revista bula
POR EM 12/08/2008 ÀS 02:42 PM

Números? Vote!

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O 84.630 apregoa aos ventos a solução para todos os meus problemas e acerta na mosca quando diz que minha pindaíba vai acabar,  que aquela gostosona vai facilitar, que eu preciso perceber em mim a melhor pessoa no mundo e que não posso me esquecer do seu número no dia 5 de outubro próximo. Logo vejo que esse candidato é iluminado, apesar de que o 76.220 alardeia que não existe melhor candidatura que a dele para ... e aí o feladamãe acerta em cheio nos meus problemas outros, complementares àqueles citados pelo candidato 84.630. Estou em dúvida.
 
No entanto, o 98.213, que é meu tio, veio aqui em casa, me abençoou, trouxe sortimento de biscoito para um cafezinho com a gente, elogiou minha mulher e meus filhos, me cantou com grande maestria no voto e ainda me pediu para cravar no 24, seu candidato a prefeito. Não pude dizer não, mas também não disse que sim. Fiquei naquela do pode ser, pode não ser, quanto mais, principalmente. Só não é um fela-duma-que-ronca-e-fuça porque minha vó não tem nada a ver com isso.
 
O que me obsta a escolhê-lo é o compromisso do primeiro pedido. A candidata 68.171 me cantou o voto ainda em dezembro do ano passado, dizendo-me que desta vez iria e que contava comigo, o apoio e o trabalho do amigo aqui para se eleger vereadora. Amarrado nisso tudo estava uma ligeira insinuação de que arrumaria uma sinecura para um familiar que necessitasse. "O Alvim, por exemplo, tá desempregado. Pronto, vai me ajudar lá na Câmara", dizia.  Melhor de tudo é que pouca gente sabia, e eu entre ela, que Alvim já a ajudara na cama, nos favores e fervores da carne. Era um glutão nessas ajudas e o mais indicado para assumir um cargo assim, de assessor para assuntos da alcova. Dias atrás, ela me encheu de "santinhos" e panfletos de sua plataforma, mas nada lá indicava o "serviço" para Alvim. Era uma proposta interessante, pois esse Alvim, meu parente, vivia me pedindo dinheiro emprestado e pondo na conta do abreu.
 
Fui ensinado a não negar voto a seu ninguém que me pedisse. Por isso mesmo, já me comprometi com o 56.900, com o 67.247, o 92.768, o 24.024, o 35.201, a 81000, o 62.238, o 69.069, o 98.037, 0 97,048, o 51.051, a 89.043, o 66.666, a 51.029, o 88.088, a 89.001, o 24.240, a 76.076, a 96.962, o 52.098, a 84.090, o 77.078, a 78,090, o 83.083, a 72.089, o 66.665, o 99.999, a 73.733, o 91.091, a 74.097, o 90.965, a 47.521, o 57.028, e o 89.096.
 
Todos eles foram muito solícitos, alguns até já conhecia de nome e de ficha da polícia, quando não dos entraves com a justiça, de forma que acabei me comprometendo com todos e aproveito a oportunidade para pedir e,  aos que já pedi, reiterar para que votem nesses candidatos. Escolham um que lhe agrade mais, eles têm muito boa vontade, especialmente para com os seus, são todos muitos bem intencionados, e não sai de minha boca que o inferno está cheio deles. Votem neles, pelo menos são conhecidos nossos e a gente vai ter um cruzeiro no pé de onde chorar depois.

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POR EM 05/08/2008 ÀS 11:04 AM

Olimpíadas de Pequi

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Até que enfim chegou o dia de falar das nossas Olimpíadas de Pequi, aquelas que fazíamos no ermo do cerrado brabo, agora quando estampa a data das Olimpíadas de Pequim, jogos com os melhores atletas do mundo. Quando meninos,  fazíamos inúmeros jogos e diversas traquinagens, reivindicando o que Zé de Pio denominava de Olimpíadas de Pequi, cujas provas principais envolviam esse gostoso fruto oriundo do nosso cerrado.
 
Era como se realizássemos uma festa em homenagem ao pequi e às demais frutas do cerrado, sem ao menos vislumbrarmos sua importância cultural e que culminou num movimento que prosperou, e vigora até hoje, intitulado de "Defensores do Pequi". Só que nossas olimpíadas do cerrado foram esvanecendo aos poucos até chegarem ao ocaso. "Os pequizeiros",  como eram conhecidos os competidores, hoje já praticamente não existem mais, também porque houve um desmanche despudorado do cerrado, muito para fazer o carvão utilizado nas siderúrgicas espalhadas por esse Brasil afora e outro tanto para as lavouras de soja, algodão, milho, sorgo e gado.
 
Ia falando das provas mais importantes das Olimpíadas de Pequi: corrida de 100 metros com uma gamela cheia de pequi em casca; tiro ao alvo de pequi com bodoque; estilingue a distância com caroço de pequi; e a mais interessante delas, catar a maior quantidade de pequi no mato no menor tempo.

Havia também a de natação, que consistia em atravessar o rio carregando um jacá de pequi, araçá e cagaita. As medalhas eram feitas de cabaça seca e entalhadas pelo artesão José Patrício, um craque em marcenaria. Havia também as provas com cagaita, mamacadela, puçá e cajuzinho, dentre outras.
 
Nesse período, revivíamos as brincadeiras típicas naquele tempo dos meninos sertanejos, como finca, vôo de raia, descida do rio em bóia ou barriguda, futebol com bola de pano ou de leite de mangaba, além, é claro, do campeonato de masturbação do qual participavam os meninos mais danados e saídos. Outro joguinho muito comum entre os meninos era o campeonato de mijo a distância, onde sempre se sagrava vencedor o famosíssimo Castelo Bimba de Ponta, que tinha um "instrumento" considerável e com uma monumental ponta bico de candeeiro. Enchia a ponta com mijo e soltava de uma vez, atingindo uma distância de quase 10 metros. O recorde chegou a 9 metros e 75 centímetros, que permanece até hoje, pelo que sei.
 
Nosso rincão, no entanto, nunca produziu um atleta de ponta para essas olimpíadas esportivas que conhecemos e são objeto da mídia hoje em dia. Mas nos quesitos das Olimpíadas de Pequi produzimos dezenas de atletas recordistas, muitos dos quais entraram para a galeria dos heróis e ilustres atletas do trato sertanejo. Além de Castelo Bimba de Ponta, tivemos Jerônimo Pequizeiro Grosso,  Filim Piaba Solta, Crisone Pula Pitomba, Demola Pau-de Sebo e Micoca Caçuá. A eles, ofereço esta crônica.

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POR EM 22/07/2008 ÀS 10:59 AM

Quando a gente levava o gado pro Gerais

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Juntavam-se os vaqueiros na seca, tempo de gado magro, e aos magotes iam levando a vaqueirama de todos os lados para o Gerais, a modo de preservar aquele fio de vida, que dava esperança de um naco qualquer de sustento para as famílias. O leite pra uns e outros, um naco de carne para algum festejo, couro para os sapatos, além, é claro, da serventia de trabalhar no carreto, no engenho moendo cana e demais afazeres de roça.
 
Ali tudo começou nas roças das pequenas propriedades e o gado ajudava no serviço. Na seca, algumas cabeças ficavam para ajudar na lida e eram alimentadas na mão, com capim arrancado de longe, da beira de algum brejo, trazido no lombo dum burro ou jumento.
 
Pispiavam os meses do meio do ano, a chuva raliava e depois estancava, parava de vez, e o que tinha de verde esfumaçava num cinza avermelhado de secura, dando início ao sofrimento dos animais. Aí eles se juntavam na praça do lugarejo com os apetrechos do cigarro de palha e, entre uma baforada e outra, acertavam o dia de caravanear rumo ao Gerais, um lugar ermo, terra de ninguém, donde brotava um maná da natureza para alimentar bichos e passarinhos e aves. Para ali os sitiantes levavam seu gadinho no tempo de seca e lá eles ficavam dois, três meses sendo criados ao léu do céu, comendo e bebendo o que Deus dava. Às vezes também sendo comido por uma onça com desejo de carne diferente, enfarada de carne de veado e de paca.
 
Para eles, naquela pecuária extensiva de intensa precisão, era melhor perder uma ou duas reses do que o rebanho todo. O gado ficava no Gerais à solta, sem estribeira, comendo o bem bom que aquela terra produzia sem que ninguém plantasse. Iniciavam as chuvas, as chuvas de caju do cerrado, e eles se deslocavam para tanger e trazer o gado de volta. Aí demoravam mais, porque tinham de recolher um que escapulia, campeavam para encontrar outro que faltava e esperavam até ter a certeza de que o que não voltou ficou para comida de pintada. Há muitas histórias de pelejas com onças nas quais descontavam prejuízos e lucravam com o couro exótico, que era comprado pelos viajantes e mascates.
 
A chegada do gado do Gerais era festejada com rezas e quermesse sortida a licores, pinga e garapa, que eles mesmo faziam, e bolos e biscoitos, obras das mulheres. Um dia de muita alegria, algazarra e folia, que significava perspectiva de vida melhor, certeza de fartura e de futuro. A perda de uma ou duas reses não dava motivo a lamúrias. Não se falava em dinheiro, todos participavam por igual daquela epopéia de sobrevivência que a natureza proporcionava a troco da vontade de se ajudar. Quem não possuía gado e era tropeiro desempatado, ia assim mesmo, na conta da amizade e da cordialidade fraternal inerente a todos dali.
 
O gado também se alegrava no passo de volta, vencendo veredas e campinas, matas e sarobas. A volta era mais alegre, sob os compassos e marchas de uma singela vitória. No ano que vem poderá ter mais, porque na seca o gado seria o dono do Gerais, até quando Deus desse bom tempo.
 
Foi um tempo bom, antes de os fazendeiros de soja invadirem.

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POR EM 15/07/2008 ÀS 02:55 PM

Coitadinhos

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As coisas estão ficando cada dia mais difíceis. Além da inflação que chegou atordoante para desespero dos pobres, porque para mim é até bom, determinados homens e mulheres da polícia e da justiça estão muito mais caros, quando não se desembestam em gravar a gente e botar na televisão depois, numa operação cinematográfica e a gente ainda vai algemado, sofrendo uma humilhação desmedida. Até de pijama nos pegam. Que humilhação! Nos põem como bandidinhos.

Eu estou indignado com tamanha falta de ética nesses esquemas da política, nos nossos negócios. Já foi mais fácil. A relação era de confiança e a gente pagava e recebia propina sem medo, a relação era sincera e a palavra, valiosa; os compromissos eram cumpridos, sem desvios de conduta. Por isso, acho que é danosa a influência dessas novas tecnologias de comunicação. Agora, todo mundo grava tudo de todos e a gente confia desconfiando.
 
Essa prática nefasta se propaga na política e nos negócios e ninguém hoje ganha US 10 milhões impunemente. Olha o exemplo do Mensalão. Tudo começou com uma alcagüetagem de um político que gozava da irrestrita confiança do poder e que se azuretou porque se viu prejudicado na repartição do dinheiro. Isso aí, eu imputo também como uma grave falha do nosso sistema. Isso não poderia ter acontecido. O combinado não é caro. E muita gente boa pagou e paga caro até hoje.

Veja aí a situação da gente agora: companheiros presos temporariamente por causa dessas nuances, dumas bobagenzinhas dessas. Coisas que poderiam ter sido resolvidas com mais conversas e 2 ou 3 milhões de dólares pagos no dia combinado. Agora estamos aí sofrendo pra burro para tirá-los da cadeia. Pensávamos que a coisa estava correndo tudo normalmente, mas os fdps dos delegados deram pra trás, cagaram na retranca. A questão era só tirar nossos amigos dos inquéritos que fossem servir à 1ª Instância, porque lá em cima as coisas são mais fáceis e a gente tem os canais para resolver essas perlengas.
 
Essa crônica é uma carta que eu queria escrever para os amigos que foram pegos na Operação Satiagraha. Escrevo para mostrar minha indignação com essas truculências. Nós empresários, e os políticos também, não podemos mais trabalhar com tranqüilidade hoje em dia. Essa polícia e esse Ministério Público estão passando da conta. Hoje, tudo vira denúncia e prisão, com esse espalhafato todo. Na verdade, somos uns coitadinhos diante da sanha de uma polícia despudorada. Apesar de termos armas boas, nunca demos um tiro. Tiro é coisa de bandido. A minha esperança, e sinto alegria por isso, é de que nós venceremos. Mas não deixa de ser chato termos de gastar tubos de dinheiro com advogados. Ainda bem que eles são muito bons de serviço e estão aí para nos ajudar. Graças a Deus, Deus é misericordioso, nossos amigos já deverão estar soltos quando isso aqui for publicado.

Mas não deixa de ser um incômodo pra nós, né? Pequeno incômodo, mas incômodo. Isso aqui está ficando uma porcaria e esse país precisa de uns jeitinhos a mais, para que a gente possa trabalhar em paz.

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POR EM 08/07/2008 ÀS 09:38 AM

Torcedores

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No fragor de uma peleja esportiva, o torcedor é levado a perceber e analisar apenas e tão somente os movimentos do seu time do coração, esquecendo-se do esforço que o adversário faz para impedir a alegria e a glória do oponente. Os lances de sua equipe do coração são acompanhados nervo a nervo, detalhe a detalhe, na esperança de ver concretizada a jogada perfeita e a vitória certa.
 
Mas até que isso se concretize, o tempo é o senhor dos distúrbios e o coração franze e assopra um sangue descompassado e quente, que dá suores, sabores e dissabores. O torcedor é um míope consentido, um daltônico colorido, que só olha, vê e percebe o que é conveniente para seu time. As cores se transformam em uma só, o árbitro só erra contra seu clube e só acerta para o adversário. Fora dessa paixão, que por ser paixão é por si descomedida, o esporte não tem coração, perde o sentido e a graça.
 
Tem coisa mais sem graça do que se sentar à frente da TV ou na arquibancada de um estádio para assistir a uma decisão de campeonato sem a participação do seu clube do coração? Para quem é aficcionado pelo esporte, certamente que não, porque o jogo fica metódico e anódino, você passa a acompanhar os feitos e os defeitos de todos os participantes do jogo e até sabe quando o árbitro ou o auxiliar erra. Além do mais, você esquece rapidinho as jogadas, fica um jogo frio, quase sem sentido.
 
Quando o torcedor entra em campo com seu time, um pouco de sua vida vai junto, se esvai nos lances de sua cor, de sua flâmula. Depois de uma jogada feita, começam as conjecturas, sempre na tentativa de melhorá-la para seu favor, a favor de sua equipe. Um gol do adversário faz com que você mude a trajetória da bola ou o impeça com a presença do goleiro ou de um zagueiro. E o tanto que dói? É uma dor inexplicável, totalmente imponderável.
 
Quando seu time tenta, tenta e não consegue o gol ou a cesta ou o ponto, certamente o apaixonado torcedor põe na conta da sorte, da ruindade do seu atleta e até na vontade divina, sem nem ao menos conjecturar sobre o esforço do adversário para se defender. E na maioria das vezes o esforço dos atletas do time do seu coração para defender sua meta é visto como uma obrigação, uma imposição natural de quem está ali para isso mesmo.
 
Da mesma forma ocorre quando seu melhor atleta perde um gol feito. Para o torcedor, a obrigação dele é sempre fazer o gol e nunca perder. Perder é a palavra que o torcedor mais quer banir da sua relação com o esporte, de seu dicionário de preferência esportiva. Para ele, a moeda só tem um lado. É inerente ao torcedor também o fator incomensurável da alegria ou da tristeza. Assim como é desmedido o amor.
 
Nesse jogo de corações que sofrem e se alegram, os torcedores se aglomeram no atordoamento do sim e do não, da alegria e da tristeza, para, no fim, um sair feliz e o outro machucado. Até que outro jogo comece ...

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POR EM 01/07/2008 ÀS 11:18 AM

Todo mundo viu a calçola da dona

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É só o tempo de revirar os olhos e o mundo todo se transforma e a gente fica, de algumas coisas, morrendo de saudade, de outras, fazendo questão de nem se lembrar. Não vai muito tempo, as festas juninas eram de um congraçamento familial, e falo aqui das festas no interior e, certamente, dos bairros das grandes cidades. Ninguém escuta mais falar em 'arvoredo' e quase nenhum jovem saberá o que é isso. No interior, no entanto, o arvoredo era um dos pontos máximos das festas juninas, pelos idos de 1960/70, quando ainda não havia tanta preocupação com a preservação ambiental, mesmo porque pouco se tirava do mato.
 
O 'arvoredo' era parte da epopéia dessas festas, porque mobilizava gente uma semana antes. Havia 'arvoredos' para os três santos, além das promessas, graças, votos e alianças devotadas. Reunia-se uma renca de marmanjos, com facões, foices e machados, que em diligência saía para o mato à procura de uma árvore grande e copada a serviço de arvoredo junino. Arrancada a árvore, era levada para a porta do dono da festa ou da promessa e especada numa forquilha. Aí vinha a parte dos enfeites, da ornamentação e do sortimento do 'arvoredo', que recebia, nos seus galhos, dinheiro, frutas, vasilhas, brinquedos e até ferramentas. Era fincado no chão e no seu pé colocada uma grande fogueira. Na noite da comemoração, tocava-se fogo na fogueira e um magote de gente ficava na espreita da queda da árvore para pegar as prendas. Depois da queda do 'arvoredo', a festa continuava com quitutes, bebidas, forró e quadrilha, além de bombinhas, traques, buscapés, rojões e fogos-de-vista.
 
Nessa era de eu menino, a cidade quase não tinha calçamento ou asfalto e as fogueiras e festas se espalhavam por todos os lugares e ninguém ia a uma festa apenas. Todos participavam de todas as festas, sem convite, sem intromissão, sem delongas. Todos eram convidados para todas as festas. E tinha gente que se gabava de participar de todas, inclusive das rezas, ladainhas e cafés, que geralmente começavam mais cedo, de tardezinha. Há muita história alegre e triste para se contar: como de gente que perdeu dedo estourando bombinha e foguete; houve quem se cortasse ao pegar uma foice colocada em arvoredo; menino chorando por não conseguir pegar prenda alguma; e até de gente que morreu de enfarto segurando no tronco do arvoredo, na intenção de amenizar a queda.
 
Mas a história mais interessante e que coçou meu dedo para escrever isso foi a da véia Dona Sinhana, que ficou só de calçola no meio da rua. É que os sapecas dos meninos, mesmo ante a tantas recomendações, não se emendavam e faziam guerra de buscapés, que saíam soltando faíscas desordenadamente pra todo canto. A dona Sinhana invocou, como era da moda, de usar uma saia de um tecido conhecido como volta-ao-mundo, parecido a um reles e tosco filó de seda ruim e que não podia nem avistar com fogo que se derretia todo. Num é de ver que um buscapé atrevido garrou na saia dela e a deixou só de calçola no meio da rua? Ainda bem que as queimaduras foram poucas e a calçola era de algodão cru.
 

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POR EM 24/06/2008 ÀS 09:12 AM

O homem que transformou leite em cerveja

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As dificuldades do dia-a-dia foram levando Orozimbo a dar pulos de inventividade nunca vistos até os dias de hoje. Nas contas da fazenda de Orozimbo e em sua própria cachola não passava a lógica de que para comprar uma cerveja, e ele gostava muito da loira gelada, teria de dispor de quatro litros de leite. Usou dos exercícios todos da ciência cabocla para inventar uma ração bovina que, ao invés de leite, as vacas agora produziam cerveja de alta qualidade. Esse invento transformou sua vida, a começar por desfazer o contrato com a Laticínios Leitecom e a industrializar a cerveja SCow, agora subproduto dos úberes vacum.
        
Nessa mesma toada, Orozimbo acelerou algumas experiências e do mijo do gado passou a produzir um refrigerante de excelente qualidade, apenas adicionando um pouquinho de sumo de urtiga com artemijo. O investimento foi o de construir galpões, comprar máquinas e engarrafar e providenciar a documentação e as patentes das marcas SCow e RefryBoi. As bebidas passaram no teste de degustação realizado dentro da própria família. Eu mesmo, que sou meio aparentado, gostei muito do RefryBoi.
          
Orozimbo estava ficando rico com o gado que produzia cerveja e refrigerante, já havia comprado várias fazendas dos vizinhos e expandia aceleradamente seus empreendimentos rurais, guardando a sete chaves as fórmulas dos seus produtos, quando a Coca Cola mundial se interessou pelo negócio e propôs um absurdo de dinheiro para comprar tudo e incorporar à grande marca mundial, mantendo apenas na região as marcas originais. Orozimbo não agüentou e foi forçado a vender.
 
Como sua esposa vivia reclamando do preço dos cosméticos e das rugas na cara, isso antes de eles se tornarem ricos, Orozimbo, que tinha uma queda pra Midas e era astucioso, comprou outras terras, passou a criar galinhas e inventou um cosmético anti-rugas, onde misturou coalhada, bosta de galinha e lilimentos de ervas do cerrado, que eram o segredo da fórmula. Uma ruma de velhas e outras nem tanto, mas descontentes com os pés de galinha da cara, serviram de cobaia e pouco tempo depois passaram a alardear as mil maravilhas do novo produto. Daí para uma linha de cosméticos, que incluía sabonetes e até cremes vaginais, foi um pulo. Não demorou, a Natura veio e comprou a nova empresa de Orozimbo.
        
Como quem nasce pra criar não vive de copiar, e porque suas filhas não arranjavam namorado, Orozimbo, até então conhecido como o homem que transformou leite em cerveja, investiu grande parte de sua fortuna num produto que considerou revolucionário e que causaria um impacto social nunca visto no mundo, deixando pra trás a pílula anticoncepcional, o viagra e o creme anti-rugas inventado por ele e que mudaria a sua vida para sempre. Isto porque esse produto trouxe um grande e inusitado problema para os homens. O produto, cujo nome popular não posso declinar aqui, era um creme que, depois de aberto, devia ser conservado no congelador, capaz de provocar um prazer sexual esfuziante às mulheres, bastando para isso que colocassem um pouquinho no clitóris. Nunca um produto farmacêutico vendeu tanto neste mundo. E eu, euzinho aqui, me tornei um grande parceiro de Orozimbo.

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POR EM 17/06/2008 ÀS 10:37 AM

Preciosidades banais

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O que aprendi melhor, com maior presteza e denodo nesse mundo foram as bobagens que me impregnam e me fazem melhor ruim do que sou. O capeta do tino vagabundo me lanceta o tempo todo e acho até que meu destino é o inferno, para não ser tão drástico, o lote melhorzinho de lá. Não quero ir pro céu comprando as caras indulgências de hoje. É que gosto das coisas atravessadas, elas me atraem, porque as certinhas geralmente são coisas dos dissimulados. Acho que o melhor de mim é meu inferno. Por isso, sempre torço pelo mais fraco, os desvalidos, os doidos e adoro também ver um bêbado se lascando no meio da rua. Pago caro pelo espetáculo.
 
Não sei se algum dia ainda conseguirei absorver a filosofia do ‘zigues benigues’ do eterno bêbado Suares, que povoou meu mundo de pequeno, e nem sei se há o que pague o ensinamento de uma palmatória e de um chicote do abilolado Dió, nem a morosa paciência e irreverência de Zim Panquinha, o bêbado mais bêbado com quem convivi na face da terra e que morreu espremido pela carroceria de um caminhão, sem fazer mal a uma mosca e nem à carroceria e à frente da casa de Seo Anjo, onde quedou lá espremido.
 
Nas horas etílicas mais saborosas, ouvia Juvenal gritar no boteco, com a propriedade peculiar a um ABC, que amor e trepar, amor e sexo eram a mesma coisa. Não tive escapatória, pois desde pequenino torciam meu pepino essas amáveis intrujices. Acho que daí aflorou meu DNA de calango e meu gene de sapo, porque hoje tenho certeza que os doidos, os largados, os exóticos e os bêbados foram os que mais e melhor me ensinaram e me encaminharam. Não tem preço o que aprendi do ‘Tango Jogadim’ da doce e mulambenta Maria Balão.
 
Forante Papai Noel e Cegonha que me atazanaram por um bom tempo a meninice inocente, pura e besta, daí foi que comecei a desconfiar de quase tudo e a acreditar em quase nada. As coisas desinteressantes é que me acrescentam. O capeta sempre me atentou demais, até que Joana Doida incumbiu-se de tirá-lo do meu rumo, mesmo ante as insistências e veemências do catecismo da beata Angélica Castro. Chegou o dia em que os políticos e a corrupção completaram o serviço e me fizeram acreditar que o inferno não existe, muito menos o céu. E aí foi um deus-nos-acuda!
 
Com a doida Cebola Branca aprendi que não existe bondade da boca pra fora e nem aquelas que se apegam a determinadas bondades, enquanto suvelam maldades pelos poros. Outra preciosidade banal aprendi com Júlio Doido, que era um preservacionista, e deveria achar o capeta também em pessoas assim como esses fazendeiros que se divertem derrubando as florestas para plantar soja, cana e criar gado. Esse é o verdadeiro inferno, graças a Deus. Porque o Cão que está dentro do mato, com o desmatamento, vai para as cidades e começa a atentar ainda mais a gente. Na verdade, as preciosidades banais, que esses doidos me ensinaram, ajudam-me hoje a viver me desviando do inferno, saindo do espeto e caindo na brasa. Fosse no pólo sul, tudo bem. Mas aqui tá um calor dos infernos. E eu ainda lasco o xibungo que passar a mão na minha bunda.

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POR EM 09/06/2008 ÀS 08:29 PM

Perca calorias chupando

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Não se dobra uma esquina e nem as lombadas do corpo hoje em dia sem a preocupação com as danadas das colorias, que geralmente vêm acompanhadas das marteladas que batem no colesterol, no triglicéride e nos infortúnios das gorduras saturadas e doces decantados que comemos no dia-a-dia, para gáudio das academias e parques de caminhadas.
 
Ninguém hoje foge à regra e nem o amigo Matusalém com os seus ainda 38 anos de idade se furta a esses preceitos da modernidade insalubre. Ele quer viver muito. Dia desses se fartou em risadas ao ver o ambulante estampando em sua banquinha, à beira da pista de caminhada, um garrafal chamariz abaixo da vitrine de abacaxi: PERCA CALORIAS CHUPANDO.
 
Aí ele foi logo associando o tanto de coisa que inventaram atualmente para se chupar perdendo caloria a uma forma inteligente do marketing empresarial e também muito adequada à nossa gorda realidade. É certo que há muita coisa que dá prazer ser chupada e não engorda, as coisas lights e diets, diferentemente do que diz a antiga música de Roberto Carlos: “Será que tudo que eu gosto / é ilegal, é imoral ou engorda”.
 
Como apareceram inúmeros produtos com baixa caloria e virou moda agora o naturalismo e as comidinhas de passarinho, na conversa que tive com Matusalém eu mesmo disse que conheço muita gente hoje que se esmera em chupar. Há até mesmo aqueles que se botaram para a dieta de viver só chupando, principalmente os mais velhos e por conseqüência os menos providos de dentes ou que têm a língua mais cascarenta e grossa.
 
Um outro amigo, que tem problema digestivo e de absorção, disse que agora só come chupando. O alimento dele tem de ser liquidificado e mole para que ele possa chupar pelo canudinho. Quem, encontrando o namorado ou a namorada chupando um picolé, nunca pediu para dar uma chupadinha? Faz parte da cultura da caridade dividir o que se come e o que se chupa. Matusalém mesmo me disse que tem uma amiga que adora chupar pirulito de mamacadela e picolé de pequi, desses de frutos do cerrado que estão em voga.
 
Seo Lilico Bilisco Trinta, da velha geração cordelista do meu rincão, fez um folhento onde exaltava as vantagens de se alimentar chupando, com o mote de sete sílabas: CHUPAR É MUITO MELHOR. Não decorei, por isso não digo aqui, mas afirmava ele que viver chupando é muito melhor do que viver comendo, porque não se fazia força e nem estragava os dentes.
 
De minha parte, já vi muita bramura com esse negócio de chupar, desde frutas a objetos e doces, como o abacaxi do ambulante. Mas o que mais me intrigava e a Matusalém também era a mania de uns velhos da nossa terra de chupar e mascar fumo, que diziam era para proteger e alvejar os dentes. Muitos deles, no entanto, nem dentes tinham mais, mas a chupada no fumo ficava por conta da tradição herdada e do costume mesmo. Há bons exemplos de lá: Calisto Capeta era fumicultor famoso e todo mundo queria mascar e chupar o fumo dele; o Cabeludo da Véia Lôra era o remanso mais famoso, lugar bom de piquenique, e muita gente levava melancia, cana e araticum pra chupar no Cabeludo da Véia.

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POR EM 02/06/2008 ÀS 04:50 PM

As quedas

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Ancião emérito e muito gabaritado, Seo Liorcino exuberava-se em seus mais de 95 anos de idade com uma inteligência fina, astúcia ferina, pai, avô, bisavô e tataravô queridíssimo e requisitado para dirimir polêmicas e assustar malquerença na família e fora dela na ordem do dia. Ativo e saudável de fazer inveja, Seo Liorcino não titubeava em opiniões firmes e resolutas, sendo para todos um velho bom e exemplar. Empreendedor emérito, sua mais recente empreitada, dentre tantas outras do seu vasto perfil empresarial, foi a compra da cervejaria detentora da maior fatia de mercado do país. Soube agora que há 15 minutos ele sofreu uma queda, ao sair da mansão para uma caminhada, e morreu.
***
Lindo demais aquele bebezinho, parecendo até que era feito de louça chinesa, tamanha a perfeição. Andar com ele na rua era certamente um exercício de grande malabarismo para a mãe, porque todo mundo ficava encantado com a criança. A mãe o benzeu para as avenças eternas do quebranto, como forma de protegê-lo das livuzias do etéreo. Com seis meses desarnou a falar, aprendia tudo com uma cabeça de gente grande e com oito meses já sabia todos os palavrões concebidos pela língua pátria. Daí ficou difícil andar com ele pela rua, porque mandar pra puta que o pariu era o menor palavrão que se ouvia da boca da criança, replicando os carinhos e xamegos de quem fosse apreciar sua beleza. Com dois anos de idade, levou um tombo e quebrou a língua. Nunca mais falou um "a".
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Elegância pouca era bobagem na conta da bela e esfuziante Conceição. Quando ela passava, era um Ceição pra lá e pra cá de homens apreciando suas carnes (que não eram poucas), seu molejo (que não era mole), seu remelexo (de cair o queixo) e seu tudo o mais (um tesão demais), que ela exibia de forma provocativa e muito sensual. Foi assim até o dia em que caiu do salto, quebrou a perna e constatou que tinha osteoporose.
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O cara nasceu mais feio que dor de dente, muito mais feioso que indigestão de torresmo, estrumbicado duma figa podre, estruído de qualquer tantinho de beleza que se pudesse achar numa pessoa mais ou menos. Conhece um cabra feio? Multiplique esse aí pelo tanto que quiser e o produto ainda será pequeno. A irmã de Conceição, essa boazuda aí de cima, que fazia par em beleza com a mana, se embestou pro lado do feioso de um jeito que ninguém acreditava. Deu em cima do feioso, cantou o rapaz para o namoro e se agarrou com ele dum jeito que não houve ali quem desse uma nesguinha de crédito. A mulher se encasquetou, apaixonou-se pelo feioso dum modo que dava gosto. E ela não se quedava e nem se pejava em dizer que tinha 'uma queda por homem feio'. E caiu de boa e de boca. 
Viva! Tem jeito pra tudo nesse mundo. Você aí, leitor: não perca a esperança.

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