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POR EM 17/11/2008 ÀS 03:03 PM

A condição estrangeira

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A exemplo de autores contemporâneos brasileiros como Bernardo Carvalho e João Gilberto Noll, Trevisan ultrapassa as fronteiras geográficas com seus personagens em trânsito permanente. O espaço se alarga, e as narrativas não mais se conformam a uma região apenas, ou a uma cidade, que é o ambiente preferencial do romance do final do século XX
 

Só se acha estranho algo que ao mesmo tempo nos parece familiar. Na novela "A Morte em Veneza" (1902), Thomas Mann relata a caminhada do personagem Gustav Aschenbach (um escritor) pelas ruas de Munique, na Alemanha, em sua tentativa diária de recuperar o espírito criador perdido. Ao esperar o bonde de volta para casa, ele vê um homem saindo por um pórtico de uma capela no outro lado da rua. O que lhe chama atenção é a aparência de alguém que não é bávaro, da região onde fica a cidade. Quando Gustav observa detidamente as roupas, os modos daquele estranho, este fixa o olhar que imediatamente assusta o escritor. Gustav não consegue manter a troca de olhares e sente um desconforto:

“Fosse que o aspecto de viajante do estranho tivera um efeito sobre a sua imaginação ou outra qualquer influência física ou moral, surpreendido, ficou cônscio de uma estranha expansão de seu íntimo, uma espécie de vago desassossego, um desejo juvenil e sedento para a distância, um sentimento tão vivo, tão novo ou há tanto tempo desacostumado e desaprendido, que ele, com as mãos nas costas e o olhar para o chão, parou cativado, para examinar a natureza e o objetivo da emoção”, escreve Mann, que acrescenta: “Era o desejo de viajar, nada mais, mas verdadeiramente parecendo um acesso intensificado até a paixão, sim, até a alucinação”.

O destino de Aschenbach será Veneza, onde se repetem a cena e a mesma sensação de estranheza quando viu aquele homem em Munique. Entretanto, desta segunda vez, o desassossego é a figura do jovem Tadzio, polonês, que pára sob o portal do salão no hotel veneziano e deixa o escritor desnorteado com uma atração erótica. O desejo de ficar próximo ao rapaz levará o personagem à morte. Em sua curta e densa narrativa, Mann reúne as questões do estranho, do estrangeiro, e o caminho em direção à morte, temas que serão amplamente desenvolvidos por Freud no texto "O estranho" (Unheimliche), em 1919. A diferença de datas mostra a antecipação de temas pelo escritor alemão.

A temática do estranho, do estrangeiro e do caminho para a morte ressurgirá ligada a Thomas Mann em 1994 na obra do escritor brasileiro João Silvério Trevisan. O ato de revistar foi além dos assuntos e inclui a própria família Mann como personagens,  especificamente Julia Maria Bruhns, a mãe brasileira do escritor e nascida em Paraty, interior do Rio de Janeiro. No livro de Trevisan, há a ficcionalização de locais, eventos e pessoas que realmente existiram. A imaginação permite que a narrativa culmine em um estranho encontro veneziano de Julia Bruhns (já com o filho Tommy de 15 anos), a mucama negra Ana e o compositor Alberto Nepomuceno, arranjador do Hino Nacional. O leitor acompanha as vidas paralelas dos personagens, onde afloram a questão de como se relacionar com outro país, o escravo, o estranho que está ao lado, a morte e a música.

A música funciona como fio da meada que organiza a narrativa de "Ana em Veneza", a exemplo do que ocorrera com a adaptação cinematográfica de "A Morte em Veneza", dirigida por Luchino Visconti. Trevisan estruturou o romance na forma de sinfonia, o modelo clássico da música no século XIX: Prelúdio, Larghetto Lamentoso, Andante Appasionatto, Adagietto com Variazioni e Allegro Barbaro. “Se a música de câmara tem analogias com a poesia lírica, a sinfonia é o equivalente musical do romance: uma peça em grande escala, com várias camadas de interesse, unificadas por um ou mais motivos centrais”, assinala Arthur Nestrovski. Portanto, o autor vai utilizar duas formas “antiquadas”: a ficção histórica do século XIX, que caiu em desuso até ser retomada nos últimos 20 anos, e a sinfonia, que quase desapareceu do repertório de compositores eruditos contemporâneos.

A partir da analogia musical, pode-se dizer que a narrativa de Trevisan se desenvolve na forma de contraponto a uma série de temas. É possível distinguir quatro blocos no romance. O primeiro enfoca as relações entre estrangeiros seja na arte e nas relações humanas, incluindo os estranhos ao nosso lado. Um segundo ponto é a noção de desterro quando a menina Julia Mann se muda para a Alemanha. Trevisan narra esse movimento na forma do progressivo esquecimento da língua portuguesa e a sensação do estranho freudiano que surge em várias partes desse trecho da narrativa. No terceiro segmento, a análise recai no encontro da família Mann, a mucama Ana e Nepomuceno. A morte se torna uma presença constante. A última parte é a vida após a morte, quando Trevisan fará uma ligação entre o mundo de 1891 e o de 1991.

Banquetes da Identidade

A exemplo de autores contemporâneos brasileiros como Bernardo Carvalho e João Gilberto Noll, Trevisan ultrapassa as fronteiras geográficas com seus personagens em trânsito permanente. O espaço se alarga, e as narrativas não mais se conformam a uma região apenas, ou a uma cidade, que é o ambiente preferencial do romance do final do século XX. A temática do nacional e do estrangeiro emerge, em "Ana em Veneza", em quatro trechos, todos eles em volta de mesas de jantar ou de bar.

A primeira mesa é a rememoração de uma entrevista que um narrador-jornalista, já velho, fizera em 1919 (ano do ensaio de Freud sobre o estranho) com o compositor Alberto Nepomuceno. O encontro ocorre na Confeitaria Colombo, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse ambiente, Nepomuceno conversa com o jornalista e, ao mesmo tempo, se olha num espelho à frente. Os espelhos da confeitaria conduzem as falas do compositor. O personagem analisa outros compositores e pessoas da então capital brasileira e, após cada comentário, olha-se no espelho. A narrativa vai assim tecendo relações imaginárias de Nepomuceno consigo mesmo, por meio da imagem vista no espelho, e com outras pessoas em sua fala. Ele admira o jovem Villa-Lobos, que criou suas bachianas a partir de variações de composições do alemão Bach, e critica as atitudes do poeta Olavo Bilac, ícone de intelectual brasileiro no começo do século XX:

“Já desde os tempos do Santos Dumont diziam que a Europa se curvava ante o Brasil. Ora, trata-se de um ufanismo barato, mentiroso, porque o Brasil é que não pára de se curvar diante da Europa. Veja o senhor o nosso Olavo Bilac: com que orgulho ia arejar-se no Velho Continente, para onde dizem que viajou dezessete vezes”. Antes, indagou: “Será que neste país estaremos condenados a ser sempre assim, mera caixa de ressonância para tudo o que se diz e se faz na Europa?”.

Nesse trecho, Alberto avança uma discussão de que, para modernizar uma ex-colônia, hoje um país, é preciso se espelhar na metrópole. Fica estabelecida a exigência de uma identidade na forma de imagem-espelho entre a colônia e metrópole, e não de  diferença. Essa é uma idéia recorrente da relação imaginária de Lacan e hoje utilizada nas análises das questões de identidade. Nesse jogo especular de identidade e não de diferença, a antropologia contemporânea salienta que existe a tendência de uma cultura julgar a outra como inferior.

“Uma das particularidades dos esquemas de pensamento ocidentais é a de conceber o Outro como inferior com a finalidade específica de submetê-lo. (...) A história do Ocidente nos oferece muitos exemplos desse tipo de consciência: a expansão das civilizações greco-romanas, os descobrimentos ibéricos, a formação dos grandes impérios coloniais e, hoje, a mundialização são momentos particularmente interessantes para capturar o modo imaginário como o Ocidente concebeu poderosas imagens para o aprisionamento do Outro em posições de inferioridade”, diz Paula Montero.

A possível saída para o impasse entre o local e o universal, o nacional e o cosmopolita, Nepomuceno vai apresentá-la ao final da conversa com o narrador: “Eu, um velho que buscou sem parar, até hoje não consegui decifrar o que é ser brasileiro, simplesmente porque... porque a brasilidade não é o resultado de uma fórmula química ou matemática. (...) E que seria de Mozart sem a influência da ópera italiana, hein?”. A relação com os outros não é só a presença da cultura estrangeira no país, mas também a sensação de isolamento de Nepomuceno no próprio Brasil.

O final do Prelúdio evidencia este problema do outro não só como estrangeiro, mas sobretudo dentro do país, onde se supõe estão todos no mesmo barco. “É assim, comigo: estou dividido entre dois mundos, sem pertencer a lugar nenhum. Desde que me conheço, acompanha-me essa sensação de exílio. Onde está a pátria mãe? Em vão busco a minha pátria. É o Brasil? Ou seria este país a madrasta?”. Na tensão de cosmopolitas e nacionalistas, o personagem Nepomuceno reivindica uma posição intermediária, onde se pode considerar mais as diferenças do que as identidades de um determinado grupo. Assim, Trevisan se aproxima da noção de “entre-lugar” proposta por pensadores da cultura contemporânea (Silviano Santiago e Homi K. Bhabha).

Na medida em que avança a narrativa de Trevisan, surge um “estranho” velho conhecido dentro do Brasil do século XIX: escravos negros. No romance, senhores e escravos têm uma interação ideal, com uma convivência harmoniosa, embora o patrão alemão Luiz Bruhns (avô de Thomas Mann) tenha se abrasileirado e não utilize o trabalho assalariado e acabe se espelhando na elite local.

A segunda mesa onde se discutem identidades e diferenças dos brasileiros será na fazenda da família Bruhns, em Paraty (RJ). Por volta de 1850, o viúvo Luiz decide voltar à Alemanha com os filhos pequenos. Na véspera da partida, oferece aos vizinhos um jantar, cuja atração é a já citada banda de música formada por negros. Como estava de partida, discursa à mesa e prevê o fim próximo da escravidão, mas não trabalha pela liberdade dos seus escravos. “A libertação é um problema que este país terá que enfrentar, mais cedo ou mais tarde. Então é preciso estar preparado. É uma questão de responsabilidade de todos os brasileiros”, diz.

Mas os coronéis vizinhos de sua fazenda permanecem reticentes à mudança e não lhes agrada a idéia de Bruhns ceder uma braçada de terra aos escravos, após sua mudança para a Europa. O temor dos donos de fazendas, como o advogado Silva, que estava no jantar de despedida de Luiz, é o que fazer sem a mão-de-obra escrava. Ou seja, os brasileiros gostariam de se espelhar e mimetizar a civilização européia, mas sem adotar a civilidade do trabalho.

A dificuldade com um novo outro, o imigrante europeu, aparecerá anos depois. Com o negro, podia-se tolerar a escravidão, mas com o europeu, não. Em Lübeck, na Alemanha, a família Bruhns promove um jantar para convidados –  a terceira mesa do romance. O personagem Robert Avé-Lallemant havia visitado o Brasil recentemente e relata em tom horrorizado o tratamento recebido pelos imigrantes. Ele defende no jantar a imigração a outros países como saída para a fome por que passam os europeus. Para Lallement, a Europa estava presenteando o mundo com a disseminação do “gênio alemão”. Os pobres da Alemanha são os outros para ele, que, ao saber do destino que lhes reserva o Novo Mundo, acaba se lamentando: “Deve-se denunciar a ganância sem limite dos fazendeiros brasileiros. Acostumados que estão ao trabalho escravo, não conseguem adaptar-se ao regime de trabalho livre e assalariado. De modo que colocam os imigrantes no antigo papel dos negros trazidos à força da África”.

Após seu retorno para a Alemanha, ao ver que os compatriotas tratam os “outros” como bárbaros, Luiz Bruhns se arrepende da mudança, deixa os filhos em Lübeck e volta ao Brasil. É a sensação de saudade vista com um dos traços de identidade dos brasileiros. O sentimento de falta aparece na quarta mesa, desta vez com a família Mann se reunindo com Nepomuceno e o conde Agostino von Mölln Basucello em 1890 em Veneza. “A saudade é complicada. Tem um pouco de saudação e muito de solidão, opinou Alberto, bastante à vontade no assunto. — São detalhes sutis relacionados com a têmpera da própria língua portuguesa, o senhor não acha?. (...) — Claro, pois a saudade é uma criação que Portugal legou ao Brasil. Quando vivi em Lisboa, demorei a até entender esse sentimento, que é difícil para os estrangeiros. Portugal já nasceu estranho — respondeu o conde”.

Trevisan reitera a saudade como um traço distintivo da cultura brasileira, descendente da herança lusitana. É o que o ensaísta português Eduardo Lourenço chamou de “mitologia da saudade”: “Habituados a tal ponto pela saudade, os portugueses renunciaram a defini-la. Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento da existência, a ponto de a transformarem num ‘mito’. É essa mistificação de um sentimento universal que dá à estranha melancolia sem tragédia que é o seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa”.

Como no tema da saudade, a quarta e última mesa expõe lugares comuns de um certo caráter brasileiro. O conde Agostino repisa a crítica às elites brasileiras, porém não se enxerga nesse espelho: “Com perdão da palavra, trata-se de um bando de exploradores que lá vivem como se fossem estrangeiros explorando os nativos. No fundo, lamentam não ter nascido na Europa. (...) O mais irônico é que, apesar da hipocrisia, os membros da elite sempre acabam sucumbindo à sensualidade popular, especialmente a dos negros. Não é por acaso que existem tantos mulatos no Brasil...”. Após ouvir as considerações do conde de que o Brasil é uma “ilha perdida”.  Nepomuceno podera: “Uma ilha... tentando buscar sua própria identidade. O Brasil... É o que vim fazer na Europa: procurar a música do meu país. Talvez procurar a mim mesmo...”.

As quatro mesas tratam deste movimento contínuo, salvo engano interminável, de formação da identidade de um país. Quando se pensa no caso de um compositor, a resposta não seria reproduzir um modelo clássico ou um formato nacional genuíno. A ficção de Trevisan sugere que o brasileiro estabeleça o diálogo que poderia ser o entre-lugar dessa relação do local e o universal. Posição semelhante aos desconstrucionistas inspirados em Derrida: não se deve buscar uma identidade nacional que abarque todo um povo, mas sim as diferenças das minorias que podem estar no Brasil, nos Estados Unidos ou na África. Busca-se, assim, evitar a intolerância que gerou o nazismo e o fascismo na Europa.

A Escrita do Desterro


Nos últimos 100 anos, uma das experiências radicais com a questão do estranho foi o deslocamento de pessoas pelo mundo. A discussão em torno das identidades está presente em "Ana em Veneza" não apenas nas conversas de brasileiros com estrangeiros, mas também na língua. O falar, a maneira de se expressar, tem uma importância nos trechos que mostram a mudança da família da menina Julia Mann para a Alemanha, que deixou um "Diário de Dodô", publicado nos anos 1950, quando o filho Thomas já havia se consagrado. No romance de Trevisan, a própria escrita vai evidenciar a perda, o desligamento com o país, por meio da língua.

Quando chega à Alemanha, Dodô/Julia fala com a sintaxe da língua portuguesa e mostra o quanto estranha o alemão: “Mas precisa acostumar de novo com outra vida. Então a gente vê cada coisa e tem que pensar cada coisa de um outro jeito como se não fosse a mesma coisa mas outra. Eu Dodô a partir de agora não sou mais eu. Sou ich. Não é assim que vivem dizendo aqui? E já pensou como vai ser? Eu ich vou ter que arranjar outra vida com outra mãe com outra avó outros tios e... e outro Deus e vou ter que ir para escola e meu pai não sei se muda ou não ele quer não quer mais falar comigo na nossa língua agora é só esta droga e então não vai ser mais pai vai virar Vater e muda tudo”.

O sentimento de Dodô se assemelha ao que Julia Kristeva identificou ao analisar a questão do estrangeiro na história. Segundo ela, que recorreu à noção de estranho de Freud, o estrangeiro estaria dentro de nós, reprimido, e pronto a aflorar a qualquer momento. No romance de Trevisan, o estranho aparece na fala da menina Julia Bruhns, que sente uma aversão por aquele novo mundo na dúvida “eu” e “ich” e no sonho em que ela é enterrada ou na história de seu nascimento durante uma viagem quando sua mãe sente dores do parto no meio da mata.
“Na rejeição fascinada que suscita em nós o estrangeiro, existe uma parte sobrenatural no sentido da despersonalização que Freud ali descobriu e que reata com os nossos desejos, com nossos medos infantis do outro — o outro da morte, o outro da mulher, o outro da pulsão não-dominável. O estrangeiro está em nós. E quando fugimos ou combatemos o estrangeiro, lutamos contra o nosso inconsciente — este ‘impróprio’ do nosso ‘próprio’ impossível”, diz Kristeva, em Estrangeiros para Nós Mesmos.

O estranho reprimido também aparece na mucama Ana (personagem do título do romance), quando recebe a notícia de que vai se mudar para Lübeck, a nova morada dos Bruhns. Ela ouve a palavra navio e, de repente, se recorda do horror de sua vinda da África para o Brasil. O pânico estava na associação da palavra ao sofrimento da experiência. “Prestes a deixar seu mundo de escrava, ela via-se repentinamente menina de novo, agarrada ao peito seco da mãe, no porão de um navio, sugando a maldição do leite materno que faltava. Uma outra viagem em que tudo lhe fora arrancado, e seu mundo soçobrara, ao deixar a África. Horror, no meio das lembranças esfumadas, horror generalizado, ni ayé atijo, ni igba lailai”, observa o narrador. Ana, portanto, será desterrada pela segunda vez.

Na Alemanha, a ligação de Dodô com a língua portuguesa está em Ana, uma vez que a menina vive num pensionato alemão e de lá sai só de tempos em tempos. “Não quer mais que converse com você Ana. Grossmãe não disse nada. Mas eu converso sim. Só posso ver você cada quinze dias quando venho aqui, agora nem deixa mais você me levar coisa no Pension, dizendo você só conversa português comigo e que isso é ruim porque eu precisa aprender alemão, mas eu sou aprendendo, Ana”, diz Dodô.

Aos poucos, Dodô se transforma na alemã Julia e mescla a sintaxe da língua, chegando ao ponto de colocar o verbo no final do período como se faz em alemão: “Então outro dia teve eu um sonho em alemão que é Traum porque quando a gente sonha em alemão então é Traum. Veja uma vez: em alemão: ein Traum habe ich gehbat. Auf Deustsch Ana. So jezt bin ich eine Deutsche e precisa aprender ser alemão. Mas você também, du musst eine Deutsche sein. Por isso Fräulein Therese diz que é bom em alemão sonhar, significa que eu aprendo um sonho ter”.

A confusão de línguas resulta numa das passagens fundamentais do romance. Dodô exige que Ana fale alemão, mas, analfabeta, a mucama africana teve dificuldades de aprender a língua local. “De hoje em diante, só em alemão falar, gritou a menina, com um estranho tom adulto. — Está ouvindo? Nur auf Deustch. Ana olhava boquiaberta. Dodô percebeu. Incomodada, gritou uma explicação: — Ich bin Deutsche, verstehst du? Und die Deutschen sprechen Deutsch. E como Ana continuasse ali parada, ainda tentando compreender, Dodô apontou-lhe a porta, de modo explosivo, descontrolado: — Und jezt, geh raus und lass mich Ruhe! Raus! Ana compreendeu muito bem o gesto de mandá-la embora”.

O único alemão a aceitar Ana é o pintor alcoólatra Gustav (o mesmo nome do personagem principal de Thomas Mann em "A morte em Veneza"), com quem se casa e forma um casal de párias na sociedade alemã. Também mais adiante na narrativa, após fugir da casa dos Bruhns, Ana trabalhará em um circo vestida de gorila e é açoitada por um bando de rapazes no porto de Hamburgo. Sem saber alemão, Ana mal consegue até conviver com os empregados da casa dos Bruhns, que enxergam a negra como um “outro” e não como uma semelhante por ser trabalhadora. Ou seja, Ana é o outro do outro.

As memórias de Dodô narram o progressivo soterramento da língua portuguesa e das lembranças em Paraty.

Quando se encontra com Nepomuceno em Veneza, Julia Mann se recorda tão somente de algumas palavras e aos poucos pronuncia algumas frases em português. Uma delas é a do sonho no qual era enterrada viva e depois salva pela mãe. “Molequinho do meu pai não me cortes os cabelos. Minha mãe me penteava, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho comeu... Depois não me lembro mais”.

O medo da morte, Freud coloca-o entre os elementos do “estranho”: “Uma vez que quase todos nós ainda pensamos como selvagens acerca desse tópico, não é motivo para surpresa o fato de que o primitivo medo da morte é ainda tão intenso dentro de nós e está sempre pronto a vir à superfície por qualquer provocação. É muito provável que o nosso medo ainda implique na velha crença de que o morto torna-se inimigo do seu sobrevivente e procura levá-lo para partilhar com ele a sua nova existência”.

Morrer longe de casa

Na linha do estranho freudiano, o passo seguinte de Trevisan será justamente a morte, sobretudo com o desaparecimento no desterro. A exemplo de Thomas Mann, Trevisan colocará seus personagens rumo a Veneza, onde, na quarta parte do romance (“Adagietto com Variazioni”), todos falarão da morte, presenciarão ao menos a experiência de quase morte ou até mesmo morrerão. Ana, com seus 60 anos, está mal com a tuberculose e é convidada por Julia para viajar. Na mesma época, Nepomuceno sofreu um ataque nervoso durante uma visita ao Monte Vesúvio, no sul da Itália, e sente palpitações cardíacas aos 26 anos de idade. Após uma sensação de quase morrer, decide ir para a Alemanha estudar música e, de passagem, fica alguns dias em Veneza.

A vida dos personagens corre paralela à idéia de deixar de existir, semelhante ao que ocorre na novela de Mann.

Lacan dizia que “a vida só pensa em morrer” e que viver não passa da longa espera pelo momento inevitável da morte: “Quando vamos à raiz desta vida, e por detrás do drama da passagem da existência, não achamos nada senão a vida conjugada com a morte. É aí que a dialética freudiana nos leva”.

A dialética freudiana é a tentativa de tornar a vida mais suportável ou de reduzir o desprazer na busca do equilíbrio no prazer. Mas a ironia de Lacan complementa: “a vida não quer sarar”. Trevisan mistura ecos lacanianos na fala de Ana ao conhecer Nepomuceno: “Nóis carrega dentro a vida e a morte. A vida é fácil de aceitar. Mas a morte, Gott bawahre! A morte inziste dentro do corpo e do coração de nóis. Ela é o capeta, wirklich. Enquanto eve, nóis carrega a morte...”.

O encontro de Nepomuceno, Ana e a família Mann reúne a morte, o estranho, o estrangeiro e  a saudade do Brasil. O compositor brasileiro caminha pela praia do Lido de Veneza e vê, ao longe, uma rede estirada com alguém deitado com o grande chapéu. O que a rede lhe recorda é o Ceará, onde nasceu, e aquele artefato que serve também para os enterros no Nordeste brasileiro. O estranhamento cresce ao ver uma velha negra deitada no local e na cidade mais improváveis. “Lei parla...— começou Alberto, diante da mulher, esforçando-se para não gaguejar. — A senhora... a se-nho-ra parla... ou... parlez-vous?... A madame fala português?”.

Trevisan descreve a reação de Ana como se ela estivesse frente a um fantasma, um dos sinais da relação estranho-familiar: “Sie sind.. É um sinhozinho? Siozinho...- murmurou. Sind sie...? Aber das ist Portuguiesisch...Ein Brassilianer vielleicht? Das glaude ich nicht. Kommen Sie aus Brasilien? Das ist nicht möglich...Sind Sie?...Wirlich?”. Ela tenta se comunicar com o jovem Alberto, mas se esqueceu de tudo, é uma desterrada de suas origens.

As conversas de Nepomuceno e Ana fazem rememorações vagarosas, justamente como um adágio musical. Mas é a morte o assunto que ronda e assombra os dois personagens, sobretudo a idéia de morrer longe de casa. “Wissen Sie, a morte faz eu estrangeiro. Entonce, seu eu não ficar amigo dela eu seguir estrangeiro pra eu.

Pruquê eu só ser a nega Ana se eu estrangeiro não ficar. Ich meine, se eu estrangeiro dentro de eu ficar parecido que nem eu. Depois que eu aceitar a morte dentro de eu, entonce eu andar de mão com ela”, diz Ana.

O fim da caminhada de Ana será na praia em meio a uma tempestade de chuva. Mesmo com tuberculose, ela ignora a doença e entra no mar em transe. Nesse momento, o passado e o presente se misturam em sua fala carregada de expressões dos tempos africanos. A proximidade da passagem para outra vida traz a sabedoria:

“Pouca saúde e muita saudade os males da minha minina são! — emendou ela, serelepe. — Pois o muleque Gustav gostava de bolebolir com a dúvida. Tinha corage o rapaiz. Mas brigava sem pará, pruquê quiria descubrir tudo demais. Brigava contra esse num-tem-jeito que é ser gente e só receber minguada expricação”.

Assim como Aschenbach, personagem de Thomas Mann, Ana tem o encontro definitivo com a morte na praia do Lido. A chuva e o frio agravam a tuberculose, e ela não resiste e morre após chegar ao hotel. Nepomuceno não estará a seu lado e apenas receberá já na Alemanha uma carta de Julia Mann relatando o falecimento. Quando se despede de Ana, ela simplesmente diz: “— Vai com Deus, siozinho!”. A longa passagem por Veneza se encerra com a carta de Julia, mas existe ainda uma parte final que guardará um relato de pós-morte ao leitor. Se a morte estava na cidade italiana, como em Thomas Mann, o “pós” se encontra em Berlim, onde surge o tempo contínuo de 1891- 1991.

Pós-morte

O trecho final do livro repõe a questão de como narrar após a morte, o relato impossível definido por Lacan. O que há depois? O fim de "Ana em Veneza" será um retorno ao começo da narrativa. Ou seja, o livro termina com uma entrevista, como a da Confeitaria Colombo. É uma estranha conversa. Ao fazer 27 anos de idade, em 1891, Nepomuceno vai à estação de trem de Berlim para encontrar um jornalista vindo do Brasil. Este está em busca de artistas brasileiros que vivem no exterior com bolsas do governo. Haverá, portanto, a entrevista que muda de rumo quando Alberto ouve uma música de Carlos Gomes no local — mais uma vez o estranho/familiar se transforma no ponto de inflexão. Imediatamente a estação se transforma em aeroporto no ano de 1991.

A entrevista vai sofrendo uma lenta metamorfose que resultará, no final das contas, em um ensaio-confessional de Nepomuceno com os eventos de 1891 e 1991 se misturando: “Com o colapso do império comunista, a questão do nacionalismo está voltando a toda. O neo-nazismo é uma realidade. Está proliferando especialmente nos estados que faziam parte da antiga Alemanha comunista, onde tem ocorrido a maioria dos ataques a estrangeiros. (...) Aqui é grande o temor de que a invasão dos refugiados do ex-mundo comunista se torne o principal problema da Europa no ano 2000. Isso já se sente claramente em Berlim”.

Ao leitor, caberá ligar esse trecho à conversa dos alemães na casa dos Bruhns em Lübeck: os imigrantes europeus se tornaram escravos nas lavouras brasileiras no século XVIII, mas agora a civilizada Europa rejeita estrangeiros que fogem da pobreza das ex-colônias. O final da entrevista é uma crítica aos meios de comunicação. Não são, porém, comentários a respeito da mídia moderna o lado mais ácido desse trecho do livro. Um detalhe ilumina e revela esse pós-morte. Quem entrevista o compositor brasileiro é o jornalista chamado Adrian. Mais precisamente Adrian Leverkühn, o personagem que realiza o pacto com o demônio no romance "Doutor Fausto" (1947), de Thomas Mann. Também compositor, Leverkühn é a metáfora da Alemanha que se entregou ao nazismo. Nazismo que talvez tenha sido o fenômeno que mais rejeitou o “outro”, o estrangeiro, no século XX e mais apresentou a face da morte.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:49 PM

Simão Bacamarte e seus descendentes

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A biologização da vida é um fenômeno das últimas décadas. Os sintomas vão desde o Prozac até o combate ao terrorismo pelo governo George W. Bush. Se uma pessoa está triste, basta tomar uma pílula. Se o governo dos Estados Unidos desconfia de alguém ser terrorista, está autorizado a vasculhar a vida do cidadão

 
 
No dia 2 de setembro, o jornal Folha de S. Paulo trouxe uma estranha notícia na seção de Ciência. Não dá para saber se é um fait diver, uma piada, uma pesquisa científica ou um pouco de cada coisa. Segundo o jornal, pesquisadores norte-americanos e suecos analisaram 2.186 adultos para descobrir genes e substâncias relacionadas à infidelidade no casamento. Como ilustração, os editores incluíram uma foto de Bill Clinton, ex-presidente do Estados Unidos e conhecido por casos extraconjugais. “Os homens com duas cópias do alelo 334 tinham mais chance de não oficializar suas uniões estáveis na forma de casamento”, diz o texto .

Se o leitor ficou pouco convencido, o jornal tenta aprofundar a argumentação para convencê-lo: “Os pesquisadores examinaram nessas pessoas o gene que produz o hormônio vasopressina. (...) O corpo produz vasopressina, por exemplo, durante uma relação sexual. A sensação de prazer provocada pela vasopressina fica associada ao convívio com o parceiro e aumenta as chances do casal dar certo”. São argumentos risíveis e inacreditáveis para um jornal de grande circulação que se pretende sério. Dúvida: como ficam os mulçumanos ou o sistema de concumbinato dos chineses? O profeta Maomé tinha, na verdade, disfunções no alelo 334 ou na vasopressina? 

Dá para pensar numa recaída do jornal à linha do extinto Notícias Populares, que era também do grupo Folha de S. Paulo. Mas certo mesmo foi a conversão do dono do jornal, Otávio Frias Filho, ao culto do cientificismo, como atestam textos recentes dele sobre Charles Darwin. Está de volta, para ampla circulação, a defesa do uso da biologia no pensamento social. A utilização de Darwin atende bem a uma estratégia de desqualificação das ciências sociais em geral e, claramente, do pensamento de esquerda na atualidade. E nisso, um texto de Frias Filho, publicado na revista
Piauí, deixou bem claro as intenções do autor e dos novos fanáticos pela biologia:

“As ciências sociais não se recuperaram do impacto provocado pela dissolução do experimento socialista nos anos 80 e 90. Pois não foi apenas o marxismo, que exerceu um domínio hipnótico sobre o pensamento humanístico no século XX, quem sofreu um xeque-mate com a derrocada do ‘socialismo real’. Foi atingido também o projeto, acalentado pela sociologia desde o início, de transformar a sociedade segundo critérios de planejamento racional, com vistas a superar a forma iníqua e perdulária de sua organização espontânea, ‘natural’. Desbancada de sua soberba, a sociologia passou a imitar sua colega, a economia, tomando lições de matemática. Restou incólume a história, isolada em eterna ruminação.”

A biologização da vida é um fenômeno das últimas décadas. Os sintomas vão desde o Prozac até o combate ao terrorismo pelo governo George W. Bush. Se uma pessoa está triste, basta tomar uma pílula. Se o governo dos Estados Unidos desconfia de alguém ser terrorista, está autorizado a vasculhar a vida do cidadão e também de torturá-lo para obter informações. A vida ficou reduzida aos aspectos biológicos, de acordo com a idéia de “
vida nua” resgatada por Giorgio Agamben. No entanto, apesar da onda cientificista, surpreende o ressurgimento do biologismo como pensamento social num país que teve as narrativas de Machado de Assis e seu combate ao positivismo. 

Os romances e contos machadianos já traziam uma crítica à tentativa de controle da sociedade pelos cientistas. O personagem Simão Bacamarte, de O alienista, tenta aprisionar os loucos de Itaguaí com base nas teorias mais mirabolantes. Rubião, de Quincas Borba, é o indivíduo que sai de uma comunidade tradicional, não entende a lógica da metrópole (com suas normas de conduta) e enlouquece. No livro
A razão cética, Kátia Muricy estudou os romances machadianos e essas teses científicas da época que defendiam o casamento como uma medida sanitária. Contra a promiscuidade e a disseminação de doenças venéreas, o casamento seria uma maneira de limpar a sociedade.

É interessante que os pesquisadores de hoje queiram justamente encontrar o alelo e o hormônio das relações afetivas estáveis. Esquecem que o casamento é um contrato feito por pessoas, conforme se vê com toda a clareza no casal Macbeth, de Shakespeare. Os cientistas que avaliaram a ciência do casamento devem ter as boas intenções de sempre, mas eles e Otávio Frias Filho se aproximam do perfil de Simão Bacamarte. A intenção é a reforma social e do ser humano com métodos pretensamente científicos. Nem precisamos apelar à experiência nazista para mostrar a falácia em questão. Que a biologia tem suas regras ninguém duvida. O que é chocante é o retorno ao positivismo mais tacanho. 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:48 PM

Crise de paradigmas em Itaguay

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Itaguay está se desmanchando, cheia de pessoas enlouquecidas. Em busca de soluções concretas e não de utopias, o apresentador Simão recebe em seu talk show semanal convidados para apontar a saída racional e científica da crise. Os telespectadores poderão conhecer: o cineasta em seu trabalho contínuo de desmoralização do pensamento crítico, o mega-empresário lutando contra os movimentos sociais, o político-sociólogo que coopta intelectuais para o business, o dito maior filósofo nacional vilanizando a universidade, os dois cafajestes que se denominam grandes pensadores e o mago da publicidade a profetizar o consumo como salvação. O programa desta semana está imperdível. Assista aqui.


 

O apresentador Simão entra no auditório de televisão. A platéia grita, e ele pede silêncio para falar. 
 
Simão: Meus caros, boa noite, o mundo está fora dos eixos. Há muita gente louca à solta por aí. No programa de hoje, receberemos alguns convidados que dizem ser contra a loucura nacional. São as nossas cabeças mais admiradas. No primeiro bloco, o grande cineasta e palestrante de sucesso conta como trabalha diariamente pela desmoralização do pensamento crítico. Em seguida, o presidente da grande multinacional brasileira vai criminalizar os movimentos sociais, sobretudo os sem-terra. Amigos, o programa está mesmo imperdível.

Olhem só: o político-sociólogo falará da cooptação dos intelectuais para os negócios e a política partidária. Trouxemos ainda o filósofo que se considera o maior do país e que detona a universidade brasileira. No rol das surpresas, apresentamos os dois cronistas mais brilhantes da imprensa brasileira que mostram como os cafajestes promovem a si mesmos à categoria de grandes pensadores. Por fim: o mago da publicidade que criou a “ditadura baiana da felicidade” defende o consumo contra a cidadania. Não está demais, gente? Beijo do Simão e voltamos já.
  
1o Bloco



Simão: Estamos aqui com o grande diretor de filmes pornô chique dos anos 80 e que virou um dos principais colunistas multimídia no Brasil. Após anos de crítica à sociedade, ele é um dos mais ilustres representantes da “rebelião a favor”. Cineasta, por que tanto ressentimento?

Cineasta: Poxa Simão, não é isso. O problema é a falta de complexidade de quem pensa. O progressismo virou um ensopadinho de desenvolvimentismo, getulismo, leninismo, estatismo e sindicalismo.
 
Simão: A saída está do outro lado?
 
Cineasta: O ensopadinho é a utopia irrealizável e impede a agenda modernizadora, de mudanças óbvias, mas áridas para o gosto da velha esquerda: reforma tributária, reforma da Previdência, enxugamento do Estado. O monstro do Mesmo insiste em barrar a Razão.
 
Simão: Quem é a Razão?

Cineasta: É o nosso grande Político-sociólogo, o equilibrista, complexo, que você entrevistará daqui a pouco.
 
Simão: A Razão é óbvia como a lei da gravidade?

Cineasta: Sabe, o ideologismo me dá medo porque prescinde do estudo, da técnica, da análise. Falta ciência.
 
Simão: É o apocalipse globalizado que você vende a empresários em palestras de R$ 20 mil a hora?

Cineasta: A esquerda moderna não é feita de fé, é feita de lógica. O verdadeiro homem de esquerda está sempre se adaptando às mudanças históricas em busca do bem da sociedade, da qualidade de vida das pessoas, da justiça.
 
Simão: Os empresários acreditam nisso?
 
Cineasta: Falo com voz grave que as mudanças que têm de ser feitas no Brasil estão catalogadas cientificamente. Uso palavras meio complicadas, umas sacações, que nem mesmo eu entendo. Eles adoram e me pagam mais. Aprendi isso com uns amigos professores de economia, hoje banqueiros, que ganham uma grana boa para explicar por que quebraram o país e hoje estão ricos.
 
Simão: Bem, acabamos de ouvir as palavras brilhantes do Cineasta. No próximo bloco, receberemos o mega-financista que comprou estatais na privatização pagando tudo com dinheiro de bancos públicos.

Cineasta: Simão, se você me permite... Talk shows são o que há de mais avançado na maneira de refletir e debater a atualidade. David Letterman e você, claro, são muito superiores a Fredric Jameson.
 
2o Bloco




 
Simão: É uma honra receber o presidente da grande multinacional brasileira. Ele vem batendo de frente com os broncos dos movimentos sociais. Boa noite, o que você acha dos sem-terra?
 
Presidente: Totalmente criminosos e bandidos, que não respeitam a lei e não respeitam a democracia. Fazem um discurso dizendo que respeitam e querem a democracia, mas não respeitam a democracia.
 
Simão: É uma luta de classes?

Presidente: Não, não. Luta de classes já era, estamos num mundo globalizado. O que essa gente precisa é cumprir a lei.
 
Simão: Lei de mercado ou criminal?

Presidente: Os sem-terra estão batendo na porta errada. Eles deviam bater na porta dos bancos ou do governo estadual ou federal, e não aqui na minha empresa. Não temos nada com isso. Nós temos alguma coisa a ver com reforma agrária? Não.
 
Simão: O que você recomenda aos sem-terra?
 
Presidente: Vão trabalhar.
 
Simão: Com ou sem carteira assinada?
 
Presidente: Carteira assinada vai contra a flexibilidade necessária do mercado de trabalho global. Aumenta os custos da economia local. Como bem disse o brilhante cineasta, de quem assisti a uma palestra recentemente, precisamos de reformas que foram catalogadas cientificamente. 
 
Simão: É verdade. A Ciência é a saída. Muito obrigado. No próximo bloco, temos a honra de receber o grande Político-sociólogo. Fique aí nos esperando.
  
3o Bloco




 
Simão: Que honra, Político-sociólogo. Nos diga, conhecimento é dinheiro?
 
Político-sociólogo: Mais do que nunca. Quando se financia a pesquisa acadêmica, ela deve gerar tecnologia e patentes industriais. Os intelectuais devem se tornar empresários. Imagine um pesquisador improdutivo.
 
Simão: Por isso, os professores de economia estão virando donos de banco e criando uma nova classe?
 
Político-sociólogo: Esqueça a história de classes sociais. Voltando ao que interessa. O sujeito ganha uma bolsa de doutorado da CAPES, vai para os Estados Unidos aprender a mais sofisticada econometria, e depois você quer que ele vá trabalhar para diminuir a pobreza. Isso é antieconômico. Ele precisa tornar o país eficiente.
 
Simão: Bolsa de estudos é válida, mas não as bolsas de renda mínima?
 
Político-sociólogo: Há bolsas e bolsas. Uma vai alimentar o conhecimento que deve virar patente, licenças, royalties. É o futuro. Outras são para administrar a miséria, é olhar o mundo pelo retrovisor. Não vamos deixar o cara morrer de fome, precisamos gerenciar a escassez. Digo que governar o Brasil é gerir o atraso.
 
Simão: Você é um político consagrado e sociólogo. Onde entra a sociologia em seu pensamento político?
 
Político-sociólogo: O que ocorre é que mudei de ramo. Virei político profissional. Deixei de ser acadêmico. Eu não traí o meu passado. Eu o abandonei, mas continuei usando adereços da formação acadêmica, como as citações em língua estrangeira. Eu instrumentalizei o meu passado intelectual para turbinar a minha imagem, pois existe um mercado da política no qual devemos nos diferenciar.
 
Simão: Muito elucidativo. Você e o Cineasta são a mesma pessoa? Não importa. A seguir, conheceremos as idéias de outro intelectual moderno. Na verdade, teremos aqui no palco o filósofo que se diz o maior do país. Não percam.
  
4o Bloco

 


 
Simão: Gente, o nosso convidado é uma sumidade, segundo ele mesmo se define. É um combatente das misérias intelectuais do Brasil e um crítico da universidade que estaria infestada de progressistas. Boa noite...
 
Filósofo maior: Boa noite.
 
Simão: Filósofo maior, você é frustrado por não ter conseguido terminar um curso superior?
 
Filósofo maior: Veja bem, só completei o clássico, como diziam na minha época. Se for preso, pego cela comum. Infelizmente. Por mais de dez anos, fiquei isolado e estudei as religiões. Vi então que havia algo de muito errado com o ensino superior. O Brasil tem a pior escola do mundo. Para mim, no entanto, tanto faz dar aulas na faculdade ou embaixo da ponte.
 
Simão: Com que autoridade você opina sobre temas tão diversificados?
 
Filósofo maior: Se eu opino é por absoluta necessidade. O que mais me surpreende é que só eu percebo as coisas. A universidade só tem analfabetos, uns esquerdistas que não viram que o futuro está no pré-Iluminismo.
 
Simão: A verdade no pré-Iluminismo?
 
Filósofo maior: A Revolução Francesa foi um erro. Qualquer revolução é uma deformação provocada pela idéia de práxis. Existe uma democracia que resulta em mediocridade cultural. Precisamos voltar à época dos intelectuais como clérigos. As missas, por exemplo, deveriam ser rezadas novamente em latim.
 
Simão: Os jacobinos estavam errados?
 
Filósofo maior: Completamente. Qualquer revolução é uma merda. Perdão pela franqueza. A esquerda inventou essa loucura de igualdade. O que é isso, meu Deus? O povo brasileiro é maciçamente de direita em cultura, moral, costumes. O verdadeiro homem não tem de defender apenas o livre mercado, mas um estilo de vida a ser seguido: anticomunismo, livre empresa, respeito à propriedade, moral judaico-cristã, educação clássica.
 
Simão: Devemos nos preocupar apenas com a liberdade?

Filósofo maior: Vamos falar às claras. Se cada brasileiro fosse reclamar seu direito à propriedade, aonde iríamos chegar? O Brasil inteiro seria retalhado. Se cada filho de uma doméstica exigisse direito à igualdade, aos estudos e a comer mais, o que iríamos fazer? O que está a nosso alcance é garantir um alimento mais vital do que o pão, uma riqueza mais fértil que a terra. Eu falo do direito à liberdade.
 
Simão: Ao vencedor, as batatas?

Filósofo maior: Evidente.
 
Simão: Que iluminação! Vamos para um intervalo, antes de receber os dois maiores cafajestes intelectuais do Brasil. Aguardem.
  
5o Bloco


 
Simão: Dois cronistas que iluminam nossa visão da atualidade. Como virou moda admirar Nelson Rodrigues, eles são assumidos cafajestes. Escrevem seus textos na imprensa, na internet, e depois juntam tudo num livro. Fazem propaganda de si mesmos e sobem na lista dos mais vendidos. Boa noite, como vocês dois conseguem ser tão, tão cafajestes?

Cafajeste-cronista: Meu amigo aqui é o melhor articulista do país, comprovado por uma empresa de consultoria dos Estados Unidos, a mesma que fazia as auditorias da Enron. Sou uma das centenas de milhares de macacas-de-auditório dele e o leio várias vezes ao dia.
 
Simão: De onde vem o sucesso tão retumbante?

Cronista-cafajeste: Acho que de minha ironia fina, sofisticada, quase machadiana. Chamo crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido, esquerdistas de assassinos, gays de degenerados morais, de ignorante quem discorda de mim. No auge de minha esquizofrenia, sustento que a lei deve ser cumprida.
 
Simão: Curioso. Vocês falam em cumprir a lei, mas vivem praticando a calúnia, a injúria e a difamação em suas crônicas.

Ambos os cafajestes: No Brasil, o assombroso é ficar do lado da lei. Insistimos nas leis e regras da democracia, da gramática, da lógica e dos bons costumes. Isso é um escândalo aqui. Transgredimos as regras, é verdade, mas é por uma boa Razão e porque temos bons advogados, claro.
 
Simão: Qual Razão?

Cronista-cafajeste: No próximo bloco, acho que o amigo Publicitário pode ter a melhor resposta para a nossa grande causa.
 
Simão: Qual de vocês é o mais brilhante?

Cronista-cafajeste: O meu amigo aqui...

Cafajeste-cronista: Que nada, você é o maior.

Cronista-cafajeste: Não, não, você passeia brilhantemente por diversos assuntos.

Cafajeste-cronista: Está bem, fico com o título, por humildade e camaradagem.
 
Simão: Que figuras incríveis, eles parecem lordes ingleses do século XIX, em pleno Rio de Janeiro Imperial e escravista. Obrigado... No último bloco do programa, vem aí o Publicitário, o gênio brasileiro de hoje.
 
6o Bloco

 
  
 
Simão: Ele é imbatível. Com uma frase feita e óbvia, elege presidentes e vende diversos produtos. Ele dirá o que é o novo conceito de cidadão. Publicitário, você é um fetichista?

Publicitário: Isso é coisa de Brecht, que foi um stalinista nojento. Ele queria expor as relações sociais embutidas naturalmente nas coisas. Veja só, um empresário põe seus empregados para trabalhar 14 horas dia e faz um programa de responsabilidade social, com ginástica laboral, para compensar. Isso é o que há de mais moderno. Se fosse na época do Brecht, seria acumulação primitiva. Tem muito empregado que lesa os patrões nas empresas.
 
Simão: A publicidade tenta vender o que não precisamos comprar?

Publicitário: Não insista no tom brechtiano, meu caro. Não vendemos produtos, vendemos a necessidade de comprar produtos. Não existe mais consumo de massa, agora é tudo personalizado, feito para um consumidor único.
 
Simão: A economia de mercado traz a felicidade?

Publicitário: Se fossemos entregar a felicidade, ninguém consumiria. O segredo é a promessa de felicidade. A vida está sempre mais ou menos, aquela pasmaceira, mas o consumidor precisa acreditar que tudo vai melhorar.
 
Simão: Mesmo que as pessoas se matem para isso?

Publicitário: Outro dia, li uma entrevista que não entendi bem. O sujeito, que é um notório atrasado, disse: “O problema é a maneira pela qual a sociedade é regulada pela noção de consumo como condição de acesso à plenitude da vida. Se você não tem acesso àqueles bens, você é um nada. E é a única coisa de que você dispõe. Trocam-se direitos por consumo”. Onde já se viu? É contra consumir.
 
Simão: Devemos ser consumidores ou cidadãos?

Publicitário: O Brasil somente será uma grande nação quando tiver um mercado consumidor do tipo norte-americano. Junk-food, gordura trans, carrões, mulheres com os seios grandes de silicone. Esse discurso de cidadania, dos direitos humanos, cheira a mofo. O máximo que todos deveriam reivindicar é liberdade.
 
 
Encerramento



Simão fica diante da platéia, baixa o olhar, comprime os lábios e começa a falar.

Simão: Foi uma noite e tanto. É a prova de como ficou estúpido ser inteligente. Se você quer ser grande, repita as lições ditas ao longo do nosso programa. Lembrem-se do meu velho irmão Janjão, o medalhão. Estamos diante da crise de paradigmas em Itaguay, e os convidados de hoje têm a saída. 

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:43 PM

Sobrevivendo no inferno

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Os romances e filmes contemporâneos anteciparam interpretações sociológicas que identificam as contradições no Brasil globalizado. O que está difuso na ficção, sob múltiplas perspectivas e formas, aparece sistematizado em Roberto Schwarz, Francisco de Oliveira e Paulo Arantes. Eles são responsáveis por uma interpretação aguda da situação do país e mantêm um diálogo com toda essa produção cultural

 

Cada período histórico elabora uma visão particular de mundo. Quando se trata de algo formal, sistemático e que estrutura a própria sociedade, podemos chamar essa visão de ideologia. As manifestações culturais e artísticas escapam à rigidez dos enquadramentos ideológicos. No entanto, artistas e intelectuais compartilham formas e métodos de captar os movimentos da atualidade, mesmo ao investigar o passado.
Raymond Williams chamou de “estrutura de sentimento” esse modo dinâmico de perceber o mundo pelas artes. O conceito de Williams guarda semelhanças importantes com a noção de “consciência” de Antonio Candido, formulada no ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”.

Na atual globalização, o Brasil mantém firme na ideologia da modernização conservadora, concebida no século XIX e que sobrevive aos mais distintos ocupantes do poder. Não é o mesmo caminho da modernidade, com emancipação e igualdade. Os brasileiros ainda tentam superar, pelo liberalismo, o que pensam ser o atraso nacional. Para
Raymundo Faoro, a modernização é a grande questão nacional do Brasil. O contraponto a essa ideologia aparece nas “estruturas de sentimento” que, por meio das artes, dão uma visão mais apurada da atualidade e captam as oscilações do presente. Movimentos estes que demoram a ser percebidos e aparecem em romances, músicas e filmes.

Antonio Candido identificou três momentos históricos da consciência brasileira. O nascimento do Brasil, após a independência em 1822, possibilitou o surgimento de uma “consciência amena do atraso” para dar suporte à idéia de “país novo”, recém separado de Portugal. Os autores românticos se empenharam em elaborar um passado patriótico e esperançoso em relação ao futuro. A figura do índio predominava em romances e poemas, em detrimento do negro que era proscrito na sociedade imperial e escravista. Era uma base simbólica para criar uma nação sem negros. Na Europa, ocorria movimento similar de criação de representações históricas por meio da literatura.

Nos anos 1920 e 1930, emergiu uma segunda consciência. A literatura regionalista do Nordeste (Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego) e o ensaísmo social reconhecem a complexidade do atraso no Brasil. Na visão de
Sérgio Buarque de Holanda, tratava-se de conhecer a “herança rural” e o arcaísmo que travam a nação e devem ser superados. Para Gilberto Freyre, a sociedade se desenvolveria pela miscigenação racial, gerando “democracia social”. A aproximação da literatura e do ensaio era grande, a ponto de o autor de Casa Grande & Senzala falar da necessidade de “introspecção proustiana” para quem fosse analisar a família patriarcal brasileira.

Os anos 1950, após a Segunda Guerra Mundial, trouxeram a “consciência dilacerada do subdesenvolvimento”. Trata-se da formulação de uma identidade que rendeu bons frutos na política e nas artes. Autores como Guimarães Rosa e Juan Rulfo ultrapassam o naturalismo do romance social de décadas anteriores e alcançam uma perspectiva latino-americana. Coincidem com as obras regionalistas/universais as grandes interpretações do período.
Celso Furtado teorizou o subdesenvolvimento no final daquela década, enfatizando as relações dos países centrais do capitalismo e nações periféricas. Nestas, lançou-se o ideário da possível ultrapassagem do atraso na América Latina.

O desenvolvimento viria da inclusão dos pobres aos benefícios da modernidade, como a alfabetização em massa e a industrialização. Porém, os projetos nacionais na América Latina acabaram abortados por golpes militares. Surgiu um laboratório continental para viabilizar, no final das contas, o neoliberalismo da globalização nas décadas seguintes. A herança deixada pelos militares foi o trauma da violência contra seus opositores e um desmanche das sociedades. Ao final, os latino-americanos construíram um sentimento de que a ideologia liberal gerou um trauma maior e enraizado de forma mais profunda na sociedade, como se vê no Brasil.

Com base na periodização de Antonio Candido, é possível identificar um quarto estágio de consciência ou estrutura de sentimento. Nada mais indica que a sociedade pode superar a condição subdesenvolvida, da maneira imaginada no passado. As cidades eram promessas de emancipação das pessoas na década de 1960, porém encarnam na virada do milênio os sinais perenes e mais selvagens do atraso social. A percepção de fim de linha em que nos encontramos está nas narrativas de ficção (romances, contos, filmes), nas letras de músicas, na nova dramaturgia brasileira e nas interpretações sociológicas que analisam o Brasil no mundo globalizado.
 

Cidade, medo, violência


A literatura contemporânea vem incorporando os movimentos da rápida urbanização do Brasil, em continuidades e rupturas que dificultam a vivência nas cidades. Há quase 40 anos, o país deixou de ter uma população predominantemente rural. As narrativas atuais são prioritariamente relatos de personagens homens que vagam pelas ruas, exibem espaços hierarquizados com a segregação que remontam a questões históricas da pobreza e, principalmente, evidenciam a violência. Flora Süssekind nota que “é fundamentalmente um imaginário do medo e da violência que organiza a paisagem urbana dominante na literatura brasileira contemporânea”.

Nos anos 1970, apareceram narrativas que tratam do desmanche do Brasil.
A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector, problematiza a dificuldade de se compreender os movimentos da cidade, mais especificamente a angústia dos intelectuais frente à massa urbana. O narrador, Rodrigo S.M., é o escritor que se propõe a criar um personagem que está do outro lado na sociedade. No diálogo desconfortável da elite com o povo, Clarice Lispector expõe a inadaptação de uma mulher nordestina, pobre e iletrada (a personagem Macabéa) que sai do ambiente arcaico e rural para entrar diretamente no mundo urbano, que é igualmente brutal.

“O Rio [de Janeiro] permanece para Macabéa um enigma, um monstro que lhe tirará a vida, a megalópole que tudo devora. Mas o Rio, sujeito, personagem, está voltado para o passado como Macabéa. A violência do cangaceiro é substituída pela violência do motorista de trânsito”, nota Bárbara Freitag. A passagem do mundo rural ao urbano é um passo em falso rumo à modernidade, daí a originalidade de Clarice Lispector. Situação semelhante pode ser encontrada em
As Mulheres de Tijucopapo (1980), de Marilene Felinto. A personagem Rísia é uma mulher letrada, ao contrário de Macabéa, mas que tampouco se encaixa na metrópole e foge em busca de suas origens nordestinas.

Antes de Macabéa e Rísia, uma personagem feminina elaborou a impressionante metáfora do que se tornou o meio urbano do Brasil. A diferença com Lispector e Felinto é que a autora
Carolina Maria de Jesus morava numa favela em São Paulo, no período de maior euforia do país para superar o atraso, os anos do desenvolvimentismo de JK. Ela escreveu um diário publicado em 1960 e dividiu a cidade espacialmente: as favelas como “quarto de despejo” e o restante sendo a “sala de visita”. Assim, uma nova dicotomia (sala de visita/quarto de despejo) explica a sociedade e se junta aos dualismos do pensamento brasileiro (casa grande/senzala, moderno/arcaico).

As três escritoras tangenciam a temática da violência que aparece mais em formas simbólicas – ainda que não menos vigorosas e cruéis. A representação realista de crimes e roubos coube aos contos de Rubem Fonseca. Em que pesem críticas pertinentes de exploração banal de atos violentos e reforço dos preconceitos aos pobres, as narrativas de Fonseca trazem o sentimento da fratura social brasileira e focalizam a biopolítica usada para administrar a violência. Antecipa-se em Feliz Ano Novo (1975) a brutalidade na cidade do Rio de Janeiro que aparece com freqüência nos meios de comunicação, restando aos senhores o “estado de sítio” em suas casas.

Aos poucos, constituiu-se uma narrativa da sociedade brasileira nada pacífica e sem a “democracia social” sugerida por Gilberto Freyre. Não há miscigenação racial que atenue a violência e, ao contrário, a nação se mostra ainda mais conflituosa e desintegradora. Na perspectiva de Paulo Arantes, o Brasil assume a figura da “fratura exposta” do capitalismo mundial, o país onde a economia de mercado pode se revelar por inteiro e sem atenuantes do estado de bem-estar social. Com a proximidade do século XXI, a ficção contemporânea recebe novos elementos para compor um quadro de exacerbação do consumo, a presença do narcotráfico e a sociedade mediada pelo espetáculo.

Estorvo (1991), de Chico Buarque, se constrói na escrita incômoda e repetitiva que acompanha o personagem “Eu” em suas andanças circulares no Rio de Janeiro. Consciência e alucinações organizam a perspectiva do narrador que mantém a caminhada sem rumo. Nem a ida ao campo, ao sítio da família, o reconforta, pois lá só encontra os problemas das cidades. Com uma escrita propositadamente desagradável e redundante, o compositor de belas canções populares apresenta a fisionomia da metrópole fraturada e destroçada. A militância política contra a ditadura militar dá lugar ao sentimento de perplexidade de um observador implacável dos temas atuais.

Uma das representações da metrópole que tiveram maior impacto foi
Cidade de Deus (1996), de Paulo Lins. A repercussão da obra se ampliou pelo fato de o autor ter sido morador de favela e ser um intelectual com formação universitária. O livro é a recriação ficcional da favela que se parece a uma fazenda no início do romance e se transforma num amontoado de casas urbanas mal formadas, em meio a vielas e becos. A escrita em terceira pessoa se desloca por múltiplos pontos de vista, a narrativa não avança, e se repetem indefinidamente as histórias violentas. A repetição, o girar em falso, seria a forma literária para a narrativa contemporânea do Brasil.

A cidade brasileira nunca foi, na verdade, um espaço civilizatório. Os “homens livres” de Memórias de um Sargento de Milícias (1855), de Manuel Antônio de Almeida, recorreriam à malandragem para ascender socialmente e navegar entre as esferas da ordem e da desordem, segundo a clássica análise de Antonio Candido. A novidade de hoje é que os “bichos soltos” de Paulo Lins não se encaixam no modelo clássico do malandro (um dos fetiches mais duradouros da identidade brasileira) e assim vão um a um morrendo ao longo do romance. O malandro de antigamente que sobrevivia de pequenos delitos vira marginal ou traficante pronto para morrer na próxima esquina.

A degradação urbana aparece também em
Eles Eram Muito Cavalos (2002), de Luiz Ruffato. Não é somente a cidade que está danificada, mas também a própria possibilidade de narrar, como no realismo do século XIX. A narrativa passeia pela cidade São Paulo, num único dia (9 de maio de 2000), em 69 capítulos que poderiam ser contos. Há representações usuais dos migrantes, da classe média. Mas o que ordena e estrutura a sociedade são os atos violentos e o consumismo. A cidade é impossível de ser habitada, e não se atinge jamais o padrão do chamado mundo desenvolvido. Aflora o que existe de pior de uma megalópole global na periferia do capitalismo.

A narrativa contemporânea encara a violência como algo que atravessa as classes sociais. A brutalidade contamina hábitos da classe alta de quem, segundo
Roberto Schwarz, se esperaria no passado a pedagogia da civilidade. Segundo ele, ao falar do romance de Chico Buarque, “depois dos tempos em que a pobreza ignorante seria educada pela elite, e de outros tempos em que os malfeitos dos ricos seriam sanados pela pureza popular, chegamos agora a um atoleiro de que ninguém quer sair e em que todos se dão mal”. Ocorre um desmanche de alto a baixo, e desaparece a consciência dos letrados do século XIX e de boa parte do XX que se dispunham a orientar os rumos da nação.

Em O Matador (1995), de Patrícia Melo, pequenos empresários realizam a Justiça na periferia de São Paulo contratando criminosos, como o personagem principal Máiquel. O nome do protagonista carrega a noção do espetáculo, o fascínio e a assimilação de formas narrativas do cinema norte-americano – o livro virou o filme
O Homem do Ano (2002). As esferas da legalidade e ilegalidade se interpolam em regiões de fronteira, uma vez que a periferia no romance fica entre a favela miserável e bairros opulentos da classe rica. O romance atualiza a representação do jagunço do campo, agora o matador pago no ambiente urbano. Máiquel retorna no romance Mundo Perdido (2006).

 
Não existe mais Brasil

A consciência da nação em pedaços chegou também ao cinema brasileiro que possui uma tradição de adaptar obras literárias. Nos últimos tempos, há uma proximidade maior entre escritores e cineastas. Um bom resultado dessas trocas foi
Cronicamente Inviável (1999), de Sérgio Bianchi, filmado a partir de uma história da escritora Beatriz Bracher. O título resume bem a consciência de impossibilidade social. A classe média rejeita o país em cenas altamente desagradáveis e recebe dos pobres uma resposta também abjeta. Segundo notou Ismail Xavier, o cinema nacional vem consolidando, em obras recentes, as figuras do rico ressentido e do pobre pragmático.

Em meio ao sentimento negativo, porém, há tentativas de encenar a acomodação de conflitos. Central do Brasil (1999), de Walter Salles, sugere a fuga dos personagens que só encontram a felicidade no sertão, em conjuntos habitacionais (símbolos da modernização conservadora), onde moram pessoas com nomes bíblicos. A cidade não é espaço iluminista: o Rio de Janeiro do filme contém só miséria, abandono, exploração dos pobres e tráfico de órgãos humanos. Fica no premiado filme de Salles a ambigüidade de uma visão idílica do interior do Brasil (o país profundo dos neoliberais) que já havia sido desmontada pelo regionalismo da década de 1930.

O contraponto à obra de Salles é o trabalho de
Cláudio Assis. Os filmes Amarelo Manga (2003) e Baixio das Bestas (2007) fazem um passeio chocante pela vida de Recife e da zona da mata pernambucana. Em seu filme mais recente, o diretor reúne os fios da meada do universo em torno da cana de açúcar. Num salto dialético e contraditório, uma das estruturas sociais mais atrasadas torna-se a ponta de lança do capitalismo com o boom dos biocombustíveis. Impressiona a capacidade de Cláudio Assis em dramatizar, com recursos técnicos ultramodernos, a situação de uma pequena cidade interiorana no choque com a modernização e a permanência de traços arcaicos.

 
 
Novos intérpretes da nação

Os romances e filmes contemporâneos anteciparam interpretações sociológicas que identificam as contradições no Brasil globalizado. O que está difuso na ficção, sob múltiplas perspectivas e formas, aparece sistematizado em Roberto Schwarz,
Francisco de Oliveira e Paulo Arantes. Eles são responsáveis por uma interpretação aguda da situação do país e mantêm um diálogo com toda essa produção cultural. Em comum, têm a idéia de que, na globalização, fecharam-se as portas de saída do subdesenvolvimento que foram imaginadas nas décadas de 1950 e 1960. Não se trata de mero pessimismo da razão, mas sim de um mapeamento do atoleiro do país.

No ensaio “Fim de Século” (1994), Schwarz ressaltou a derrocada de projetos coletivos e nacionais. Se o desenvolvimentismo falhou em trazer a prosperidade, os novos tempos tampouco tiveram êxito em alterar “nosso descaso secular com os pobres”. “A desintegração nacional não é uma questão nacional, e sim um aspecto da inviabilização global das industrializações retardatárias, ou seja, da impossibilidade crescente, para os países atrasados, de se incorporarem enquanto nações e de modo socialmente coeso ao progresso do capitalismo”, nota o crítico, que utilizou Machado de Assis para formular um das principais interpretações da sociedade brasileira.

Francisco de Oliveira seguiu a linha aberta por Schwarz e identificou na figura do ornitorrinco uma representação da sociedade brasileira. É o animal meio mamífero, meio ave e de difícil classificação. Segundo ele, a globalização e a nova revolução da informática impedem a superação do atraso pelos caminhos que se imaginava. Em parte do século XX, os brasileiros puderam se desenvolver na cópia de produtos estrangeiros. Tal estratégia foi bloqueada com a exigência de patentes de propriedade intelectual. Também se impede o caminho interno que poderia retirar esse obstáculo, pois faltam recursos disponíveis para acompanhar as mudanças tecnológicas do mundo.

O quadro de desmanche, segundo Oliveira, se completa com o surgimento de uma nova classe social, cuja centralidade está no mercado financeiro. Intelectuais e sindicalistas viram banqueiros e administradores de fundos de previdência. Ocorre uma derrocada social, como se vê em romances, contos e filmes brasileiros dos últimos anos. (O sociólogo não inclui o campo cultural em sua análise, mas bem que poderia ter analisado os operadores das leis de patrocínio.) Rompe-se o mito do “encontro marcado” do país com o futuro que compõe o imaginário nacional desde a Carta de Pero Vaz de Caminha e que se consolidou a partir dos escritores românticos.

Há quem enxergue nesse ornitorrinco o modelo a ser copiado pelo restante do mundo no começo do século XXI. O espelho muda de lugar, e são os estrangeiros que vêem a brazilianation de seus países, com a junção de extrema riqueza e miséria absoluta nas megalópoles globais. Criam-se os espaços onde a flexibilidade do trabalho nas empresas se assemelha ao modelo das empregadas domésticas brasileiras. Um executivo de empresa transnacional conhece a precarização do emprego, algo que as domésticas do Brasil estão cansadas de saber. A exceção do trabalho no Brasil, a ausência de direitos para domesticar o capitalismo, torna-se regra e exemplo a ser seguido na economia global.

A “fratura exposta” do Brasil torna-se uma forma social para o mundo globalizado e substitui, de uma vez por todas, a imagem louvada da nação que acomoda diferenças de classe e preconceitos raciais. O futuro mundial está na repetição de um passado desumano (no caso, o brasileiro). Na avaliação de Schwarz, “o avanço nos torna — quem diria — contemporâneos de Machado de Assis, que já havia notado no contrabandista de escravos a exceção do gentleman vitoriano, no agregado verboso a exceção do cidadão compenetrado, nas manobras da vizinha pobre a exceção da paixão romântica, nos conselhos do parasita de fraque a exceção do homem esclarecido”.
 
 

Relatos sobreviventes

O quadro traçado por artistas e cientistas sociais pode ser desolador. Mas é um passo necessário para repensar a cultura brasileira e as formas com que a sociedade se imagina e se olha no espelho. O malandro está apodrecido, o atraso do campo se ajustou às mil maravilhas no ambiente urbano, a globalização é mais uma promessa de felicidade. A renovação pode vir de outras maneiras de fazer e organizar as artes. Um dos movimentos mais interessantes de hoje vem das periferias das grandes cidades ou de autores que vão ao encontro do universo dos mais pobres. É pelas margens da sociedade que se consegue ter “a atualidade bem agarrada pelos chifres”, como sugeria Walter Benjamin.

A cultura do rap é ao mesmo tempo uma demonstração da “estrutura de sentimento” que vê o país aos pedaços e um alento cultural. Surge uma “literatura marginal” por autores como
Sérgio Vaz e Ferrez, que aliam o canto do rap à palavra escrita e reivindica a herança de Carolina Maria de Jesus. O livro Ninguém é inocente em São Paulo (2006), de Ferrez, reúne 19 contos e um deles, “Fábrica de fazer vilão”, é pequena jóia pela capacidade de narrar o que não se pode falar. Personagens falam do indizível e presenciam uma situação limite. Foi Ferrez que, num artigo de jornal em 2007, chocou os letrados de classe média ao narrar um assalto de um relógio chique na perspectiva de um motoboy.

O encontro entre letrados e pobres da periferia já rendeu, ao Brasil, manifestações culturais fundamentais como o samba. É gratificante, portanto, observar o diálogo de um compositor da estirpe de Chico Buarque com os rappers. Em Sobrevivendo no inferno (1998), dos Racionais MCs, o cantor Mano Brown lista uma série de bairros de São Paulo, numa saudação. Algo semelhante faz Chico na canção Subúrbio, do disco Carioca (2006). Chico está conversando com Brown e toda uma cultura à margem no Brasil. As letras dos Racionais MCs são verdadeiros contos, como a impressionante música “Rapaz comum”, que narra uma pessoa sendo baleada e carregada. 

O sentimento da fratura brasileira encontra uma síntese nas peças da
Companhia do Latão, de São Paulo (SP). O diretor Sérgio de Carvalho recorre à criação coletiva do grupo e reúne dramaturgia, literatura, música, pensamento político e interpretação do Brasil. A intenção é seguir os conceitos do teatro brechtiano e ligar os fios históricos e artísticos da experiência brasileira ao presente da globalização. A Companhia do Latão lançou neste ano, em livro, sete peças que devem divulgar um dos experimentos mais radicais e bem sucedidos em termos estéticos e de interpretação social. Antes de saber para onde ir, deve-se conhecer bem onde estamos.  
 
 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:41 PM

Geografia das letras

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Para reunir dados culturais e geográficos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elaborou a série Atlas das Representações Literárias das Regiões Brasileiras. O primeiro volume trata do Brasil Meridional. Até 2010, serão lançados dois volumes dos Sertões Brasileiros, um da Amazônia e outro da Costa Brasileira 

Fronteiras geográficas são áreas de conflitos e também de contato entre culturas diferentes. O limite meridional da Região Sul começou a ser definido após a destruição das Missões Jesuíticas na década de 1750. A coroa portuguesa criou então a província do Rio Grande do Sul. Ao norte e quase cem anos depois, o Paraná foi emancipado de São Paulo e virou uma província em 1853 para atender à demanda dos cafeicultores por novas terras de plantio. Não houve guerras, mas teve início uma colonização que levou à vinda de muitos estrangeiros como os japoneses e ao desmatamento da floresta nativa paranaense que deu lugar ao café.  

A formação histórica e social do Sul inspirou fartamente escritores de ficção da região em suas obras. É possível acompanhar em contos e romances como se construiu a imagem do gaúcho corajoso e hábil na lida com o gado; dos imigrantes europeus nas colônias fechadas; e dos desbravadores de áreas agrícolas. Para reunir dados culturais e geográficos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elaborou a série Atlas das Representações Literárias das Regiões Brasileiras. O primeiro volume trata do Brasil Meridional. Até 2010, serão lançados dois volumes dos Sertões Brasileiros, um da Amazônia e outro da Costa Brasileira.

Com uma rede de escritores e pesquisadores universitários, a equipe do IBGE seleciona romances de regiões específicas dentro dos estados e que vão além das divisões administrativas. Na edição Brasil Meridional, o enfoque recaiu nas áreas da Campanha Gaúcha, Colônias, Vale do Itajaí (SC) e Norte do Paraná.  Professor de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiz Augusto Fischer foi um dos consultores do Atlas e nota que existe o costume de ser ver o regionalismo como algo menor. Apesar da globalização, diz ele, “permanece válida a idéia de região como um âmbito cultural, um cenário de vida, um local de pertencimento, que nasce de uma variada combinação de fatores”.

Para estudar o Sul a partir da literatura, o ponto de partida foi a história das Missões. Os jesuítas criaram nos séculos 17 e 18 assentamentos (as reduções), onde os índios aprendiam a adestrar cavalos e a cuidar do gado. Trata-se do Oeste gaúcho nas cidades de Santo Ângelo, São Borja (terra de Getúlio Vargas), São Luís Gonzaga, São Nicolau, São Miguel, São João Baptista e São Lourenço. Ao fim das missões, os índios vão para as estâncias trabalhar e lá disseminam o consumo do chimarrão. Essa é uma das bases do monumental O tempo e o vento, de Érico Veríssimo (1905-1975).

Publicado em sete volumes entre 1949 e 1962, a obra de Veríssimo cobre um período que vai de 1680 a 1945, no Estado Novo, instaurado por Vargas. A personagem Ana inicia o tronco da família Terra-Cambará ao ficar grávida de um índio das Missões que aparece nas terras da família. A fundação do Rio Grande do Sul está simbolizada nesse encontro amoroso. Outro livro a tratar desse período é Sepé Tiaraju: romance dos sete povos das missões, de Alcy Cheuiche (1940-). O guerreiro guarani tornou-se uma história contada de uma geração a outra e símbolo de resistência dos gaúchos.  

A Campanha gaúcha é o espaço no qual será ambientada a mitologia do gaúcho. São os pampas das fronteiras com Uruguai e Argentina e a figura dos caudilhos. Para o escritor José Clemente Pozenato, autor do premiado O quatrilho (1985), a Campanha é a área de onde se disseminam as características do gaúcho: “o gosto pela ação enérgica, o espírito da fronteira, o alarde da coragem, sem falar nos pequenos hábitos cotidianos de alimentação, vestuário e diversão”. São traços tão marcantes, diz ele, que foram até assimilados pelos imigrantes europeus que chegaram muito depois ao Rio Grande do Sul no século 19.

Esse homem do campo, o gaúcho, também existe no Uruguai e na Argentina, o que configura uma fronteira cultural mais larga do que a geográfica. Segundo Fischer, da UFRGS, a fronteira imaginada é um espaço de lutas contra os castelhanos e da vida do gaúcho, “o homem voluntarioso, dotado de bravura e coragem notáveis, destro no manejo do cavalo e do gado”. Nesse sentido, Contos gauchescos (1912), de Simões Lopes Neto (1865-1916), é a obra clássica e traz as memórias do personagem Blau Nunes em suas andanças pelos pampas, de 1820 ao início do século 20, que criam a idéia de autenticidade do gaúcho.

A região de conflitos aparece em O tempo e o vento. A fictícia cidade de Santa Fé abriga Ana Terra ao perder a família. Anos depois, surge um dos personagens mais marcantes do imaginário do Sul, o capitão Rodrigo Cambará, que lutou todas as guerras e morre na Revolução Farroupilha (1835-1845). O conflito dos Farrapos aparece com todos os seus personagens históricos no romance Os varões assinalados (1985), de Tabajara Ruas, nascido em 1942 e um dos mestres em aliar Ficção e História.

A chegada dos europeus desloca a ficção da fronteira para a vida nas colônias. O Atlas do IBGE se detém em como os romances trataram da vinda dos imigrantes para a região em torno da Serra Gaúcha. Os alemães chegam a partir de 1824 com a política de ocupação territorial do Império. Estabelecem-se no Vale dos Sinos. Os italianos vêm em 1875 para cidades como Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi. Os alemães optam por ficar ao longo do rio dos Sinos (Sapiranga, Novo Hamburgo e Campo Bom) e do rio Caí (Morro Reuter e Dois Irmãos). Com o passar dos anos, os imigrantes desenvolvem uma indústria relacionada aos seus costumes alimentares e vestuário.

Os alemães se isolavam nas colônias e falavam a língua de origem no dia-a-dia, conforme retratam os livros de Josué Guimarães (1921-1986). O livro Videiras de cristal (1990), de Luiz Antônio Assis Brasil, mostra a que ponto chegou a tensão com o isolamento e reconta a Revolta dos Muckers. Em Saparinga, uma mulher chamada Jacobina liderou um movimento messiânico que foi repreendido pelas forças policiais. Uma obra que expõe bem a vida nas colônias italianas é O quatrilho (1985), de José Clemente Pozenato. O pano de fundo dessa história que virou um filme de sucesso é a passagem de uma região agrícola para a atividade industrial e comercial.

As colônias alemãs de Santa Catarina seguiram o modelo gaúcho de pequenas propriedades familiares. Muitos deles faziam seus próprios utensílios (velas, móveis, carroças) que deram base para indústrias do norte catarinense. Houve casos como a indústria Hering, que buscou suprir a demanda dos imigrantes alemães por camisetas de malha usadas sob as roupas. Os livros de Urda Alice Klueger narram esse período. Verde Vale (1979) mostra a chegada de uma família alemã e a dificuldade de se adaptar ao novo ambiente. Em No tempo das tangerinas (1983), o foco é a transferência de uma família do campo para as cidades e os conflitos surgidos no Brasil nas colônias durante a Segunda Guerra Mundial, com a proibição do ensino de alemão nas escolas.

No Paraná, o escritor Domingos Pellegrini recontou as histórias da ocupação da região de Londrina (a pequena Londres). Terra vermelha (1998) acompanha a vida dos personagens José e Tiana, migrantes paulistas. Eles participam das transformações com a propagação das fazendas de café, a expansão de Londrina e a favelização da cidade. Uma característica dessa região foi o intenso desmatamento para ocupar as terras com o café. No século 20, a colonização foi realizada pela inglesa Companhia de Terras do Norte do Paraná, que trouxe levas de imigrantes da Europa (poloneses) e asiáticos (japoneses) de 1930 a 1960.  


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:26 PM

O panóptico moderno

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O magistrado brasileiro e os meios de comunicação não possuem a sofisticação da narrativa paranóica ou do pensamento de Foucault. Longe disso. Ambos estão ligados em coisas miúdas, baixos instintos: o controle do poder e do dinheiro. Parece um roteiro de telenovela brasileira ou mexicana, com cenas filmadas em paraísos fiscais do Caribe e na Zona Sul carioca

E de repente, descobrimos que o Brasil vive num estado policial. O presidente da Suprema Corte denuncia escutas telefônicas e se diz vigiado por todos os lados. Incrível como alguém supostamente tão bem preparado só tenha constatado isso semanas atrás. Os meios de comunicação, é lógico, entraram na histeria do magistrado maior: o panóptico está disseminado. Uma grande descoberta. Podemos acreditar na surpresa geral, mas dá para imaginar também que se trata de fingimento. Eles tampouco explicitam a contradição entre o liberalismo de hoje e o desejo de controle total.

Se não bastassem as interpretações mundanas sobre o estado policialesco, surgiu a racionalização do filósofo. Coube a Roberto Romano a seguinte argumentação: “Sempre que, graças à coragem da imprensa, percebo as estrepolias dos arapongas, recordo os versos de Rimbaud: ‘Eis o tempo dos assassinos’. Se não matam os corpos com a facilidade de antigamente, eles aniquilam a esperança. O Brasil, com auxílio do segredo e da corrupção endêmica, é imenso e melancólico sepulcro do sonho democrático”. O intelectual se presta a formular razões para os jogos mais sujos e obscuros. 

O que se busca esconder nessa histeria é que o mundo globalizado deseja e vive a situação do filme Minority Report (2002), de Steven Spielberg. A polícia descobre o crime antes que ele aconteça. Para isso, utiliza o sistema de imagens que registra um homicídio ou roubo ainda não ocorrido. Trata-se do maior desejo, de um controle absoluto que sequer os regimes totalitários conseguiram. Spielberg lançou, por coincidência ou não, o filme um ano depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que provocou a radicalização do governo dos Estados Unidos. Foi o momento do Patriot Act..

A lei patriota permite a invasão de privacidade de qualquer pessoa em território norte-americano e a tortura para descobrir planos de atentado terrorista. Por privacidade, entenda-se desde gastos com cartão de crédito aos e-mails. Torturar é o que se eles fazem em Guantanamo e Abu Ghraib. Na ficção, temos Jack Bauer do seriado de televisão 24 Horas. O problema no Brasil e no mundo, portanto, não é a violação de direitos individuais em si, mas quem está sendo violado. Se o suspeito é um mulçumano ou negro pobre, está liberado o massacre psicológico e, sobretudo, físico.

Os aparelhos eletrônicos de hoje possibilitam o controle da sociedade que foi apenas esboçado no passado. O panóptico de Bentham, analisado por Foucault, era uma estrutura (no caso, uma torre de observação) que permitiria a vigilância plena de um indivíduo que, por sua vez, sabe que está sob um olhar vigilante. É o aparato para administrar uma prisão, uma escola ou um hospital psiquiátrico. Hoje, esse mecanismo está espalhado até nos avisos em elevadores “Sorria, você está sendo filmado”. Dado o cenário, é difícil entender a atual queixa da violação de direitos no Brasil.

O panóptico moderno funciona como uma das armas do capitalismo globalizado. Segundo a revista Business Week, empresas já fazem rastreamento do que os usuários do Twitter escrevem sobre elas. Foi o caso de um passageiro da companhia aérea Jet Blue, que estava com vôo atrasado e contou sua história pelo Twitter (sistema de blog com mensagens curtíssimas de 140 caracteres). Em dez minutos, ele recebeu um e-mail de empresa se explicando pelo atraso. A reação dele foi: grapearam a rede sem fio de internet do aeroporto.

Um dos efeitos do panóptico é a disseminação da paranóia como forma de vida e de pensamento. É essa a grande sacada dos escritores Don Delillo e Ricardo Piglia. A narrativa paranóica (onde tudo faz sentido) organiza o pensamento moderno. Oliver Stone apontou esse mecanismo de maneira formidável no filme “JFK” (1991), no caso a grande paranóia em torno do assassinato do presidente dos Estados Unidos John Kennedy. Pouco importa a veracidade das “provas” do filme de Stone, pois sua qualidade está na busca enlouquecida por um sentido. Isso é o mundo de hoje: global e paranóico.

Segundo Piglia, “a idéia de conspiração também tem a ver com uma dúvida que poderia ser formulada assim: como o sujeito privado vê a sociedade? Eu digo que sob a forma de um complô destinado a destruí-lo. Ou, dito de outro modo: a conspiração, a paranóia estão ligadas à percepção que o indivíduo constrói em torno do social. O complô substituiu, assim, a noção trágica do destino. (...) A tragédia estabelecia um elo entre aqueles que conheciam esse destino, os deuses que emitiam mensagens obscuras, e o indivíduo que as interpretava bem ou mal. Penso que hoje os deuses foram substituídos pelo complô, quer dizer, há uma organização invisível que manipula a sociedade e produz efeitos que o sujeito também procura decifrar”.

O magistrado brasileiro e os meios de comunicação não possuem a sofisticação da narrativa paranóica ou do pensamento de Foucault. Longe disso. Ambos estão ligados em coisas miúdas, baixos instintos: o controle do poder e do dinheiro. Parece um roteiro de telenovela brasileira ou mexicana, com cenas filmadas em paraísos fiscais do Caribe e na Zona Sul carioca. Para justificar seus interesses, eles recorrem aos argumentos mais rasos, cínicos e desinformados a respeito de algo que, na verdade, perpassa toda a organização social, em várias partes do mundo. 

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:25 PM

Subliteratura globalizada

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Jabor encarna bem o espírito e as misérias do novo colunismo. Diretor de cinema de certa fama, ele despontou nesse papel nas páginas da Folha de S. Paulo durante o governo Collor. A mistura de apocalipse brasileiro e esperança globalizada trouxe uma interpretação para crise brasileira dos anos 1990
 
 
Os jornais brasileiros copiam perversamente as mesmas fórmulas, uns dos outros, e até mesmo a distribuição de temas em suas páginas. Em todos os cadernos culturais, existe o espaço de página inteira das hediondas colunas sociais, com um misto de celebridades e baixos instintos do mundo político e empresarial. Depois de atravessar as mundanidades, horóscopos, palavras cruzadas e quadrinhos, o leitor chega à última página desses cadernos onde ficam os pensadores culturais. É o reduto do colunista que, supostamente, permitiria baixar o fôlego para se refletir o destino do mundo.

Folha de S. Paulo
, Estado de S. Paulo e O Globo reservam, atualmente, a parte de cima da última página de seus cadernos culturais à figura do colunista célebre. Estão lá no mesmo lugar dos jornais, como se fosse uma estratégia científica a definição de tal espaço. Eles se escrevem uma vez por semana e estão, portanto, livres das pressões cotidianas dos jornalistas comuns. O formato não é mais o da velha crônica que, lembra Silviano Santiago, teve o seu auge no final dos anos 1950 e se tornou uma “subliteratura desenvolvimentista” para atender o público pouco letrado de então. 

Os novos cronistas deixam de lado a breve ficção que fez a fama de Rubem Braga. Alguns jornais, como O Popular, ainda possuem cronistas à moda antiga. Hoje, porém, o modelo dessa crônica está próximo do comentário – menos ficcional e mais parecido ao ensaio. Não se contam mais as coisas vistas ou as experiências vividas no cotidiano dos autores. As colunas preferem comentar um tema cultural ou político da semana. Com o tempo, o autor torna-se conhecido do público e vira uma franquia comercial ao estilo do McDonald´s, com outros jornais reproduzindo seus textos.

Cada jornal monta a sua galeria no espaço da última página do caderno cultural. Na Folha de S. Paulo, podemos encontrar desde os conservadores como Nelson Archer, João Pereira Coutinho, Carlos Heitor Cony e Antônio Cícero, até as figuras moderadas como Marcelo Coelho, Contardo Calligaris e Dráuzio Varella. Aos domingos, o jornal oferece os textos de Ferreira Gullar, que é um grande poeta e crítico de arte, mas um pensador menor. Note-se a ausência de mulheres. Quem lê esse espaço ao longo da semana, tem o ponto de vista de intelectuais homens, brancos e de classe média.

O jornal O Globo escolheu vários jornalistas da casa para ocupar as colunas de contra-capa do Segundo Caderno. Mesmo que se discorde (e muito) dos colunistas da Folha de S. Paulo, o nível cai sensivelmente no diário carioca. O menu inclui Arnaldo Bloch, Arnaldo Jabor, Arthur Dapieve, Arthur Xexéo, Cora Rónai, Joaquim Ferreira dos Santos e o fictício Agamenon Mendes Pedreira (criado pela turma do Casseta & Planeta). A perspectiva é de uma classe média de Ipanema que transformou as questões próprias da cidade do Rio de Janeiro em categoria de identidade nacional.  

Jabor encarna bem o espírito e as misérias do novo colunismo. Diretor de cinema de certa fama, ele despontou nesse papel nas páginas da Folha de S. Paulo durante o governo Collor. A mistura de apocalipse brasileiro e esperança globalizada trouxe uma interpretação para crise brasileira dos anos 1990. Diante da ausência de saídas para o país, Arnaldo Jabor abraçou a Razão, sintetizada no presidente-sociólogo em sua marcha modernizadora, porém sempre conservadora. A franquia Jabor invadiu aos poucos os telejornais, os programas de rádio e o circuito de palestras para empresários no interior.

Entusiastas do Movimento de 1932, os donos do Estado de S. Paulo copiaram o modismo das colunas culturais da concorrência. Para quem teve Décio de Almeida de Prado em seu Suplemento Literário no final dos anos 1950, é duro se contentar hoje com a franquia Jabor ou o teórico do senso comum Roberto da Matta. O leitor pode acompanhar o o antropólogo Mathew Shirts e os escritores Ignácio de Loyola Brandão, Marcelo Rubens Paiva e Luis Fernando Verissimo (este também, um franqueado). Na comparação política com os colunistas em geral, Verissimo ocupa a extrema-esquerda.   

Os colunistas vão publicando seus textos ao longo de uns dois anos e, em seguida, juntam tudo num livro. Assim o comentário se “eterniza”, subindo alguns degraus na lista dos mais vendidos das livrarias. Os leitores fazem um “control+C” e um “control+V” das colunas para entulhar caixas de e-mail com os mais recentes preconceitos de Arnaldo Jabor ou do gajo retrô João Pereira Coutinho. Cria-se uma subliteratura globalizada e com ampla circulação na sociedade em rede. E o melhor do pensamento brasileiro segue muito, muito distante das páginas dos cadernos culturais.

 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:22 PM

Vida Louca Vida

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Narrativas ficcionais dos anos 1980 permitem ao leitor de hoje conhecer as maneiras como os brasileiros se viam no espelho e o que esperavam do futuro naquela estranha época. Aqui e na Europa, foi a fase da “nova subjetividade”, de muita escrita do “eu”



Foi o escritor Sérgio Sant´anna quem soltou a provocação com “Um Romance de Geração” (1980). Como fazer um retrato pessoal de um período histórico? No livro, o personagem Carlos Santeiro é um escritor mineiro no Rio de Janeiro do começo da década, que viria a ser chamada de “perdida”. A narrativa se organiza na forma de um diálogo teatral de Santeiro e uma jornalista que vai entrevistá-lo. Estão lá alguns sinais da época: o indivíduo isolado na metrópole, o culto às bebidas alcoólicas, as polêmicas arte versus política, o apartamento minúsculo na Zona Sul carioca, os vizinhos de olhos grudados na televisão. A dúvida do personagem era sobre o que escrever após o fim da ditadura militar que fomentou a carreira de muitos autores.

Narrativas ficcionais dos anos 1980 permitem ao leitor de hoje conhecer as maneiras como os brasileiros se viam no espelho e o que esperavam do futuro naquela estranha época. Aqui e na Europa, foi a fase da “nova subjetividade”, de muita escrita do “eu”. Exemplo bom é o conto “Os sobreviventes”, em “Morangos Mofados” (1982), de Caio Fernando Abreu. Um homem e uma mulher lembram que já experimentaram de tudo e continuam angustiados: “Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia”. Eles não se cansam de falar das experiências sexuais e do desconforto com as pressões de trabalhar para sobreviver. Tudo parece confuso.



Sérgio Sant´anna

E era realmente um período muito confuso. A ditadura brasileira caminhava para 20 anos no poder. O regime cortou o laço da classe dos “letrados” com os “simples” do povo que foi ensaiado no pré-golpe de 1964. O dinheiro tornava-se a bússola das relações sociais, e os projetos de uma nação brasileira perdiam popularidade. Caminhava-se rumo ao desconhecido que, aliás, os Estados Unidos já tomavam conhecimento com Ronald Reagan. O ex-ator inicia a revolução (a “right wing turn”), como bem aparece na peça teatral “Angels in América” (1994), de Tony Kushner e que foi transformada brilhantemente numa minissérie de televisão por Mike Nichols. Tempos que os “fast thinkers” batizaram de Fim da História.

Aqueles anos são também das idéias de Lyotard. De um ensaio dele, nasceu uma explicação para o Primeiro Mundo que confundiu a cabeça de muita gente no Terceiro Mundo. Segundo ele, as grandes explicações (marxismo, psicanálise, religião) se esgotaram. Não adianta mais buscar a totalidade das coisas, pois restaram apenas os fragmentos. A informação e a técnica assumem o lugar do conhecimento e da ideologia. Tudo virou pós-moderno. O trabalho humano perdia sua razão de ser, e o importante era o consumo, o ato de comprar. O estrago foi imenso num país como o Brasil, que antes mesmo de completar sua formação deveria desconstruir o pouco que já havia feito. Iniciava o momento do desmanche.  

Caio Fernando Abreu tinha dois companheiros na observação da sociedade que “deixava de ser antes de ter sido algo”. Naquele tempo, Cazuza viu o indivíduo de vida fácil que “dava autógrafo em telão de cheque” – um aspecto que o filme “Cazuza” não conseguiu captar. Ainda disse que “meus heróis morreram de overdose, os inimigos estão no poder”. Renato Russo notou a geração coca-cola dos “burgueses sem religião” e um sujeito nordestino que se muda para Brasília e morre num “faroeste cabloco” coberto ao vivo pela televisão. Para quem viveu esse período, não é de se estranhar que Abreu, Cazuza e Russo terminassem fulminados pela Aids, a doença que abalou a herança da liberalização sexual dos anos 1960.



Cazuza

Um “romance de geração” que focaliza o bode dos anos 1980 é o livro “Aos Meus Amigos” (1992), de Maria Adelaide Amaral. É a narrativa do luto pela perda de um amigo comum dos personagens. A autora reúne uma trama de vozes melancólicas e faz um trabalho de luto de um período histórico. A conclusão fácil para o leitor de hoje é a das “ilusões perdidas” – por sinal, um pensamento bem pós-moderno. O livro virou agora minissérie da TV Globo (“Queridos Amigos”), com aquela higienização visual e textual da teledramaturgia. Trata-se de revisar 1989 pelos olhos de 2007. Telinha pós-modernista: os personagens esquerdistas são fracassados, feios e chatos, e os bonitões votam em Mário Covas, são bem casados e têm profissões bem sucedidas.

Ninguém sabe o que se passou na cabeça de Chico Buarque ao lançar “Estorvo” (1991), na mesma época que Maria Adelaide escreveu seu romance. A própria esquerda reconhecia a derrota com o desmanche da União Soviética, e havia a crença de que o mundo seria salvo pelo mercado. Mas, ao invés do luto de geração, o compositor popular e lírico escolheu uma narrativa suja, repetitiva, personagens sem nome, classe média morando em fortalezas urbanas. O protagonista “Eu” vaga pela metrópole e vai se ferindo pelo caminho. Em que diabo estava pensando um dos símbolos da resistência à ditadura militar ao escrever de forma tão estranha? Pode ser a resposta ao personagem de Sérgio Sant´anna a respeito do futuro pós-ditadura.



Caio Fernando Abreu

“Estorvo” antecipou a linhagem de narrativas das metrópoles brasileiras em ruínas que, hoje, se dissemina em romances, contos, filmes e canções. Poucos entenderam a obra em 1991, porque esperavam a escrita do decifrador da alma feminina. Wilson Martins chegou a acusá-lo de plágio. Chico Buarque, porém, foi um dos poucos a sacar o que vinha ocorrendo no Brasil e escolheu a escrita para desenvolver isso. Não é à toa que, no CD “Carioca” (2006), deu um passo à frente ao flertar com letras de rap que narram a vida louca (vida) nas cidades brasileiras. Ele não vai se tornar o Mano Brown da MPB, mas está atento ao caldo cultural que surge fora dos centros pós-modernos de consumo. É fim de linha, canta Chico.

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:16 PM

Transparente/opaco

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Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de Faulkner ou Benjamin

Em Diário de Um Ano Ruim, Coetzee dá um passo ousado na literatura de hoje. Cada página do livro abriga três narrativas simultâneas, uma em cima da outra: os ensaios do narrador, suas observações e as anotações de uma moça que transcreve os escritos desse ensaísta. O leitor dificilmente poderá acompanhar os fragmentos ao mesmo tempo, com uma lida de cabo a rabo, de uma sentada só. É comum associar a qualidade de uma obra à fluidez da leitura. Coetzee nos força a ler o livro uma, duas ou três vezes e buscar diálogos e correlações de múltiplos níveis. Pobre leitor que compra um livro no aeroporto e espera conhecê-lo um pouco durante sua viagem.

Não é fácil digerir Coetzee, e tampouco ele facilita a vida dos leitores. Quem já leu seus ensaios sabe onde está pisando. São poucos que se atrevem a criticar e apontar as debilidades de
Faulkner ou Benjamin. (Imagine o que ele diria de autores de literatura brasileira contemporânea.) No ano passado, o escritor sul-africano mostrou o quanto joga contra a escrita mercantilizada, barateada e espetacular. Ele se negou a jogar conversa fora em sua participação da Flip, que virou o Rock in Rio das letras e vitrine dos best-sellers das editoras locais. No lugar de anedotas e papo furado, fez apenas uma leitura concentrada dos originais de Diário de Um Ano Ruim. Leu e foi para o hotel.

O leitor contemporâneo busca livros anti-Coetzee. O romance Desonra é altamente dissimulado ao trazer uma linguagem aparentemente realista. Pode-se assim achar que seu autor facilita o trabalho do leitor. Enganam-se os leitores. Em Elizabeth Costello, Coetzee alertara o público distraído para as aparências do realismo ao analisar um conto de Kafka, no qual o único estranhamento está no fato de um macaco ser um conferencista. Se fosse um homem, o conto seria realista, diz ele. A escrita de Coetzee questiona as facilidades dos textos que têm pretensão de transparência. Aqueles que acreditam na escrita transparente ignoram que o realismo pode estar na mais opaca das narrativas.    


A escrita-mercadoria sonha com a transparência e o entendimento rápido. Nesse esquema, a palavra só pode ter um único significado. Os advogados defendem que os termos jurídicos devem ser como são (impenetráveis) porque possuem a mais absoluta exatidão, quase científica. Também era o desejo de Zola quando formulou sua teoria do real. O estilo naturalista deveria ser um espelho do mundo. Não é preciso rir do positivismo do escritor francês do século XIX ou da pretensão dos cientistas do Direito. Igualmente risível é a crença dos jornalistas de que o jornal reflete o mundo. Em comum, é a devoção ilusória da comunicação objetiva. 


Num surto de megalomania, os jornalistas criaram o subgênero do “jornalismo literário”. Que diabo venha a ser isso, ninguém sabe definir. Dizem se tratar de textos com recursos literários da ficção. Mas pouco se esclarece que ficção é essa. O uso de artefatos textuais não define os conceitos de qualquer tipo de escrita, seja ficcional, historiográfica ou jornalística. Tampouco o literário está ligado à beleza das palavras. Piglia lembra de forma apropriada como Robert Arlt reformulou a literatura argentina com uma escrita feia. Lacan ressaltou a descoberta joycena do trocadilho the letter/the litter. A letra pode ser lixo, a literatura pode ser lixeratura. A letra desliza para a latrina. 


Quanto mais significados tiver, mais rico o texto. A importância de um livro de ficção se mede também pela sua capacidade de possibilitar inúmeras leituras. A palavra perde a transparência e ganha opacidade. O leitor ingressa nos domínios do claro enigma de Drummond. Faz algum tempo, Paul de Man discutiu se toda escrita é uma metáfora. (O texto jornalístico também é metafórico.) Os significados se multiplicam e, para o desespero de muitos, se metamorfoseiam ao longo da história. Cânones são profanados. A letra torna-se instável, o que apavora os filósofos tão ciosos com a exatidão e clareza da linguagem. Uma conjectura: filósofos tradicionalistas são leitores fracos de obras literárias.   

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Derrida interroga Paul de Man, de Mark Tansey

Na lógica da transparência, Derrida e Deleuze são rotulados de impenetráveis. Ambos devem ser lidos como se fossem escritores de ficção. A cada leitura, muda o significado. O texto tecnificado dos “cientistas duros” é incompreensível por utilizar uma outra linguagem, fora do campo verbal do leitor médio. Não é o caso da desconstrução que exige uma atenção que o moderno leitor distraído de revistas, jornais e internet não tem condições de oferecer. Lacan segue na mesma linha: muitos textos são transcrições de seminários e viram jogos verbais do orador. Quando se imagina que tudo está assimilado, o significado se desdobra em outro. Algo sempre escapa, como na boa ficção. 

Marx é outro obscuro para os padrões contemporâneos. Mas, nota Francis Wheen, “O Capital” antecipa a escrita dos surrealistas do século XX e é um romance modernista em tempos de romance realista. Há cortes, colagens e montagens que remetem à figura do bricoler de Benjamin. O fragmento leva à totalidade, e vice-versa. A escrita de Marx vai contra o fetiche da mercadoria e da transparência do capital. Nada é natural. Cada frase de Marx traz em si uma contradição que, por sua vez, vem da estrutura social. A escrita dialética torna-se uma máquina de desvendamento do que aparece como algo concebido naturalmente. Na era da globalização, é proibido ler Brecht.

Houve uma época quando, ao não compreender um texto, o leitor reconhecia sua incapacidade intelectual e se recolhia ao pensamento. Ele buscava se aperfeiçoar para depois enfrentar o desafio daquele universo antes incompreendido. Hoje, se não consegue entender um livro, o leitor sentencia de imediato: chato, ruim e equivocado. Parte-se para a estratégia de desqualificação do autor, com a rotulagem digna de produtos à venda em supermercados. “Não entendo, logo não presta.” Esse é o resultado de anos e anos da mídia com a naturalização do mundo e a escrita-mercadoria, cujo único valor é a transparência e a rapidez de apreensão. Tempo é dinheiro. 




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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:13 PM

Machado e Rosa

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Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias

 

Os jornais brasileiros provam diariamente por que suas vendas caem ano a ano. A relevância zero da mídia, especialmente na área cultural, foi reafirmada dias atrás com mais uma inacreditável enquete: quem é melhor, Machado de Assis ou Guimarães Rosa? Entre os estudiosos, houve restrições à própria pergunta descabida do jornal Folha de S. Paulo. Os leitores também acharam a pesquisa inócua e malfeita, pois 53% deles disseram que “ambos são grandes escritores” ou “não dá para comparar um ao outro”. O levantamento do jornal escorreu rapidamente pelo ralo das coisas insignificantes.

Foi-se o tempo em que os jornais eram o local de encontro do pensamento e dos intelectuais. Há estudos e mais estudos que mostram a migração da inteligência para os centros universitários no Brasil e no exterior. No final do século XX, a mídia deixou de ser o centro aglutinador de idéias. Os criadores da enquete da Folha de S. Paulo seguem a onda e ignoram os movimentos relevantes nos estudos sobre Machado de Assis e Guimarães. Ao invés de inflacionar os índices, os responsáveis pelo jornal poderiam dar um passeio e conversar com quem vem dedicando a vida a estes dois autores.

Machado de Assis atravessa uma fase de ouro entre os estudiosos das mais diversas áreas, da psicanálise à sociologia. A redescoberta do autor se deve ao impacto dos estudos de Roberto Schwarz a partir dos anos 1970. A nova crítica machadiana começou a apontar em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro uma interpretação da sociedade brasileira que está na forma literária dos romances. A forma narrativa incorpora elementos do processo social. Abriu-se todo um caminho para especialistas que seguiram a trilha da idéias de Schwarz e outros que se desviaram.

O inglês John Gledson foi um dos seguidores de Schwarz ao aprofundar os estudos das relações entre os romances e crônicas machadianos e o período histórico do Segundo Reinado no século XIX. Ele chegou a ler todos os jornais da época para identificar as referências factuais e citações contidas nas crônicas de Machado em jornal. Nos jornais brasileiros, no entanto, Gledson perde espaço para o superstar Harold Bloom, que levou a mídia local às lágrimas ao colocar Machado no rol dos “gênios” e analisar superficialmente ao autor em meia dúzia de páginas. 

Alfredo Bosi e Sergio Paulo Rouanet, por sua vez, desenvolvem trabalhos para desmontar as teses de Schwarz. A maior crítica deles é para um certo determinismo dos críticos que vêem a relação entre a literatura machadiana e a sociedade brasileira. Ambos reconhecem a impossibilidade de negar a presença da História em Machado de Assis, mas dizem que a autor de Memorial de Aires tem uma abordagem universal. Obviamente, um universalismo europeu. Rejeitam, portanto, a concepção de um autor que vive na periferia do capitalismo, conforme assinala Schwarz.

A disputa em torno de Machado de Assis é realmente acentuada. O português Abel Barros Baptista entrou no campo de batalha com uma missão inusitada: salvar o autor de seus críticos brasileiros. Para isso, escolheu Schwarz e Antonio Candido como adversários. Ele pretende desfazer qualquer laço da obra machadiana com a História do Brasil. A intenção é colocar o autor dentro do cânone universal – que, vale lembrar mais uma vez, é um universalismo europeu. Trata-se de um campo (os estudos sobre Machado de Assis) fervilhando de idéias que não aparecem nos jornais brasileiros. 

A exemplo de Machado, o mineiro Guimarães Rosa vem sendo redescoberto como um intérprete do Brasil. Heloísa Starling, Willi Bolle e Luiz Roncari lançaram nos últimos anos obras fundamentais para mostrar o quanto o autor de Grande Sertão: Veredas tratou do Brasil em sua ficção. É um prosseguimento do trabalho pioneiro de Walnice Nogueira Galvão, que analisou o homem e o sertão rosianos em As formas do falso. Pesquisadoras da nova geração como Ana Paula Pacheco e Danielle Corpas têm investindo na trilha de analisar forma literária e processo social em Rosa.

Os novos estudos se distanciam dos trabalhos que focaram as invenções lingüísticas e o esoterismo de Guimarães Rosa. Ressalte-se que foram análises muito importantes para o entendimento do autor mineiro. O que se vê agora, porém, é a superação do encantamento puro das palavras bonitas e a “magia” do autor. A inventiva obra rosiana tem muito a dizer sobre o Brasil e a relação do sertão com o mundo, e isso os especialistas vêm rastreando nos mínimos detalhes. A grande obra literária vai além dos limites estabelecidos em cada disciplina das ciências humanas e permite as mais diversas leituras.

A discussão acima, os leitores não a encontram nos jornais brasileiros. O jornalismo cultural está mais preocupado em divulgar os últimos lançamentos, mostrar os recordes de venda, martelar a vida das celebridades e criar os jornalistas-celebridades com suas colunas e blogs. Ficamos sabendo tudo a respeito do casal Sakozy, dos estranhos hábitos de Paulo Coelho e do último porre de uma tal de Amy Winehouse. Enquanto isso, estudos exploram as várias faces de Machados de Assis e Guimarães Rosa – sem falar de Clarice Lispector e de Graciliano Ramos. E o leitor de jornal fica sem saber de nada.

 

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