revista bula
POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

A responsabilidade de quem escreve

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“No início era o verbo e o verbo se fez carne e habitou entre nós”. Cito aqui o evangelista João apenas para dizer desde já que tudo que existe, tudo o que se move o faz pela necessidade de comunicação. O escritor tem que ter essa chama primordial, tem que ter essa premência de comunicar.
 
De início, recorro à antológica distinção estabelecida pelo sociólogo e critico literário francês Roland Barthes. Para Barthes existem duas classes de profissionais que trabalham com a palavra escrita: o escritor e o escrevente.

O escritor é aquele que trabalha a sua palavra e absorve-se funcionalmente nesse trabalho. Ele tem finalidade estética, postula o belo, o alargamento da realidade através do encantamento, da arte literária. A atividade do escritor comporta dois tipos de normas: as normas técnicas  (de composição, de gênero, de escrita) e normas artesanais  (de labor, de paciência de correção, de perfeição). A estética da palavra, da frase, do discurso justifica o trabalho do escritor.

Já o escrevente é um profissional transitivo, que não postula um fim estético com seu discurso (quer por exemplo: testemunhar, explicar, ensinar, catequizar). Para esse profissional a palavra não é um fim em si mesma, mas apenas um meio na consecução de outros objetivos.

A considerar como correta essa distinção de escritor e escrevente, podemos observar que hoje em dia, muitos autores de livros que se consideram e são considerados escritores, são apenas escreventes. O que aliás não lhes retira a importância nem o mérito, apenas seriam animais de um outro bioma, para usar uma expressão ambientalista, que anda tão em voga nos dias atuais.

Mas quem escreve, seja escritor, seja escrevente, tem uma responsabilidade, dentre tantas, que antecede a todas as outras: conhecer a ferramenta de seu trabalho. Ou seja, quem se aventura pela escrita tem a responsabilidade de dominar o seu idioma. Tem que conhecer a ortografia, a sintaxe, a prosódia, a gramática, enfim.

Se se tratar de escrevente, aquele que usa a palavra como meio e não como fim, não tem o direito de escrever errado, de agredir as normas da língua culta e oficial. Já ao escritor assistem eventualmente as chamadas licenças poéticas. Quem escreve para fins estéticos tem a possibilidade ética de transgredir as normas gramaticais na construção de sua obra. Uma ilustração para este caso é o renomado escritor mineiro Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, que, para construir sua obra monumental, revirou a gramática da língua portuguesa pelo avesso. Outro exemplo: o escritor irlandês James Joyce, que subverteu grande parte da sintaxe do discurso literário conhecido até então e estendeu enormemente os horizontes do romance, na era das vanguardas. Para muitos críticos, Joyce teria provocado o fim do romance, porque depois dele não seria possível escrever nada de novo. Mas está aí Gabriel Garcia Márquez ou o próprio Guimarães Rosa para desmentir essa tese escatológica. 

Mas Guimarães Rosa não foi irresponsável em relação ao domínio do idioma pátrio: ele só pôde transgredir as normas da língua culta porque ele as conhecia e as dominava como poucos. Só pode transgredir quem domina. Quem não domina não é capaz de transgredir criativamente. É capaz de no máximo cometer barbarismos, estupros da língua.

O escritor, mais do que o escrevente, tem a responsabilidade de formar leitores. Para isso ele precisa ser curioso intelectualmente, tem que fazer aeróbica do espírito, ter o desprendimento de se colocar no lugar dos outros, com toda a força de sua alma. O artista precisa ter múltiplas personalidades. Quando seu personagem é uma criança desamparada, ele tem quer se colocar no lugar dessa criança e sofrer todo o seu desamparo. Quando seu personagem é um bandido contumaz, o escritor tem que entrar no coração dele, ou deixar que ele entre no seu próprio coração para que possam ser ditas as palavras certas, na justa medida que a humanidade requer. Se a personagem da vez é uma prostituta, o autor tem que senti-la em toda a sua inteireza. Além disso, o autor tem que ser ele mesmo, deixar a marca de sua personalidade, registrar a firma de seu estilo.

Sobre esta questão da responsabilidade de formar leitores, gostaria de me alongar um pouco mais.  Nossa ojeriza pelo livro tem raízes históricas e profundas. Quando o presidente Lula pavoneia que seu primeiro diploma foi de presidente da República ou que não lê porque livro dá azia, ele está apenas traduzindo ao modo dele essa ojeriza arraigada no brasileiro pela leitura.

Vale lembrar que o Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura, com isso a educação do povo foi solenemente negligenciada séculos a fio. O ensino primário só foi universalizado na década de 90 do século XX, ou seja, há menos de 20 anos. No entanto, o rádio já estava presente desde os anos 30. A televisão desde os anos 50.  Por incrível que pareça, a comunicação eletrônica chegou antes da escrita na sociedade brasileira. É como se alguém cometesse a distorção de aprender o canto anteriormente à fala, a corrida antes do andado. 

Leitores potenciais alegam que não leem porque não têm tempo, no entanto, não lhes faltaria tempo para passar horas e horas num botequim ou diante de um tubo de TV. Outros alegam que o livro é muito caro. Em média 10% do salário mínimo. Porém, uma televisão média custa de três a quatro salários mínimos. Nem por isso os lares brasileiros são desprovidos de televisão. Para ter o que ler, bastaria comprar um livro e fazer permutas sucessivas com os vizinhos e amigos. O que falta na verdade é hábito. Valorização social da leitura.  

E quem seria o responsável pela formação do hábito? Eu diria aos senhores e às senhoras que é sobretudo o governo. E pelo governo somos todos responsáveis, na medida em que o elegemos. É muito comum no Brasil a existência de cidades progressistas, com mais de 100 mil habitantes, largas avenidas, indústria instalada, comércio vigoroso, feira disso e daquilo, festas e convenções diversas, mas nenhuma livraria, nenhuma biblioteca decente. E bares? Dezenas! Centenas!  E até milhares! A propósito, recente relatório da AMBEV dá conta de que Goiânia é a Capital com o maior consumo per capita de cerveja. Podemos dizer com orgulho: Somos a Capital Nacional da Manguaça!

O poder público ainda não conseguiu acertar o passo na relação com o livro. Um estudante é capaz de ir do jardim-da-infância ao pós-doutorado sem ter que entrar numa livraria. Assim como o bar é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o álcool, a livraria (ou biblioteca) é o ambiente propício para se desenvolver a convivência com o livro.

Ao longo do tempo, o governo vem desenvolvendo estratégias equivocadas na distribuição dos livros didáticos e paradidáticos.  25% de toda indústria editorial no Brasil é voltada para os livros escolares. A título de economia, os livros no ciclo básico são entregues nas escolas públicas, perdendo a oportunidade de ouro de levar o aluno ao ambiente do livro.

Se o aluno vai para a rede privada, a própria escola lhe repassa os livros com fornecimento direto das editoras. No segundo grau, as escolas fornecem apostilas customizadas. Na graduação e pós não se recebem livros, mas sim as indefectíveis xérox de capítulos a serem trabalhados.

Além de a escola brasileira ensinar mal, não vem dando oportunidade ao aluno de conviver afetivamente com o livro em seu “habitat”, de ver novas obras, de afeiçoar-se ao objeto “livro” que é a maior invenção do homem, a forma mais segura de acumulação e transferência de conhecimento.

Uma sociedade que esnoba a educação, que não faz da leitura um hábito natural e salutar, fatalmente formará pessoas insensíveis, que não conseguem captar o mundo em sua essencialidade, nem entender a vida em seu todo. E assim, acabam elegendo o consumo como o deleite supremo, a ignorância como identidade nacional e a estupidez como motivo de orgulho.

Não temos o poder, sozinhos, reverter essa situação. Mas na condição de cidadãos e escritores, temos a responsabilidade de lutar contra isso, cada qual na medida de suas possibilidades.

Voltando mais especificamente à atividade da escrita, para que alguém leia nossa obra ele terá que celebrar conosco um contrato tácito de suspensão temporária da desconfiança. E o leitor só vai cumprir esse contrato se perceber ali a nossa entrega, a nossa verdade. Assim, quem escreve tem a responsabilidade de ser verdadeiro, seja na transcrição dos fatos, seja na descrição de suas fantasias.

Gostaria ainda de aduzir mais algumas reflexões sobre ofício. Como neste espaço não seria possível, ouso apresentar algumas ideias em forma de mandamentos:

Decálogo do Escritor:

1) Dominar as ferramentas de seu ofício a ponto de poder reinventá-las. E lembrar: o Belo nem sempre é bonito. Manter-se descolado da crítica (não alheio), ela costuma ter os pés no passado;

2) Estudar, estudar e novamente estudar, e fazer de sua cultura uma placenta de bom convívio. Ser paciente e perseverante na construção de sua obra. As pedras sedimentárias são construídas ao longo das eras geológicas;

3) Refletir sobre a realidade sem se deixar adormecer por ela. Não perseguir a celebridade, mas se ela vier em decorrência de sua obra, aceitá-la com naturalidade;

4) Ver o mundo com o coração de um sábio e os olhos de uma criança, para perceber a realidade, mas sempre com estranhamento;

5) Manter vivo o orgulho pelo ofício, mesmo sem remuneração, e dele não desistir nunca, a ponto de encaminhar as novas gerações pelos caminhos da cultura;

6) Valorizar a cultura de sua aldeia, mas num contexto maior, inserida no mundo.

7) Resistir a todas as formas de totalitarismo, de banalização, de pornografia e de aprisionamento do espírito pelo mercado;

8) Valorizar a arte acima de qualquer objeto de consumo, e o meio ambiente como suporte da vida. Aceitar naturalmente as novas mídias para veiculação de seu trabalho;

9) Ver o semelhante como um produto da civilização e da cultura, vivendo além da própria vida, no suceder das gerações;

10) Ter o ser humano como medida e referência no convívio com as demais espécies, e a cultura como o engrandecimento de sua condição.



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POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

Amante tremendão

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Primeiro de tudo, fui concebido pela imaginação. Criado aos poucos, por partes que se pareciam incongruentes, como um ser de carne e osso. Comecei a ser riscado, com uso de moldes, sobre uma lona, a partir de um rascunho em miniatura. Depois do corte, chuleio e costura, recebi o enchimento de ar, próprio para um boneco de segurança. Me deram um corpo, um rosto, uma fisionomia dura e máscula. Morei na vitrine por uns tempos. Depois, vendido a uma senhora de posses, que me deu um nome vistoso: Dennys O’Neill. Assim, com feições e nome, fui ganhando sensações e temperamento.

Reconheço o meu lugar: o de um simples boneco de segurança. Desses que, cheio de vento, senta-se no banco do passageiro, óculos tremendão, chapéu de gangster, cuja função é insuflar confiança ao condutor e afugentar os marginais. Sobretudo os sequestradores.

Embora eu tenha sido feito para ser insensível, não foi possível permanecer dormente diante da solidão imensa de minha dona. No começo eu era mesmo só um boneco, ali plantado, em pose firme de guarda-costas. Mas com o tempo ela cismou de me falar coisas. Resmungos monossilábicos, frases curtas no começo. Daí ela foi se soltando, ganhando confiança, se abrindo comigo em íntimas confidências.

Não demorou para que eu percebesse  toda a sua fragilidade por trás daquela pose altiva. Era tudo teatro e fingimento. Mais até do que meu porte empertigado de falsamente durão.

Ela me conta que foi atriz, mas nem chegou a trabalhar no Hair. As obrigações imediatas a conduziram por outros caminhos e foi se vender em fatias diárias a uma multinacional do ramo de agrotóxicos, embora prefiram chamar de defensivos. Foi lá também que conheceu o marido; um executivo mais velho, que vinha de outras relações amorosas frustradas. Mas foi estratégico casar com ele: ocupava posição privilegiada na empresa. Com ele nunca foi feliz, nem chegou a ser mulher.

Muito demandada que sempre foi, quando acordou para a maternidade, tinha já passado a hora e a vez. Sente que a empresa comprara seu útero. Talvez porque o marido estava se lixando por ter outros filhos. Os que ele tinha de outros casamentos já lhe davam as suficientes dores de cabeça.

Órfã de pais, irmãos, filhos e amigos, vivendo com um esposo ocupado demais com as metas a serem batidas e que raramente comparece, ela só tem a mim. E é a mim que ela diz o que tem de dizer para não morrer envenenada com os próprios sentimentos. É a mim que ela beija e abraça e chora e ri o seu riso de menina e de louca, de puta e de santa. É agarrada a meu corpo de lona e vento que não raro ela se estremece, no seu gozo senescente de mulher madura.

E sob esse bombardeio de sentimentos convulsos, sinto que algum sangue já corre em minhas venhas de cordão sob minha pele de lona. Sinto às vezes que em meu peito de vento já bate um coração sutil, ainda que acanhado pela minha condição de boneco de vento.

E ela me diz que sou seu único amigo, seu homem, seu amante acima de qualquer suspeita.
 


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POR EM 06/09/2009 ÀS 10:43 AM

Baratas cordiais

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Era o normal da vida. Casas avarandadas, muros baixos, quintais grandes assombreados por mangueiras frondosas, cujos galhos ignoravam as divisas dos muros. E, por sobre os muros durante o dia e nas calçadas à noite, aquela conversa amigável. Muitas vezes, ou melhor, quase sempre, sem qualquer propósito objetivo, mas ainda assim e talvez por isso mesmo, muito amigável.

Na escola conhecia os colegas, que eram mais que colegas. Eram amigos. E amigos não só porque se conheciam na sala de aula. O conhecimento vinha de fora, de muito antes, de outrora. Sabia quem era o pai, a mãe, o avô, a avó, o ramo antigo, onde dividiu o tronco genealógico e a posição correta onde se situava na árvore. De modo que ter parentesco, ainda que distante que nem reconhecido fosse pelo código civil, era comum. Nunca soube se isso era bom ou ruim. Era o normal.

Quando chegou a hora, Carmo Villas teve que se mandar pra Capital, fazer cursinho, prestar vestibular, colar à sua personalidade o grau de um curso superior, uma pós e por que não, até um PHD. Para isso não lhe faltavam sonhos. Muitos colegas abdicaram dessas pretensões sob a alegação de que isso demorava demais. Porém Carmo Villas tinha a resposta na medida. Estudando ou não o tempo vai passar do mesmo jeito. Então vou me aliar ao tempo e correr atrás do meu sonho.

A Capital era uma cidade nova, constituída em sua maioria pelo pessoal egresso das velhas cidades do interior. E aquele clima de cordialidade era ali reproduzido de algum modo. Carmo Villas foi residir num prédio de apartamentos, num bairro de classe média. Estranhou um pouco aquela vida circunscrita em gavetas, num armário gigante, mas logo se aclimatou. Apesar das divisas exatas e de certa retração dos moradores, ainda havia cordialidade nos elevadores, na área de lazer ao redor da piscina, nos espaços comuns. Bom-dia, como vai? E o curso, tá indo bem?

Concluído o curso, e com brilhantismo é que foi, Carmo Villas entrou para uma grande corporação. Poucos meses na capital provinciana, transferiu-se para uma metrópole onde as pessoas são identificadas por código de barras e contadas aos milhões. Agora em um cargo de diretoria, como prêmio pelo seu desempenho exemplar.

Foi residir num bairro que lhe parecia uma selva de cactos: uma multidão de prédios muito próximos que não se tocam, como se protegendo do espinho alheio. Seis meses sozinho enfiado no exíguo apartamento, sem jamais falar com um vizinho. Mas aquela noite alguém tocou a campainha. Viva! — disse Carmo Villas — um vizinho veio me visitar! Mas o vizinho, muito frio e sem ao menos se identificar, disse em tom de repreensão: As baratas de seu apartamento estão invadindo o meu!...

— Se as baratas de meu apartamento estão invadindo o seu, se as baratas do seu apartamento estão invadindo o meu, se as baratas de nossos apartamentos desenvolvem transação cordial, isso é problema das baratas! Passar bem!

E bateu a porta na cara do vizinho, ao mesmo tempo em que lhe caiu a ficha da realidade realmente real da vivência cosmopolita. 
    
   


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

O bedel da revolução

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O professor Elasbão era brabo e temido. Nós, a pirralhada, o chamávamos, à boca pequena, de Elasmau. Na realidade, não era professor de matéria nenhuma. Era talvez professor de disciplina: o bedel. Agora, nas datas cívicas (dia da independência, aniversário de Mundocaia, dia da revolução) era de fato professor.  Desde o ensaio até a conclusão do desfile a gente era comandado por ele. E não tinha muito trabalho. Porque poucos se arriscavam quebrar a harmonia ou bater o pé fora do compasso e se sujeitar a uma espinafrada em regra. Foi nessa ocasião que peguei gagueira.
 
— Seu imbecil, levanta a cabeça, peito pra fora, barriga pra dentro, mão esquerda pra frente, mão direita pra trás, bate com força o pé esquerdo no chão. Com força, seu estropiado.
 
A barriga torcia, o suor marejava e eu fazia tudo ao contrário. Baixava a cabeça pra ver os pés dos outros, movimentava os dois braços pra frente e pra trás ao mesmo tempo e, ao invés do pé esquerdo, batia o direito.
 
—  Sua égua baia, olha como o Villa Augusto faz e faça igual.
 
Tremendo, eu tentava de novo e de novo tudo saía errado.
 
—  Sua besta ferrada, um homem que não dá conta de marchar, pode morrer.
 
Não morri, mas subjugado pela pressão, tombei na poeira, desmaiado, com um fio de urina saindo pelo gavião da calça. A partir de então fiquei gago.
 
Naquela época de durezas, ninguém  cogitava criar qualquer associação, muito menos de pais de alunos para reclamar ou reivindicar seus supostos direitos. Mas meu avô que não entendia nada dessas filigranas políticas, foi ao colégio tirar satisfação com o diretor que, muito polidamente, explicou que o professor Elasbão era intocável. Era um homem da revolução. Estava ali para descobrir subversivos. E o simples fato de meu avô reclamar de seus procedimentos poderia ser interpretado como subversão. E as consequências disso nem Deus conhece, — avisou.
 
Meu avô, com certeza, não entendeu muito bem, mas o bastante para pôr uma pedra sobre o assunto.
 
Elasbão era mau, grande, troncudo feito um enorme sapo bípede e vertical. A professora Vanja Tesotta que, além de boa, descobria bondade em tudo e em todos, contava na classe que o mundo só ainda não acabara por obra e graça do troglodita bedel. Dizia ela que toda vez que as trombetas dos arcanjos resplandeciam no horizonte para anunciar o fim do mundo, Elasbão ralhava com eles. Amedrontados, recolhiam-se por mais um tempo. E assim o mundo ganhava sobrevida.
 
Certo dia um estrondo balofo ecoou pelo colégio. Alguém lembrou: o professor Elesmau caiu. Houve um burburinho que se fez silêncio para que o fato se anunciasse: Professor Elesbão morreu. De ataque cardíaco fulminante.
 
Para o lugar dele veio um sujeitinho franzino como um fiapo. Mas ninguém ousava desobedecer suas ordens, embora não soubéssemos quais ordens eram as suas. Diziam que ele também era da revolução e trazia no bolso um negócio medonho chamado gravador de fita cassete.
 


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POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

A grande jogada

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O pajé vinha perdendo o prestígio no seio da tribo. Desde que a onda da pipoca, dos espelhinhos de bolso e dos apitos de madeira fez os índios se abstraírem de suas realidades, era a primeira vez que o pajé se sentia relegado à condição de à-toeza.

Os índios agora não queriam mais saber do machado, do arco e flecha, da construção de canoas, da dança do quarup, do uga-uga nem do hibinara. Esqueceram os rituais de ritmo e cantarol. Abandonaram a iniciação dos curumins e as seções de feitiço e cura do pajé, que agora sem demanda, não tinha do que se ocupar.

Dizem as más línguas que não queriam saber sequer das seções de fuca-fuca com suas mulheres, ou com alguma donzela de ocasião. Com isso o nascimento de indiozinhos se reduziu a níveis preocupantes. Segundo conjecturas antimalthusianas do feiticeiro, em menos de um século a tribo sumiria pela simples carência de reposição.

A indiada agora estava encantada com uma nova invenção. Todo mundo, velhos e moços, homens e mulheres, passava os dias com os olhos grudados na tela de seus celulares, encasquetados com joguinhos de corrida ou de aventura. E o pajé se sentia pouco mais do que um espírito sem corpo, ou um corpo sem espírito, zanzando invisivelmente por entre seres alheados.

Foi então que o feiticeiro reuniu os conselheiros tribais. Precisava de um plano estratégico para salvar a tribo daquele torpor, daquela mandraca tecnológica. E ao mesmo tempo revigorar a própria importância perdida.

A reunião se deu na terceira noite depois da lua cheia, no intervalo entre o pôr-do-sol e o nascimento da lua, no salão circular da oca espiritual que, pela carência de uso, já andava um tanto impregnado de teias de aranha. Consumiu-se muito fumo bravo e infusão de ayahuasca.

Durante o místico brainstorm, o staff esmerou-se no oferecimento de soluções. Eram palpites de tudo quanto é jeito e tamanho. E a ideia acolhida pelo pajé, para surpresa geral, veio do mais insignificante dos conselheiros, inspirado por um espírito nanico e de extração obscura. Talvez uma entidade inferior saída esporadicamente do fundo sombrio das cavernas infestadas de morcegos e seres rastejantes.

Mesmo alimentado desconfianças sobre a eficácia da estratégia, o pajé ordenou que se preparasse o ambiente para o transcurso do evento. Seus mensageiros alcançaram todos os viventes e os sacudiram de mãos nos ombros e lhes falaram de terríveis ameaças pairando no ar. Convocaram para a grande reunião que haveria de acontecer com o pajé em tal hora e lugar, impingindo-lhes assombro, com ameaça de morte para quem descomparecesse.

Naquela noite, sob a luz fumarenta das velas de cera, um índio insolente adrede preparado, num gesto rasgado de desrespeito, retira seus discos de botoque dos beiços e das orelhas e os arremessa impiedosamente contra velho pajé. Mas ele soube negar com destreza. Na lufa-lufa que o congresso virou, o pajé não disse bulhufas. Até porque bulhufas não tinha para dizer. Mas o fato de alguém atirar os botoques no pajé foi o bastante para que o velho feiticeiro retornasse ao centro das atenções e a vida na tribo encontrasse o seu normal.  
  


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

A volúpia do primo Odin

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Se há uma coisa levada a sério em Mundocaia é a exigência de maioridade para se frequentar bordel. Com isso o primo Odin sofria horrores. A considerar pelos mais velhos, já lhe nasciam cabelos na palma da mão de tanto cavar os prazeres do próprio corpo. Andava intumescido, com os entrepernas em brasa e a mão aflita (a canhota, se não me engano) esboçando posição anatômica. E era só afastar-se da vista das pessoas e lá estava ele, autofornicando-se com a mão frenética e as escorreitas babas de praxe. Um dia, inspirado num folheto de igreja, perguntei-lhe onde gostaria de passar a eternidade. Respondeu sem pestanejar: No Monumental Bordel de Maria Peidaka.
 
Dos 17 aos 18 anos viveu tribulação bíblica. Era aquela ansiedade pelo fato estar próximo o dia em que adentraria os bordéis sem embargo e pegaria as mulheres todas, do jeito que ele sempre sonhou. Em contraparte, era o tempo que não passava nunca. Dias embaçados, parecendo até que havia três encartados num só. Era como se fosse completar 19 antes dos 18. Em suas investidas, muitas vezes retocou o cavanhaque com carvão de cortiça para parecer mais anoso, fez cara de mau, para adentrar os templos de sua devoção. Mas a soldadama já o conhecia de velho e o afugentava como os sitiantes afugentam os gambás do galinheiro.

O primo Odin até tentou umas alternativas consoladoras , arrumando umas namoradas. Claro que com fins específicos. Mas não conseguiu. Tinha muita espinha na cara. Espinhas grandes feito bernes, um hálito pestilento e um olhar desejoso demais. Além da má fama de barranqueador de mulas e masturbador descomedido. Sem contar que o papo dele não agradava as mocinhas da época.

Primo Odin só não ficou doido porque não era muito suscetível. Embora haja controvérsia. Para muitos, ele não era nem um pouco certo das idéias.

Finalmente chegou o tão esperado dia dos 18 anos. Não é costume ficar se lembrando de aniversário de marmanjo, mas daquele ninguém esqueceu. Aliás, em Mundocaia, não se falava em outra coisa: Hoje é o dia de Odin tirar a forra no bordel.

Ao cair da noite, após um banho de jeito, passar perfume, vestir a melhor roupa, enfiar no bolso as economias de um ano, rumou para o Monumental Bordel de Maria Peidaka. Abriu passagem entre os seguranças a golpes de carteira de identidade e escolheu uma loira fatal com ares de boneca. Mas ela foi logo lhe a visando não estar disponível. No momento era enrabichada do cabo e tal. Primo Odin apelou. Seu sonho era perder a virgindade com aquela loira que ele supunha de meneios de serpente.

Nisso o cabo aproximou já de revólver em riste. Primo Odin mal bradou uns impropérios, cobrindo o próprio sexo com as mãos, num instinto protetivo. O cabo não quis saber de lengalenga e lhe desferiu um balaço na testa, como um terceiro olho. Um olho cego e perfurado.

Primo Odin morreu desgraçadamente  virgem. Mas tenho comigo que seu desejo de eternidade se cumpriu.  Há quem diga já ter visto seu fantasma todo lúbrico, se esgueirando com ares de remido pelos intrincados corredores do Monumental Bordel.  
 


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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:52 PM

O prêmio do sonhador

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Nos meados da década de 70, Miron de Souza ganhou sozinho na Loteria Esportiva o maior prêmio pago até então por uma loteria brasileira. O alarde da imprensa ao exibir o milionário e seu riso banguela, e as mirabolantes estimativas do que era possível comprar com a dinheirama, foram capazes de desencadear uma onda de fantasias sem precedentes. Inclusive nas pessoas mais humildes, ingênuas e pacatas.
 
Um certo João Flauzino foi o protagonista de um dos casos mais intrigantes daquela epidemia. A Superintendência da Caixa Federal em Goiás recebe uma carta sua: “Há sete noites seguidas que eu tenho um sonho. Pela janela de meu barraco vejo um pássaro surgindo acima do horizonte. Mesmo à distância percebo que é um pássaro diferente e pressinto que ele vem me trazer uma mensagem. Fico a mirá-lo. De vez em quando ele some detrás das nuvens. Fato que me desespera. Mas eu insisto em aguardá-lo. De repente ele reaparece do interior de uma nuvem mais próxima. Agora maior. E vem vindo. Aproximando e crescendo. Trazendo com ele um recado.
 
“Após um voo de reconhecimento pelas cercanias, ele pousa mansamente na soleira de minha janela. Vejo que é um pássaro com cara humana. Um ser humano suave, sem os traços distintivos de macho ou fêmeo. Percebo então tratar-se de um anjo. Fico paralisado, de queixo caído, sem fôlego. Sem respeito à minha vertigem, ele me diz: Você é um novo felizardo da Loteria Esportiva. Vá à Caixa Federal, filho de Deus, e pegue o que o destino lhe concedeu.
 
"Depois o anjo não voa. Simplesmente desmancha no ar. Acordo desesperado, quase morrendo de asfixia. Sorvo aliviado um ar suavíssimo, como se eu respirasse o próprio anjo. Se o sonho tivesse me ocorrido uma ou duas vezes, tudo bem. Mas sete vezes seguidas, já é demais, não acham? Por isso tomo a liberdade de solicitar a vocês que verifiquem se não sou um ganhador. Antes, eu queria avisar. Apesar de ter vontade de ganhar na Esportiva, nunca joguei, que eu me lembre. Mas sou muito distraído."
 
Ao ler a carta, o Superintendente dedicou a ela apenas um sorriso de meia boca e um meneio de cabeça. Chamou o assistente: Diga a esse maluco que ele primeiro jogue e continue sonhando. Quem sabe um dia o nome dele possa estar na lista dos ganhadores. O assistente, encabulado com a história e com sua prudência peculiar, pediu, por iniciativa própria, informações à área de loterias. Levantamento feito, eis o inesperado: Havia, sim, um ganhador com o nome de João Flauzino, em Bodocongó da Paraíba, que não fora procurar o prêmio. O assistente procurou o sonhador e indagou-lhe se ele tinha alguma relação com a remota cidade.
 
João Flauzino tinha lá um filho que morava com uma tia. Uma semana depois veio o esclarecimento: O filho, sendo de menor, jogara em nome do pai e, ao preencher o volante, não anotou endereço, impossibilitando a localização. Sequer teve o cuidado de conferir o resultado. Mas sua cartela, realmente, dividia o prêmio com um felizardo de São Paulo.
 
Tempos depois, soube-se que a assessoria do anjo teria cessado com a localização do prêmio. Pois, em menos de dois anos, o tinhoso ganhador havia torrado o prêmio inteiro com negócios ruinosos e amantes perdulárias.

 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:58 AM

Sequestro de festim

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Aquela sexta — feira se apresentava para nós com tudo normal. O que tinha de acontecer estava bem definido em nossas agendas. Em nossa rotina não restavam espaços para imprevistos. Saí cedo para uma sessão na dentista e de lá fui até o centro da cidade onde ocuparia a manhã com meus afazeres de voluntário numa entidade sem fins lucrativos. Minha mulher resolveu ficar em casa, no silêncio da manhã, concentrada no desenvolvimento de uma coleção de moda para a próxima estação.

Mal cheguei ao trabalho e meu celular tocou. Era minha mulher, num desespero de sitiada numa casa em chamas: sequestraram nossa filha, ela disse.

A turbulência que me envolveu era mais terrível que as trombetas de Jericó. Acho que derrubaria um Boing. Mas, mesmo com o coração batendo os cascos na garganta, tentei manter a pose de quem detinha a situação sob controle.

— Deve ser trote, eu disse. A bandidagem tá fazendo muito isso.

— Dessa vez não é trote, não. Eles puseram ela pra falar comigo. Ela estava desesperada, pedindo pelo amor de Deus!

Já saindo do prédio para pegar o carro, continuei a conversa com minha mulher, numa tentativa de assegurar os mútuos amparos.

— Mas como foi que aconteceu? — eu quis saber.

— Assim que você saiu, nossa filha me ligou dizendo que queria saber se eu estava em casa. Ela estaria passando em meia hora.

Passaram duas horas e ela não apareceu. Preocupada, liguei no celular dela. Chamou até cair na caixa de mensagens. Liguei de novo e nada. De repente meu celular tocou, a cobrar. Era um homem ríspido, cheio de gírias. Ele bradou que haviam pego minha filha, que ela usava um carro preto. Queriam resgate. Se a gente não pagasse ou chamasse a polícia eles matariam ela. Puseram ela pra falar comigo e ela pediu pelo amor de Deus que...

Sua voz entrecortada de soluços foi sumindo, até que o silêncio se estabeleceu. Supus que tivera vertigem. No trânsito, feito um maluco, ainda disquei para meu filho pra ver se ele estava mais perto de casa para acudir a mãe. De fato ele estava bem próximo e, juntamente com um colega de trabalho, correu para lhe prestar ajuda. Imediatamente busquei na agenda do celular e deixei no ponto o número de um delegado amigo que pudesse me orientar diante da situação inusitada.

Cortei pela direita, furei sinais, cometi barbaridades no trânsito e em minutos que pareceram uma eternidade cheguei em casa. Meu filho e seu colega tentavam consolar minha mulher.

Enquanto a gente batia cabeça dentro da bolha de caos, buscando saída para uma situação de terror, minha filha entra pela porta, alegre e jovial.

— Onde você estava, minha filha? — Gritei fora do meu normal. — Sua mãe te ligou...

— Passei na minha sogra... Ah, esqueci o celular no silencioso, disse com inocência.

Agora só não sei se um dia vamos nos recuperar do susto daquele sequestro de festim.  
 


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POR EM 24/07/2009 ÀS 11:33 AM

O Escritor e seu Dia

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Desde 1960, por decreto federal, o dia 25 de julho é dedicado ao Escritor Brasileiro. A data foi pensada no I Festival do Escritor, promovido pela União Brasileira dos Escritores – seção do Rio de Janeiro, então presidida pelo contista João Peregrino Júnior, tendo como vice o romancista Jorge Amado.

Esta data é bastante oportuna para se dedicar alguns minutos a refletir sobre a situação da leitura em nossos dias. É que sem leitor, escritor escreve em vão.

A sociedade brasileira, talvez pelo modelo de colonização adotado, nunca morreu de amores pela Literatura. Vamos pinçar alguns fatos históricos que certamente engendraram no brasileiro, se não a ojeriza, pelo menos o menosprezo pela leitura.

Os primeiros colonizadores que aqui chegaram foram na condição de indesejados da pátria portuguesa. Eram os fora-da-lei. Para esvaziar os presídios e ao mesmo tempo livrar a sociedade dos facínoras, eles eram encaminhados ao Novo Mundo para retirar pau-brasil e cruzar com as nativas. Com isso Portugal unia o útil ao agradável: livrava-se dos indesejados e auferia lucros com as terras descobertas. E o que era ainda melhor: dava  a entender às nações concorrentes que estava colonizando. Não havia clima para leitura naquele ambiente

Depois veio o período escravagista. Era conveniente que os escravos e seus descendentes ficassem bem longe dos livros. Por isso a educação foi sempre negligenciada. E a escravidão deu tão certo por aqui que o Brasil foi o último país a promover a abolição da escravatura.

Mais recentemente alguns fatos contribuíram para nos afastar dos livros. Antes que a alfabetização de disseminasse, o Brasil foi coberto pelas ondas do rádio, ali pelos anos 30 do século passado. A televisão em seguida, ali pelos anos 50. Ou seja, nos tornamos uma comunidade de comunicação eletrônica antes da comunicação literária.

Ao longo da história, por imposição de sistemas de profundas desigualdades sociais, a educação foi sempre deixada para planos secundários. Assim, a universalização do ensino primário só veio acontecer nos anos 90 do século passado, já no governo de FHC. Nos EUA, o fato já havia ocorrido há quase 200 anos.

Nosso ensino tem se mostrado incompetente no ofício de ensinar a ler. Estudos internacionais vêm demonstrando que estamos na lanterna quanto ao desenvolvimento dessa habilidade. Ao declarar que não lê nada, porque “ler dá azia”, talvez o presidente Lula traduza, desgraçadamente bem, o estado de ânimo que mantemos em relação à leitura.

As políticas governamentais têm desestimulado a presença dos jovens nos espaços do livro. Os livros didáticos e paradidáticos chegam diretamente nas escolas sem que os alunos façam aquele trabalho lúdico-formador de escolhe seus exemplares nas gôndolas de uma livraria. Inclusive com a possibilidade de ser “seqüestrado” por algum título fora do currículo. Ler é uma atividade apresentada pelas escolas como dever. Não raro como repreensão ou castigo. Penas de mau comportamento geralmente são cumpridas na biblioteca.

Mas a Literatura é a manifestação cultural que dá conta de traduzir os sentimentos mais profundos das pessoas, que consegue revelar os traços mais sutis de uma sociedade, de um povo, de uma nação. As sociedades que não tiveram seus poetas e seus prosadores não conseguiram se perpetuar. Ou as que tiveram poetas e prosadores, mas não os valorizaram, jamais conseguiram se inserir no conjunto das civilizações respeitáveis. Ler um bom texto é algo que nos dá um prazer incomparável. Temos grandes autores, inclusive aqui em Goiás. Leia e você descobrirá um mundo de sonhos, uma realidade nova: o mundo em que você vive.

Mas agora, uma realidade transfigurada em palavras, em figuras metafóricas.  
 


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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

Uns pontos a mais

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Lênninson é desta geração moça, que de ordinário se compõe de pessoas distraídas das coisas velhas e plugadas na modernidade digital, cujos nomes terminam sempre em “on”. Seria “on” (de ligado) em oposição a “off” (desligado)?

Indagações à parte, Lênninson  é uma quase exceção. Porque não é ligado nem nas coisas tradicionais nem na modernidade que nos bate à porta dia e noite, até quando estamos dormindo.

Filho de família centrada, bem-posta no seio social, possuidora de referências beneméritas, esse garoto não se apegou aos valores da tradicional família nem aos valores da moderna família que surge no vagão da modernidade profusa.

Não há em entre seus familiares, mesmo nos arrabaldes, adulto algum que não tenha curso superior, com alguma especialização, mestrado e até doutorado e pós-doutorado.

É uma linhagem de pessoas do bem, se diz. Mas tem o Lênninson. Este sim. Ou melhor, este não. Na primeira infância deu pinta que seria uma personalidade atávica e recessiva, que fora buscar os traços em algum mulambavô. Quem sabe num bandeirante garimpeiro, ou mesmo num caçador de silvícolas? Sua diversão era matar aulas, juntar-se aos garotos pobres de marre-marré  e rumar para os parques, às beiras dos córregos, nos grotões da cidade. Ali trepava em árvores, pulava em poços, saqueava as chácaras nos arredores, matava galinhas, furava os olhos dos macacos e quejandas traquinagens. 

Os outros irmãos e primos e amigos dos primos e irmãos seguiam seus destinos de pessoas estudiosas, ligadas em TV, internet, e jogos eletrônicos e assim que iam passando da segunda infância desenvolviam o gosto pelas festinhas e baladas e obviamente aquele pendor quase compulsivo por tomar cerveja e por tudo aquilo que ao redor da cerveja acontece.

Mas não o Lênninson, que nessa idade já havia se juntado a uma gangue de traficantes e atuava como “mula” ou “aviãozinho” na distribuição de fumos e pós, ali mesmo no bairro chique dos pais e nas cercanias. Sem contar que praticava alguns assaltos e furtos caseiros, principalmente dentro da própria casa.

Os pais já tentaram de tudo para desentortar o filho. Contrataram psicólogos, psicopedagogos, terapeutas vários, até um pastor espanca-demônio ajustaram para corrigir o filho, e nada.

O avô vive dizendo que o que faltou ao neto foi um consumo maior de varas de marmelo nos quartos, quando ainda era possível surrá-lo, ou ter sido enviado para um internato Suíço, sem chances para desvio. 

Um fato novo, que a família soube por informações cruzadas, tem deixado todo mundo de cabelo em pé. É que agora, aos 16, Lênninson quer subir de posto na Gangue. E, pra ter o grau compatível, terá que matar alguém. E bom é que seja da própria família. Na corporação dos bandidos, matar parente é certeza de rechear o currículo com uns pontos a mais. 
  


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