revista bula
POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

“Katyn”, de Andrzej Wajda e “Homicídio” de David Mamet

publicado em

Fidelidades dilaceradas em "Katyn” e "Homicídio" e um pequeno regresso a "O Leitor"

 


Um grupo de refugiados aproxima-se do meio de uma larga ponte sobre um rio qualquer da Polônia. É setembro de 1939. No sentido contrário caminha um outro grupo de refugiados. Inevitavelmente se cruzarão. Muitos deles se conhecem. São vizinhos, são parentes, amigos. Querem se prevenir uns aos outros, alertar sobre a fera que de ambos os lados os acossa. Qual decisão tomar? Retroceder? Avançar? Pressionados de um lado pela invasão nazista, de outro pelos soviéticos —  naquele momento ainda aliados. Que rumo tomar? Para onde ir?

Outra cena, a seguinte talvez, não me lembro. A mulher vai ao encontro do marido, oficial do exército polonês, refém dos soviéticos a poucos quilômetros dali com milhares de companheiros de farda. Pede que ele venha, que partam juntos dali, que ele precisa protegê-la e à filha deles. —  Você jurou a mim... perante Deus. Até que a morte nos separe, você esqueceu? Voltando-se na direção dos outros o homem responde: — Jurei a eles também.  O que fazer, então? Qual direção tomar? Uma ou outra fidelidade se verá dilacerada.

Estas são as cenas iniciais de “Katyn”, o filme de Andrzej Wajda acerca do massacre de mais de dez mil oficiais do exército polonês aprisionados pelo exército de Stalin, no início da II Grande Guerra. (Aqui no Rio esteve em exibição durante uns poucos dias num pequeno cinema escondido do grande público. Agora saiu em DVD.)

No entanto, há diferenças entre um e outro exército, como da mesma forma há diferenças entre os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético, ao contrário do que parte significativa dos historiadores gosta de afirmar. É o que faz, por exemplo, a francesa Annete Becker no de resto excelente “História do Corpo —  As Mutações do Olhar. O Século XX”, no capítulo “Extermínios —O corpo e os campos de concentração”. Não que não fosse tanto ou mais abominável o Gulag que Auschwitz-Birkenau —  lembre-se que os campos stalinistas ajudaram a exterminar, além de vidas, a esperança de uma sociedade não-capitalista. Apenas eram fundamentalmente distintos, tanto nos métodos quanto nos propósitos —  como aponta Anne Applebaum em “Gulag —  Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”. Nada há de inocente na ignorância de fatos do conhecimento como estes —  e também a sra. Appletbaun comete lá as suas inocências.
 
Um diálogo em “Katyn” 


A mulher de um dos oficiais poloneses executados conversa num parque com um dos sobreviventes quando uma dupla de oficiais russos passa por eles e o homem se levanta para bater continência. Ela vira-se para ele e diz:

—  Você cumprimenta os assassinos como se fossem vencedores.

— Não faz diferença se são soviéticos ou alemães. Ninguém ressuscitará os mortos. Temos que sobreviver, perdoar. Temos que viver.

—  Você é igual a eles. Pode pensar diferente mas é igual. O que importa pensar diferente?”

Duas mulheres polonesas na Polônia pós-guerra, ocupada pelos soviéticos. Uma delas trabalha na Universidade sob o novo regime. É a outra quem diz:

— Você encontrou um lugar nesse novo mundo, enquanto eu estou naquele onde Piotr (morto na luta contra a ocupação) está. Se tiver que escolher, eu fico com ele.

—  Você escolhe os mortos...
—  Não, eu escolho os assassinados, não os assassinos.

Aqui novamente do que se trata é de fazer escolhas, às quais não se deveria nunca abdicar.
 
Música dissonante
 
Às vezes pode valer a pena ceder ao culto televisivo das espetaculosas aberturas e festas de encerramento dos grandes aglomeramentos esportivos tipo Olimpíadas, etc. Um estupendo mau gosto, vazio e desinteressante que atrai a atenção e amesquinha a emoção de milhões de telespectadores. Além de disputarem-se medalhas, disputa-se intermitentemente o agigantamento da grandiloqüência do show, ad eternum.

Por uma espécie de acidente de um desses dias modorrentos assistia a abertura ou encerramento de uns tais Jogos de Inverno (solenemente narrada pelo locutor). Era o início da última década do século XX, 1992, para ser exato.

Alguma coisa prestava no show, imiscuindo-se contra o emburrecimento. Ao invés de amontoados concêntricos e repetitivos, movimentos de harmonia assimétrica, música dissonante, lúdica, percussiva —  na TV! Circense. Uma mecânica lindamente endoidecida, robótica inconclusa e quebrada rompendo as evoluções tradicionais de começo, meio e fim que correm atrás de um ápice catártico.

Múltiplas danças fragmentárias, incontáveis polifonias instrumentais e harmônicas. A deliciosa tentação da irregularidade torta e aparelhos geométricos quase-não-geométricos, engraçados jogos de equilíbrio e desequilíbrio.

Um palhaço escala uma espiral metálica de cabeça para baixo, o vértice voltado para o espaço, a boca querendo engolir a terra.
 
A Floresta Negra
 
Entretanto, da floresta formam-se filas na direção dos holofotes do stadium. A engenharia das câmaras e da transmissão televisiva exige um centro focal. O círculo opressivo e repetitivo que engole a polifonia devora como um funil implacável para que todos finalmente possam se enlaçar fraternalmente e destruir a fragmentação democrática e discêntrica. Vitória do folclore e do apelo demagógico onde se dissolve a intenção derivativa da coreografia: retorno da festança boçal natalina infantil familial circular.

A tocha no meio das evoluções que parecem querer escapar da prisão, lançar-se para fora do círculo e da própria ideia de círculo —a tocha se apaga e a roda é agora centro, circo morto, palco onde se desfaz e concentra-se apesar da música ainda mais atonal (quase) se confundindo com os estouros da encenação pirotécnica.

Confraternização universal, afirma o locutor, universalizante: o stadium se move, mistura atletas, bailarinos, público e a democracia torna-se demagogia, uma grande quermesse, festejo fantasiado de celebração dionisíaca legitimando a disputa cronometrada e concêntrica. Esvaziamento. Buraco negro. Apologia do esporte como cerimônia unificadora.

Reunificada, a Alemanha, de novo grande potência, detém a maioria das medalhas.
 
O Danúbio
 
 E o Danúbio [1]  que é azul e muito mais que azul, policromático, Donau, Dunaj, Duna, Dunay, Dunárea, Dunáv, Dunárea de novo nas grafias de um mapa Michelin, até desembocar no Mar Negro três mil quilômetros após uma nascente controvertida na Floresta Negra. A psicopatia da Grande Alemanha que volta e meia quer submeter a Mitteleuropa, “Hofmannstahl, Musil, Freud, Richard Wagner, Kafka, Holderlin, literatura húngara, austríaca... As terras dos Nibelungos, de Mefistófeles, do Conde Vlad Dracul, da música, da construção e destruição permanentes...” (do livro “Danúbio”, do triestino Cláudio Magris). Os laços comunais, as grandes Repúblicas autoritárias se compõem tendo como base a coerção e a lealdade dos cidadãos. Mas são tantas e muitas vezes tão dilacerantes essas lealdades!

Magris escreve que em “18 de outubro de 1944 aconteciam os solenes funerais do marechal de campo Rommel”, em Ulm, quase na nascente do Danúbio. Rommel comete suicídio após a condenação pelo envolvimento na “conjuração de 20 de julho” para assassinar Hitler (verOs Nazistas Estão de Volta”). Magris afirma que sua “educação não lhe permitia distinguir claramente entre seu país e o regime que o pervertia e o traía. Aquela educação alemã para o respeito e a fidelidade que é por si mesma um grande valor, a lealdade para os que estão ao lado e para com a palavra dada, mas que está tão profundamente arraigada que não se consegue arrancá-la nem quando o torrão natal se tornou um pântano podre”. Rommel suicida “dilacerado pela cisão alemã entre fidelidade à pátria e fidelidade à humanidade”.
 
México – 1968
 
Em 1968, os conflitos raciais nos EUA se intrometem atrevidos contra a corporação da fraternidade encenada e o atleta tem que escolher entre duas fidelidades: a obrigatória à bandeira do seu país ou à sua raça e aos parceiros de infortúnio. Quando ergue o punho cerrado e declara sua escolha, sua opção de fidelidade. A nação está em guerra porque a nação são múltiplas nações.
 
Gold, um judeu sem casa  

A primeira fotografia de “Homicídio” de David Mamet mostra a linha de uma escada. Quando se inicia o movimento da câmara forma-se uma dicotomia: enquanto o olhar desce acompanhando a linha diagonal homens encapuzados e armados sobem os degraus. Subir e descer são ambos movimentos lentos e harmônicos, um parece estar amarrado ao outro por uma linha escondida no set de filmagem flagrando as direções opostas ou dissonantes. Mais conflituosa será a trajetória do detetive Gold, um judeu sem casa (é na delegacia que ele troca de camisa, lava o rosto...) na polícia de Nova York.

Até o momento em que acidentalmente se depara com o assassinato de uma velha senhora judia os problemas de Gold são estritamente funcionais. Antes, quando um prisioneiro que fuzilara a mulher e três filhos pergunta se ele não quer resolver o problema do mal, Gold responde: —  Não. Se resolver, perco meu emprego.

Gold pertence a uma corporação e deve lealdade a ela. Ele, o parceiro e sua equipe estão trabalhando numa importante investigação para a municipalidade, envolvendo questões raciais numa cidade cujo prefeito é negro. A comunidade exige que ele a represente. Gold, no entanto, é afastado do inquérito porque os parentes da mulher assassinada, ricos judeus, exigem que ele, um judeu, investigue o crime.

O chefe imediato do detetive garante: —  O judeu quer gente sua para cuidar do caso.

—  Gente dele?! Eu pensei que eu fosse gente sua, Lou, responde Gold.

Ele não tem casa, mulher, filhos, raça. Deve lealdade unicamente ao grupo com o qual trabalha: sua comunidade são seus parceiros de cotidiano e ofício. Pelo menos até ali. A partir daquela exigência, será ele quem vai se dilacerar no enfrentamento das fidelidades.

Quando, por acaso, investigando o novo caso, encontra-se com um rabino na biblioteca judaica que lhe exibe um texto em hebraico, Gold diz, encabulado: —  Não sei ler... —  Mas você não é judeu? —  Não sei ler. —  É judeu e não sabe ler hebraico? Que tipo de judeu é você?!, repreende o religioso. Mas o detetive quer tornar-se parte do seu povo e está disposto a fazer sacrifícios para isto. Retira e esconde o distintivo e sob o manto da noite explode um aparelho nazista. Os líderes judeus, no entanto, exigem que ele lhes entregue um documento probatório, evidência legal encontrada na cena do crime. —  Não posso. Sou um policial. —  E sua lealdade?!, perguntam, irritados.

Lealdade com quem ou o que, afinal?

Gold, preso ao ataque contra a loja nazista perde a hora marcada pelo seu grupo de trabalho e o parceiro é morto na ação para a qual o aguardavam. Ferido logo depois, ele conversa com o negro que deveria prender e gostaria de matar porque tirou a vida do parceiro (à mãe do criminoso, no entanto, Gold prometera prendê-lo impedindo que fosse morto):

—  Randolph, foi sua mãe que o entregou.
—  Você é um merda.  
—  Certo. Eu sou um merdinha. Tudo é merda. Matei meu colega e sua mãe te entregou.

—  Não morra mentindo.
— Olhe, sua mãe te entregou, cara (mostra alguma prova do fato). Olhe!
—  Meu Deus! Deus me ajude...”, geme Randolph.

Quanto ao detetive Gold nada, Deus, seu povo, a corporação, ninguém pode dar fim à sua abismal solidão no centro da tempestade de fidelidades fracassadas e antagônicas.
Lealdade, ele a deveria a quem?

Quando se recupera do ferimento dias depois, é o chefe quem lhe comunica:  —  Você não é mais da Homicídios. Você está fora.

É isso. Ele está só. Exilado da humanidade.
 
Regressando a “O Leitor”
 
(Detalhe de “O Leitor”, livro e filme: o que estudam os alunos secundaristas na Alemanha pós-guerra? Latim, grego. Homero. Por que o ensino passou a prescindir de matérias como essas? Terá algo a ver com as novas necessidades das novas técnicas e da hiper-especialização do processo produtivo? Estamos, então, junto com o progresso técnico, caminhando para trás, nos estupidificando? Ou não é de se supor que deixar de ler Homero e latim e grego no secundário seja um passo atrás?)

Entretanto, ler Homero ou aprender latim e grego clássico talvez não nos salve da vileza, não nos exima de cometer atrocidades contra nosso semelhante (basta que os classifiquemos como diferentes, não-semelhantes, não tão belos ou não tão amarelos ou vermelhos ou). É possível, então, que nada nos garanta que não sejamos capazes daquilo que Hanna foi capaz — simplesmente porque aquele era o seu trabalho ou, menos que isso, sua função naquele instante.
 
Diálogo entre juiz e ré
 
O juiz interroga Hanna:

—  Por que não destrancaram as portas?
—  Não podíamos.
—  Não podiam por quê?
—  Éramos guardas. Nossa tarefa era vigiar as prisioneiras. Não podíamos deixá-las escapar.”

Note-se a singeleza da resposta: não podiam porque o trabalho delas era manter presas as prisioneiras.

Em algum momento Hanna vira-se para o juiz e interroga:

— O que você faria?

Hanna, na verdade, nos interroga, a cada um de nós. E não tratamos nós de cumprir bem nossas tarefas e deveres funcionais (profissionais), sejam eles quais forem? Frente ao quê, cabe perguntar: que natureza de ética é esta (típica do mundo próspero, embora não originária dele) que conduz as ações da nossa sobrevivência?
 
 
 
[1] Para o qual também escorrem os esgotos de Viena através de galerias fantasmáticas onde fidelidades se dissolvem em “O Terceiro Homem”.

 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Os sertões de Euclides da Cunha e outros sertões

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Um livro escrito com tanta mestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana 

Euclides da Cunha

Umas tantas vezes, poucas, eu havia começado a leitura de “Os Sertões” de Euclides da Cunha e interrompido, fustigado pela aridez das primeiras cem páginas (mais ou menos) — sei de gente, no entanto, que um tanto idiossincraticamente as declaram as melhores do volume. Desta vez, rompi e fui.
 
Há leituras que de tão surpreendentes nos deixam abismados (tomados pela sensação do abismo). Eu que, embora tenha tido ainda no colegial um ou dois bons professores de literatura que certamente terão comentado com entusiasmo sobre “Os Sertões”, nunca fui capaz de aprender grandes coisas em escolas, de repente sou assombrado, precisamente, por aquela sensação. E, também, por uma certa vergonha. Explico.
 
Só encontrei energia para vazar o cerco das tais primeiras cem páginas ao ler uma pequena novela do húngaro Sándor Márai, de quem tomei conhecimento pelo também húngaro, e absolutamente essencial, Imre Kertész (quantos belos nomes os desses húngaros, quanta música!) chamado “Veredicto em Canudos”. Foi preciso o encanto de um europeu (ainda que de uma Europa, como este país onde vivemos nós, considerada periférica) para me convencer da completa necessidade de afinal ler “Os Sertões” — depois, para alimentar o reconhecimento da genialidade única e gigantesca de Euclides da Cunha bastou, é claro, sua escrita tão impregnada de luz e revelação. (Se confesso o crime, quem sabe não me amenizam a pena.)
 
Muito provavelmente, todos os meus comentários já terão sido feitos por outros. Estarei me repetindo. Mesmo assim, me arrisco. É que é preciso saldar a dívida — e amenizar a vergonha. Imagino que, talvez, o qualificativo mais batido de tantos quantos os usados para definir “Os Sertões” (e seu autor) é o ser único. Pois, como defini-lo sem partir daí?
 
Uma reportagem no sertão da Bahia longa o suficiente para se tornar um caudaloso livro — e uma épica do humílimo sertanejo, talvez nos revelando que na ousadia da rebelião a mais disparatada pudesse aquele homem do sertão se fazer notável, ao invés de insigne no aceitar ser manietado pelo despudor imoralíssimo dos poderosos. Um livro escrito com tanta maestria e percuciência que passa à linhagem da literatura. Uma literatura que se revela tão vastamente rebuscada, seja no ângulo da visada, seja na tocada do verbo que a conduz, que se torna praticamente inclassificável, mas certamente enorme.
 
E a reportagem penetra as intricadas e tortas ramagens do sertão até alcançar as beiradas da mais sublime poesia: “um brado de alarme estala na mudez universal das coisas...”.
 
E, de novo, de novo, há um ímpeto de repetir os incontáveis flashes de incontido brilho que nos conduz ao fundo dos abismos.
 
Quantos, ao mesmo tempo, já não terão dito (não sei, não posso garantir, embora possa, sim, ter lido aqui e ali ao longo do tempo escritos sobre o livro, mas não que me tenham ficado disponíveis na memória, se apagaram, desconheço e, assim, apenas suponho) que sem Euclides o Conselheiro não seria mais que uma dessas tantas figuras místicas que costumam assaltar no meio da miséria a alma desamparada dos miseráveis? Ao invés, graças a “Os Sertões”, temos um mito. Ou, ao invés uma vez mais, quantos não terão sido ao longo da história os mitos inconsiderados justamente pela ausência daqueles que os pudessem dimensionar e expressar? Inda mais quando se recorda que a história é no geral e quase sempre a versão da história ofertada pelos vencedores. Embora haja também os que imaginem existir para cada evento histórico um relato à altura.
 
Seja como for, por vezes Canudos parece não ter podido existir, exceto na realidade encantada da literatura, numa invenção da pena euclidiana.
 
Lá pelas tantas: “Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam do apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, como bem pouco idênticas na História, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de seis mil homens!”
 
Cago Montes Para a República — “Foi isso que vi e ouvi na edificação do Rancho do Vigário no dia 5 de outubro, entre as cinco horas da tarde e as nove horas da noite. Contei como pude. Não lembro mais nada de Canudos”. Assim termina a citada novela de Márai, que data: “Salerno, 1969”.
 
“Três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos” resfolegam orgulhosos e atrevidos à frente dos maiorais da República, derrotados e no mesmo instante desafiadores. Márai os retira de “Os Sertões” e os traz ao centro da trama para que nos falem também do nosso tempo. De 1969. Ano post-mortem.
 
O marechal vitorioso conduz o interrogatório dos vultos esqueléticos e discursa: “Na anarquia há força, e a força é sempre possibilidade. Isso nós, democratas devotos, também sabemos. Mas a força em que não existe razão é possibilidade apenas no hospício. Seu marido sabia disso?
 
“Sabia o que todos em Canudos sabiam. Sabia que às vezes o impossível é a única coisa que vale a pena acreditar” — responde a prisioneira andrajosa, como se reverberasse, por uma curvatura do espaço tempo, a frase inscrita nos distantes muros parisienses tantas décadas após aquele 5 de outubro de 1897.
 
Agora, na nossa contemporaneirade, os “Bittencourts” vitoriosos ocupam todas as “fímbrias” do poder enquanto suas falas sensatas operacionais preenchem cada mínima fresta eventualmente aberta nas superfícies perfeitamente lisas e apenas umas poucas literaturas parecem nos redimir — em lapsos curtos, brevíssimos cada vez mais.
 
“A linha férrea corre no lado oposto. Aquele liame do progresso passa, porém, por ali, inútil, sem atenuar sequer o caráter genuinamente roceiro do arraial. Salta-se do trem; transpõe-se poucas centenas de metros entre casas deprimidas; e topa-se para logo, à fímbria da praça — o sertão...”
 
Confrontado com o poder da República (a força das instituições e da institucionalização da vida social, do pactuado como bem universal entre os donos da civilização e da razão — quando, na verdade, razão e civilização provavelmente já há muito se avessaram, e a permanência das condições espirituais, e da cultura política que alimentaram o nazismo na Europa é apenas um dos sintomas disso) o sertanejo, de joelhos, responde gigantesco: “Cago montes para a República.”
 
Civilização e barbárie se enfrentam. Não restam dúvidas sobre quem é quem. E, no entanto... Invertem-se os signos. Oximoros abundam. Em “Os Sertões” tanto quanto na paisagem recriada de Márai, tanto lá quanto aqui, tanto antes quanto agora. Frente à barbárie travestida de civilização das grandes ordens das grandes Repúblicas unificadas, à anarquia predatória recoberta pelo verniz brilhoso da mercadoria, à ignorância de semi-letrados acoitada na irracionalidade bruta e sob os trajes da razão, gozando com a morte e o desejo de matar em impulsos apenas circunstancialmente contidos (civilizadamente contidos) pela “res publica”, seria melhor que se dissesse “cago montes para a República”. Mas, nesses nossos tempos de mundo próspero (do projeto liberal-social-democrata), quem ousaria? Onde estão os cabras machos (e fêmeas) capazes de uma tamanha audácia?
 
A Língua Vibrátil — Onde outro qualificativo possível para “Os Sertões” que não o de uma épica? E onde uma outra épica em nossa história tão famélica de eventos notáveis?
 
De outra parte, a exploração/a perscrutação incessante e destemerosa dos recursos da língua e da concretude (fisicalidade) das palavras, numa elegância vibrátil inquietada pela vitalidade parece indicar também a intenção de fazer essa épica avançar até o cerne da própria linguagem (a palavra) onde geme como um rato do agreste a urgência de uma literatura suja de vida, úmida de selvageria.
 
A Vida na Urbs Monstruosa — Invertem-se os signos. Interpenetram-se. Não por acaso, oximoros abundam na frase euclidiana, em parágrafos de estupendas ambiguidades, e terríveis prenúncios, grávidos de possibilidades e de re-significações.
 
De um lado, a barbárie: “...comunidade homogênea, uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo sem envolver, sem órgãos e sem funções especializadas... Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na Terra. Eram-lhes inúteis. Canudos era o Cosmos. E este mesmo transitório e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam sem demora. O último pouso na travessia de um deserto — a Terra.”
 
Aquela “cidade selvagem”, a “urbs monstruosa” cujas fundações foram lançadas por aquela “... espécie de grande homem pelo avesso” urge ser “...esmagada pela civilização...”
 
De outro, a civilização: Passar a borracha sobre o borrão, lobotomizar, medicalizar/drogar (a ciência a serviço do bem coletivo, como a República), amputar, excluir, submeter a ferro e a fogo (a degola era o método favorito das tropas republicanas), assim procedeu a “res publica”, a civilização contra o chaga representada pelo perverso Conselheiro e seu bando alucinado de pervertidos — os selvagens, os monstruosos, os vertidos pelo avesso.
 
“O Conselheiro continuou sem tropeços na missão pervertedora, avultado na imaginação popular...” “Arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele...” “Parou nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados.”
 
A barbárie: “A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O povoado novo surgia, dentro de algumas semanas, já feito ruínas. Nascia velho... Não se distinguiam as ruas. Substituí-as dédalo desesperador de becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos os rumos, como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos...”
 
A barbárie, de novo: “...aquela fachada estupenda, sem módulos, sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável; mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito a testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.”
 
Poesia (ou quase poesia): “...volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas...”
 
A civilização: “Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República... Era o prólogo invariável de uma cena... Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão. Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido...”
 
A civilização, mais uma vez: “A degolação era... infinitamente mais prática, dizia-se nuamente. Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada. Não era a ação severa das leis, era a vingança. Dente por dente. Naqueles ares pairava, ainda, a poeira de Moreira Cesar, queimado; devia-se queimar. Adiante, o arcabouço decapitado de Tamarindo; devia-se degolar. A repressão tinha dois pólos — o incêndio e a faca.”
 
A República — Erradicar o mal absoluto pelo bem da assepsia do processo civilizatório. Assim ainda agora se procede, embora os métodos tenham eventualmente se tornado mais limpos e mediados, até porque os desviantes se tornaram eles próprios mais mansos — há um coisa que acima de todos nós, e metida entre nós, mediando nossas relações, suga as energias (e as pulsões e os desejos) as mais extremas, e contamina até a fúria dos enfurecidos.
 
Isso, no entanto, é apenas uma hipótese...
 

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POR EM 13/04/2009 ÀS 05:41 PM

O grande terror stalinista

publicado em

Acompanhada de uma extensa análise que tenta alcançar nas estruturas e nos métodos do partido bolchevique as raízes da deformação stalinista,  a pesquisa de Ro­bert Con­quest é às vezes de tirar o fôlego. Se há problemas nas análises ou em aspectos delas, e certamente há, de forma nenhuma eles estão lá onde se poderia verificar a depreciação do trabalho do historiador


Ro­bert Con­quest
 
Mor­reu ano pas­sa­do nos EUA Ra­oul Hil­berg. Foi quem pro­du­ziu o mais com­ple­to le­van­ta­men­to da ma­tan­ça dos ju­deus pe­lo re­gi­me na­zis­ta da Ale­ma­nha. O re­sul­ta­do des­te tra­ba­lho é um li­vro de mil e qui­nhen­tas pá­gi­nas cha­ma­do “A Des­tru­i­ção dos Ju­deus na Eu­ro­pa” (li­vre tra­du­ção pa­ra “The Des­truc­ti­on of The Eu­ro­pe­an Jews”, New York, Hol­mer-Meyer, 1985). Obra fun­da­men­tal pa­ra uma das tra­gé­di­as fun­da­men­tais do sé­cu­lo pas­sa­do, lá fo­ra foi lan­ça­da há mais de um quar­to de sé­cu­lo. Não adi­an­ta pro­cu­rar nas pra­te­lei­ras das nos­sas li­vra­ri­as ou nos ca­tá­lo­gos das edi­to­ras bra­si­lei­ras por­que ne­nhu­ma de­las se in­te­res­sou em pu­bli­cá-lo por aqui. Se qui­ser im­por­tar uma edi­ção em es­pa­nhol, por exem­plo, vai sa­ir por 470 re­ais e é pos­sí­vel en­co­men­dá-lo na li­vra­ria Le­o­nar­do Da Vin­ci, aqui no Rio de Janeiro.

Mas a lis­ta de au­sên­cias im­per­do­á­veis, da­que­las ca­pa­zes de nos dei­xar de­pri­mi­dos e su­fo­ca­dos no ne­gru­me da ig­no­rân­cia, po­de ser bem ex­ten­sa. Só pa­ra ci­tar dois im­por­tan­tes li­vros que li (ou re­li) no úl­ti­mo mês: “O Ca­so do Camarada Tu­láyev” (Ed. Al­fa­gu­ara) de Vic­tor Ser­ge, rus­so nas­ci­do na Bél­gi­ca que es­cre­via em fran­cês (o que faz de­le, se­gun­do Su­san Son­tag, um es­cri­tor que con­ti­nua “au­sen­te... da his­tó­ria da li­te­ra­tu­ra rus­sa e fran­ce­sa”) e “O Gran­de Ter­ror — Os Ex­pur­gos de Sta­lin” de Ro­bert Con­quest (Editora Ex­pres­são e Cul­tu­ra). A bem da ver­da­de, “O Gran­de Ter­ror” ain­da po­de ser en­con­tra­do em al­gum se­bo por aí (www.estantevirtual.com.br), nu­ma edi­ção de 1970 (tem­po em que “no­vo” ain­da se es­cre­via “nô­vo”). E por aí vai. As la­cu­nas são mui­tas e se vo­cê, lei­tor de­sam­pa­ra­do por uma exis­tên­cia na sel­va, qui­ser nos aju­dar com no­vos tí­tu­los pa­ra a am­pli­a­ção da lis­ta, por fa­vor, es­cre­va pa­ra a re­da­ção. Quem sa­be não con­se­gui­mos sen­si­bi­li­zar nos­sos li­vrei­ros.

Ser­ge, Ko­est­ler e Orwell — Ao com­pa­rar os li­vros de Ser­ge, Ko­est­ler e, um pou­co mais à dis­tân­cia, Orwell, Su­san Son­tag diz que “O Ca­so do Ca­ma­ra­da Tu­lái­ev” (pu­bli­ca­do em 1947, um ano após a mor­te do au­tor, com o tí­tu­lo de “L´af­fa­ir Tou­la­év”) “é um ro­man­ce mui­to me­nos con­ven­cio­nal do que ´Tre­vas ao Meio-Dia´ (ou ´O Ze­ro e o In­fi­ni­to´, tí­tu­lo com o qual ´Darknes at No­on´ foi pu­bli­ca­do no Bra­sil) e ´1984´, cu­jos re­tra­tos do to­ta­li­ta­ris­mo tor­na­ram-se ines­que­cí­veis — tal­vez por­que aque­les ro­man­ces te­nham um pro­ta­go­nis­ta úni­co e uma úni­ca his­tó­ria” en­quan­to o ro­man­ce de Ser­ge, “com su­as mui­tas tra­je­tó­ri­as, tem uma vi­são bem mais com­ple­xa do per­so­na­gem, do en­tre­cru­za­men­to da po­lí­ti­ca com a vi­da pri­va­da, e dos ter­rí­veis mé­to­dos de in­qui­si­ção de Sta­lin”.

Se­ria co­mo for, “O Ca­so Tu­lái­ev”, ain­da nas pa­la­vras de Son­tag, “nun­ca des­fru­tou uma fra­ção da fa­ma” de “O Ze­ro e o In­fi­ni­to” (pu­bli­ca­do se­te anos an­tes, em 1940). De fa­to, o li­vro de Ko­est­ler, edi­ta­do inú­me­ras ve­zes no Bra­sil, ain­da se en­con­tra dis­po­ní­vel no ca­tá­lo­go da Edi­to­ra Glo­bo e, even­tual­men­te, em al­gu­ma li­vra­ria nu­ma tra­du­ção mais ou me­nos re­cen­te. De igual ou mai­or fa­ma é o ter­cei­ro dos li­vros ci­ta­dos por Son­tag, “1984” de Ge­or­ge Orwell. Ape­nas apa­ren­ta­do àque­les dois ir­mãos qua­se gê­me­os é, pro­va­vel­men­te, o de mais am­plo pú­bli­co — “1984” é on­de apa­re­ce o Gran­de Ir­mão do qual fo­ram chu­pa­dos to­dos os ne­fan­dos Big Bro­thers pro­du­zi­dos ao re­dor do mun­do, in­clu­si­ve o da Re­de Glo­bo. En­quan­to is­so, “O Ca­so Tu­lái­ev” con­ti­nua mui in­jus­ta­men­te re­le­ga­do ao es­que­ci­men­to.

No seu co­mo­ven­te ar­ti­go “Ques­tão em Aber­to — O Ca­so Vic­tor Ser­ge” (pre­sen­te em “Ao Mes­mo Tem­po”, Com­pa­nhia das Le­tras, 2007) Su­san Son­tag se in­ter­ro­ga so­bre os mo­ti­vos des­se es­que­ci­men­to (me­nor lá fo­ra que aqui, mas tam­bém lá re­le­ga­do a um in­com­pre­en­sí­vel se­gun­do pla­no, on­de, po­rém, ao me­nos foi e ain­da é pu­bli­ca­do). “Co­mo en­ca­rar o des­ca­so a res­pei­to de ´O Ca­so do Ca­ma­ra­da Tu­lái­ev´, um ro­man­ce ma­ra­vi­lho­so que não pá­ra de ser re­des­co­ber­to e re­es­que­ci­do des­de sua pu­bli­ca­ção...?” Se­rá por­que seu au­tor, per­gun­ta Son­tag, não era “um es­cri­tor en­ga­ja­do de for­ma in­ter­mi­ten­te em mi­li­tân­cias e lu­tas po­lí­ti­cas co­mo Si­lo­ne, Ca­mus, Ko­est­ler e Orwell, mas sim um ati­vis­ta e um agi­ta­dor in­ces­san­te?” Ou se­rá “por­que ele con­ti­nuou até o fim a iden­ti­fi­car-se co­mo um re­vo­lu­ci­o­ná­rio, vo­ca­ção ho­je tão de­sa­cre­di­ta­da no mun­do prós­pe­ro?”, per­gun­ta ain­da uma vez. E a ca­da in­da­ga­ção se apro­fun­da na apre­sen­ta­ção des­se per­so­na­gem cu­ja vi­da te­ria si­do a tal pon­to “im­preg­na­da pe­lo dra­ma his­tó­ri­co” que afi­nal aca­bou por ob­scu­re­cer sua obra li­te­rá­ria, co­mo, se­gun­do a es­cri­to­ra, afir­ma­vam al­guns dos seus mais fer­vo­ro­sos de­fen­so­res. Pa­ra ela, no en­tan­to, “os li­vros de Ser­ge são me­lho­res, mais ar­gu­tos, mais im­por­tan­tes do que a pes­soa que os es­cre­veu”.

Quan­to à pes­soa, va­le lem­brar o cu­ri­o­so de­poi­men­to do an­tro­pó­lo­go Clau­de Lé­vi-Strauss (cu­jo cen­te­ná­rio es­tá sen­do co­me­mo­ra­do mun­do afo­ra) no seu clás­si­co “Tris­tes Tró­pi­cos”. Diz ele: “Quan­to a Vic­tor Ser­ge, seu pas­sa­do de com­pa­nhei­ro de Lê­nin in­ti­mi­da­va-me, ao mes­mo tem­po em que eu sen­tia a mai­or di­fi­cul­da­de pa­ra in­te­grá-lo a seu per­so­na­gem... Aque­le ros­to gla­bro, aque­les tra­ços fi­nos, aque­la voz cla­ra, ali­a­dos aos mo­dos pom­po­sos e cau­te­lo­sos, con­fe­ri­am es­se ca­rá­ter qua­se as­se­xu­a­do que mais tar­de eu ha­ve­ria de re­co­nhe­cer en­tre os mon­ges bu­dis­tas da fron­tei­ra bir­ma­ne­sa, mui­to dis­tan­te do más­cu­lo tem­pe­ra­men­to e da su­pe­ra­bun­dân­cia vi­tal que a tra­di­ção fran­ce­sa as­so­cia às cha­ma­das ati­vi­da­des sub­ver­si­vas.”

No pre­sen­te tex­to, po­rém, o que im­por­ta não são nem a apa­rên­cia de mon­ge bir­ma­nês de Ser­ge, nem aque­las ques­tões tão gra­ves do tex­to de Son­tag. As dú­vi­das le­van­ta­das aqui es­tão num ní­vel mui­to mais su­per­fi­ci­al — tal­vez er­ra­da­men­te — e po­de­ri­am ser re­du­zi­das a uma per­gun­ta úni­ca mui­to sim­ples: com tan­ta por­ca­ria sen­do pu­bli­ca­da so­bre o pe­rí­o­do sta­li­nis­ta (só no ano pas­sa­do fo­ram pe­lo me­nos uns cin­co ca­lha­ma­ços) por que até ho­je ne­nhu­ma edi­to­ra bra­si­lei­ra se in­te­res­sou pe­lo ma­ra­vi­lho­so “O Ca­so Tu­lái­ev”?

Exa­ta­men­te a mes­ma dú­vi­da va­le pa­ra “O Gran­de Ter­ror”, de Ro­bert Con­quest.

Ig­na­zio Si­lo­ne (lem­bra­do aci­ma no tex­to da Son­tag), ali­ás, é tam­bém ci­ta­do por Con­quest, num epi­só­dio em maio de 1927 que ele cha­mou de “a úl­ti­ma cen­te­lha de in­de­pen­dên­cia do Co­min­tern” (ou Ter­cei­ra In­ter­na­ci­o­nal, fun­da­da por Lê­nin em mar­ço de 1918): na pre­sen­ça de Sta­lin, con­ta Con­quest, foi so­li­ci­ta­do “que o Co­mi­tê Exe­cu­ti­vo do Co­min­tern con­de­nas­se um do­cu­men­to de au­to­ria de Trotsky... To­dos os pre­sen­tes es­ta­vam pron­tos a aten­der à so­li­ci­ta­ção, quan­do a de­le­ga­ção ita­li­a­na — com­pos­ta por (Pal­mi­ro) To­gli­at­ti e Si­lo­ne — afir­mou não ter vis­to es­te do­cu­men­to... Os ita­li­a­nos... dis­se­ram que não po­de­ri­am sub­scre­ver uma con­de­na­ção for­mal a al­go de que não ti­nham co­nhe­ci­men­to... A par­tir daí, o Co­min­tern... tor­nou-se sim­ples­men­te um ou­tro ele­men­to da má­qui­na po­lí­ti­ca de Sta­lin.”

Co­mo re­sul­ta­do des­te epi­só­dio e seus co­ro­lá­rios, Si­lo­ne aca­bou sa­in­do do par­ti­do e se tor­nan­do um im­por­tan­te es­cri­tor. Al­guns de seus ro­man­ces fo­ram pu­bli­ca­dos em vá­rios paí­ses além da Itá­lia, in­clu­si­ve no Bra­sil. “Fon­ta­ma­ra” (1930), seu pri­mei­ro e mais fa­mo­so tí­tu­lo foi re­pu­bli­ca­do re­cen­te­men­te mais uma vez (em 2002 pe­la Ed. Ex­pres­são Po­pu­lar).

Ao con­trá­rio da bi­o­gra­fia de Ser­ge, a de Ro­bert Con­quest, a se jul­gar por su­as com­pa­nhi­as mais re­cen­tes, é, no mí­ni­mo, di­fa­man­te. Se­não, ve­ja­mos (ex­tra­í­do da Wiki­pé­dia): mem­bro do Par­ti­do Co­mu­nis­ta Bri­tâ­ni­co na ju­ven­tu­de (no qual in­gres­sou em 1937, jus­ta­men­te a épo­ca dos gran­des ex­pur­gos de Sta­lin), anos mais tar­de Con­quest vi­ria a se tor­nar “ad­mi­ra­dor e co­la­bo­ra­dor de Ro­nald Re­a­gan, Mar­ga­ret That­cher (sua ami­ga pes­so­al, pa­ra quem che­gou a pre­pa­rar dis­cur­sos) e, mais re­cen­te­men­te, de Con­do­le­e­za Ri­ce. O li­vro de Con­quest in­ti­tu­la­do ´Que Fa­zer Quan­do os Rus­sos Vi­e­rem. Um Ma­nu­al de So­bre­vi­vên­cia´ (1984)... foi con­si­de­ra­do uma pre­ci­o­sa pe­ça de pro­pa­gan­da em apoio da po­lí­ti­ca de re­ar­ma­men­to de Ro­nald Re­a­gan...” E, pa­ra co­ro­ar is­so que mais pa­re­ce uma fi­cha cor­ri­da, foi “... ga­lar­do­a­do com a ´Me­da­lha Pre­si­den­ci­al da Li­ber­da­de´ em No­vem­bro de 2005” por nin­guém me­nos que o ines­ce­dí­vel e ne­fan­do (além de o mais mal ava­li­a­do pre­si­den­te da his­tó­ria dos EUA, o que não é na­da pou­co) Ge­or­ge W. Bush.

Ao con­trá­rio da sua bi­o­gra­fia re­cen­te, no en­tan­to, o li­vro de Con­quest é uma im­per­dí­vel obra-pri­ma de his­tó­ria. De tão al­ta qua­li­da­de que nas su­as mais de qui­nhen­tas for­ni­das pá­gi­nas di­fi­cil­men­te se en­con­tra­rá al­gum ju­i­zo de va­lor que per­mi­ta acu­sar o au­tor de an­ti-co­mu­nis­mo (ape­sar de ter si­do acu­sa­do “... de co­lo­car a sua pro­du­ção aca­dê­mi­ca ao ser­vi­ço dos ob­jec­ti­vos da pro­pa­gan­da po­lí­ti­ca an­ti-co­mu­nis­ta” — ain­da se­gun­do a Wiki­pé­dia).

O que há ali, em al­tís­si­ma do­sa­gem, é uma mi­nu­ci­o­sa pes­qui­sa, um le­van­ta­men­to co­mo pou­cas ve­zes se te­rá vis­to na his­to­ri­o­gra­fia con­tem­po­râ­nea. Al­gu­ma coi­sa à al­tu­ra da gran­di­o­si­da­de dos cri­mes e das de­for­mi­da­des do re­gi­me sta­li­nis­ta — on­de o que em al­gum mo­men­to fo­ra po­lí­ti­ca no mais ge­nu­i­no sen­ti­do do ter­mo, po­lí­ti­ca pra­ti­ca­da por uma co­mu­ni­da­de de ho­mens mui­tís­si­mo bem pre­pa­ra­dos e per­fei­ta­men­te con­sci­en­tes dos seus mé­to­dos e ob­je­ti­vos, vi­ria a se tor­nar pu­ro ban­di­tis­mo (“a po­lí­ti­ca co­mo tal ha­via de­sa­pa­re­ci­do”, diz Con­quest), exe­cu­ta­da por uma qua­dri­lha de su­jei­tos mo­ral­men­te de­gra­da­dos en­cas­te­la­da num es­tu­pi­da­men­te po­de­ro­so apa­ra­to de Es­ta­do, con­sci­en­tes da bru­ta­li­da­de dos seus mé­to­dos e da na­tu­re­za das su­as men­ti­ras.

Acom­pa­nha­da de uma ex­ten­sa aná­li­se que ten­ta al­can­çar nas es­tru­tu­ras e nos mé­to­dos do par­ti­do bol­che­vi­que as raí­zes da de­for­ma­ção sta­li­nis­ta, mas não ape­nas ali, a pes­qui­sa de Con­quest é às ve­zes de ti­rar o fô­le­go. Se há pro­ble­mas nas aná­li­ses ou em as­pec­tos de­las, e cer­ta­men­te há, de for­ma ne­nhu­ma eles es­tão lá on­de se po­de­ria ve­ri­fi­car a de­pre­ci­a­ção do tra­ba­lho do his­to­ri­a­dor.

Mes­mo pa­ra quem tem um co­nhe­ci­men­to ra­zo­á­vel da his­tó­ria da re­vo­lu­ção rus­sa e da cons­tru­ção do re­gi­me sta­li­nis­ta “O Gran­de Ter­ror” tem mui­to pa­ra ali se abas­te­cer. Por­que, pa­ra além dos gran­des lan­ces e mo­vi­men­tos da po­lí­ti­ca na pri­mei­ra me­ta­de do sé­cu­lo, das idas e vin­das do mo­vi­men­to re­vo­lu­ci­o­ná­rio no de­cor­rer da­que­le pe­rí­o­do con­vul­si­o­na­do (pe­lo me­nos trin­ta mi­lhões de pes­so­as fo­ram as­sas­si­na­das na Eu­ro­pa de Go­e­the e Tols­tói num es­pa­ço de ape­nas vin­te anos das dé­ca­das de 30 e 40, nu­ma con­cen­tra­ção de ví­ti­mas tal­vez ja­mais vis­ta em qual­quer ou­tro mo­men­to da his­tó­ria hu­ma­na), das de­ci­sões equi­vo­ca­das e cri­mi­no­sas pro­mo­vi­das e apoi­a­das por Stá­lin (co­mo a in­sen­sa­ta po­lí­ti­ca zi­gue-za­gue­an­te da Co­min­tern pa­ra a Chi­na de Chi­ang Kai-shek que re­sul­tou no mas­sa­cre de apro­xi­ma­da­men­te vin­te mil co­mu­nis­tas e tra­ba­lha­do­res le­va­do a ca­bo pe­lo exér­ci­to na­ci­o­na­lis­ta, em Shan­gai, no dia 12 de abril de 1927, e mes­es de­pois em Wu­han e Can­tão — ma­gis­tral­men­te con­ta­do por An­dré Mal­raux no ro­man­ce “A Con­di­ção Hu­ma­na” —, ou a ata­ba­lho­a­da di­re­triz im­pos­ta ao par­ti­do co­mu­nis­ta ale­mão no pe­rí­o­do da as­cen­são dos na­zis­tas que, en­tre ou­tras coi­sas, pre­fe­riu en­fren­tar os so­ci­al-de­mo­cra­tas ale­mã­es cha­man­do-os de so­ci­al-fas­cis­tas ao in­vés de se ali­ar a eles con­tra o hit­le­ris­mo em as­cen­são... e que em se­gui­da tra­ta­ria de eli­mi­nar a am­bos — der­ro­ta dia a dia anun­ci­a­da e de­nun­ci­a­da por Trotsky em “Re­vo­lu­ção e Con­tra-Re­vo­lu­ção na Ale­ma­nha”), pa­ra além da tra­gé­dia que con­su­miu e en­ter­rou uma ge­ra­ção in­tei­ra de ho­mens e mu­lhe­res ab­ne­ga­dos à cons­tru­ção de uma so­ci­e­da­de me­nos iní­qua, lá es­tá, no tex­to de Con­quest, os me­no­res de­ta­lhes, os sus­sur­ros e os gri­tos des­sa imen­sa tra­gé­dia emer­gin­do da gar­gan­ta dos seus mais hu­mil­des (e ino­cen­tes) per­so­na­gens ou es­tam­pa­da na ló­gi­ca ab­sur­da dos que des­de o cen­tro do po­der ca­pi­tu­la­ram à de­mên­cia sta­li­nis­ta em no­me da ra­ci­o­na­li­da­de, do ho­mem do fu­tu­ro, da lu­ta con­tra o ini­mi­go de clas­se e do es­cam­bau (e na des­cri­ção cui­da­do­sa des­sa ló­gi­ca ab­sur­da “O Ze­ro e o In­fi­ni­to” de Ko­est­ler é in­su­pe­rá­vel).

Va­le lem­brar que no fi­nal dos anos ses­sen­ta quan­do o li­vro foi pu­bli­ca­do a Uni­ão So­vi­é­ti­ca ain­da es­ta­va de pé e, com ela, mui­tos da­que­les que ten­do par­ti­ci­pa­do ati­va­men­te do gran­de ter­ror, após a mor­te do che­fe (em mar­ço de 1953) tra­ta­ram de de­nun­ci­ar os cri­mes do pas­sa­do (no ho­je fa­mo­so “Dis­cur­so Se­cre­to” de Niki­ta Krus­chev) pa­ra mo­di­fi­car ape­nas su­per­fi­cal­men­te o re­gi­me e man­ter o po­der. Krus­chev e ca­ma­ri­lha fo­ram co­la­bo­ra­do­res di­re­tos e par­tí­ci­pes ati­vos das atro­ci­da­des con­tra as qua­is pas­sa­ram a bra­dar. As­sim, na aná­li­se po­lí­ti­ca de Con­quest: “... a es­sên­cia do sta­li­nis­mo re­si­de me­nos nos par­ti­cu­la­res pe­rí­o­dos de ter­ro­ris­mo ou de­ter­mi­na­dos pon­tos de vis­ta so­bre a or­ga­ni­za­ção in­dus­tri­al do que no es­ta­be­le­ci­men­to de uma má­qui­na po­lí­ti­ca. E es­ta per­ma­ne­ce sub­stan­ci­al­men­te a mes­ma”, ge­ri­da pra­ti­ca­men­te pe­los mes­mos ho­mens, tan­to na URSS quan­to nos PCs do mun­do to­do, en­quan­to du­ra­ram.

Pe­lo me­nos pa­ra aque­les que acre­di­ta­vam (ou acre­di­tam) que o ca­pi­ta­lis­mo pu­des­se ser su­pe­ra­do (no sen­ti­do mar­xis­ta do ter­mo) é nes­ta he­ran­ça que se en­con­tra ao me­nos par­te da mal­di­ção: mes­mo após a mor­te de Stá­lin e as de­nún­cias de Krus­chev nun­ca hou­ve uma ver­da­dei­ra rup­tu­ra pe­lo me­nos por uma gran­de par­te da es­quer­da com os prin­cí­pios e as ve­lhas prá­ti­cas sta­li­nis­tas... até o mo­men­to em que o re­gi­me e a so­ci­e­da­de ori­gi­na­da da re­vo­lu­ção de 1917 sim­ples­men­te vi­e­ram abai­xo. E, aí, já não ha­via mais o que ser re­cu­pe­ra­do. No seu lu­gar, emer­gia um Es­ta­do ge­ri­do por ex-po­li­ci­ais e ex-es­pi­ões (nem tão “ex” as­sim) e um ca­pi­ta­lis­mo cu­jos prin­ci­pa­is nú­cle­os de acu­mu­la­ção es­ta­vam nas mãos de ex-ma­fio­sos (nem tão “ex” as­sim).
 

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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:57 PM

Os Nazistas estão de volta

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Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana 

No dia 20 de julho de 1944 uma tentativa de matar Hitler é levada a cabo numa conspiração de oficiais do exército alemão – assunto de que trata a mais recente produção cinematográfica do astro Tom Cruise, “Operação Valquíria”. Suponhamos que naquele momento a Wehrmacht estivesse em ofensiva vitoriosa contra as forças aliadas. Apenas suponhamos, porque, como é sabido,  não era o que estava acontecendo.

Primeira cronologia

Uma rápida cronologia de fatos militares e políticos mostra que: em junho de 1944, os Aliados haviam desembarcado na costa da Normandia; seis meses antes, em dezembro de 1943, Roosevelt, Churchill e Stalin já acordavam sobre a divisão da Alemanha no pós-guerra; no ano anterior (pouco mais de dois meses após o desembarque Aliado na Sicília) Mussolini fora apeado do poder na Itália. O ano de 1943 se iniciara, na verdade, com claros sinais dos rumos desfavoráveis que a guerra havia tomado para os alemães: em meados de janeiro, americanos e ingleses já se imaginam capazes de exigirem a rendição incondicional da Alemanha e o fazem (Conferência de Casablanca). Dias depois, o Sexto Exército alemão (duzentos e cinqüenta mil soldados) capitula em Stalingrado.

Recuando ainda mais no tempo, os prenúncios da derrota militar já são visíveis nas crises no interior do corpo militar alemão e, em setembro de 1942, após discordâncias graves com o Estado Maior do Exército, Hitler se vê obrigado a destituir seu Chefe, Franz Halder, substituindo-o pelo general Kurt Zeitzler. Em meados de 1941, portanto três anos antes da fatídica data que inicia este artigo, com o fracasso da blitzkrieg alemã no Leste, a unidade do exército hitlerista já não era a mesma de quando invadiu a Techcoslováquia e meses depois a vizinha Polônia, dando início à expansão “manu militari” do domínio alemão da Europa e à II Grande Guerra.

Portanto, a questão inicial é: se ao invés da profunda crise relatada acima estivesse a Wehrmacht em ofensiva e somando conquistas haveria entre os seus descontentamento suficiente para produzir o atentado daquela data contra a vida do líder nazista? DUVI-DÊ-Ó-DÓ!

Ou, parafraseando Tadeusz Borowski (citado por Imre Kertész), que perguntava “o que o mundo vai saber de nós (os judeus) se os alemães vencerem?”: o que a Wehrmacht estaria pensando de Hitler se sua estratégia expansionista estivesse apresentando resultados positivos?

Segunda cronologia

Na eleição presidencial de 13 de março de 1932, Hitler obtém 30,1% dos votos dos seus concidadãos. Em finais de julho, os Nacional-Socialistas conseguem o apoio de 37,3% dos eleitores e, com duzentas e trinta cadeiras, se torna o maior partido do Reichstag. Seis meses depois Hitler é nomeado Chanceler do Reich.

Mais alguns dias e suspende os direitos civis, promove “prisões em massa de comunistas e outros oposicionistas de esquerda”. Em março os Nazistas aumentam sua votação, comemoram o seu crescimento no Reichstag para duzentas e oitenta e oito cadeiras – e Himmler anuncia a criação do primeiro campo de concentração (não se trata ainda de campo de extermínio), em Dachau. O início do mês seguinte é coroado pelo “boicote nacional às lojas judaicas”. Em maio, os sindicatos são compulsoriamente dissolvidos, os livros de autores “não-alemães” são queimados nas ruas e nos pátios das universidades, o Partido Social-Democrata (SPD) é banido, o Partido Comunista já o fora sem nenhuma formalidade,  e nas próximas semanas os demais partidos são dissolvidos. Em 14 de julho de 1933, uma lei proíbe a formação de outros partidos além do Nacional-Socialista e “estabelece o Estado unipartidário” – na eleição que se segue (12 de novembro) os nazistas conquistam 92,2% dos votos dos alemães.

Está implantada a ditadura nazista – ditaduras são aqueles regimes que rasgam as Constituições em vigor e, amparados na força das armas (nas forças armadas do país e, como na Alemanha dos anos trinta, em outros agrupamentos armados), passam a exercer o poder de acordo com as determinações de um indivíduo e seus asseclas, na qual se encontram, evidentemente, seus camaradas de armas.

O Estado nazista, portanto, é resultado da livre escolha do povo alemão, manifesta por meio das tradicionais eleições democráticas onde, de nenhuma maneira, os nazistas escamotearam suas intenções e métodos, que logo em seguida se transforma numa ditadura com significativo apoio popular, não apenas da indústria e dos grandes proprietários rurais, e decidido amparo nas FFAA – sem o qual, evidentemente, não poderia fazê-lo.  Esses militares, na verdade, estão prenhes de orgulho nacional pelo reerguimento  da máquina de guerra da velha Prússia.

Portanto, apesar de eventuais e convenientes sugestões em contrário, o nazismo não é uma aberração. Seu vínculo com as FFAA, assim como o suporte que ali encontra, é expressão de uma relação aguda com a realidade alemã. Seus tentáculos estão bem fincados no corpo social e é dali que extrai a seiva da qual se alimenta.

Seja como for, desde a chegada ao poder uma longa década cheia de acontecimentos notáveis ainda está por vir antes que um grupo de bravos oficiais prussianos resolvam liquidar o repugnante ditador.

A data do estabelecimento do primeiro campo de concentração está fixada nos anais em 20 de março de 1933 – espécie de ato de abertura da ditadura nazista. A partir dali estava institucionalizada a perseguição (a caça) a todos aqueles que à esquerda se opunham ao regime hitlerista e, logo adiante, aos judeus, ciganos, etc. Ainda serão necessários mais cinco anos antes que uma desarmonia surja no seio das forças armadas. E, apesar das inúmeras atrocidades que vinham sendo cometidas – prisões em massa, tortura, espancamento, assassinato “de incontáveis oponentes políticos”, queima de livros, criação de campos de concentração, liquidação na prática do sistema legal do Estado com a submissão radical do corpo judiciário à vontade do ditador e “às exigências do poder executivo policial”, etc, etc –  não serão elas a causa da cizânia. Na realidade, em 18 de agosto de 1938, o Chefe do Estado-Maior, Ludwig Beck (interpretado no filme de Cruise por Terence Stamp), “apresenta sua demissão, em virtude da intenção de Hitler” invadir a Tchecoslováquia (o que acaba fazendo, em março do ano seguinte).

A Wehrmacht

É claro que desde o princípio Hitler dedicará especial atenção aos militares, tentando cativá-los. Assim, logo após sua consagração como chanceler inicia uma agressiva ofensiva em direção às instituições republicanas, mas o exército, este, ele manterá intacto. Nenhum “expurgo, nenhum assalto, nenhuma interferência” é tentado ali. Pelo contrário, desde antes da chegada ao poder, o contato com os militares é aprofundado em cima do “compromisso com o rearmamento maciço..., (e o) esmagamento da esquerda”.

Por outra parte, como diz Ian Kershaw em seu estudo sobre o ditador, “não é de surpreender... que, quando a liderança militar começou a se preocupar com a possível subordinação do exército a uma futura milícia dominante, formada pela SA (que contava com 2,5 milhões de homens no começo de 1934), Hitler tenha-se mostrado disposto, em julho de 1934, a agir com extrema desumanidade contra parte de seu próprio Movimento”.

Submetida (brutalmente – e esta é uma característica do regime desde as primeiras horas, aliás, jamais escamoteada) a SA, praticamente todas as rusgas entre o chefe nazista e o oficialato alemão estarão resumidas a desentendimentos técnicos (referentes a táticas e estratégias militares), nunca a questões de princípio. Inclusive quando, iniciada a campanha contra a Rússia stalinista, compromete diretamente todo o corpo do exército na participação em assassinatos e execuções que nada têm a ver com as operações militares, o que encontra de resistência é inteiramente residual.

Portanto, é inteiramente falsa a perspectiva apresentada pelo filme de Tom Cruise. Nada há de heróico na tentativa de assassinar Hitler levada a cabo pelo coronel von Stauffenberg e seus camaradas, senão que o mais puro oportunismo típico daqueles que escolhem o lado de acordo apenas com  as boas chances da vitória.

Nota

Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana. E desse ataque aqueles militares foram protagonistas e amparo.

Abominações do homem comum (ou: a propósito de “O Leitor”)

Considerar monstros àqueles seres abomináveis envolvidos nas operações nazistas, sujeitos que como nós foram deixando para trás a própria humanidade, como uma serpente trocando de pele (em brutais processos de alienação fartamente recompensados do ponto de vista material ou por ridículas prendas no campo do imaginário), e tratá-los como se fossem aberrações, considerando-os alheios à espécie, é uma trapalhada já exaustivamente comentada e condenada.

De outra natureza é a operação de transformá-los em inocentes homens (e mulheres) comuns, semelhantes a cada um de nós, seres falíveis, não imunes a graves deslizes de comportamento. Isso implica no reconhecimento de que ali estava o mal e a perversidade e que, portanto, essas marcas estão inscritas também nas nossas próprias feições – claro que não as enxergamos quando nos olhamos pela manhã no reservado espelho dos nossos banheiros. 

A face que ali está estampada é, rotineiramente, a mais imaculada das faces humanas: a nossa. Qualquer mácula que nela vislumbremos vai nos provocar uma imediata onda de auto-compaixão. E, então, no movimento reverso, quando olharmos para aquele sujeito que tendo encarnado o mal numa determinada circunstância se parece tanto conosco, trataremos de nos compadecermos dele (como se sabe, somos extremamente ágeis quando se trata de nos desculparmos, sobretudo quanto às nossas covardias morais). Tenderemos, portanto, a justificar os mais desprezíveis dos seus gestos e a perdoá-los (porque, ademais, padecemos todos dessa lastimável psique judaico-cristã marcada pela autocomiseração). Mas esta não será uma trapalhada tão ou mais nefasta que aquela de considerá-lo uma aberração?

Quando, na verdade,  aquele abominável homem comum, e da mesma forma cada um de nós todas as vezes em que formos capazes de ser como ele, não merece nenhuma compaixão. É preciso derrotá-lo. E é, sobretudo preciso, muito mais que encarcerar, matar e, só então, soterrar este ser abominável que habita nossa alma. Provavelmente, a condescendência que em nós permite sua sobrevivência seja mesmo parte dessa praga psíquica que se apresenta sob a forma da covardia moral. Talvez seja exatamente aqui onde esteja inserida a permanente atualidade do foco sobre a Alemanha Nazista.  Talvez por isso o nazismo não possa nunca parar de ser lembrado e espicaçado e hostilizado. Porque não se trata de uma aberração, nem muito menos de um regime excepcional definitivamente varrido para fora da história e, embora como poder de Estado tenha se constituído apenas naquele momento e naquele território, na verdade tinha (e tem) bases psíquicas presentes e prontas para se manifestarem em tudo quanto é canto do mundo capitalista desenvolvido, a qualquer momento.

É muito pouco nos contentarmos quando aquele ser desprezível é levado aos tribunais e submetido aos eventuais rigores da lei (do sistema legal em vigor num determinado lugar e numa determinada época). E, no entanto, tem sido suficiente isso para que nos sintamos apaziguados. Assim, podemos continuar livres para, eventualmente, aceitar/digerir o inominável, desde que imputável. Mas, ao inominável não deveria caber apenas penas ou pelo menos não outra pena que não a da extinção.

(Mesmo as sentenças capitais, morte por enforcamento, quando executadas, o que faziam era dar àqueles crimes o estatuto de um crime de morte como todos os outros crimes de morte, previsto nos mais diversos códigos penais, quando aqueles crimes nada tinham de ordinário. Assim, os juízes de Nuremberg, limitados pelos sistemas jurídicos sob os quais operavam, se viram obrigados a forjar a sui generis denominação “crimes contra a humanidade”, sem que, no entanto, ousassem criar um apenamento correspondente àquele status. Que pena, afinal, poderia ser essa?)

Curiosamente, em “O Leitor”, Hanna, a mulher da classe trabalhadora que ao invés de se empregar na Siemens é recrutada para a polícia política do nazismo (a SS), é quem carrega ao menos sobrevivências do ser moral que deveríamos todos abrigar e que, por isso mesmo, durante o seu julgamento não tenta evadir da culpabilidade pelos crimes cometidos e dos quais participou, como outros, mais ou menos diretamente – de natureza inteiramente diversa é a assunção de responsabilidade (ou culpa) de Albert Speer, o aristocrático arquiteto de Hitler, durante os julgamentos de Nuremberg, pois, ali do que se tratava era de uma planejada e racionalíssima estratégia para escapar da forca (a par de assumir uma responsabilidade geral pelos crimes cometidos negar qualquer envolvimento direto, e mesmo qualquer conhecimento (sic!) do que se passava nos campos).

PS: Duas dúvidas de mal-assombro sobre a crise atual

Do ponto de vista econômico: até onde vai a capacidade dos Estados cobrirem o rombo do sistema financeiro? Quanto tempo até que explodam crises sociais avassaladoras? (Manchete do El Pais em 6/02/09: “Taxa de Desemprego na UE Dispara para 8,1%, a maior em 25 anos – Mais de 650 mil pessoas perderam seu trabalho em fevereiro, o pior dado mensal desde 1949” – as manchetes ao redor do mundo repetem dia após dia dados semelhantes.)

Do ponto de vista político: até quando os consumidores (as massas) vão ter acesso às dosagens crescentes da droga (o consumo de mercadorias) que os mantém apaziguados? Quanto tempo restará antes da fúria? – porque ela, evidentemente, está ao nosso redor e por todos os lados, é só nêgo não poder mais comprar e ela virá à superfície.

Se não existem (ainda) as condições políticas, já estão em campo, no entanto, os grupos, partidos, associações e lideranças carismáticas de extrema direita dispostas a ocupar o palco tão logo aquelas condições se apresentem (se se apresentarem, é claro). Pelo lado contrário, na longa ressaca da queda do muro e da derrocada retumbante das ditaduras burocráticas stalinistas, na esquerda impera a mais completa dispersão e/ou desencanto. Não há no horizonte uma única centelha de imaginação política que aponte de qualquer modo para a superação do capitalismo – coisa que, evidentemente, àquelas organizações da direita não interessa de nenhuma maneira. O que restaria, então?
 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:50 PM

O Falcão Maltês e os especuladores de Wall Street

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Ganância. Esta a palavrinha mágica. Não há contestação para isso. Ela liquida as outras palavras, torna prescindíveis os eventuais sentidos antagônicos ou correlatos dos argumentos, sentenças, falas. É o "material de que são construídos os sonhos" nas palavras finais do detetive Spade, ou "a base sobre a qual se ergueu a América", na expressão do especulador Gekko


— Que temos agora, Nick?

— Coisas, mentiras, enigmas, a mistificação de sempre.

— Estou farto. Vamos fazer as malas, Nora.

(Nick Charles, para sua mulher Nora, em "The Thin Man")


Meio século separa a realização de "O Falcão Maltês" de John Huston e "Wall Street" de Oliver Stone.

Aparentemente, nada a ver entre um e outro. "O Falcão Maltês" deriva do clássico de Dashiell Hammet e mostra a investigação na qual o detetive Sam Spade (Humphrey Bogart) se mete para encontrar a secular estatueta de um pássaro cravejada de pedras preciosas. Ao redor da misteriosa ave uma teia de mentiras e trapaças, crimes, roubos e um pequeno grupo de personagens dispostos a tudo para lhe pôr as mãos. Na caçada ao fetiche do animal ninguém confia em ninguém e todo mundo trapaceia todo mundo. Matam, delatam, mentem e sacaneiam o quanto podem. No outro filme também, e se não há assassinatos é só por uma questão de circunstâncias.

Mas, ao contrário do clima sombrio do primeiro, o cenário agora é montado nos reluzentes edifícios de Wall Street. Sob a luz do dia e dos flashes das colunas sociais em restaurantes milionários é que se desenrola a ascensão meteórica de Bud Fox (Charlie Sheen), um vendedor (na definição do pai, o líder sindical interpretado por Martin Sheen), e seu mestre Gordon Gekko (Michael Douglas) no universo yuppie e dos realmente ricos, daqueles que, segundo Gekko, não criam absolutamente nada, especulam com compras e vendas no mundo do puro consumo (pura circulação).

Passados mais de cem anos desde Proust, a hegemonia dessa gente sobre o espírito humano cresceu tanto quanto suas fortunas e a dissimulação se torna praticamente desnecessária, até porque o espírito vazio e esbanjador desses párias reluzentes tornou-se legítimo (encantatório) pela via da sedução. Após afirmar que o que existe é o mundo da forma mercadoria à qual tudo se submete e amolda, universo ao qual está permitido o acesso de todos quantos possam, essa gentalha está ansiosa para se exibir a valer. O comportamento ascético e laborioso presente no espírito do protestantismo, tão importante para a acumulação inicial do capitalismo, está definitivamente enterrado e a única moralidade que acompanha o sistema é, de uma vez por todas, a do dinheiro que se autolegitima.

Mas voltemos aos filmes, que em ambos o objeto é a cobiça e a ganância em estado quimicamente puro e é delas "o material de que são construídos os sonhos", nas palavras finais do detetive Spade, ou "a base sobre a qual se ergueu a América", na expressão do especulador Gekko.

No primeiro, entretanto, aquela definição é o arremate, no segundo vai-se ainda pela metade e há tempo, portanto, para que o pecado seja redimido. E ele o será, seja pelo arrependimento bom-mocista de Bud Fox, seja pela presença vigilante e justa do Estado. É precisamente para evitar o transbordamento eventual dos pecadilhos da acumulação, fundamentalmente justa, legítima e, afinal, controlável, que o Estado existe. Não é?

A essência do processo definida pelo próprio Gekko, a ganância pura e simples que se autojustifica e que por si só explicaria a construção da América, no final da história é camuflada mais uma vez, após se revelar, atrás dessa outra típica instituição americana: o bom-mocismo. É o triunfo do investimento produtivo e puritano. A Blue Star pode seguir em paz, os negócios voltados para a preservação dos empregos da honrosa e laboriosa classe trabalhadora, o lucro aplaudido e partilhado pelos sindicatos, e a próspera família proletária pode dar continuidade à sua labuta honesta e eternamente promissora na peleja cotidiana. São esses os alicerces da América. Para Oliver Stone.

Da mesma América que tem como matéria onírica o metal sombrio do falcão maltês.

Seria possível argumentar que também Sam Spade faz justiça e manda para a cadeia os caçadores do falcão. A diferença é que o faz movido por aquilo que o afeta diretamente, ameaça sua pele, os laços que mantém com o mundo e que ele controla, ameaça enfim seu mais precioso tesouro: a capacidade de continuar no mundo pela ação das próprias mãos. Ele os manda para a cadeia porque seu parceiro de trabalho foi assassinado, não por qualquer noção abstrata e impessoal de justiça. Mesmo assim, não o faz movido por algum sentimento de vingança ou algum outro laço sentimental. Spade diz que "... não faz a menor diferença o que se pensa dele (do parceiro)...", o problema é que "... quando alguém da nossa organização é morto, é um mau negócio deixar o assassino escapar". É uma simples questão dos negócios da sobrevivência imediata. Nenhum intermédio. Ele manda os criminosos para a Justiça porque liquidar o colega significa ameaçar a continuidade do seu ofício, sem o qual não tem como viver. A defesa da sua vida não é tarefa que Spade possa delegar a outro. A lei, os representantes dela, ele ri e zomba deles e se o parceiro não tivesse sido morto pelos que estão no encalço do falcão ele muito provavelmente os deixaria livres com a matéria de seus sonhos.

Spade está também assustado e desencantado. Por isso fica à espreita, alerta, porque se sente ameaçado e sabe que tem apenas a si para salvar a pele. Vive, portanto, como um animal caçado, sob um estado permanente de pânico controlado — que é como devem viver os homens na cidade capitalista. A Justiça é não mais que uma sombra difusa e certamente não está ali para proteger a pele de um sujeito que vive do próprio trabalho e mais nada.

Mas, claro, Hammet-Spade, "O Falcão Maltês", são coisas do passado. A América sabe se redimir para o bem da saúde das Blue Star da vida e dos bons costumes americanos, entre os quais está a ganância depurada de eventuais deslizes, controlada pelo aparelho do Estado. De mais a mais, alguns filmes existem, como a Blue Star, os sindicatos e os bons-moços para a preservação da matéria de que é feito o sonho americano — e o dos subordinados.

P.S. — Há uma cena na qual Gekko participa de uma assembléia de acionistas. Como cotista-mor, o rentier toma a palavra para defender o cerne de sua ideologia. Novamente, a ganância. Entretanto, não é agora ela o que interessa aqui, e sim um pequeno mecanismo que, embutido no discurso, é o estribilho favorito dos cânticos hegemônicos.

À arenga de Gordon Gekko, pois: "A ganância é boa, a ganância faz parte da vida", blablablá, diz, antes de arrematar com o que realmente importa, que "a ganância WORKS." É o fecho axiomático: ela funciona. Esta a palavrinha mágica. Não há contestação para isso. Ela liquida as outras palavras, torna prescindíveis os eventuais sentidos antagônicos ou correlatos dos argumentos, sentenças, falas todas. É o ponto após o qual as contradições e as nuanças e os sentidos das coisas humanas são inócuos.

Funciona (works)!

O que mais se pode querer dizer?

Se funciona é bom. O que vence é bom, o que perde é mau. O bem funciona, o mal não. O capitalismo é bom e representa o bem, já que venceu e venceu porque funciona e funciona porque é bom. A história, por exemplo, não teria outra função que não dar tempo para o que funciona funcione e funcionando vença, porque o que vence, vence porque é bom e bem e o que perde, perde porque é ruim, mal e mau e não funciona. Esta a cantilena que, evidentemente, ignora a história todas as vezes que ela revela o quantum imensurável de destruição, predação e morte — de esvaziamento, inutilidade, perda, esperdício — foi produzido pelo que funciona.


HALLEY MARGON V. JR
é arquiteto e escritor


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