revista bula
POR EM 22/06/2008 ÀS 04:24 PM

Profecia de Rubem Braga

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Faz cinqüenta anos que um dos maiores cronistas brasileiros produziu sua crônica mais conhecida. Foi em 1958 que Rubem Braga escreveu a memorável Ai de ti, Copacabana.

Ordinariamente, as crônicas têm a aptidão de serem textos imediatos e transitórios, uma espécie de subproduto literário. No entanto, a obra de Rubem Braga não se enquadra neste estereótipo. Até porque ele não atuou em nenhum gênero que não fosse crônica e, tendo se dedicado exclusivamente a ela, escreveu peças que tendem à permanência.

Ai de ti, Copacabana, com o tempo, vai transcendendo. Deixando de ser um texto meramente literário para ser um texto sagrado, com aptidões proféticas. Escrito em estilo bíblico, tal crônica descreve em minúcias um desastre natural em que o mar invade o bairro de Copacabana. Quando os cientistas do clima nem suspeitavam do aquecimento global, do derretimento das calotas polares e da elevação das águas dos oceanos, Rubem Braga anteviu esse desastre com uma clareza assombrosa. Veja alguns trechos que comprovam sua antevisão:

“... e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

“E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

“E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias...

“Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

“Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
 
“E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.  E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

“Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

“Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas... Canta a tua última canção, Copacabana!”

Quem tem um cronista, com esse grau de premonição, nem precisa de profetas. 

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POR EM 19/06/2008 ÀS 12:59 PM

Flor diáfana

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Sua mãe, queira Deus, (ó tarde azul distante!) nem ao menos suspeita que sob a pele do franzino corpo inocente de menino calado e meio misantropo, já os demônios santos e desatinos de homem se manifestam de modo tão libidino.
 
A tarde se estende sobre a planície, que só uma grinalda de virgem. Os semoventes se locomovem nas encostas das colinas, com um vagar de pedras esbranquiçadas. Os galos, com seus cantos rusguentos, cantam aqui e acolá entre as mangueiras, no quintal, demarcando seus nômades haréns de galinhas infiéis. O vento (ou seria Deus?) de quando em vez passa de bicicleta, canta pneus em torvelinho, bulindo as folhas de macaúba, eriçando as penas dos tizius, que entre os acúleos edificam seus ninhos. 
 
Ali, naquela casa de despejos e silêncio. Entre sedas de aranha, o ardido olor do mofo de tantas coisas imprestáveis, no estágio derradeiro antes do lançamento ao monturo. Além do carro de bois guardado na varanda, bezerros novos dormem no aprisco, morcegos repousam grudados no teto de onde podem fruir a fartura de víveres e escuridão a gosto. Perambula ele entre as pilhas de sacas de arroz, feijão e outros cereais e ainda as enxergas suadas, baixeiros, cordames, arreios e a imaginação como um potro de rédeas soltas.
 
Seu pai, com os companheiros de labuta, derrama suor em bicas, na rudeza quente dos roçados, para quem mais cedo, levou almoço nas marmitas, uma cabaça de água fresca e uns nacos de rapadura. Mais tarde, vai reunir o gado, apartar as mães dos filhos. Ainda nesse embalo, haverá de ministrar o milho aos porcos, sempre esfomeados.
 
Mas agora, nesta sagrada hora, réu encoberto em seu revéu, ele menino sorve o mel da banana prata, colhido do cacho que pende do caibro em cascata, com resignação de enforcado. O azul da tarde lhe vem pelo fraquejar das angolas, que podem ter visto, entre os arbustos, um rastejar de serpente. Vem ainda pelos filetes de luz nas frestas mínimas como as frestas da prima, supostas.
 
Seu coração pequenino, tomado de volúpia involuntária, reconstitui inteira aquela prima, que viu uma única vez e mora depois dos picos nublados, onde campos de verdes matizes se regam de regatos cristalinos. Ele a reconstitui: pernas, lábios, cabelos, seios. Anseia por outras partes menos visíveis. Nesse instante, um fósforo secreto risca um corisco em sua carne tão escassa, para um fogo de tal calibre. Fogo que agora vem vindo de dentro, lodo em brasa de vulcão (e sua boca improvisa promessas) para irromper na mão, sobre a palma, a lassa manifestação do corpo, num frenesi tão louco para uma flor tão diáfana.
           
E pelas abas da tarde azul, que haveria de ficar marcada em seu coração como a mais promissora da vida inteira, gnomos e duendes, à revelia, dormitam na relva, sob cabanas de cogumelo.

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POR EM 09/06/2008 ÀS 07:04 PM

O aventureiro Franco Ornelas

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Franco Ornelas deixa monumental biografia de aventuras. Nas amorosas então era exímio. Seu negócio era variar de mulher. Ele se apaixonava perdidamente à primeira vista. Bastava que a mulher tivesse o mínimo de apelo físico e o máximo potencial de perigo. Mas uma só acolhida da mulher em seu tálamo, ou que na alcova dela fosse rolar, já era o de que precisava para enjoar definitivamente.

Dessas aventuras de alcova sobreviveu a várias emboscadas, a tiros no peito a facadas de maridos furiosos. Cada cicatriz era um troféu, que tinha orgulho e prazer em exibir na roda aos amigos.

Mas suas aventuras não se resumiam a essas, não. Ainda jovem foi piloto de moto e se apresentava no globo da morte de um circo. Segundo consta, depois que ele deixou a função, o circo nunca mais arranjou piloto tão arrojado. Tinha um número que ele fazia a sete metros de altura, sem rede, por fora, em cima do globo. A bola rodando e ele compensando o giro da bola no acelerador da moto. Depois saltava fazendo pirueta sobre uma rampa. E nuca se machucou nessas loucuras.

Foi pára-quedista ousado. Saltava de avião e deixava para puxar a presilha no último instante. Tirava o fôlego da platéia. Dizem até que foi o primeiro brasileiro a saltar de prédio e nos despenhadeiros na Chapada Diamantina.

Teve um período em que chegou a trabalhar em Hollyood, como stuntman, nas cenas de desmantelo. Naqueles tempos, românticos do cinema em que as cenas de perigo eram feitas, não por computador, mas por malucos de carne e osso, lá estava Franco Ornelas, vendendo sua coragem e sua habilidade para dar realismo às cenas. Nessa época ele teria unido suas habilidades de acrobata com  as de aventureiro de alcova. Dizem que pegou as divas mais cobiçadas dos anos sessenta. E não duvido, porque de fato ele era um sujeito bem apessoado e de lábia escorreita. E o que era mais importante, dedicava-se quase que à atividade com muito afinco.

O que Franco Ornelas jamais poderia prever é que depois de sobreviver a tantas aventuras radicais, sua vida fosse ter um fim tão ordinariamente trágico.

Ocorreu que, com as campanhas de combate ao mosquito transmissor da dengue, ele quis contratar um biscateiro para limpas as calhas de sua casa. O camaradinha pediu duzentos reais para o serviço que faria em poucas horas. Foi aí que o nosso aventureiro, já velho e com a barriga protuberante, resolveu ele próprio subir no telhado e executar o serviço.

Uma telha úmida se rompeu com seu peso e o fez desequilibrar. Ainda tentou uma manobra dos seus bons tempos de stuntman, deitando sobre o telhado em busca de alguma coisa pra se agarrar. Em vão. Tudo o que ele agarrou desceu com ele e madurou na calçada. O socorro veio rápido. A ambulância subiu a 85 abrindo fendas no engarrafamento a golpe de sirene. Mas dentro do veículo o nosso Homem de Plástico, como foi chamado um dia, já estava abrindo fendas no além com suas braçadas de aventureiro.  

 

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POR EM 07/06/2008 ÀS 11:15 AM

Sonho de consumo

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Quando nasceu, a mãe já havia escolhido o nome: Leilane (do havaiano - flor celestial). O pai não achou o nome mais belo do mundo. Mas não discordou. Queria mesmo é que fosse um filho homem e se chamaria Daniel (do hebraico - Deus é meu juiz).
 
Da revelação do ultra-som até o nascimento, o pai não foi capaz de absorver o desapontamento. Que, aliás, seguiu em vigor, mas com progressiva palidez até quando Leilane esboçou seus primeiros passos e balbuciou as primeiras sílabas. Quando pronunciou papai, aí sim, desfez-se toda decepção e ela passou a ser a Princesinha do papai. Da mamãe já era desde sempre.
 
Quando foi pro jardim da infância, não demorou para que a escola a desse por supertodata ou precoce. Os pais, orgulhosamente, assumiram logo, sem o modo alternativo. Então ela ficou sendo precoce supertodata.
 
Mas, de repente, que o que foi motivo de orgulho, de muito arrasta-papo junto a familiares e amigos virou preocupação. É que Leilane estava sempre à frente das minas de sua idade. Enquanto as coleguinhas estavam moldando massinhas, ninando bonecas, exercitando as pueris culinárias, ela já estava era recortando fotografias de homens seminus e fazendo seus álbuns sensuais, que a avó chamou de indecente. Os pais, atônitos não disseram nada. Apenas entreolharam-se com fortes preocupações.
 
Certo dia a mãe meio sem coragem, mas pra entabular algum assunto disse que era linda aquela coleção de fotos enclausurados nos bornais do álbum. Ela disse com olhar de malícia: ah, mamãe, eles são meu sonho de consumo!
 
Antes de completar seis anos Leilane já se maquiava, tatuava-se de hena, vestia blusa top e saia míni pendurava bolsa no ombro com preservativo dentro e descia o elevador fazendo poses e dirigindo olhar 43 aos homens da vizinhança. Na mesma fase ela disse pra quem quisesse ouvir que seu sonho de consumo era ser a Guta das Chiquititas para beijar de língua com o Mosquito. O pai demorou a entender que Mosquito não era um inseto. Aliás, pai...
 
 Antes dos sete, entrou em depressão e não saía do computador. Disse que estava inconformada com o próprio corpo. Questionada que corpo queria ter não hesitou: Quero ser siliconada e sexy como a Pamela Anderson. Os pais a levaram ao psicólogo. Parece agora mais centrada, mais condizendo com sua idade. Efeito da terapia.
 
Depois que estourou o caso da menina L.R.S. torturada pela madrasta empresária, Leilane apresentou extraordinário interesse pelo caso. Não perdia uma reportagem na TV. Começou a recortar as fotos nos jornais e com lápis de cor ficava desenhando o rosto sobre a macha que concedia o anonimato à menina. Ficava tentando adivinhar seu rosto, seu nome: Será que o L. é de Leilane?
 
Na véspera de seu sétimo aniversário a mãe lhe perguntou o que queria ganhar.
 
-Ah, mamãe, meu sonho de consumo é ser torturada e ficar mais famosa do que a menina L.R.S. Me tortura, vai!...    

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POR EM 21/05/2008 ÀS 11:19 AM

Uma Ferrari em Mundocaia

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Quando o proprietário morreu de cirrose etílica, Chiquinho da Loló já era de maior e tinha sido promovido a comprador-vendedor. Sabia mais do que qualquer outra pessoa no mundo sobre os segredos de como tocar o ferro velho do Zé Pelego. A mulher e os filhos do morto quiseram tocar o negócio e despediram Chiquinho com acinte e humilhação. Mas o norrau que ele tinha de administrador foi com ele.
 
Chiquinho pensou até em começar um novo ferro velho nos arrabaldes de Mundocaia. Mas tinha só a cara, a coragem pouca e sua experiência acumulada de anos mergulhado na graxa.

O negócio do finado patrão, por inexperiência dos herdeiros e desavenças internas, foi fazendo água. Mas o pior de tudo é que o Zé Pelego, do outro mundo onde se encontrava, resolveu dar umas incertas no estabelecimento. De quando em vez um cliente, assim sem mais nem menos, via seu fantasma zanzando entre as prateleiras de peças. Houve um caso em que Zé Pelego até tentou comprar umas sucatas de um cliente habitual. Os fregueses, apavorados, foram raleando. Até que o negócio teria ficado às moscas, se fosse açougue. Mas como era ferro velho, ficou às ferrugens.

Puseram placa de vende, mas não apareceu interessado. Um dos herdeiros, o que mais havia maltratado Chiquinho, foi atrás dele e lhe propôs negócio. Chiquinho fez doce, querendo descontar as humilhações que sofrera. À noite, o antigo patrão lhe apareceu em sonho, deu conselhos e fez revelações.

Pelego lhe informou que ele (Chiquinho) era seu único filho verdadeiro. Que aqueles que se diziam seus filhos eram postiços. Quando pegou aquela mulher, ela já teria vindo com os acessórios filiais prontos. Aconselhou-o a comprar, que na condição de pai, mesmo sendo um habitante do além, lhe daria uma mãozinha na recuperação do negócio.

Pelo sim pelo não, Chiquinho comprou o estabelecimento a preço de galinha velha na bacia das almas. Passou pra dentro e começou a reorganizar tudo: uma faxina em regra, o rearranjo das prateleiras. Pintou as fachadas e pagou umas horas de carro de som para apregoar na praça a nova direção.

Na reinauguração, convidou antigos e potenciais clientes para um churrasco. Era uma tarde de sábado de enfumaçado agosto. Quando o pessoal já estava engrenado no chope e se fartando de carne assada, começou um redemoinho no meio do pátio. Apesar dos sanis-da-cruz feitos em sua direção, o troço crescia a olhos vistos. E foi crescendo, juntando poeira, gravetos, pedaços de latas e fazendo aquela bagunça sobrenatural. Os convidados saíram correndo pra ver de mais longe. O rodopio foi incorporando peças que estavam por ali amontoadas, numa fúria crescente.

De repente a paz restabeleceu, restando só um funil de poeira desaparecendo céu acima. O pessoal retornou e tudo estava no lugar. A não ser pelo fato de que o redemoinho havia construído, do restolho, uma Ferrari Maranello, zero em folha, que reluzia impávida no centro do pátio. E pelo fantasma do Zé Pelego que nunca mais atormentou ninguém.  

 

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POR EM 13/05/2008 ÀS 08:48 AM

O filho impródigo

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O casal Bonjuga teve três moças e um rapaz. Desde a primeira cria queriam um rapaz. Se na primeira tentativa tivesse vindo logo um homem, é bem capaz que teriam ficado com filho único. Mas os Bonjuga foram tentando. Uma vez, duas vezes, três vezes. Se na quarta não viesse homem, tentariam a quinta. Já estavam dispostos.

Quando o médico anunciou pelas imagens do ultra-som, que se tratava de um rapaz, a família comemorou contidamente. É que, na segunda, um outro médico teria chegado à mesma conclusão, mas na hora H, olhaí a decepção aberta em fendas. Por isso, agora tiveram cuidados.

Mas desta vez, sim. Veio um Bonjuga legítimo. Saco-roxo, como logo definiu o pai, um tanto abestalhado, fumando charuto pelos corredores da maternidade, já ligando pros amigos, convidando para tomar o mijo no sábado seguinte.  

O Bonjinha, como ficou conhecido, foi uma criança normal, feliz e muito paparicado pelos pais e as três irmãs, que competiam entre si pra ver quem fazia mais pelo caçula. A única coisa que não parecia normal era a sua inteligência, sua agilidade mental. Muito cedo ainda era capaz de descobrir e contestar as contradições dos discursos dos mais velhos. Ao conversar perto de Bonjinha, todo mundo ficava com um pé atrás. Dizia-se que era por ser mimado demais, por isso se tornara um enfant terrible, como definiu uma tia perua solteirona, que teve juventude nebulosa em Paris.

No dia em que o jovem completou 15 anos, o pai o chamou no escritório e lhe repassou certos fatos, relacionados ao patrimônio da família, os métodos de aquisição, os modos de administrar etc. O pai ainda meio cheio de dedos, foi dizendo que só estava falando aquilo, mesmo antes dos dezoito, porque ele (o filho) tinha a inteligência muito acima da média e seria, obviamente, capaz de entender.

Falou também que não estranhasse seus métodos, porque neste País de merda só fica rico quem gatuna. Sujeito honesto por aqui, puxa cego pela vara. Entendeu bem? Honesto neste País puxa cego pela vara, sentenciou o pai. Citou exemplos: Os Quintão, você acha que eles foram sempre industriais? Que nada, o avô foi senador perpétuo, notabilizado pela euforia do afano. Os Quaresma, pensa que eles sempre foram banqueiros? Nada disso. O pai foi embaixador vitalício. Os Ceguin, como conseguiram ser os grandes empreiteiros que são? O pai deles é deputado crônico.

Estranhamente o menino foi ouvindo tudo calado. Mas quem lesse o seu gestual perceberia que a cada fato revelado, a cada argumento, a cada história, ia ficando mais tenso e revoltado, pois até então via no pai a honestidade em pessoa.

Sem dizer nada, aquela noite o filho sumiu. Conferiram suas coisas, seus pertences e puderam perceber que ele não levara nada. Deve ter saído até descalço. Pensaram em seqüestro. Mas os dias iam passando e ninguém pedia resgate. Mobilizaram a polícia. Empreenderam todo tipo de busca. E nada.

Semanas depois o pai, passando pela Rua T-63 com a Avenida 85, viu, sem querer acreditar, que seu filho Bonjinha era um daqueles no meio da chusma de pedintes no sinal, entre colatinos, craqueiros e emaconhados. Bonjinha, o enfant terrible, descalço e vestido em trapos, na verdade, puxava um ceguinho pela vara.    

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POR EM 12/05/2008 ÀS 09:12 PM

Anabela ficou pra tia

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As mulheres mais belas do mundo ocorreram em Mundocaia e, por coincidência, durante a aminha mocidade. Engraçado é que hoje não existe mais mocidade. Ou o camarada é criança, ou é adolescente. Taí o estatuto que não me deixa mentir. A criancice oscila entre a inocência e a tirania. Já a adolescência é entojo puro. Depois já vem a maturidade, que costuma ser um troço chato, a caminho da envelhescência.

Mas porque estou falando dessas coisas? Meu tema são as mulheres bonitas de Mundocaia de minha mocidade. Mais propriamente Anabela, a que ficou pra tia. Anabela não era minha colega de turma. Era do mesmo colégio, mas de uma turma que se achava superior à minha, só porque tinha Anabela. Fora do colégio eu dizia com orgulho que era colega de turma de Anabela e que ela dividia a carteira comigo. A gente até celebrara pacto de metadinha. Certa vez cheguei a dizer pra minha mãe: a senhora acha que a Anabela vai querer a metade desse ovo frito horroroso?

Nem sei por que eu mentia tão de cara lavada. Hoje sei que ninguém acreditava. Mas tinham certa generosidade e assim me faziam sentir mais confiante. Mas a verdade é que Anabela não era da minha turma e, das vezes que tentei estabelecer aproximação, ela furou minha bola com sua aguda indiferença. Aliás, ela não dava moral pra ninguém. Sua patota se resumia à Florinda, a filha baixota do prefeito e o William Jefferson, filho do juiz de direito e meio fruta. Só. O resto era quando muito um oi.

Mas todos os meninos sonhavam namorar Anabela. Acho que não tem um daquela época que não tenha lhe ensaiado uma declaração romântica ou atribuído alguma homenagem secreta. Eu tiro por mim. Muitas vezes senti no estômago campos de girassóis sobrevoados por borboletas azuis. E com freqüência obrava água verde enquanto ardia em febre por paixão a Anabela. Mas tudo em vão, repito. Eu, coitadinho, jamais consegui tirar dela um oizinho que fosse.  Eu e todos aqueles outros manés.

Era como se ela se guardasse inteira para quando chegasse um príncipe encantado. E pelo jeito nem se sujeitaria a beijar o sapo para revelar o príncipe. Teria que já vir pronto: carruagem, coroa, lantejoulas, comitiva levando os tesouros.

Foi nessa ocasião que percebi o meu potencial de maldades. Espalhei que Anabela não namorava ninguém porque ela sofria de uma maldição. Para ser bela como era teve que se sujeitar a vir ao mundo com uma gaita no intestino. É a lei da compensação: pra ser demais numa coisa tem de ser de menos noutra. O de menos de Anabela era a gaita. Eu disse ainda que ela repelia qualquer aproximação para que ninguém ouvisse o som escroto da gaita intestina.

Isso pegou como praga. Essa talvez tenha sido a verdadeira maldição de Anabela. Quando ela acordou e quis licitar alguém para ser o amor da vida, ninguém se habilitou. Ou porque já estava comprometido com outro alguém ou porque não queria correr o risco de ser zoado de andar tocando a gaita intestina de Anabela.

E assim, com a beleza se desmoronando baldiamente, com a atribuída gaita afugentando potenciais pretendentes, foi que Anabela, a moça mais bela de minha mocidade, ficou pra tia.   

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POR EM 29/04/2008 ÀS 01:38 PM

A invenção do padre voador

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O padre Adelir de Carli, sem conhecimentos de meteorologia nem de instrumentos de navegação, debaixo de uma tempestade dos diabos, deixa o interior do Paraná a bordo de mil balões de festa, rumo a Mato-Grosso do Sul. Isso é o que ele pensava em sua ignorância de navegador e sua fé sem fundamento.

O pobre coitado, com sua tribuzana de balões coloridos, seguindo orientação de ventos arrepiados, foi cair no mar, na costa de Santa Catarina, ou sabe lá Deus onde. Nessas alturas dos acontecimentos, só um milagre poderia devolver o padre são e salvo à família quebrantada e à paróquia em fervor de orações. Se Deus fosse marqueteiro, a oportunidade era imperdível de salvar o fiel imprudente e fazer seu comercial.

Com todo respeito que a circunstância requer, mas vendo a coisa pelo lado bom que até a pior desgraça tem, o padre Adelir acaba de inventar uma ferramenta formidável para o aperfeiçoamento de nossas instituições.

Antes me permita alguns prolegômenos. Toda sociedade tem seus mecanismos de pena e eliminação dos elementos que ofendem os valores vigentes. Na antiguidade, se alguém era suspeito de algum crime, era jogado no fogo, no mar, do alto de uma torre ou ribanceira abaixo. Eram as ordálias (a vontade de Deus). Se sobrevivesse é porque era inocente. Se sucumbisse é porque o camarada era mesmo culpado e fez por merecer.

Na Grécia antiga, o condenado, não mais o suspeito, era obrigado a tomar uma dose de cicuta. Sócrates foi um desses notórios martirizados com tal fel. Durante o Império Romano, o condenado podia ser chicoteado, achincalhado em praça pública, empalado, crucificado de cabeça pra cima, ou de cabeça pra baixo, conforme a torpeza do crime. Jesus Cristo é um dos condenados mais emérito dessa temporada.

Durante a Revolução Francesa, o invento de um certo Joseph Ignace Guillotin, a guilhotina, foi a estrela dos instrumentos de condenação aos desgraçados do regime. Inclusive o próprio Guillotin foi supliciado com sua geringonça tora-nuca. A revolução cubana cunhou um instrumento tão tosco quanto aterrador: el paredon.

Mas o que tem a ver a tribuzana de balões de festa do padre voado com estes famosos intrumentos de condenação.

Ocorre que o vôo incerto de balões temerários bem que poderia ser o nosso instrumento de condenação dos inimigos dos valores e da ética. Porque hoje em dia você sabe, o camarada mente, rouba, corrompe, mata e raramente vai condenado. Quando vai, a própria justiça que o condenou tem seus habeas corpus, relaxamentos, regimes de progressão de pena, e toda sorte de panos quentes para beneficiar o condenado. Resumo da ópera: praticar crime neste País se tornou uma atividade extremamente compensadora, pra quem já é mesmo propenso ao crime.

Aí é que a invenção do padre pode ser uma boa solução. As nossas ordálias. Primeiro, é uma traquitana bem compatível com a índole do povo brasileiro: leve, festiva, colorida, carnavalizada, alegórica e que pode ser realizada com sucesso pela própria população, como um folguedo de Momo. Que, modéstia às favas, é uma coisa que a gente já deu mostras de realizar com singular perfeição.

Se um sujeito praticou um crime, pra que levá-lo ao tradicional banco dos réus? Leva-o ao banco de balões de festa do padre Adelir e solta. O vento prescreverá a sorte. Pronto. Desse estaremos livre. Se acaso ele sobreviver é porque a gente estava enganado sobre sua culpa. Simples assim.

A gente pode começar com uma campanha de limpeza da classe política. Pega todo mundo da ignóbil classe e solta um a um na tribuzana de balões coloridos do padre Adelir. Teremos uma festa belíssima. Mais até do que a festa do Boi de Parintins ou o desfile das escolas de samba na Praça da Apoteose . Será uma semana inteira de solta ao político. Uma festa colorida, alegre, com muito axé. Depois dos políticos, virão os lobistas e assim por diante, até peneirar a sociedade inteira. Todo mundo terá que passar pelo tribunal dos balões, se não o processo não será democrático.  

A gente vai torrar uma boa grana com balões, é bem verdade. Em compensação, vamos fazer uma economia e tanto com a eliminação dos elementos nocivos. Aí reconstruiremos nossas instituições em novas bases com os sobreviventes, presumidamente bons, vez que absolvidos pela justiça dos balões coloridos. E assim, com nosso jeito brasileiro de ser, poderemos queimar etapas em nosso processo de desenvolvimento e alcançar países que nos ultrapassaram nessa corrida rumo ao futuro. Tudo é questão de aproveitar as oportunidades

Olhe os balões do padre Adelir aí, geeennte!!! 

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POR EM 27/04/2008 ÀS 12:14 PM

Liberdade de expressão etílica

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A Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) desenvolve neste momento, uma forte campanha supostamente a favor da liberdade der expressão. Afirma entre outras coisas que a publicidade fomenta a economia, incentiva a concorrência, aprimora produtos e serviços, faz baixar os preços, aumenta a produtividade, aumenta as vagas de emprego. E que, com a intenção de regular com rédeas mais curtas a propaganda de cerveja, o Governo estaria cerceando o direito fundamental de liberdade de expressão.

Essa história de que a publicidade tem uma importância muito grande para o mercado é incontestável. Importância para o bem e para o mal. Lembre-se,  a publicidade é uma das maiores responsáveis pela transformação das crianças de seres inocentes em pestinhas tiranos e consumidores compulsivos. Responsável também pela transformação da família de centro de convivência e apoio mútuo em um simples núcleo organizado para o consumo.

O seu lado positivo também é verdadeiro, pelo menos em parte. Mas daí dizer que a intenção do Governo de limitar a publicidade de cerveja é um atentado de violência à liberdade de expressão vai uma distância abismal. O argumento da ABA é um sofisma grosseiro que agride a boa-fé da opinião pública, pobrezinha, tão impressionável e facilmente manipulada pelos que detêm algum megafone na mão.

A ABA, a ABAP (Associação Brasileira de Agências de Publicidade) e o CONAR (Conselho de Auto-regulamentação Publicitária) no meio estão se lixando para a liberdade de expressão. Qual foi a ação deles pela liberdade durante os tempos obscuros da ditadura militar? A ABA existe desde 1949. O que eles querem mesmo é não perder a oportunidade de induzir o indivíduo a se tornar usuário de cerveja no momento em que ele, ainda criança ou adolescente, não oferece nenhuma resistência aos apelos da bebedeira.

Aliás, não é de hoje essa queda de braço do Governo com o setor cervejeiro. A constituição de 1988, em seus artigos 220 e seguintes impõe restrições à propaganda de produtos nocivos à saúde, aos valores éticos, sociais da pessoa e da família. Dentre esses produtos estão o tabaco e a bebida alcoólica.

No entanto, nossos nobres constituintes deixaram para a lei ordinária definir o que seja bebida alcoólica. Estava aberta a brecha para que as indústrias da cerveja e da publicidade exercessem seus nem sempre ilibados lobbies. Suas “campanhas de preservação do direito fundamental de liberdade de expressão”. Conseguiram, sabe lá Deus como, com que nossos congressistas aprovassem e o Presidente da República sancionasse uma lei, (pasmem os senhores!), que define como bebida alcoólica aquela com teor alcoólico superior a 13 graus Gay Lussac. Cerveja normalmente fica abaixo dos 6 graus GL.

Os cigarreiros foram mais moles. Pela mesma lógica, poderiam ter aprovado fácil, fácil uma lei que considerasse tabaco só o cigarro que tivesse mais de um centímetro de diâmetro. A lei para quem quiser conferir é a 6.294 de 1996, promulgada por FHC, com chancela de seu ministro, que também veio a ser de Lula, Nelson Jobin.

Ora, só sendo leso dos miolos ou detentor de uma monumental agenda oculta (entenda-se interesses inconfessáveis) para assumir uma posição de que cerveja não é bebida alcoólica. Mas assim quiseram e assim ficou: cerveja não é bebida alcoólica. É quase uma H2O. Daí se pode fazer propaganda de cerveja em qualquer veículo de comunicação, em qualquer horário, em qualquer programa, com qualquer tipo de apelo. 

A conseqüência disso está aí para quem quiser ver. Primeiramente um crescimento monumental do setor cervejeiro. O Brasil sedia o maior grupo cervejeiro do mundo.  Muito bom! Congratulam os economicistas. Mas atrás desse feito econômico, herdamos um aleijão comportamental monstruoso. Os jovens de hoje não acreditam que seja possível se expressar qualquer manifestação de alegria sem cerveja. Não acreditam sequer que seja normal alguém que não idolatre cerveja. As crianças estão experimentando seu primeiro trago cada vez mais cedo. O alcoolismo já está ganhando status de pandemia, com conseqüências terríveis nas famílias, no trânsito, nas verbas de seguridade social. Não esqueçamos: Alcoólatra consome mesmo é cerveja. Não é ácido sulfúrico. Quem consome ácido sulfúrico é cocainômano. Mas a ABA só quer é defender o direito de expressão. Ah, me poupem!

Vocês já viram como são irresistíveis as propagandas de cerveja? As mulheres mais popozudas do mundo parecem estar disponíveis para os consumidores de cerveja. Os homens mais interessantes estão à mão das mocinhas embriagadas. Até os fetiches mais ocultos (uma das armadilhas dos publicitários para a efetividade de suas mensagens) como o sexo anal, por exemplo (Redondo! Redondo!), são largamente (sem trocadilho) utilizados para que a criançada tome seu primeiro gole e continue tomando ao longo da vida. (É um pouco complicado, mas Freud explica).

Mas eles, caro leitor, só querem é defender a liberdade de expressão. 

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POR EM 17/04/2008 ÀS 10:41 AM

Loucura nossa de cada dia

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Imaginemos a vida como um ser único e universal e que faz uso de todas as unidades biológicas para manter-se a si mesma. A vida que me anima, que move uma ameba, que sustenta um vegetal seria a mesma. Cada ser, cada unidade metabólica é apenas o receptáculo da energia da vida. Assim, todos os movimentos dos seres vivos seriam no sentido de manter viva a chama da vida.

Quando me apaixono por uma mulher é para a perpetuação da espécie, que vai passando de geração em geração, através dos gametas. A natureza quando estende a primavera nos campos e faz a árvore florescer é porque recebeu estímulos da vida. Os seres vivos cumprem tarefas altamente especializadas. Tudo em nome da continuação desse ente enigmático chamado vida. Richard Dawkins, zoólogo neodarwinista, em seu livro O Gene Egoísta, sustenta que o gene é a unidade fundamental da evolução e não o indivíduo da espécie.

Assim eu, você, todos nós que temos impressão digital e CPF seríamos apenas uma ferramenta de perpetuação dos genes, que por sua vez seriam os fios condutores da vida. Somos apenas ferramentas que depois de usadas serão impiedosamente jogadas fora, feito aqueles cachorros de palha, na metáfora chinesa utilizada pelo filósofo John Gray. Ou como o Judas de malhação, numa figura mais familiar à nossa cultura. Enquanto os genes, estes sim, seguirão lépidos e fagueiros, atravessando geração após geração.

Seria também a loucura uma entidade dotada de certa autonomia, que ao lado da publicidade e da religião, disputa nosso coração e faz uso estratégico de nossa mente para estabelecer sua existência e aprontar seus desatinos?

Recorrendo a visão semelhante à anteriormente exposta, poderíamos dizer que sim. Que a loucura é uma entidade que paira  sobre nossas cabeças, como uma nuvem de tempestade, e que de vez em quando, pelos critérios que loucura tem, lança seu raio certeiro, escolhendo um cérebro para se instalar.

E a loucura parece ser tão ou até mais estratégica do que a vida. Mesmo sem recorrer a tratados de psicólogos e analistas, podemos perceber o quanto a loucura adaptou-se nas últimas décadas.
 
Tenho a impressão que a loucura fez parcerias ou então fundou joint ventures com o mal. Antigamente, de costume, quando a loucura se apossava das faculdades mentais de uma pessoa, ela as tomava por completo. Sobrava muito pouco ou até nenhum espaço para a lucidez. Dessa forma, a sociedade podia criar, e como de fato criava, manicômios onde internava os aluados de todo gênero. E um louco internado pouco mal poderia fazer à sociedade. A não ser pelas despesas de manutenção de um ser improdutivo e a dor da família de ter um ente seu que, além apartado do convívio, não comungava da mesma noção das coisas.

Isso era antigamente. Dos meados do século passado pra cá, a loucura vem fazendo uma reengenharia completa em seu método de atuação. Após a aventada parceria com o mal, a loucura não quer mais tomar nenhum cérebro por completo. Ela toma apenas uma parte e até fomenta a inteligência na parte sã. O louco não é louco full-time.Ele é louco só sazonalmente. Daí não fazer sentido segregá-lo do convívio social, porque na maior parte do tempo ele é lúcido e produtivo.

Mas de vez em quando, a loucura emerge da parte puba da mente, da ala mais sombria do ser e provoca estragos devastadores, cumprindo com eficácia um dos lemas mais caros dos programas de qualidade total do capitalismo turbo: fazer mais com menos no menor tempo possível.

Como exemplos, Suzane von Richthofen
era moça bem posta,  tida como normal, estudava nas melhores escolas, ia a festas, fazia amigos em carne e osso e virtuais em sites de relacionamento, até o dia em que seu lado louco se manifesta e decide armar a morte covarde dos próprios pais, para antecipar a herança e viver com um namorado de vida torta.

A empresária Silvia Calabresi tocava seus negócios como fazem milhares de outras pessoas normais. Freqüentava shoppings e igrejas, no entanto o seu lado louco barbaramente torturava crianças na área de casa  e ainda achava que seus atos tinham finalidades pedagógicas.

Esse caso escabroso da menina Isabella, lançada do sexto andar de um prédio. O louco que aprontou mais essa deve ser um pacato normalíssimo, que realiza tarefas normais, freqüenta casa de pessoas normais e anda livremente na rua.

O mais preocupante é que cada vez menos a loucura opera para o bem, como aconteceu em tempos idos com São Francisco de Assis e Madre Tereza de Calcutá. 

Definitivamente a loucura trocou seus métodos e, do ponto de vista do mal, por outros muito mais eficazes. Já se vão longe os tempos em que normal era normal e louco era louco. Normal ficava em casa e andava na rua. Louco era trancafiado em manicômios.       

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