revista bula
POR EM 03/11/2008 ÀS 09:05 PM

Vida besta

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Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro
 

No seriado de televisão 24 Horas, o personagem Jack Bauer recorre a todo o momento à tortura para obter informações de suspeitos. É a ficcionalização da Lei Patriota, de 2001, com a qual os Estados Unidos colocaram seus próprios cidadãos num permanente estado de exceção, sob alegação de combate ao o terrorismo. A apologia do brutalismo já estendeu além-mar e apareceu no Brasil do Capitão Nascimento, do filme Tropa de elite, que assume a posição dos civilizados em meio aos bárbaros. Frente a um cenário de medo de atentados e crimes comuns, admite-se a infração das normas que, em outros tempos, receberam o nome de direitos humanos.

A linguagem da mídia piora as coisas e vai surrando as palavras, tornando-as mais e mais vazias. Telejornais, filmes e seriados alimentam o terror constante de bombas terroristas ou assaltos ali na esquina, o que resulta no discurso de obsolescência dos direitos humanos. Assim, cria-se um imaginário do indivíduo estranho e perigoso que pode ser um árabe ou um negro. A reação é a busca da aniquilação de quem carrega essa suposta ameaça. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, no entanto, os norte-americanos perceberam que eles mesmos haviam se tornado “estranhos” para alguém. E nessas situações, o ataque preventivo vira a melhor defesa.

Giorgio Agamben vem analisando o moderno estado de exceção que suspende a validade dos direitos humanos para garantir a segurança. É uma contradição em cima de outra contradição. Segundo ele, o modelo político contemporâneo (o do biopoder) é o campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. A situação do ser humano que vive sob o biopoder é a do homo sacer, cuja vida se resume aos aspectos biológicos e não políticos. Agamben resgatou essa figura na Grécia antiga. O Estado pode fazer o que bem entender dos corpos. Se um prisioneiro judeu não tinha condições de trabalhar num campo, deveria ser eliminado porque se trata apenas de um corpo.  

Esse estado de exceção, Agamben chamou-o de “vida nua”, corpo sem serventia que pode se descartado a qualquer instante. São os mortos-vivos que vagam pelo campo de concentração – onde eram denominados de muslims. Quem seriam os homo sacer da globalização e guerras preventivas? Palestinos são bons candidatos, pois os israelenses os submetem aos mais variados de tipos de aniquilamento: confinamento em territórios, massacres de crianças e bombardeios. Com menos recursos de artilharia, eles palestinos reagem freqüentemente e daí são acusados de terrorismo. Sem mais nem menos, árabe vira sinônimo de fundamentalista e terrorista.    

Candidatos também fortes a homo sacer são os asiáticos que vivem nas zonas de processamento de exportação. Eles trabalham 16 horas diárias, sem direitos trabalhistas e previdenciários, em fábricas que possuem todas as isenções fiscais possíveis e operam em puro regime de exceção econômica. Os iPods e tênis Nike são desenhados nos Estados Unidos e produzidos de maneira quase servil na China e Taiwan. É o sonho daqueles que criticam o Custo Brasil. Quem quiser maiores detalhes de como é o homo sacer oriental e hiper-produtivo pode ler
Sem Logo — A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, da canadense Naomi Klein.

Sobre o modelo capitalista asiático, Slavoj Zizek fez uma pergunta intrigante: a China é o passado ou o futuro da economia de mercado?  Caminhamos para um trabalho no estado de exceção, sem qualquer proteção, ou para a prosperidade? O universo do trabalho fornece uma infinidade de exemplos de como o humano é muslim (seria um muçulmano?). Há um reality show nos Estados Unidos (devidamente tropicalizado por aqui) cujo prêmio é um emprego ao vencedor. Ao longo dos capítulos, os participantes são demitidos um a um, e o apresentador aponta o dedo para dizer “você está demitido”. O homo sacer vai assumindo características assustadoras.


O Brasil sempre foi muito bom para operar o biopoder. Basta lembrar que fomos uma das últimas nações a abolir a escravidão no século XIX. Mas não somos racistas, gritam os intransigentes. O
homo sacer brasileiro de hoje é negro, jovem, homem e pobre. Segundo as estatísticas, ele tem bem mais chances de morrer do que os brancos. Qual a explicação? Predisposição genética? Desigualdade de renda? Louvado em prosa medíocre na mídia e premiado no Festival de Berlim, o Capitão Nascimento tem uma resposta baseada na teoria dos jogos e já nos mostrou o que é a vida nua nessas bandas. Certo mesmo é que, para ele, a vida é mesmo besta. 
 
 

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POR EM 31/10/2008 ÀS 09:43 AM

Vida danificada

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Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek

Em Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, o personagem Attila é o capataz de uma fazenda italiana na primeira metade do século XX. Diante dos camponeses locais que se organizam, ele expõe todo o ressentimento daqueles que aderiram ao fascismo. Uma das cenas mostra Attila, de camisa preta, explicando aos amigos fascistas as semelhanças entre os gatos e os comunistas. Ambos são aparentemente dóceis e inofensivos, mas, a qualquer momento, podem mudar e ser traiçoeiros.

Atilla encena a forma como devem ser tratados os seguidores do comunismo. Ele retira o cinto da calça e amarra um gato numa porta. Afasta-se, corre em direção ao bicho e o esmaga com a cabeça.

É uma das cenas mais impressionantes do cinema:




O opositor de Attila é o personagem Olmo, neto de um dos trabalhadores. Este cresce na fazenda dos Berlinghieri e torna-se amigo de Alfredo, filho do patrão. Durante anos, Olmo alerta Alfredo para o perigo da adesão de Attila ao fascismo e sugere que este fosse demitido. Mas é ignorado, sob alegação de que se tratava de um homem qualquer.

O tempo passa, e o fascismo cresce na Itália. Os camisas-pretas se transformam em máquinas de matar. Bertolucci conta a história do Partido Comunista Italiano, por meio de Olmo, e a conivência do movimento fascista com os grandes proprietários de terra, como a família Berlinghieri. 

Tudo é uma questão de ponto de vista, diz o senso comum. Ou de paralaxe, como assinala Slavoj Zizek. Os anos pós-comunistas representam uma mudança de perspectiva que, no Brasil, trouxe de volta Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues ao centro dos debates. Criticados em vida, eles ressurgiram num tempo que consegue ser mais anticomunista do que o da Guerra Fria.

Seria uma felicidade enorme para ambos, dada à aversão deles ao socialismo. Freyre apoiou a ditadura militar no Brasil, e Nelson somente acreditou na tortura do pós-1964 ao ver o próprio filho estropiado nos porões. Atualmente, virou de bom tom dizer que aquilo não foi nada e os governos militares foram o mal menor, em vista da possível revolução comunista. Uma entrevista de Freyre à revista Veja, em 1972, expõe certas posições que já antecipam a visão dos anos pós-Muro de Berlim:

“O senhor concorda com a aposentadoria compulsória do sociólogo Florestan Fernandes, que hoje leciona no Canadá?, pergunta Veja. ´Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. O intelectual não deve ser um privilegiado. Eu  mesmo fui preso três vezes durante a ditadura de Vargas. Minha casa foi literalmente saqueada em 1930. Se o intelectual tentou atingir o regime, e se isso ficar provado, como não sei se é o caso de Florestan Fernandes, nada mais justo que houvesse uma reação de defesa”.

Florestan nunca escondeu a filiação ao socialismo e foi um dos críticos mais fortes das idéias freyreanas, sobretudo quanto à democracia social, que está hoje na crista da onda. Tão em voga essa idéia que o jornalista Ali Kamel, por exemplo, se inspirou na linha de Gilberto Freyre para defender suas teses contra as cotas raciais nas universidades:

“Florestan estava errado. Nosso ativo como nação é prezar a miscigenação. E aqui no Brasil ninguém nega o racismo. Eu não nego o racismo. Onde quer que haja homens reunidos há os piores sentimentos, inclusive o racismo. Há racistas no Brasil, em profusão. Mas o racismo não é um traço dominante de nosso caráter nacional”, disse Kamel, ao jornal Correio Braziliense, em 2006. Interessante ver o retorno ao conceito de caráter nacional, algo como o espírito do país, que está superado há muito tempo.  

O filme Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciascia, se passa nos anos em que tudo é “pós”. Não há mais utopia, laços sociais, política, emprego. Só indivíduos solitários numa metrópole brasileira, no caso a distante Porto Alegre, a “Gay Port” de Caio Fernando Abreu. O personagem Ciro é um tradutor que recém saiu da faculdade e decide morar sozinho com um cão vira-lata. Sua vida se resume à companhia de um cachorro e da namorada Marcela, uma manequim que sonha se mudar para o exterior.

Ciro enxerga a todos como inúteis e inferiores. Apenas ele está acima de qualquer julgamento. O olhar blasè de Ciro lembra justamente os de uma modelo. Nada acontece no filme, não há conflito, aproximando a obra do teatro contemporâneo. O drama desaparece. Há muito sexo, cigarros, bebedeiras, rock. Brant aprofunda o estilo de viver presente na adolescente rica de seu filme
O invasor (2002).



Cão sem dono é uma adaptação do romance Até o dia em que meu cão morreu (2002), de Daniel Galera. Uma parte dos novos romancistas brasileiros se volta para esse nada existencial dos tempos atuais. Um nada que se encaixa bem no modelo de produção globalizada. São todos “burgueses sem religião”, conforme bem percebeu Renato Russo ainda nos anos 1980, e conformados com o rumo tomado pelo mundo.     

O que passou pela cabeça de Foucault quando proferiu suas palestras a respeito da biopolítica em 1978 e 1979? O poder não é mais centralizado, ele alcança e penetra o corpo dos indivíduos. Ao tratar da nova forma de controle, Foucault analisou o discurso de Hayek e dos novos liberais alemães e norte-americanos. A globalização ensaiava os primeiros passos nos anos 1970, e o autor de As palavras e as coisas já se debruçava sobre idéias e políticas que defendiam a primazia do mercado e a redução do social.

Também assustadora é a avaliação de Octavio Ianni, em texto de 1998, chamado “Neoliberalismo e nazi-fascismo”. “Sob o neoliberalismo, recriam-se as condições e os ingredientes do nazifascimo. A despeito de se apresentarem como guardiães e arautos da democracia, afirmam e reafirmam o predomínio da economia, produtividade, competitividade, lucratividade e racionalidade instrumental”, alerta Ianni, que havia sido aluno de Florestan Fernandes e questionava a naturalidade de Gilberto Freyre.

 


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POR EM 19/04/2008 ÀS 06:17 PM

A direita radical

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O mundo realmente dá muitas voltas. No livro “América na encruzilhada”, nada menos do que Francis Fukuyama chama de leninista a visão do governo dos Estados Unidos. Ele disse estar perplexo com o projeto de seus compatriotas de comandar uma reforma social, de alto a baixo, no Iraque a partir da guerra de 2003. Tão críticos em relação à idéia de vanguarda política dos soviéticos, diz o autor do Fim da História, os políticos norte-americanos ficaram seduzidos pela missão de corrigir os rumos da sociedade iraquiana. A visão de Fukuyama é reveladora no momento de radicalização do pensamento conservador que se imagina reformista e inovador.

No mercado global de corações e mentes, o ativismo reacionário pode ser visto em figuras como Nicholas Sarkozy e até nos liberais brasileiros. Ambos querem liderar uma transformação social e corrigir os excessos do modelo estatal. Não basta o mercado indicar para onde devemos caminhar – de preferência ao sabor do vento e da maré. Há um radicalismo que remonta ao ativismo dos comunistas. O presidente francês sonha em exterminar os sonhos de Maio de 68. Acabar com a experiência comunista do Leste Europeu foi apenas a primeira etapa para o fechamento total de qualquer possibilidade de mudança. Chegou a hora da verdadeira solução final.

Recentemente, Alan Badiou analisou na revista “New Left Review” que Sarkozy pretende, na verdade, abolir do mundo a “hipótese comunista”. Para o filósofo francês, ele quer apagar do imaginário toda e qualquer noção de justiça social e eqüidade. Chega ao cúmulo de ver totalitarismo em programas de redução de pobreza – uma idéia liberal por excelência. Estamos diante de um “projeto” (que é expressão tão cara a Sartre) de revolução cultural e faxina ideológica. Foi com a mesma disposição que os republicanos iniciaram sua revolução particular nos anos Ronald Reagan (1980-1988) e completaram a obra em George W. Bush (2000-2008).
 
A militância conservadora não vê limites para agir. Na década de 1990, a partir do laboratório da prefeitura de Nova York, os Estados Unidos combinaram o corte nos gastos sociais e o aperto na repressão à criminalidade. Acirra-se a disputa por serviços públicos, e depois chamam a polícia. Um dos mentores da conhecida política “tolerância zero” foi Charles Murray, capaz de formular a incrível tese da “curva do sino”. Segundo ele, negros têm QI menor por fatores hereditários e assim possuem desempenho escolar pior. Em suma, de nada adianta uma compensação para quem já nasce prejudicado. São radicais sem limites e que não brincam em serviço.

O capítulo brasileiro desse movimento começou nos anos 1990, após o fim do muro de Berlim e a consciência de que o país falira. Antes demonizado, o economista Roberto Campos foi resgatado e transformado em pensador. Não sobreviveu para ver a catástrofe econômica de suas receitas. É curioso porque Campos segue a tradição dos autoritários (Francisco Campos, Tobias Barreto, Oliveira Vianna) que se empenharam na construção do Estado brasileiro. Os novos liberais (os economistas do Planto Real e os intelectuais midiáticos) escolheram o desmanche do aparato estatal e apostam suas fichas na “gramática do mercado”.

O empenho é de um militante operário do começo do século XX – daí mais uma semelhança com o comunismo que tanto repudiam. Também há disposição de pregar nas páginas de jornais, de revistas e no ciberespaço. A violência simbólica é a mesma de um guerrilheiro da luta armada dos anos 1960. Mas, ao invés de defender uma idéia de povo e pegar em armas, buscam a doutrinação pela liberdade, livre iniciativa e promessa de felicidade do mercado. E é claro: a extinção da hipótese comunista. A síntese encontra-se nos artigos de um Denis Rosenfield, um Ali Kamel, um Demétrio Magnoli ou um Eduardo Giannetti da Fonseca.

A munição vem de uma retórica truculenta e militante, mas que se diz ao mesmo tempo democrática. Para usar a classificação de Albert O. Hirschman, poderíamos falar até de uma “retórica da intransigência” dos liberais brasileiros. Hirschman nota que os neoconservadores recorreram a partir da década de 1980 a um mecanismo de três teses para combater idéias de esquerda: perversidade, futilidade e ameaça. É possível aplicar esse método no programa bolsa família ou na reforma agrária. Os novos conservadores dirão sempre: ela trará resultados contrários ao proposto (perversidade), não adianta nada (futilidade) e provoca conflito social (ameaça).

A direita radical repete erros que acusa na esquerda revolucionária. E quem diz isso são pessoas como Francis Fukuyama.
 
 

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POR EM 22/03/2008 ÀS 11:04 AM

Cai fora, mal educado!

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Herdeiro de Rodrigo S.M., o letrado brasileiro acha que as escolas do país são fábricas de Macabéas. Quando aparecem notícias de crianças aprovadas no vestibular, vem a manifestação de horror. Está tudo acabado, sentenciam. Tudo pode estar indo para o abismo, mas eu (letrado) estou a salvo como reserva moral e intelectual da nação. Essa figura é a parte da população que tem curso superior e está no topo da pirâmide de renda. Lá do alto, as coisas parecem bárbaras, feias e perigosas, e só resta dar o fora o mais rápido possível do Brasil ignorante e analfabeto. 

A vontade de se livrar do país vem de longa data. No final do século XIX, os escravos foram libertados e jogados ao deus-dará. O bisavô de Macabéa foi substituído por um imigrante estrangeiro – um gesto humanitário, bem ao estilo da responsabilidade social das empresas de hoje. Cem anos depois, o letrado do Brasil optou pelo “salve-se quem puder” da globalização e suas muitas viagens ao exterior e carros importados. As duas épocas evidenciam a cegueira dos civilizados brasileiros em entender o movimento do mundo. Adoram o capitalismo, mas não sabem por quê.
 
Nos próximos anos, haverá uma possibilidade de fuga da barbárie local. Rodrigo S.M. pode enfim se livrar de Macabéa sem a necessidade de amassar uma Mercedez Benz. Os letrados poderão jogar no lixo as escolas e matricular os “babies” e “teens” em Harvard ou “high school” californiana. Tudo sem sair de casa. Ao ridículo Custo Brasil de comer, morar e ter empregados em casa, nossos filhos serão finalmente alfabetizados em inglês, de acordo com os padrões competitivos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
 
O pulo-do-gato é o Acordo Geral para o Comércio em Serviços (Gats), em andamento na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os países de língua inglesa conseguiram encaixar a Educação no rol dos serviços, junto aos produtos bancários. No futuro, a criança ou adolescente brasileiro estudará pela internet em escolas dos Estados Unidos, Austrália ou Nova Zelândia. Os três países investem pesadamente em escolas de educação à distância para atingir o mercado global. E governos do mundo a fora como o do Brasil serão obrigados a reconhecer os diplomas.
 
O modelo em questão segue a lógica do “outsourcing” usado hoje pelos norte-americanos em “call centers” e descrito por Thomas Friedman no livro “O mundo é plano”. Quando alguém nos Estados Unidos tem problemas com cartão de crédito, é atendido por um indiano em Bangalore. Obviamente, o salário na Índia é miserável. No caso da escola à distância, haverá o movimento inverso: os “serviços” serão fornecidos a partir países anglo-saxônicos. Está montado o cenário ideal para os letrados brasileiros se livrarem do país, por meio de um “outsourcing”.
 
O acordo de serviços na OMC é um dos mais importantes temas em discussão no mundo e recebe quase nenhuma atenção da mídia (sempre olhando as coisas do alto). Perto disso, aprovar criança no vestibular parece brincadeira de criança. Será criada uma elite ainda mais alheia à realidade local e com a pretensão de estar conectada ao mundo globalizado. No lugar de Piaget, a pedagogia terá seu grande guru em Peter Drucker. Em nome de conceitos inteligentérrimos como competitividade e globalização, vamos embarcar em mais uma jangada furada e disfarçada de iate.
 
Sergio Paulo Rouanet analisou em 1985 a catástrofe que havia sido a primazia dada às ciências (física, química, matemáticas) nas reformas educacionais dos anos 1970. Dizia-se que o Brasil precisava de mais engenheiros para acompanhar o progresso econômico. É o mesmo discurso do Banco Mundial de hoje: há muita ciência humana no ensino brasileiro. O grande capital (bancos, empresas globais) anda chateado com o governo Lula, que barrou a compra de faculdades por investidores estrangeiros, que continuam a fazer a cabeça dos descendentes de Rodrigo S.M..  

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:09 PM

A ferida na memória

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O trauma é um dos temas recorrentes e centrais das artes contemporâneas. O que se coloca é a dificuldade de apreender uma experiência terrível, como foi a do campo de concentração nazista da Segundo Guerra Mundial. Trata-se de transformar em palavras ou imagens o tormento de uma situação que se aproxima do irrepresentável. No Brasil, a vida de quem lutou contra a ditadura militar de 1964 entra na categoria da memória que é difícil de ser recuperada e incapaz de ser esquecida, sobretudo as torturas sofridas pelos militantes de esquerda.

A experiência traumática ronda “Ação Entre Amigos” (1998), de Beto Brant. Possivelmente, é o filme que melhor aprofunda as questões levantadas a partir da guerra suja entre militares e guerrilheiros de esquerda nos anos 1960 e 1970. A história se passa no presente, com quatro amigos que lutaram contra a ditadura e vão para uma pescaria de fim de semana. A surpresa será contada pelo organizador do passeio: o grupo vai na verdade ao encontro do antigo torturador, aquele sujeito que atormenta as memórias deles. A trama se desenrola na discussão do que fazer com o algoz do passado.

O filme de Brant coloca uma questão discutida anos trás por Jacques Derrida a respeito do “perdão”. Segundo o filósofo francês, as violências que atingem as sociedades encontram distintas soluções. Os nazistas foram julgados sumariamente pelo Tribunal de Nuremberg. No outro extremo, o Chile e o Brasil optaram pela anistia irrestrita aos crimes cometidos durante os períodos ditatoriais. Os dois casos geraram ressentimentos e deixaram feridas abertas. Uma solução, para Derrida, seria a adoção do tribunal como aquele criado pela África do Sul no pós-apartheid.

Os sul-africanos fizeram um tribunal sem julgamento legal. Os brancos, porém, deveriam realizar um acerto de contas com os negros e reconhecer publicamente a responsabilidade por crimes cometidos em nome do regime oficial de discriminação. No filme “Ação entre amigos”, os personagens estão no Brasil e decidem resolver por conta própria o que está preso na memória. Eles mesmos criam o seu próprio tribunal, onde também eles serão punidos. Surge uma tensão dramática que resultou num dos melhores filmes da retomada do cinema brasileiro nos anos 1990.

Outra obra a tratar desse esquecimento impossível da ditadura é “Benjamin” (2004), de Monique Gardenberg, baseado no romance homônimo de Chico Buarque. A memória vira uma alucinação do personagem Benjamin já velho nos dias atuais. Ele vive o tormento de encontrar uma mulher fisicamente muita parecida a sua namorada que foi morta pelo regime militar. É uma narrativa que reúne a nostalgia dos anos dourados da juventude, o pesadelo da perseguição política e um presente sem vida e orientado pela imagem da publicidade.


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POR EM 10/03/2008 ÀS 08:04 PM

América Nuestra

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Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil.  São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina


 

Para conhecer literatura hispano-americana, o leitor brasileiro ainda depende de escolhas feitas pelas editoras de grandes centros globais. Um autor argentino, mexicano ou caribenho estará disponível no Brasil após a chancela de quem edita livros em Nova York, Londres, Paris e Madri. É a lógica da triangulação das trocas econômicas. Há as exceções de praxe, mas uma obra de um país vizinho precisa atravessar oceanos para depois chegar às prateleiras das livrarias brasileiras.

As grandes editoras espanholas Planeta e Alfaguarra se instalaram no mercado brasileiro há pouco tempo. Já ocorre, assim, o lançamento de um número considerável de livros de autores de língua espanhola, principalmente de romances. Existe pouco intercâmbio de poesia. Um aspecto altamente positivo é a ousadia de pequenas editoras brasileiras como Iluminuras, Argos, Amauta e UFMG, que vêm publicando ensaios e narrativas experimentais de escritores latino-americanos. 

Uma barreira ao conhecimento da nova produção é a presença de medalhões como Mario Vargas Llosa. Eles seguem publicando e ocupam todos os espaços nos meios de comunicação do Brasil. Predomina também um tipo de romance, cuja maior representante é Isabel Allende, que absorve traços do realismo mágico e acrescenta pitadas de amor romântico. São efeitos persistentes do “boom literário” que, 40 anos atrás, lançou para o mundo um punhado de escritores da América Latina.

Nos últimos anos, chegaram ao Brasil relançamentos dos medalhões latinos-americanos, todos já devidamente canonizados por estudos acadêmicos, boas vendagens e espaço na mídia. São os uruguaios Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti e Felisberto Fernandez; os peruanos Vargas Llosa e José Maria Arguedas; o colombiano Gabriel Garcia Márquez; os mexicanos Juan Rulfo e Octavio Paz; e os cubanos Alejo Carpentier, Lezama Lima, e Guillermo Cabrera Infante.

Jorge Luis Borges é ainda a figura central da literatura hispano-american, graças à repercussão na Europa e Estados Unidos. Sua obra foi citada no livro mais famoso de Michel Foucault, “As palavras e as coisas, e influenciou autores dos grandes centros culturais do mundo. Muito acreditam que se trata de um escritor de temas universais, mas essa visão não se sustenta mais após os fundamentais estudos de Beatriz Sarlo, que apontou a relação de Borges com a literatura argentina.

Os livros de Borges estão sendo reeditados no Brasil pela Companhia das Letras e devem aumentar ainda mais o interesse pelo autor de “Ficções” e “O Aleph”. Junto a Borges, outra figura consagrada é Julio Cortazar, que teve repercussão excepcional no Brasil nos anos 1960 e 1970. Prova disso é o livro “O Escorpião Encalacrado”, de Davi Arrigucci, que analisa as principais obras de Cortazar como “O Jogo da Amarelinha” e traça um amplo painel da literatura latino-americana.

A Argentina forneceu no século XX uma quantidade impressionante de bons autores ao campo literário da América Latina. Alguns dos principais nomes recentes são Ricardo Piglia e Juan José Saer. Ambos reúnem em seus romances um trabalho de auto-questionamento constante das formas narrativas e um diálogo peculiar com a História de seu país. Não fazem, entretanto, ficções históricas na linha de seu compatriota e ótimo escritor Tomás Eloy Martinez.

Martinez realiza uma desconstrução dos mitos políticos da Argentina moderna, ao ficcionalizar as vidas do casal Juan Domingo e Eva Perón. A experiência histórica é um tema constante na literatura argentina – como atestam os trabalhos de Martin Kohan, Luis Gusmán e Rodolfo Fogwill. Os três já tiveram livros publicados no Brasil. Um caso à parte entre os argentinos é Cesar Aira, que possui uma obra incrivelmente numerosa e vinculada aos experimentalismos.

Junto a essa ficção argentina, começam a sair por aqui os ensaios de Daniel Link, Graciela Montaldo, Josefina Ludmer e Sylvia Molloy. Esses pensadores mantêm ligações estreitas com estudiosos brasileiros que fazem a revista "Margens/Margenes" – publicação conjunta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Buenos Aires. Entre os latino-americanos, os intelectuais argentinos são os aqueles que mais dialogam com os brasileiros. 

Os chilenos também possuem uma longa de história de diálogo com os autores brasileiros. Após o golpe militar de 1964, o Chile tornou-se um refúgio para intelectuais do Brasil. A importância da literatura chilena pode ser medida pelos dois prêmios Nobel do país, Pablo Neruda e Gabriela Mistral. No boom literário, tornou-se conhecido José Donoso. Seu romance mais conhecido, “Casa de Campo”, é uma extraordinária alegoria da sociedade chilena.

No entanto, os leitores brasileiros estão privados da grande obra produzida no Chile nas últimas décadas: as narrativas de Diamela Eltit. Livros como “Lumpérica” e “Mano de Obra” são difíceis de classificar por trafegar entre a ficção e o ensaio. O olhar dela volta-se para o lado obscuro de um país preso ao trauma de uma ditadura militar, a de Augusto Pinochet, e que sobrevive em tempos de culto ao mercado. Diamela coloca-se na outra extremidade de seu conterrâneo Alberto Fuguet.

Tempos atrás, Fuguet lançou o manifesto "McOndo" para ironizar a herança do realismo mágico da cidade fictícia de Macondo, criado por Gabriel Garcia Márquez no romance “Cem Anos de Solidão”. De acordo com essa perspectiva, os novos escritores da América Latina encontram-se diante de uma realidade global. No final das contas, Fuguet é melhor ficcionista (basta ler “Baixo Astral”, o divertido romance pop lançado no Brasil) do que pensador.

A Colômbia é outro país que tem novos bons escritores no mercado brasileiro. Fernando Vallejo apresenta no romance “A Virgem dos Sicários” uma das escritas mais provocadoras entre os latino-americanos contemporâneos. Também provocante é Efraim Medina Reyes, com o seu livro “Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin”, cujo título dá uma idéia do espírito anárquico do autor. Já Santiago Gamboa, em “Síndrome de Ulisses”, narra a vida dos imigrantes em Paris.

A imigração dos latinos para várias partes do mundo já rendeu uma literatura nova nos países centrais. No livro “Nosotros in USA”, a pesquisadora brasileira Sonia Torres analisa a escrita de chicanos (mexicanos-americanos), nuyoricans (porto-riquenos que vivem nos Estados Unidos) e cubanos exilados. São autores que escrevem em inglês e espanhol e mantêm um pé fincado nas suas culturas de origem (língua, literatura) e outro pé no novo país.

No ano passado, surgiu o fenômeno de um escritor latino-americano que viveu a experiência do desterro. Muito pouco conhecido onde nasceu, o chileno Roberto Bolaño virou a sensação no mercado editorial nos Estados Unidos depois de morto. Ele vem tendo uma recepção calorosa e leitores de alto gabarito também no Brasil. Sinal de que o campo literário brasileiro volta a se abrir para as narrativas dos vizinhos hispano-americanos – isso sem falar de um cinema recente de alto gabarito. 

 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:06 PM

A importância das pequenas coisas

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O debate cultural foi atingido nos últimos anos por uma avalanche de cânones literários, clássicos, gênios e heróis. Os exemplos mais populares são as idéias de um Harold Bloom e a elevação dos museus como centros da cultura contemporânea. Fora dos grandes, segunda essa visão, não existe vida. Há apenas vulgarização e ideologia na arte moderna, conforme martela o autor de “O cânone ocidental”, que vê o centro do mundo em Shakespeare. Com a repetição exaustiva na mídia, essa interpretação tornou-se um dos mais sólidos lugares-comuns.

A reação em favor dos clássicos ofusca outras possibilidades de entender os movimentos culturais de hoje. Nos anos 1980, o historiador norte-americano Robert Darnton iniciou um trabalho de analisar a subliteratura do Iluminismo francês. Fez isso ao lado das leituras dos enciclopedistas. Mais recentemente, o italiano Franco Moretti vem elaborando mapas e gráficos com a vasta produção literária do século XIX. Ele descobriu, por exemplo, que o popular romance histórico é ambientado em regiões de fronteira e de contato com o “outro”.

Conhecer a vastidão das ditas obras menores permite entender como se constrói o imaginário e as formas de representação de uma época. A arte é um campo aberto e fértil para essa tarefa. Atualmente, um grupo de pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) está mapeando a produção literária e cinematográfica desde os anos 1970 no Brasil. O objetivo é saber quem escreveu, filmou, onde vivem os autores, qual o gênero, cor e profissão dos personagens. Trata-se de um trabalho gigantesco que vasculha desde as grandes produções até o mais singelo.  

Nas próximas semanas, a TV Globo exibirá mais um desses trabalhos pequenos e ricos para discussão. A minissérie “Queridos amigos”, de Maria Adelaide do Amaral, recria a pós-ditadura militar e focaliza um período de 20 dias em dezembro de 1989. Baseado no livro da autora, “Aos meus amigos” (1992), a narrativa trata da situação de antigos militantes de esquerda na época da redemocratização. Desde 1989, uma série de filmes brasileiros e a minissérie de TV “Anos rebeldes” remexeram as memórias dos chamados “anos de chumbo”. 

Beatriz Sarlo diz que a ficção sobre a ditadura na Argentina ajuda a colocar as coisas no seu devido lugar no imaginário. Mostra quem torturou quem, os responsáveis por acobertou crimes, o papel do futebol para a manutenção do poder dos militares. Os relatos memoriais, diz Sarlo, serviram até de provas processos de reparação para os prisioneiros políticos. Em tempos de neoliberalismo, por sinal, tornou-se de bom tom dizer que as ditaduras da América Latina não passaram de um incidente ou um processo necessário para extirpar a doença do comunismo.

Nos filmes brasileiros recentes, é possível ver o isolamento da guerrilha (“Lamarca” e “Cabra cega”); os fetiches da identidade nacional (“O ano em que meus pais saíram de férias”); a fratura social à brasileira (“Quase dois irmãos”); a destruição do sujeito (“Batismo de sangue”); a relação documento/memória (“O que é isso, companheiro?” e “Conspiração do silêncio”); o esquecimento impossível (“Ação entre amigos” e “Benjamin”); e a construção de heróis (“Zuzu Angel”). Cria-se assim um amplo painel de como o Brasil do século XXI enxerga o passado recente.

 


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