e seu saxofone, Henrique Soares, Lucas Ramos, Madson Frejar, Inomar Luiz, e Rodrigo Araújo.

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POR EM 06/05/2008 ÀS 06:16 PM

Yêda Schmaltz

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Dia 10 de maio faz cinco anos que deixou esse eito de mundo e foi embora a poeta, escritora, professora e artista plástica Yêda Schmaltz. A morte de uma poeta vai além da perda. Presto uma homenagem ao talento de uma mulher que foi exemplo para mim e uma geração de poetas e pessoas que gostam e apreciam a poesia e a literatura em geral.  Yêda era a criatividade em pessoa e nos legou uma obra espetacular, recheada de esplendorosa magia e alentadora da nossa necessidade de transformar, criando, destruindo, reconstruindo, metamorfoseando nossa existência.

Yêda era também uma emérita agitadora cultural e não descansava, intuindo coisas, matutando ações, angariando espaços para a divulgação das artes de uma forma geral e ocupando espaços que pudessem contribuir para que os poetas e escritores divulgassem seus trabalhos, sempre os recebendo com sorrisos e incentivos. Pode até ser porque ela morreu que eu estou aqui contando essas loas, mas acho que não apenas. Certo que a memória dela me é muito presente e cara e me regozijo, mas aquela mulher era um turbilhão. Fique claro que turbilhão aqui é no sentido poético, sendo de livre interpretação, no entanto. Ela é uma pessoa para ser lembrada sempre e nunca morrerá enquanto sua criação literária viver em mim e naqueles que gostam de poesia.
 
Eu abri este espaço para falar da saudade e da poesia dela, da qual sou um apaixonado. Para nosso deleite, catei trechos que sintetizam um pouco do que quero dizer de uma vasta bibliografia, onde constam mais de 20 livros publicados e quase trinta participações em antologias. Quero mostrar um pouquinho da poesia dela, que é tão grande e intensa.
 
9d - (uma anarquia) do livro "Ecos"  - 1996
 
Eu amo todo dia
e toda noite
 e não durmo repetindo
te amo te amo te amo.
 
Vesti tua imagem na pele,
sou a sozinha que
mais tem companhia:
tua lembrança forte
na minha cama
e toda a noite
e todo o dia eu amo,
coisa mais perigosa,
flor desfeita, rosa
não desabrochada.
 
Eu estou desacordada
de madrugada, chorando
que te amo te amo te amo,
imaginando que estás
neste momento mesmo
amando outra pessoa
e nem lembrando que eu existo,
escrevo poesia e prosa.
Amar é isto. Uma anarquia.
Mas que dor gostosa. 

 

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POR EM 29/04/2008 ÀS 07:46 AM

Aleluia, irmão, em nome de Jesus!

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A mulher de João Potatoes foi criada na barra da calça do pastor e só por uma dessas incríveis e dilacerantes coincidências do amor se encontrou com ele no casamento, que a bem dizer e ver tinha tudo para não dar certo. Ele, um inveterado nas veteranas putarias, apanhou jeito quando encontrou Liana, uma das mais arriadas pelo evangelho segundo os que vieram primeiro nas hostes de Deus.
 
João prometeu e prometeu-se consertar na oficina que ajeita os pecados do mundo, porque tinha criado amor por Liana, nesses encontros que o inusitado explica. Bem querer daqui e amorzinho dali, tiveram dois filhos que também freqüentavam a igreja pela ordem da mãe e dos avós, mesmo porque João Potatoes pispiou mas não se engajou nas parábolas e epístolas sacrossantas do credo da Igreja crente do evangélico protestante. Com muito custo e ferroando a mão, Liana conseguia tirar o dízimo do bolso dele, o que se dava muito a contragosto e contra tudo.
 
Ele não via motivo para dar seu suado dinheirinho, mês a mês, segundo ele, para o pastor se refestelar. João Potatoes passou um tempo quieto, no entanto desacomodado com aquela situação, sem botar distúrbio, tudo em nome da boa convivência e nem tanto em nome do amor, que, no que imputa ao “quase” , minguava.
 
Destrancou-se na velada putaria de antes e sempre e arrumou um caso de fora que ele, com tesão, botava pra dentro. O relacionamento em casa destrambelhou-se e tava custando oração braba pra sustentar o casamento. A Igreja entrou no meio, apazigua daqui e dali, os filhos pedindo, gemendo e chorando num vale de lágrimas. O fervor foi tanto que Jesus Cristo, que pra todos efeitos só ele salva, entrou na parada e na cabeça de João Potatoes, invertendo as fases, e ele virou um fiel, um contrito, um escolhido, um arrebatado, um salvo das tentações do capeta, que estiola as famílias.
 
João Potatoes virou, como Jesus o fez, da água para o vinho e também passou a freqüentar a Igreja, a orar com o pastor e a família. Era Deus no céu o pastor na terra, uma lambança.
 
Na oração do domingo de manhã começaram em aleluias, no sangue de Jesus, nos salamaleques mais contritos e restritos do céu. O pastor pediu para que desabafassem, que os fiéis contassem tudo o que os oprimia, tudo que fazia sua vida pesada, que Deus ia tomar conta dos que estavam ali, em função de perdão. Um por um foi contando pecados, desavenças e distúrbios vários com os céus e a terra.
 
João incorporou a contrição e falou alto para a igreja que teve uma amante por mais de dois anos e traiu várias vezes a sua esposa.
 
– Perdão, Senhor Jesus. Aleluia ...
 
João Potatoes nem chegou a completar o pedido, Liana, sem pensar duas vezes, lascou com gosto a mão na cara dele, em meio à cerimônia, e o mandou catar favas. Tudo em nome de Jesus! Aleluia, Senhor!
 
Eu, por minha conta, suprimi os xingamentos, porque Deus castiga.

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POR EM 22/04/2008 ÀS 07:29 AM

Gemidos

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As estripulias da carne suscitam faíscas que chamuscam e esmeram em apoteoses as mais diversas e inusitadas. Voam os gritos mais autênticos e originais nos estertores do prazer e todos os dias matérias jornalísticas, pesquisas, histórias, fofocas e fuxicos perpassam esse mundo ensinando e cavoucando as instruções do xamego e do lutrimento,  que estimulam e produzem os retorcimentos e piripaques com os mais indolores e acalorados gritos e gemidos. É o momento mais alfabético e escalafobético do embate do prazer, com seus dias 'D', horas 'H', pontos 'G' e 'n' possibilidades.

Vindo de Saracutópolis, lugar pequeno, que não via sal e nem geladeira, onde a carne é fraca e apodrece rápido,  Zé Leréia aguçou os ouvidos  e desenvolveu uma sensibilidade ímpar para escutar os gemidos do fuque-fuque, anuência única que lhe proporcionava êxtase sexual. Só esses gemidos, e somente eles,  lhe davam prazer,  e a argúcia era tanta que,  numa distância de 500, 600 metros,  sua audição captava os ui, uis, ai, ais de gente furunfando. Incontinenti excitava e acompanhava o casal em um intenso solilóquio incestuoso com suas partes.

Antes de morrer, me contou, inclusive,  de algumas passagens em que fui, com algumas namoradas, protagonista para suas fantasias onanistas. Disse-me que isso começou nele por volta dos 14 anos, quando se despertou pra homem, e foi influenciado pela famosa janela noturna de Dona Nagilina e Seo Jinoé. Ele gemia que nem um porcão, com urrrhr, urrrhhrr, mas ela se desmanchava uri, uri, uri ... ipa, ipa, ai, ai, ai, uri, uri ... ai Jinoé, ai Jinoé, ai Jinoé, uri, uri, uri ..., ipa, ipa, ai, ai, ai, uri, uri. Era um tremelico de quatro a cinco minutos de gritos, sussurros e urros, que Zé Leréia se encantava e ria por dentro quando via Dona Nagilina andando faceira, pela rua, no dia seguinte. Pensava: "Aquela ali tem do que".

Quando se mudou de lá, desenvolveu e aguçou os ouvidos e o sestro acelerou-se ainda mais nele. Passou a catar e a selecionar as audições e se esmerava naquelas em que as mulheres eram as menos criteriosas com os gritos e espasmos. Adquiriu cátedra e passou a perceber que as mulheres usufruíam muito mais o tempo do prazer, na comparação que passou a fazer dos minutos que passavam gritando e retumbando de excitação e prazer nas culminâncias orgásticas.

Zé Leréia me contou que ouviu de um tudo nos seus mais de 60 anos de espreita: gemidos esotéricos, palrações enigmáticas, loquacidades exóticas, gritos ecumênicos, exaltações santificadas, imitações de brigas e contendas, risos galopantes, choros esfuziantes e xingamentos os mais obscuros. Tudo isso oriundo da saga orgástica feminina. Os homens, quando muito, urravam baixinho e gemiam gemidos comedidos.

Disse-me também que, da única vez que se apaixonou pelos estardalhaços de uma mulher, viveu mais de 15 anos à espreita do casal, que conheceu logo depois da lua-de-mel, procurando fixar residência sempre nas imediações de onde morava. "Era uma coisa do outro mundo", dizia, e até eu fiquei doido de vontade de dar uma espiadinha de ouvidos.

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POR EM 15/04/2008 ÀS 03:53 PM

Namoro com o pudim de leite

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A chuva era de molhar bobo e eu saí debaixo dela, com cara de alegre, sem guarda-chuva, certo de que jazim chegaria num abrigo ou ao destino, que não era longe. Sapato de ver o Capeta, porque em tempo de chuva não se usa o de ver Deus, lá vou eu deliciando-me com o bem-bom dos pingos e respingos marejando minhas costas. O mundo da rua se apressou e a brisa impulsionava com gosto e poeira os transeuntes, e eu no meio do vai-e-vem sem ter tempo de reparar muito nas coisas ao redor, porque também apressava o passo.
 
De repente, a brisa toma tento e vira vento e este se transforma em ventania e a chuvinha vira chuvão num estalar de dedos de São Pedro, acho que bem a propósito da tentativa de remissão forçada das máculas que tenho com ele, principalmente quando toma umas atitudes assim meio intempestivas como aquela. Aí foi perna pra que te quero e a água era tão brava que em meio minuto já tinha enxurrada atravancando a passagem pela rua.
 
O mundo em volta apressou-se muito mais, chegando às raias do avexamento. Todo mundo caçando um canto com que se defender da água que vinha grossona lá do céu, fazendo o inferno para os que, como eu, foram pegos no meio da rua. Era também a hora de voltar para casa, já findando a claridade do dia, e a barriga já começava a pedir comida. Logo apareceu um oásis nomeio da chuvona: um quiosque de vender quitutes e sucos, tendo um toldo caprichado que já abrigava uma multidão em função da tormenta.
 
Enfiei-me de uma vez entre os molhados que me espremeram até a borda do balcão de doces e quase atropelo um pratão onde se oferecendo estava assentado um pudim de doce de leite condensado. Se não atropelei o pudim do prato, certamente o devorei com os olhos. Sou simplesmente ta-ra-do por pudim de leite condensado. Parei até de reparar na chuva que caía aos cântaros e me concentrei na delícia que me oferecia aquele pudim. Eu olhava pra ele e ele olhava pra mim sem distinguir qual o desejo mais fissurado, se o meu de comê-lo ou o dele de ser comido por mim. Bastava para tanto que eu tirasse um Real da carteira a o entregasse ao dono do quiosque, coisa que eu podia fazer mais de 415 vezes com o salário que ganho.
 
Para complicar meu namoro com o pudim de leite condensado, começou a me atazanar todas as recomendações médicas da véspera, com os cuidados com o que come, a taxa de glicose, os triglicérides e o colesterol. Mas o namoro era intenso e ficava cada vez maior. Ele olhava pra mim com uma carinha pidona de “me coma, me coma, meu nego” e eu olhava pra ele com uma carona de “vem ni mim minha tetéia gostosa, meu docinho”.
 
Ficamos ali um tempão naquele namoro esfuziante e eu hesitava, metia a mão no bolso e tirava, pensava, enfiava novamente e vinha aquela agonia prazerosa cheia de água na boca. Um namoro louco, o pudim me querendo, me pedindo e eu também a ele, excitando meus olhos e as papilas gustativas tanto, tanto que ...
 
A chuva parou.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 09:45 AM

A gente que vai e vem

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Apesar da largueza toda e de suas voltas, o mundo muitas vezes é pequeno demais e a gente percebe e decanta com boa surpresa. No entanto, os percalços e as imensidões afastam tanto a gente, que só a saudade e a nostalgia amenizam e enfatizam a necessidade que temos de viver e sonhar. A vida é feita de eternos encontros e desencontros. É certamente óbvio, mas ilustra a vida de todo mundo.
 
Fiquei a reparar, desde cedo, na alegria do convívio daqueles ali, no interior, onde crescemos uns apegados aos outros, em contato quase visceral, certamente fraternal, na infância e na adolescência. Daí a procurar seu tento, cada qual se escafedeu no ermo, na tentativa de encontrar um rumo e arrumar sua vida e a dos seus. De repente, aqueles que viviam todos juntos, se encontrando a todo instante, para conversar, pilheriar, festar, vadiar e brincar, cortam abruptamente o cordão da união, num parto forçado pelas circunstâncias e ânsias.
 
Jorgina que amava Pedro, que tropeçava de paixão por Clara, que morria de amores por Cláudio, este que namorava Anita. É a história de um poema drummondiano. Maria foi obrigada a se casar com o mascate, porque o pai não queria mais uma mulher em casa “uma puta”. E a menina inocente e besta foi com ele para a capital de um estado que nem conhecia e a brutalidade deixou para trás a paixão por Sinfrônio.
 
Fiinho foi pro Pará, viver do garimpo. Nélio foi pra Salvador, continuar os estudos. Lico se mandou pra São Paulo. Neto foi pra Goiânia. Alguns se mandaram pra Brasília, outros pro Mato Grosso, Minas Gerais, Alagoas, Ceará, Maranhão. Tina se casou nova e hoje é mães de quatro filhos, que hoje voltam para visitar os avós que ficaram lá. Mário é coronel da polícia do Mato Grosso, Chico Tixé morreu atropelado em São Paulo, Renilda é dona de Bordel em Salvador, Paulo é funcionário público em Brasília, Mércia casou-se comum ricaço de Belo Horizonte e Gilda vive bem em Florianópolis. Inúmeros destinos e tantas histórias.
 
Tanta gente foi, tanta gente nasce e há tanta gente indo, que 20, 30 anos fazem uma diferença estrondosa. A geração é outra e quando você retorna só conhece os pais, o lugar está diferente, tudo fica mais distante, principalmente se você não consegue amenizar as lonjuras. Isturdia, uma conterrânea me disse por e-mail que a cidade estava se perdendo dela. Eu entendi seu sentimento, sem deixar de perceber que havia alguma coisa que ainda a puxava para as raízes, além dos pais que lá ficaram e vivem.
 
Há também os que voltaram, para continuar essa saga que não termina nunca, enquanto história houver para contar e vida para se viver. Fica de bom o que a gente se lembra e, de vez em quando, também se abraça nas vezes em se encontram por aqui ou por lá. A gente vai para cumprir destino e sina, mas nunca sai de lá, enquanto raiz, história e pensamento tivermos pra nos apegar.

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POR EM 01/04/2008 ÀS 09:16 AM

Um cuzufu de xibungos

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Deus ia perdoar Seo Zogofredo, ele tinha certeza, sabe por quê? Não estava acostumado com as chumbreguices impertinentes das saliências desse tempo de agora. Olha que o mundo deu voltas, mulher passou a usar calça e a fumar que era um destempero, deixaram as casas e os fogões e ficaram rueiras, tomaram rédeas, queimaram calçolas e porta-peitos, passaram a priquitar a torto e a direito com a anuência da pílula anticoncepcional que evitava neném e outras estrovengas mais. Coisa de cabaço, então, nem se fala!

Seo Zogofredo, de começo, assim no quente do acontecido, estrilava e rosnava, mas ia se acostumando. Um mundo muito demudado. O que a razão enjeitava o coração amolecia, porque filhos e filhas carregavam esses troços pra dentro de casa, desconsertando sua causa. Ponderava com os santos, sumulava e simulava suas pertinências. O mais que via naquele oco de mundo já desvirava seus miolos. Ficou sabendo do menino de Celita, do seu conforto com os machos e desconfortos com as fêmeas. “Virge, Credo”! Mas Saracutópolis era cidade de poucos, onde toda gente sabia qualidade e defeitos  uns dos outros.

Foi só a televisão chegar que provocou remelexo nas idéias e costumes. Junto veio telefone, telenovela, computador, internet e globalização. Começaram a aparecer na televisão mulher dizendo que gozava, explicando coisas de clitóris e Ponto G e também muita gente fresca, com derretimentos invertidos. Primeiro, uns aproveitaram o carnaval e se esbaldaram. Depois, uns deles e delas ultrapassaram a quaresma com jeitos e trejeitos estranhos, espirocados para Seo Zogofredo.

Passada a Semana Santa, não tiveram mais conserto. Andavam em turma, serelepes e riguilidos. Quando ficou sabendo que um namorava outro e uma  xumbregava com outra, Seo Zogofredo supitou-se em sustos e descrença. Em seus mais de 80 anos,  nunca tinha ouvido nem falar nisso. Alguns do seu tempo não se casavam, mas iam para a conta  dos desinteressados nessa junção e em coisas que outras desse naipe. Ninguém botava má fama, que isso não existia, era escolha.

Quando ele ficou sabendo daquilo, já Dorivaldo de Nena e Solomeu de Dudésio, duma parte, Deburina de Salé e Xonevalda, de outra, “se assumiram”, como diziam os meninos. Assumir-se era o mesmo que se casar, usufruir dos vagos de prazer, usar e lambuzar unzanzotros. Do país dos estrangeiros ouviu notícias de que até se casar já podiam, de papel passado e tudo.

Seo Zogofredo viu que eles usavam brincos, calções ínfimos, meias finas e perucas, passavam batom e loções frescas, pintavam olhos e caras e outras regras, como botar um produto novo, o silicone, nos peitos e nas bundas.  Eles com eles e elas com elas tinham suas casas próprias, iniciaram um grupo, que chamaram de ONG, e começaram um movimento de proselitismo e arrebatamento. Meninos que tinham o pé firme começaram a saracotear e aderiram, moços que a gente nem desconfiava assumiam o que para eles eram as delícias da bunda.

Certo é que Seo Zogofredo cunhou aquilo com o termo Cuzufu de Xibungos, explicando que era uma miscelânia de frescura, ainda mais depois que anualmente passaram a fazer passeatas pelas ruas, comemorando o DOB - Dia do Orgulho Baitola. Para ele, que já estava no fim da vida, era o dia da independência do toba. Quase enfartou no dia em que Solomeu de Dudésio apareceu com um enxoval de bebê e dizendo que estava prenhe. 


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POR EM 25/03/2008 ÀS 10:46 AM

Mais peripécias

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Depois dos 45 na cacunda, lá em Saracutópolis, João Vianei, pai de três filhos, deu de matutar as diferenças entre as brincadeiras dos meninos de ontem e de hoje, nesse caso defendendo seu lado, as diversões de antigamente, para ele muito mais saudáveis, menos violentas e mais ingênuas. Primeiro que pipa não tinha cerol, brincava-se para deliciar o vôo, uma rabiola bonita. Era um festival, na verdade. Hoje o povo tem de se cuidar para não ser degolado por uma linha.
 
Os meninos de hoje precisam ser levados para todos os lugares, pela insegurança de andar de um lado pro outro. Antigamente, nas férias, menino saía de manhã e voltava de noite, vadiando o tempo todo, só ia em casa pra comer e cagar. Onde se vê hoje menino se juntar pra fazer campeonato de punheta?, ver quem tem mais gala?, ver quem goza primeiro?, contar o pecado contra a castidade para o padre depois?
 
Vianei se lembrou da vez em que seu pai curtiou daqui e de lá, na moita, e o pegou em lutrimento com uma bezerra, na manga de Onofre. Queita, siô! Ô suplício. E o sermão: “Meu filho, por que a vaca,  por que a vaca, meu filho?” Foi uma chacota só no meio dos colegas.  Os meninos de hoje se reúnem à frente de um computador, conectando-se com o MSN, batendo papo, falando das novidades de um jogo assim e assado, dos novos vídeos do Youtube, da azaração de uma gatinha virtual.
 
João Vianei e sua turma pulavam muros de madrugada, roubavam uma ou outra galinha no quintal alheio para fazer farofa mais tarde, no simplório deleite da pior malandragem da época e que rendia causos e mais causos no futuro. Como da vez em que derrubaram o muro da cada das Patury e tiveram de se ver na delegacia, levando aos pais o constrangimento de ter de pagar tijolo por tijolo, a mão-de-obra e a galinha.
 
Coca cola não existia. Os mais abastados tomavam KiSuco e um Guaraná de vez em quando, quando tinha uma baita comemoração na família. Também nem televisão havia e o mais próximo da tecnologia que pintava era um bang bang em tecnicolor no cinema. IPode, wireless, Wi Fi, on line, softwere, computador, celular e o escambau nem em sonho.
 
O menino de antanho se cacifava aos 15,16 anos com uma suculenta gonorréia, adquirida no cabaré, geralmente com uma puta senhora ou senhora puta das mais experientes, de 50 anos de idade pra cima. Era de lascar, mas não de matar como hoje com a aids e as correlatas. Gonorréia era moeda de quilate nas discussões dos machos.  João Vianei contabilizava duas dessas, uma mula e um cancro mole. Via disso já protagonizou três insidiosas dedadas médicas na cavidade anal, com direito a vaselina e a massagem na próstata. Admite, no entanto, que nesse assunto hoje é muito melhor para os meninos, com esse negócio de ficar com uma aqui, outra ali, namoriscando e beliscando o prazer. Para ele, há ainda muito mais o que contar e comparar. 

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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:57 AM

O calendário de Júnio McAbana

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Nas andanças que fazia dentro da cachola, Júnio McAbana matutou um novo calendário, que fizesse frente aos existentes e privilegiasse as minorias, os exóticos e outros seres estrambóticos. Cismou com a mesmice desse calendário gregoriano, que para ele a única coisa interessante que trazia era o 29 de fevereiro, isso mesmo de quatro em quatro anos. Para começar, a semana seria de dez dias, sendo cinco dedicados ao trabalho e cinco ao lazer. Assim sendo, o fim de semana seria de cinco dias.

Segundo esse novo calendário, o ano seria de dez meses, cada mês com 40 dias e o primeiro ano começaria a ser contado a partir de 15 de março de 2010. No horóscopo, um mês seria dedicado a um bicho e o outro a um pé de pau ou à sua fruta. O primeiro seria o mês do Calango; o segundo, o mês da Cagaita; o terceiro, do Carrapato; o quarto, mês do Carrapicho; o quinto, mês do Piolho; o sexto; da Mama-cadela; o sétimo, mês da Sanguessuga; o oitavo, do Puçá; o nono, da Barata; e o décimo, mês do Araticum.

No calendário de Júnio McAbana, no 24 do mês Um seria comemorado o Dia do Viado, um feriado nacional, onde se realizariam as paradas gays, pela manhã, e à noite seriam rezadas missas e realizados cultos protestantes. O carnaval seria do dia 35 ao dia 40 do mês Dois. Dia 20 do mês seguinte seria comemorado o Dia da Esbórnia; dez dias depois seria o Dia do Feladaputa, com um desfile cívico de todos os árbitros e bandeirinhas de futebol e todos os demais fdps do ramo e dos outros ramos.

No Natal, dia 25 do mês Dez, seria comemorado, na verdade, o Dia de São Herodes. Em dez do mês Sete seria o Dia dos Ladrões, cinco dias depois o Dia dos Maconheiros, Cachaceiros e Drogados. No mês seguinte, no quinto dia útil da segunda dezena, seria comemorado o Dia da Corrupção, um feriado nacional da mais pudica devoção, com palanques e desfiles de todos os gêneros. O mês Nove seria dedicado todo ele aos cornos, prostitutas, tarados e pistoleiras, com a realização de um grande festival de cerveja, danças típicas, muito axé, samba, maracatu e o escambau.

O mês Três teria uma data dedicada ao Dia de São Cão, onde o ponto máximo era o megashow televisivo do conjunto “Capetas em Delírio”, o mais popular e que parava o País no horário nobre das 8 horas da noite. Outro dia também muito interessante desse mês seria o Dia de São Nunca. A festa aconteceria de tarde.

O feriado mais importante, no entanto, no Calendário de McAbana, não seria o Dia de São Cèsare Apóstolo, nem o de Santo Anhanguera Bandeirante von Rusember’Gue e muito menos o Dia de Santa Periquita do Bigode Loiro, mas, sim, o Dia dos Escalafobéticos Ululantes do Vigésimo Dia. Nesse dia, feriadíssimo de festa, tudo estaria ou seria invertido: a esquerda passava a ser direita, o certo viraria errado, o inferno seria o céu, as mulheres virariam homens ...

 


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