revista bula
POR EM 03/08/2011 ÀS 01:48 PM

Salinger odiaria

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Salinger: Uma VidaJerome David Salinger odiaria a biografia escrita por Kenneth Slawenski. Em primeiro lugar, ela representa o culto ao escritor, algo de que Salinger sempre foi esquivo. Até aí, “tudo bem”. Nem se fosse escrita por Seymour Glass, ele ficaria satisfeito. Em segundo lugar, “Salinger: Uma Vida” representa uma tentativa maníaca de entender a ficção de Salinger sob a ótica autobiográfica. O resultado é que todo texto salingeriano existe para ser analisado sob a luz da existência do escritor.

 Esta opção altamente discutível do biógrafo compromete a apreciação da obra do escritor, resvalando muitas vezes na idolatria do fã. Não à toa, Slawenski é o criador do site Dead Caulfields. Parece que estamos lendo um blog dedicado a J. D. Salinger, o grande herói de Kenneth Slawenski.

 A questão então é ver o que Slawenski tem a nos oferecer. Como nenhuma de suas análises prima por algum insight maravilhoso, somos condenados a análises e mais análises biográficas de sua obra. A jovem Oona O'Neill trocou Salinger por Charles Chaplin? Lá está o intrépido Slawenski descobrindo como isto se reflete na ficção de Salinger: Chaplin é desprezado pelo personagem principal de um conto do qual ninguém mais tem lembrança. E assim durante as cerca de 380 páginas da biografia, que não conta com índice onomástico.  Tudo isto tem lá seu interesse, mas antes de contribuir para o conhecimento da obra de Salinger, termina por amesquinhá-la. Este problema está enraizado no fetiche pela realidade, tão afeito ao gosto contemporâneo. A ascensão das vendas de biografias e de filmes “baseados em fatos reais” comprova o fato.


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POR EM 09/04/2011 ÀS 01:26 PM

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee

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J. M. Coetzee Primeira coletânea do Nobel sul-africano J. M. Coetzee publicada no Brasil, “Mecanismos Internos: Ensaios sobre Literatura (2000-2005)” é um conjunto irregular. São 21 ensaios, a maioria deles escritos originalmente para a “New York Review of Books”. Muitas vezes a preocupação jornalística causa cansaço, com textos que funcionariam melhor como introdução a alguns autores.

Em quase um terço dos ensaios, Coetzee discute a questão da tradução, avaliando se ela faz jus ao original, onde melhora e onde piora o texto. Fluente em inglês, alemão e holandês, ele fala com autoridade sobre o assunto. Neste sentido, o ensaio sobre Paul Celan é exemplar. Algumas passagens da tradução em português soam estranhamente floreadas, além da ocorrência de um “boquiabrir-se”, inimaginável em seus textos ficcionais.

A apuração é minuciosa. Talvez fruto da atividade acadêmica, Coetzee domina o autor e a bibliografia sobre o qual discute — como no primoroso ensaio sobre Walter Benjamin —, apresentando-se sempre seguro, com paciência até para discussões sobre gêneros. Ele toma o cuidado de relacionar não apenas as obras dentro da carreira do escritor, mas compará-las com as de outros, ampliando os conhecimentos do leitor.


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POR EM 05/09/2010 ÀS 05:15 PM

Anotações sobre ‘2666’

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Roberto Bolaño Se me pedissem um resumo de “2666”, com suas 852 páginas, eu responderia citando Carlos Fate: “2666” é sobre “a variedade interminável de formas com que destroçamos a nós mesmos”. Ou ainda: “Um retrato do mundo industrial do Terceiro Mundo, um ‘aide-mémoire’ da situação atual do México, uma panorâmica da fronteira, uma narrativa policial de primeira magnitude, porra”. É um resumo bastante incompleto, por isso aponto abaixo alguns aspectos do livro de Roberto Bolaño — acredite no hype! — que se relacionam às falas de Fate.

Das cinco partes de que é composto, “2666” vale por três. A primeira, cerca de 160 páginas alucinantes sobre quatro acadêmicos que estudam Benno von Archimboldi, a figura-chave do romance monumental. A quarta, sobre a centena de assassinatos das mulheres em Santa Teresa, versão fictícia de Ciudad Juarez — em que pese algumas partes chatas e dispersas. E finalmente a quinta parte, que amarra algumas, não todas, pontas do livro.

Bolaño tem um poder narrativo excepcional e uma capacidade espantosa para a criação de personagens. De certo modo, é como se ele dispusesse de um orçamento infinito para ter à sua disposição os melhores atores da história do cinema, sendo que a maioria deles faz apenas pequenas participações. O autor de “2666” põe em cena uma ampla galeria de personagens para abandoná-los depois sem necessidade de explicá-los ou retomá-los. É mais ou menos como se Greta Garbo fosse contratada apenas para aparecer tomando um drinque como figurante enquanto Johnny Deep diz uma fala enigmática e desaparece para sempre. De um parágrafo para outro, o foco da narrativa muda, sem garantias de que voltará ao ponto de onde foi cortado de modo brusco.


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POR EM 23/08/2010 ÀS 09:42 AM

Impressões da FLIP

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Ferreira Gullar— Fui para a minha primeira Feira Literária Internacional de Paraty este ano. A Flip chegou à sua oitava edição já meio esvaziada, com poucos nomes que causassem comoção e histeria do público, além de repetir alguns convidados, como Salman Rushdie e Ferreira Gullar. O poeta maranhense parece o tapa-buracos da festa: esta foi sua terceira Flip.

— Fiquei com uma visão esquisita da Flip. É incrível que o Brasil tenha conseguido organizar um evento no qual escritores renomados venham para uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro para ficar quatro dias conversando sobre literatura. Porém, fica a dúvida: qual é o papel do escritor na sociedade do espetáculo?

— Foi Salman Rushdie quem se aproximou desta reflexão, ao afirmar que preferia não explicar seu novo livro, que gostaria que o leitor chegasse de forma pura ao livro, sem saber nada da história nem do autor. Estamos longe de um J. D. Salinger, que raramente se deixou fotografar. Imaginá-lo na Flip é um delírio - até porque ele está morto. Dalton Trevisan, para ficarmos em um exemplo caseiro, dificilmente seria seduzido a participar de um evento como esse.


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POR EM 25/07/2010 ÀS 10:07 AM

Ciclo de Albany: a verve e o entusiasmo de William Kennedy

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William KennedyCapital do estado de Nova Iorque, com cerca de cem mil habitantes, a pequena Albany é também o cenário principal de uma série de livros escritos por William Kennedy. O autor de “Ironweed”, prêmio Pulitzer de literatura em 1984, vem ao Brasil em agosto para participar da Feira Literária Internacional de Paraty.
           
Como jornalista, Kennedy fez importantes trabalhos investigativos em sua cidade, principalmente na cobertura política. O trabalho na imprensa o levou a Porto Rico, onde se tornou amigo de Saul Bellow, um dos maiores romancistas norte-americanos — embora tenha nascido no Canadá — do século XX, prêmio Nobel em 1976. Bellow ajudou Kennedy a “ir direto ao ponto”, cortando os excessos e dando confiança ao autor do Ciclo de Albany.
           
A série de romances, sete até o momento, conta a história da família Phelan, imigrantes irlandeses, na cidadezinha de Nova Iorque. Segundo Kennedy, as inspirações para o famoso Ciclo são variadas, passando pela família Glass de J. D. Salinger, pelas histórias de Faulkner e James Joyce, além da Comédia Humana de Balzac, em que os personagens transitam por diferentes romances.
           
A editora Cosac & Naify se encarrega de lançar as obras de William Kennedy no país. O livro mais recente a aportar por aqui é “O Grande Jogo de Billy Phelan”, cuja trama se relaciona com a máquina política de Albany nos anos 30. Os leitores também podem encontrar edições da Companhia das Letras, como “Ossos Antigos” (Very Old Bones, que vem sendo chamado nos jornais de Velhos Esqueletos) e “O Livro de Daniel Quinn”.


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POR EM 22/03/2010 ÀS 03:41 PM

Tanto Faz: um clássico dos anos 80

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Reinaldo MoraesUm exercício de liberdade, na forma e no conteúdo. Assim pode ser definido o romance “Tanto Faz”, de Reinaldo Moraes, lançado em 1981 pela mítica coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense.

O economista Ricardo de Mello consegue uma passagem para Paris, e mais importante — uma bolsa. Vem daí a plena liberdade do protagonista de “Tanto Faz”: ele escolhe avacalhar com a pesquisa para a qual está sendo pago e torrar tudo numa pretensa vida de dandy na capital francesa.

Ricardo não está à procura de nada no país estrangeiro: não é seu passado que ele deseja restaurar, não acredita piamente que a Cidade Luz lhe despertará a veia artística, não crê que possa se encontrar por lá. Nada disso. Está ali apenas para curtir.

Embora a ação ocorra na década de 70, o romance não aborda a conturbada época de tensão política e social senão de raspão, preferindo se dedicar ao desbunde. Ricardo faz um balanço bem realista de sua posição sobre os conflitos de 68: “a gente ficou de fora da briga. A nossa adesão à esquerda era só teórica e emocional; picas de práxis”. Até mesmo a idéia mítica de um Rio de Janeiro dourado da bossa nova, dos mineiros ensinando aos nativos o que era ser carioca, do cinema novo — tudo isso é desmentido por uma personagem: “Esse nem eu conheço. O Rio que a classe média vive agora é o Rio dos assaltos e das longas filas nos postos de gasolina”.


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POR EM 11/02/2010 ÀS 01:51 PM

Salinger: tolerância e compaixão pelo outro

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 J.D. SalingerAlguém dirá: mas fazia mais de quatro décadas que ele não publicava nada. E daí? É todo um pedaço da nossa adolescência que morreu na quinta-feira, dia 28 de janeiro de 2010. Parafraseando Hemingway sobre Ezra Pound, qualquer pessoa que desconheça Salinger merece mais a nossa piedade do que a nossa reprovação. Se você já passou um tempo com Holden ou alguém da família Glass, sabe do que estou falando.

J. D. Salinger escrevia na língua dos jovens, sobre o mundo que eles conheciam. Ali estava alguém falando de igual para igual sobre aquela época terrível e fascinante conhecida como adolescência — uma geração que crescia no pós-guerra, concomitante à explosão do rock, da beat generation (criticada por Buddy Glass em “Seymour, Uma Introdução”, de 1957), da revolução dos costumes.

“O Apanhador no Campo de Centeio” é o retrato definitivo do jovem de classe média sensível e sem direção. Um embate entre a inocência e o mundo adulto (corrompido, falso, deprimente), entre o indivíduo e a sociedade, entre a ilusão e a realidade. Holden Caulfield tenta consertar isso, mas vê que é incapaz de um projeto tão grande. O fascínio pelos museus se justifica: ali, tudo pode ser conservado, catalogado e fixado. Vem daí a grande angústia de Holden: a adolescência é a época em que tudo muda, nada permanece. Quem vai mudar, então, é ele, não a sociedade. Crescer, amadurecer — Holden paga um preço muito grande por isso.


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POR EM 08/01/2010 ÀS 09:55 AM

Amuleto, de Roberto Bolaño

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Amuleto, de Roberto Bolaño Não é de espantar que o Brasil tenha descoberto Roberto Bolaño com quase dez anos de atraso em relação ao resto do mundo. Espantoso é que tenha descoberto.

Ao menos dessa vez, o mercado editorial tupiniquim acompanhou o prestígio crescente do escritor chileno — especialmente o entusiasmo europeu e norte-americano —, providenciando traduções de quase todas suas obras disponíveis. O trabalho, muito bem feito, está todo a cargo de Eduardo Brandão, que tem se revelado competente na tarefa. Lançado recentemente no país, “Amuleto” é um desdobramento de uma história presente em “Os Detetives Selvagens”, prêmio Rômulo Galegos de 1998 e uma das pedras basilares da complexa e multifacetada obra de Roberto Bolaño.

Nesse romance, dois jovens poetas saem à caça de Cesárea Tinarejo, uma escritora desaparecida no deserto mexicano de Sonora. O livro é composto pelo diário de Garcia Madero, além de dezenas de depoimentos de coadjuvantes, dando vazão à criatividade e à originalidade de Bolaño no que se refere à sua capacidade prodigiosa de juntar imaginação e realidade em um relato qualificado por ele como uma carta de amor à sua geração. Um dos episódios se refere a Auxilio Lacouture, que estava no banheiro da Universidade Nacional Autônoma do México durante a invasão militar em setembro de 1968. Se em “Os Detetives”, a história já revela sua tensão, é em “Amuleto” que ela atinge a carga máxima.


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