revista bula
POR EM 10/11/2008 ÀS 03:36 PM

Viva os negões!

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Acho que este 2008 deve ser dedicado aos negões, aí incluídas as neguinhas, porque essa nossa língua provoca. É uma disgrama. Cocei o dedo para falar desse assunto, até que os fatos me provocaram e o preconceito não me atrai. Que não venham com ignorância! Muita gente vai ficar chateada comigo, mas não me furto em dizer que senti uma pontinha de alegria com a vitória do negão Lewis Hamilton no campeonato mundial de Fórmula Um. O negão inglês está correndo muito e não deveria ser injustiçado pelo segundo ano consecutivo.

Deixo o patriotismo de lado, apesar de achar o Felipe Massa um sujeito bom e com grandes simpatia e empatia.

O Hamilton merecia, e a Ferrari ajudou, mas não sou muito ligado nesse troço de corrida. Gosto da largada, da chegada e das batidas. Sou sádico, quem nem a maioria, mesmo que ela não admita, mas falo a verdade. Os negões estão mandando ver e eu estou adorando, rindo na cara dos que disfarçam e dos que admitem o preconceito. A coisa está melhorando. Acho que os negões, neguinhos, negonas e neguinhas dão um tempero especial para a cultura do mundo. O Brasil só é o Brasil legal, alegre, gostoso, risonho e animado por causa dos negões e da mistura. Não há coisa melhor do que uma mistura para fazer  o caldo mais gostoso. Eu vivo misturando e vivo para misturar. Sem mistura não dá.

Agora vem o negão lá dos states, o Barack Hussein Obama. Ganhou uma disputa ferrenha para a presidência dos Estados Unidos, país onde há 40 anos negro era considerado mercadoria e espécie de categoria inferior. Americanos do Norte têm lá suas feladaputagens, mas desta vez eles obraram tão bem, que até eu passei a vê-los com olhos melhores e torcer para que o trabalho do negão Obama dê certo.  Por isso estou concluindo que 2008 é o ano dos negões e estou adorando essa coisa. Como diz meu filho Virgílio, tá ficando sinistro. Sinistro agora é sinônimo de coisa boa. O mundo tá dimudado. A coisa tá ficando preta, melhorando,  para nossa alegria e satisfação. Por isso, dou um viva aos negões. E meu pé africano se regozija. Viva o Gari Negro Jobs!

Os negões melhoraram o Brasil. Nem imagino nosso país sem eles. Acho, no entanto, que seria um país muito insosso. Concordo com o negão Lázaro Ramos, conterrâneo, quando diz que os negros foram vendidos em um mercado branco. E  esse mercado branco, capitalista e ganancioso, é que está levando o mundo à bancarrota.

Com os insumos da ganância, eles fabricaram essa crise que o mundo está vivendo, mas já combinaram de diminuir os juros, ou seja, diminuir os ganhos e a sanha gananciosa por mais dinheiro, para tentar amenizar o estrago.

Depois, aí é outra história, se sobrar alguém. Esta crise tem um lado interessante e um trágico: o interessante é que os ricos ficarão um pouco menos ricos, porque já ganharam muito e se dispõem a deixar de ganhar um pouco mais em função do equilíbrio e da estabilidade capitalista; o trágico é que muito pobre vai acabar perdendo o emprego.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:01 PM

Vá lamber sabão

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Quem nunca mandou alguém lamber sabão atire a primeira barra ou a primeira bola, neste caso do sabão de decoada. Ninguém sabe ou soube até hoje porque Limírio de Donta desde rapaz se encontrou com a mania de viver lambendo sabão e não havia o que se pudesse fazer, visto que nunca ninguém encontrou solução adequada para um caso desse, pois sabão se encontra em todo lugar.

Por aviso dos germes e outros entes micróbios, todos usamos sabão várias vezes ao dia, apesar de a gente saber e ver que tem muitas pessoas que vão ao banheiro e nem as mãos lavam. Muita gente já lambeu sabão na falta de um creme dental, é ou não é? No caso de Limírio, não, ele adorava viver literalmente lambendo sabão, tendo essa mania passado da fase de hábito para vício, porque dava prazer, da mesma forma que alguém se bota pro lado do cigarro ou da bebida alcoólica.

Para não ficar anti-social e nem causar espécie, Límirio levava para os botecos onde fazia farra com os amigos o seu inseparável sabãozinho, adrede bem guardado no bolso, porque era fisicamente impossível lamber, por exemplo, o sabão líquido dos banheiros. Aí não seria mais lamber, e,  sim,  sorver. No entanto, farreava numa boa, sem chamar a atenção, porque os amigos já sabiam e os outros nem percebiam. Às vezes, uma ou outra brincadeira, como o "já vai lamber sabão, né?", quando ele se dirigia ao banheiro.

Pensar o ato de lamber sabão era um dos seus favoritos. Quem manda lamber sabão não escolhe marca e isso é o pior dos mundos. Mas lamber sabão pode ser também uma arte para o auspício dos mais criativos  e a veneranda vida dos que se prestam a isso, mesmo sem a aquiescência dos detratores. Certa feita, preparei um ritual para lamber sabão, que incluía um jogo de fazer bolinhas com a boca. Aprovei e recomendo, principalmente levando-se em conta seu aspecto lúdico.

O ato de lamber sabão traz intrínseco uma analogia de limpeza e é algo justamente assim que nossa sociedade estar a carecer nos dias de hoje, sodomizada no purgatório, no limbo e no inferno de corrupção, da poluição, das guerras, da desigualdade e injustiças sociais e da má educação. Esse ato poderia iniciar um processo de desinfecção humana, para um mundo mais cidadão e solidário.

O diferente em Limírio me faz vê-lo como uma pessoa que inconscientemente trilha um caminho nesse sentido, mesmo porque essa analogia apareceu em função disso que eu percebo nele, sendo um exemplo próximo,  e que me levou a partilhar aqui.  Percebo que,  para ele,  lamber sabão é um ato poético e primordial para a limpeza, uma limpeza que traz em si tudo de bom, a essência da remissão.

É isso que está me fazendo cada vez mais adepto do ato de lamber sabão, onde procuro purgar minhas mazelas e minimizar as merdas que eu expilo nas mazelas e monturos desse mundo. Por isso que, com orgulho, recomendo a você, caro leitor: vá lamber sabão.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:59 PM

Idas e vindas

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Quando Nego Fulgêncio saiu de nosso interior,  mal dava conta de rabiscar o nome, mesmo porque nunca passou da cartilha, quando aos 18 anos de idade foi tentar a vida na capital, pela necessidade de tomar tino e para gáudio e adjutório da família. Comeu, como peão de obra, o pão mais duro e que ninguém amassava, e ia tocando a vida aos solavancos, quando uma moça dessas muito bonitas, modelo de capa de revista, e muito bem remediada, foi fazer um trabalho na obra onde ele trabalhava e se encantou com o moço.

Tirando os desacertos de pobre que ele carregava, inclusive no corpo, era um negão bonito e, por artes da genética, de olhos azuis, de um azul que chamava a atenção. A moça foi consertando-o aos poucos e com pouco Nego Fulgêncio já estava parecendo gente, como se diz. Começou botando nele roupas, estudo na cabeça e modos, para apresentá-lo nos locais chiques que freqüentava.

Foi tomando ares de burguesia que Nego Fulgêncio aluiu na vida e até um emprego na indústria do pai da moça ele ganhou, indo numa paulatina ascensão, resumindo cursos, letrando-se e ao mesmo tempo aumentando o amor pela moça, crescendo dentro da empresa do, praticamente, sogro. Junto com tudo isso, foi se impregnando de coisas novas e elitizadas, esquecendo-se  da nobreza inerente às suas raízes.

Um dos primeiros passos dessa nova vida foi assegurar com o novo vocabulário o sotaque diferente, cantado e acachapado, parecendo livuzia mal dormida. Pensa que isso o preocupava? Que nada, cada vez mais ele se assegurava de que encontrara o céu, subira na vida, agora já possuía carro, comia nos bons restaurantes, tinha um destrinchado convício social dos mais mais da capital e só participa dos melhores regabofes dos banbanbans da high  society. Só apreciava agora do bom e do melhor.

Esse compasso o deslocou dos seus e até imaginava ter de convidar seus parentes lá do interior para o casamento com a moça chique da capital. Até de notícia sua raleou a caixa do correio da casa de seus pais, mesmo porque eles não tinham telefone fixo e muito menos celular. Nada disso fazia parte do cotidiano deles e depois de muito matutar, de idas e vindas, decidiu voltar lá para convidá-los.

Sete anos apenas se passaram e na cidade ninguém mais o reconheceu e ele também fazia questão de não ser reconhecido. Para sua volta, no entanto, teve de mandar construir um banheiro na casa dos pais, porque não tinha estômago para usar a latrina de lá.  Não deu a mão pra ninguém, não visitou os tios, não se encontrou com os primos, desconheceu 'aqueles matutos' que foram seus colegas de infância. Fazia questão de não se misturar e quase não saiu de casa e quando o fazia deixava um largo poeirão com o seu possante do ano. Nego Fulgêncio agora era doutor, diziam os dali. No dia de ir embora, bateu com o carrão numa vaca que passeava tranqüilamente na estrada e morreu no dia seguinte socorrido apenas pelos chás e ungüentos caseiros.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:33 PM

Meias verdades, verdades e meia

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Tomo emprestado o título e parte do conteúdo do mais recente livro do colega jornalista Geraldo Soares de Farias, para mostrar ao público de agora a verve de um dos melhores textos de crônica que pintou por aqui, em especial nas páginas diárias do antigo jornal Folha de Goiás, com o imperdível "O Drama de Cada Um". Paraibano dos bons, Geraldo veio para Goiás no final da década de 1950 e ainda comete coisas interessantes das quais retiro umas partes para mostrar a vocês. A bênção, Seo Geraldo!

OCASIÃO - "A ocasião faz o ladrão ..." Especialmente se der pra ganhar uma eleição.

ORGASMANIA - "Quem não deve, não teme ..." Como também não goza aquele que não geme...

PERIGAÇO - "Rir é o melhor remédio ..." O perigo é divulgar isso aí com estardalhaço, incentivando farmácia e drogaria a vender palhaço.

VOLTA - "Pra frente é que se anda ..." E quando se quiser voltar? A frente do pé é o calcanhar?

CHATICE - O cara era tão chato que nem com ele próprio batia papo. Temia chegar às vias de fato.

CARÊNCIA - "Deus dá o frio conforme o cobertor ..." E o calor? Conforme a carência de amor?

IMPOSIÇÃO - "Rei morto, rei posto ..." Com o agravante de que nos é imposto.

ILUSÃO - "Quem ama o feio, bonito lhe parece ..." É falta de oculista, vê se não esquece ...

VIAGEM - "Quem tem boca vai a Roma ..." Dá pra entender não. Só se boca for avião ...

CABRITAGEM - "O  bom cabrito não berra ..." Erra quem não pensa assim e deixa o bichinho sem capim ...

ESPERA - "Quem espera sempre alcança ..." E se vem outro e avança?

TEIMOSIA - "Pobre vive de teimoso ..." Só de afirmar que pobre vive, já é meio duvidoso ...

AMULETO - "Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça ..." Mas evita puxar saco e ser motivo de troça.

CADUCIDADE - "Macaco velho não mete a mão em cumbuca..."  Pode até meter, se esse macaco já caduca.

SEMELHANÇA - "Tal pai, tal filho ..." Até nos defeitos o mesmo brilho.

APELO VI - A pichação no muro da igreja: "Volta Tereza, teja onde tu teja ..."

CANTARES III - "Quem canta lá em casa é o galo ..."  E a galinha, quando bota? Canta só de idiota?

ECOLÓGICA - "Mais vale um pássaro na mão do que dois voando ..." Depois não reclama se alguém denunciar no Ibama ...


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POR EM 29/09/2008 ÀS 03:13 PM

O inferno é doce

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Sinfrônio de Nina viveu um esmero na esbórnia, sem trela aos mandamentos de Moisés e numa furupa de fazer inveja a Clodino Burra Zóia, o puteiro mais afamado da nossa região, além de recitador de pecados. A vida de Sinfrônio foi uma beleza nas alças do malfeito, trançada no prazer de verdade com seqüência e sem conseqüência. Atilado na margaça, sorvia e dissolvia, neste caso e principalmente, os bofes. Uma tragédia aquela sina, na visão das beatas e dos aproximados do céu.

De forma que ninguém, em sã, ou mesmo doente, consciência previa escapatória neste mundo ou fora dele  para aquela alma peregrina do prazer.

Ele, no entanto, tinha as reservas de ser galã, conquistava e desfazia famílias, imputando as mais cruéis culpas e as desencontradas desculpas a maridos chifrados e mochos. Até menina de menor entrou na lábia dele, sendo que naquele tempo a pedofilia caía na culpa da mocinha que se oferecia e que em seguida tomava o caminho do cabaré para custear sua vida. Sinfrônio, apesar de tudo, e ponha tudo nisso,  se safava e se gabava, ao mesmo tempo em que aumentava sua famosa má fama.

Não houve ali moça, mesmo sem esmiuçar, que topasse se casar com ele, apesar de algumas tentativas de sua parte, com atentação do capeta e tudo, principalmente depois que também pegou fama de ladrão, arrombador notívago do comércio estabelecido. Só não ia preso porque era também um grande engambelador de meganhas, dissimulador de delegados e adulador da justiça.

Era tão atilado que desconstruiu os 10 mandamentos da Lei de Deus, outros tantos das igrejas e reconstruiu os sete pecados capitais com gosto de gás. Numa coisa Sinfrônio era mestre: tinha pose e por isso se safava com maestria, inclusive dos inúmeros filhos que aleatoriamente colocou nas barrigas das moçoilas de lá.

Eis que chega a idade pra lá do mais pra cá e nem tudo vira festa, apesar de muita coisa na vida dele ter acabado em festa. Depois de mais de sessenta e tantos anos de desvios e orgias, chegam a lassidão e as doenças e o cabra amofinou-se e se encolheu tanto, que o jeito foi cair nas garras socorristas da igreja e dos filhos de Deus que acomodam os perdidos e arrependidos.

Sinfrônio arrependeu-se de pronto, crente que arranjara a salvação. Não demorou muito, viajou num caixão duro no rumo dos sete palmos abaixo, deixando nos de cá o esperançoso sentimento de que se destinara ao céu de Deus e dos santos, amém. O diacho é que não achou passagem pra lá, ficou enganchado na porta, porque o santo que comandava a porta do paraíso achou pouco o resumo do arrependimento e não consentiu sua entrada. Ele argumentou com as questões inerentes ao perdão, mas o santo observou que ele estava mal informado sobre as novas regras da salvação eterna.

Doravante, segundo os novos preceitos, o arrependimento desses vadios havidos como inveterados tinha de abater ao menos a metade do tempo em que viveram na malandragem. E que, portanto, a porta do inferno era a serventia da casa.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:37 PM

Tudis leguis na boleguis ?

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"Meus povis de Saracutópolis,

Nas escaramunhanças de vivê destiolado, supres de fazer a urna susprir de votis, com ocê tafuiando meu numro lá, esse que taí apregoados no pau do lado.  Eu esquipo dirriba duma misera enorme pro mode  fazê valê  minhas confabulanças na Camra de verador deste impolutente municípis de Saracutópolis. Supres e ressupres. Nosso Deus é tistimunha. Louvado seje!"

O discurso do meu candidato a vereador de Saracutópolis nesta próxima eleição era e é o mais esperado de todos do comício. O povo pede, suplica e vai à loucura com a fala de Tezinho do Bok. Ele é o mais querido e,  para mim, que sou seu eleitor de carteirinha, acho que será um dos mais votados, com o agravante ou o atenuante, não sei, de que, pela popularidade e simplicidade, Tezinho é requisitadíssimo por nosso candidato a prefeito. Andar com Tezinho puxa voto e nosso candidato a prefeito sabe e até exagera nesse quesito.

"Tudis leguis na boleguis?" É este o primeiro cumprimento dele aos eleitores e amigos que encontra na rua. Na verdade, eleitor e amigo de Tezinho do Bok são praticamente a mesma coisa, sem muita distinção um do outro. Eles se confundem, mas ninguém por lá confunde o que Tezinho quer dizer, porque na certa ele só diz coisas pra cima, entusiasmantes, otimistas, como pro exemplo: "Tudis na murlenga belelenga dis travi". Ninguém sabe ao certo o que significa isto, mas também ninguém deixa de saber, porque parece algo como: "Deixa que tá bom e pronto".

No último comício eu estava na primeira fila da claque de Tezinho e  aplaudi como nunca o discurso dele. Até gravei e mostro parte para vocês: "Tudis leguis na boleguis? Meus inófrios conterrantes, maleofólicos! É viris que nóis poréns pela equolescência e protuberância de Saracutópolis. Hemisférico potências de nós mães e pais, perpelis ortomênicos das filalumias. Pruque dostres e remoces nossas conjuminâncias eloquimentes, sem protéis e aranzéis nas ruas e cabarés. Esquis nóspitus da nossas gentes oclementes de Deus. Protuberais e não distais, pruque diminóis e desmostras nossas silumbrias. Apois tá, pois que nus prega despretera terra a nóis. Convosco sibulenes e marilenes, osga pras cacildas e as subilicas didas".

Nunca vi discurso nítido e inteligível mais do que esse. Bati palmas e aplaudi com gosto. Mas não foi só eu não, todo mundo ali ficou encantado com o palavrório de Tezinho. Coisa linda! Mesmo porque,  nestes dias,  pouco se sabe e menos ainda se acredita no que dizem esses candidatos, que não seja para seu próprio tempero e seu pirão primeiro. Pela manifestação do povão, meu conterrâneo Tezinho de Bok já pode se considerar eleito. 14º e 15º salários para ele, por exemplo, como fizeram os vereadores de Goiânia, era coisa do quinto dos infernos, que traduzido para a linguagem de Tezinho ficava assim: "As prosências das urnis vertisca, apodris pobris xibungréias".


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:24 PM

Coronéis com patentes

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O coronel Eugênio Lima e o major Sávio Praxedes sempre viveram às urras e turras. No tempo em que eles reinavam no lugar, as divisas territoriais eram marcadas e remarcadas ao sabor das circunstâncias políticas que revezavam entre um e outro. Eram cabras machos até dizer 'chega' e viviam na regra dali, com uma família de direito e filhos espalhados e sem pai, frutos da fortuita, desmesurada e intrépida cobiça da carne, principalmente a mais tenra, casos hoje, muitos deles, conhecidos como pedofilia. Mas que naqueles tempos eram tidos como sinônimo de macheza, virilidade e poder.

Zé Firmino, capanga de coronel Eugênio, pegou  a empreitada de matar Ticiano, um dos cabras de major Sávio, por causa de um entrevero entre filhos dos seus senhores, onde um saiu derrotado com um tapa na cara a mais. Mortes eram constantes de um lado e do outro, como desconto de uma desavença, o que aumentava sempre mais a rixa entre os lados. A quizila era dividida entre gentes e espaços, mas a alguns locais, poucos, era facultada a pequena e, a bem dizer, remota convivência entre os lados.

Tudo era muito dividido e a rixa ninguém sabia quando aumentava ou diminuía, tamanha a desavença. Aconteceu até de Carlinhos, filho do coronel Eugênio Lima, emprenhar Margarida, filha do major Sávio Praxedes, e o rebuliço aumentou nas duas famílias e em ambos os lados. Os amantes tiveram de fugir de lá e iniciar vida nova e sofrida em outras plagas, criando o filho.

Certa feita tiveram de desenrolar uma perlenga política a sós, numa conversa previamente agendada pelo representante da Justiça e marcou-se o encontro para o território mais neutro possível, a igreja. Sem armas extras, senão as naturais do orgulho, foram introduzidos na sacristia, sob a enorme expectativa de muita gente de ambos os lados que para lá se dirigiu.

Já havia passado mais de hora e não se ouviu gritaria ou altercação. A apreensão do lado de fora aumentava, mas a conversa parece que adquiria um nível de muita educação e grande tranqüilidade. Duas horas e nada, a não ser a apreensão e a preocupação da platéia que, sem saber o que estava acontecendo lá dentro, se coçava de curiosidade e expectativa.

Duas horas e meia e nada. Ninguém, no entanto, tinha também autorização ou mesmo a ousadia de interferir. Depois de mais de três horas de expectativas e ansiedade, a porta da sacristia é meticulosa e fanhosamente aberta e de lá saem os dois chefões com aparência desgrenhada, amarfanhados e amarrotados, caminhando lentamente um ao lado do outro. A expectativa cresceu no meio da  população, mas a  única reação do coronel Eugênio Lima e do major Sávio Praxedes foi um murmurante e quase uníssono 'tudo bem' e cada um esgueirou-se pro seu lado.

Daquele dia em diante, os dois imprimiram um novo e benfazejo clima na relação pessoal e social, inaugurando uma fase que ficou conhecida em toda a região como 'o tempo do puro amor'.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:58 PM

O capiau que encomendou o inferno

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Volta e meia eles apareciam por lá, montavam acampamento com barracas e cortinados, se embrenhavam nas roças, em terras adquiridas, negociavam daqui e dali e, segundo as más histórias, trapaceavam com uns e outros, usando de treta para engambelar e tirar proveito. Eu mesmo nunca presenciei algum desatino desses, mesmo porque não sou dado a fazer negócios e muito menos negociatas e quando me destino a vender alguma coisa acabo quase entregando de graça. De uns tempos pra cá, observando justamente uns ciganos, foi que comecei a me inteirar das ladinices dos negócios, mas não tenho tino, como tinha, por exemplo, o meu pai, que pegava um canivete e o transformava numa vaca.

A história de Felisberto merece ser contada, porque entra no rol das performances mais inusitadas da minha observação sertaneja. Eu já o conheci famoso, com gente de bem e boa fazendo reverência e o cumprimentando com honras de herói. No sábado da feira, lá estava Felisberto, na constância assídua, de ir ao comércio comprar mantimentos que a roça não dava e que apoiavam o sustento das crianças, dele, da mulher e de algum vizinho desprevenido. O que a roça dava ele levava pra feira e com o resultado da venda se apetrechava de pão, biscoitos, açúcar, café e tecidos para roupas.

Num desses sábados, lá ia ele de marcha batida em retirada para a casa, trecho de duas léguas no máximo. Os alforjes cheios, passados no lombo da égua, marcha batida e sem trompaço e o sol da tardezinha esquentando o couro e alumiando o caminho. Lá na frente, avistou três ciganos, montados em belos animais, vindo em direção contrária. Sem cisma, porque ali tudo era muito calmo e sossegado, continuou seu caminho sem botar desconfiança alguma.

Calmamente, os ciganos foram se aproximado até chegarem à distância do cumprimento, que Felisberto antecipou-se em fazê-lo, dando 'boas' aos moços. De repente e inesperadamente, eles arrumaram-se em grunhidos e uivos e partiram de chicote, pinotando os cavalos pra cima de Felisberto, gritando e reivindicando capetas, querendo porque querendo pegar os mantimentos que Felisberto levava. Um dos ciganos arrumou da cintura uma faca, um outro cavucou um trabuco que reluziu querendo arrotar e o outro ficou tacando o chicote sem dó nem piedade.

Felisberto e sua égua cascavam dum lado pro outro, pinotando e negaceando, até quando lembrou que trazia no embornal um trinchete, um canivetinho de nada. Enfiou a mão, enquanto desviava de um e do outro cigano e de um tiro que raspou seu espinhaço, pegou a faquinha e começou a trabalhar com ela naquele escarcéu todo. Rasgou primeiro a barriga do que atirou, que as tripas pularam fora e ele caiu vertendo sangue e bosta durante o pouco que viveu. Os outros dois partiram com gosto de gás pra cima de Felisberto e também receberam golpes fatais, estrebuchando-se do chão. Felisberto ficou escondido uns dias e a história vazou pra todo lado. Duas semanas depois, quando apareceu na cidade, foi recebido com honras de herói pelo prefeito, a polícia, o povo e a banda de música.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:55 AM

Saudades desses sacanas

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Todos eles ou foram engraxates, vendedores de pão e picolé ou faziam um ou outro bico pra ajudar a mãe em casa e também ter com o que vadiar um pouco. A pobreza grassava legal, mas vivia-se uma alegria constante, fazendo muito com o pouco que se tinha e usufruindo do que a natureza em abundância dava sem cobrar um vintém. Como se diz: na regra de pobre, tinha-se um vidão. A vida, no entanto, com suas dificuldades inerentes, cobra e cobra muito e caro dos que vão aos desvios, ou melhor, dos que se desviam demais dos desvios dela.
 
Inha, um rapazote ágil, bom de bola, legal em demasia, se esgueirava pela vida e fazia parte dessa nossa turma. Filho da prostituta Vezinha, sabíamos que em nossa roda era proibido falar de coisas de família, algumas de alas políticas contrárias, apenas nos apegávamos às coisas da nossa molecagem. Vezinha, no entanto, era uma puta considerada na sociedade, porque na mocidade fora artista, cantora e os senhores casados, que vadiavam e botavam filhos nela, a tinham na conta de uma puta de conceito.
 
Mesmo com a distância peculiar que se tinha das prostitutas, Vezinha nunca era rechaçada e zanzava por toda a cidade com elegância. Tinha dez filhos ou mais, que nunca contei, mas não era moça de cabaré, tinha sua própria casa, onde decerto recebia seus amantes. Ainda me pergunto como ela fazia para, numa casa daquele tamanho, um ovo, caber tanto filho e homens por cima. O futuro desses filhos conta-se muito nas cadeias, no cemitério e nos botecos. Queiram os céus que alguns tenham se salvado.
 
Cajé, por exemplo, pouco se sabia de sua família, mas era craque de futebol nas pelejas do Buracão, um lugar pra lá da ponta-da-rua (de onde se dizia que era o fim da cidade), muito estrambótico e que encabulava minha cabeça cheia de inocência. Ele era uma alegria a toda prova, gente boa até dizer 'chega', e que vivia vendendo pão nos tabuleiros pela cidade e vadiando com a gente nas horas vagas. Foi para Goiânia e morreu assassinado, antes de completar 30 anos de idade. Ficou, pela beleza, a cantiga: "Ê o pão sovado, carteira, de doce e de saaaallll".
 
Como me esquecer de Neto de Velero, como a gente o conhecia, filho de um dos mais afamados rezadores do lugar? Goleiro do time, só nos deixava chateados quando engolia um 'frango', que é sempre fora do combinado. No mais das vezes, cheio de tiradas hilariantes e uma ferina presença de espírito. Ganhava a vida com serviços de empreitada, até que a morte o 'ganhou' por uma questão de mulher, assassinado ainda moço pelo ciúme. E Lingüiça, cadê Lingüiça, nheim?
 
Onde andará Dilsinho Mão-de-Seda, também filho de Vezinha, que nasceu ladrão feito, dos mais apetrechados, e mereceu o garboso apelido de Mão-de-Seda? Era um ladrãozinho que circulava com grande desenvoltura no meio da sociedade, apesar da distância regulamentar que conscientemente se mantinha dele. A cadeia foi a última notícia.
 
É que dá saudade desses felasdamãe, desses sacanas!

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POR EM 19/08/2008 ÀS 11:02 AM

Bonança

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Todos foram criados na mais lauta bonança e nunca tiveram precisão de um nadinha que não fossem satisfeitos pelos teres e haveres que o dinheiro proporcionava. O pai se preocupava em ganhar dinheiro e a mãe não trambelhava bem com a paciência e a benevolência que exigia a criação dos filhos e tutelava para amas e empregadas, que por seu turno viviam de arrego na família.
 
Os doze filhos e filhas, entre pequenos e já criados, se fartavam, mas começavam o desentendimento a partir de um bife mais suculento de um ou de outra na hora do almoço. Não porque não tivessem de sobra, mas mais pela indaga de um não conseguir ver o outro numa situação melhor, mesmo na mais ínfima e torpe das competições.
 
Todos foram muito bem encaminhados nos estudos e na vida, não faltando quem lhes servisse, num acompanhamento de filhinhos de papai. Mas mesmo com tanto, as rusgas apareciam e cresciam entre eles, de modo que quase ninguém, que conhecia e convivia, entendia bem o porquê daquilo, já que todos tinham de um tudo. E ali tanta gente vivia bem com quase nada.  Parecia que um inferno se instalava na vida dos que tinham muito.
 
Já bem criados, uns e outros formados, ninguém conseguia tino para prosseguir numa vida mais ou menos, parece que atribulados pelo despautério de uma criação dondoca. Esse tipo de criação desencaminha mais do que caminha. O pai vivia de atochar dinheiro num e noutro para ver se conseguiam um rumo melhor. Dos doze, apenas uns dois, mais atilados, conseguiam, às custas de um casamento com gente de tino, levantar a vida e dar uma perspectiva de melhora. A maior parte era catando para comer ou quando se aprumava era às custas do dinheiro do velho e com uma formatura fornida e mantida por ele, muitas vezes às expensas de uma sinecura pública.
 
Como todo saco tem um fundo, o dinheiro do papai acabou se desmilingüindo de tanto arranjar pra um e outro filho e pra um e outro genro que se abancou e aproveitava da mamata e depois cascava fora. Nos dias difíceis da velhice, quando o dinheiro já não dava, ninguém aparecia com uma merrequinha sequer para ajudar os velhos. Por artes do mal, ainda restavam três casas e uns lotes que de nada adiantavam, porque não rendiam. Ao contrário, davam era mais despesa, porque as casas serviam aos filhos e o terreno ao ITU.
 
Quase na miséria, morreram os pais com diferença de um mês e aí foi que começou a bagunça nessa família que já nasceu atravessada. O início foi com o disse-me-disse, o leva-e-traz, um querendo mais que o outro, fazendo conta de uma nesga de casa e de terra, até o ponto de o caçula e o mais velho se pegarem nos tapas. Um lá do meio sentiu as dores do mais velho e passou fogo no caçula, que foi parar no beleléu do inferno. Uma filha virou prostituta, outra vive de favor e pedindo a um e outro. Uma penúria imensa foi atacando aos poucos e a palavra dó resume um pouco do sentimento dos que viram essa família no tempo da bonança.

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